A LTIMA VIAGEM DO VALENTINA

Santa Montefiore


Crculo de Leitores
TTULO ORIGINAL: Last Voyage ofthe Valentina
TRADUO: Fernanda Oliveira
Um Romance num pas em guerra
REVISO: Margarida Fonseca
NMERO DE EDIO: 7265
DEPSITO LEGAL NMERO 290 380/09
ISBN 978-972-42-4419-8


Badana da frente

Um aristocrata excntrico  brutalmente assassinado no seu palazzo italiano no fim da Segunda Guerra Mundial. Vinte anos mais tarde, este crime no solucionado toca 
a vida de Alba, uma rapariga que vive num barco em Chelsea, na dcada de 1960. Entre estas duas pocas estende-se uma narrativa de amor, decadncia e traio que 
leva Alba at  costa de Amalfi, ao drama da guerra e  decadncia da tragdia. O passado surge revelando uma teia secreta de resistentes e nazis, de camponeses 
e condes e, no centro de tudo, uma fascinante e misteriosa mulher: a sua me. Alba investiga no s um homicdio, mas uma verdade proibida. O que descobre no passado 
 doloroso, mas  a porta para o seu prprio futuro.


Nascida em Inglaterra em 1970, Santa Montefiore cresceu numa quinta de Hampshire e foi educada na Sherborne School for Girls. Estudou Espanhol e Italiano na Universidade 
de Exeter e passou a maior parte dos anos 90 em Buenos Aires, onde a me crescera. Converteu-se ao judasmo em 1998 e casou com o historiador Simon Sebad Montefiore. 
Vivem em Londres com dois filhos.  irm da jornalista Tara Palmer-Tomkinson e confidente do prncipe Carlos, que foi ao seu casamento.


Contra-capa

Santa Montefiore
Autora vendida em mais de 15 pases

"Santa escreve com paixo num estilo muito prprio, as suas personagens transbordam de emoo, o enredo contm muitas intrigas e traies".
The Scotish Daily Record

"O quinto livro de Montefiore no desaponta- ela criou um excitante romance negro"
Italy Magazine


A minha tia, Naomi Dawson


AGRADECIMENTOS

A ideia para este livro foi inspirada pela minha tia, Naomi Dawson, que, nos anos 60, vivia numa lancha-torpedeira transformada. Nunca lhe poderei agradecer o suficiente 
por partilhar comigo as suas fotografias e histrias, assim como por fazer luz sobre o seu passado vibrante, proporcionando-me um tempo muito bem passado. Ela  
um enorme apoio e uma amiga verdadeira, por isso lhe dedico este livro.
Devido  natureza mais desafiante deste romance, tive de recorrer  ajuda de muitos amigos e estendo os meus agradecimentos a todos eles: ajulietta Tennant, pelo 
vasto conhecimento da costa de Amalfi, em Itlia, e pelo emprstimo do nome da sua filha, Valentina; a Calum Sillars, comandante da marinha britnica, pelas noes 
sobre a marinha e por uma srie de livros sobre as lanchas-torpedeiras que cruzavam o Mediterrneo durante a guerra; a Valeska Steiner, pela sua maravilhosa voz 
cantante que me transportou para o meu mundo imaginrio, e a seu pai e meu padrinho, Miguel, pela singular frase alem que o meu dicionrio no contemplava; a Katie 
e Gaspar Rock, por permitirem que me sentasse, no muito calmamente, a assistir s suas noites de bridge e por uma semana de sonho entre grilos e pinheiros, em Porto 
Ercole.
Preparei o livro no supra-sumo do luxo hoteleiro, o sumptuoso Hotel Touessrok, na ilha Maurcia, agora minha segunda casa. Por isso, agradeo muito a Paul e Safinaz 
Jones, por terem tornado a minha estada to serena e pacfica. Quando o caos domstico da minha casa ameaou intrometer-se na concluso do livro, Piers e Lofty von 
Westenholz cederam-me gentilmente a sua sala de jantar e foi a que consegui, finalmente, escrever a to desejada palavra: Fim.
Os meus amigos italianos, Alessandro Belgiojoso, Edmondo di Ront e Allegra Hicks foram extremamente prestveis quando eu tinha perguntas a fazer sobre o seu pas 
e Mara Berni estava sempre  mo para um gostinho de Itlia, no San Lorenzo.
Agradeo  minha nova amiga, Susie Turner, por me encantar durante o almoo com as histrias sobre a sua extraordinria vida nos anos 60, muitas das quais terei 
de guardar para outro livro. Os meus tios, Jeremy e Clare Palmer-Tomkinson, repescaram uma vez mais as suas memrias desses dias envoltos na bruma (o meu tio Jeremy 
nega a existncia dessa bruma, mas eu no acredito nele!). Clarissa Leigh-Wood, a minha melhor amiga,  uma pessoa sempre positiva e que est sempre ao nosso lado 
muito obrigada. Agradeo ainda a Bernadette Cini, por tomar conta dos meus filhos, dando-me assim tempo para escrever, e a Martin Quaintance, por partilhar comigo 
o seu grande conhecimento de barcos.
Agradeo aos meus pais, Patty e Charlie Palmer-Tomkinson, por terem dado  minha vida uma cor to intensa, que me permite agora enriquecer os meus livros com muitas 
tonalidades; aos meus sogros, Stephen e April Sebag Montefiore, por mostrarem tanto interesse e entusiasmo; a Tara, James e Ss, Honor, ndia, Wilfrid e Sam, pela 
sua lealdade e inspirao; aos meus filhos, Lily e Sasha, por me terem mudado profundamente e aberto uma porta para um mundo mais compassivo.
Gostaria de agradecer ajo Frank, que foi uma agente dedicada e eficaz, incitando-me quando o meu primeiro livro ainda no passava praticamente de uma ideia. Desejo-lhe 
sorte neste seu novo caminho e espero que ele a leve a lugares maravilhosos e felizes. Apresento as boas-vindas  minha nova agente, Sheila Crowley, uma fora da 
natureza. Espero ansiosamente que venhamos a trabalhar juntas em muitos mais livros.
Mais uma vez, no posso subestimar o papel da minha editora, Susan Fletcher. Ela  fundamental em todas as fases do livro. Sendo uma pessoa cujas crticas denotam 
grande sensibilidade e sensatez, confio totalmente nela.
No entanto, a minha maior gratido vai para o meu marido, Sebag, pois sem ele no haveria livro. A sua ajuda com ideias e enredos  inestimvel. Somos uma grande 
equipa.


PRLOGO

Itlia, 1945

Era quase noite quando chegaram ao palato. O cu era de um azul-turquesa, ganhando uma tonalidade alaranjada acima da linha das rvores, onde o Sol se estava a pr. 
As paredes em pedra erguiam-se, ngremes e impenetrveis, em torres quixotescas e uma bandeira esfarrapada pendia do seu mastro. Outrora, quando os ventos do Destino 
sopravam mais favoravelmente, ela danava na brisa com vitalidade, dominando tudo  sua volta. Agora, a hera ia sufocando gradualmente aquelas paredes, como o envenenamento 
lento de uma velha principessa, cuja respirao se ia transformando num estertor que vinha l de dentro, aos arrancos. As memrias do seu passado clebre, contidas 
no tecido das muralhas, estavam a esfumar-se ao ponto de se tornarem irreconhecveis e irrecuperveis e um cheiro nauseabundo desprendia-se das suas entranhas, onde 
a podrido se instalara, juntamente com a folhagem putrefacta dos seus jardins abandonados. O fedor era insuportvel. O vento era cortante, como se o Inverno resistisse 
ao chamamento da Primavera e se agarrasse com dedos glidos. Ou talvez s continuasse a ser Inverno ali, apenas naquela casa, e aqueles dedos glaciais pertencessem 
 morte, que vinha agora visit-la.
No falaram. Sabiam o que tinham de fazer. Unidos pela raiva, pela dor e por um profundo pesar, tinham jurado vingana. Via-se uma luz dourada, vinda de uma janela 
nas traseiras do palato, mas a vegetao que o invadia era to cerrada e os arbustos estavam to crescidos que os impediam de l chegar. Tinham de correr o risco 
de entrar pela frente.
Se no fosse o vento nas rvores, o silncio seria absoluto. Nem mesmo os grilos desafiavam a malevolncia que rodeava o lugar, optando por cantar num ponto mais 
baixo da colina, onde havia calor.
Os dois assassinos estavam habituados a mover-se vagarosa e silenciosamente. Ambos tinham combatido na guerra. Agora, estavam novamente unidos contra um mal muito 
diferente, que afectara pessoalmente as suas vidas para alm de tudo o que era razovel, e tinham vindo a elimin-lo.
Sem fazerem barulho, introduziram-se atravs de uma janela que ficara descuidadamente aberta. Avanaram por entre as sombras, silenciosos como gatos. As suas roupas 
pretas permitiam que se confundissem com a noite. Quando chegaram ao quarto onde a luz se escapava por uma fresta por baixo da porta, pararam e olharam um para o 
outro. Os seus olhos cintilavam e tinham uma expresso grave e decidida. Nenhum deles sentia medo, apenas expectativa e uma lgubre sensao de inevitabilidade.
Quando a porta se abriu, a sua vtima olhou para cima e sorriu. Ele sabia porque tinham vindo e j os esperava. Estava pronto e no tinha medo de morrer. Iriam ver 
que mat-lo em nada diminuiria a sua dor.  claro que no sabiam disso, caso contrrio no teriam vindo. Gostava de lhes oferecer uma bebida e desfrutar o momento, 
prolong-lo... Mas eles estavam desejosos de acabar com aquilo e ir embora. A sua calma afabilidade era revoltante, o seu sorriso, o de um velho amigo. Eles queriam 
arrancar-lho da cara com uma faca. Por sua vez, ele sentia a sua afronta e isso s o fazia sorrir ainda mais. At na morte sorriria. Eles nunca se conseguiriam livrar 
dele, nem daquilo que ele fizera. Jamais poderia devolver-lhes aquilo que lhes tirara. Ganhara com a sua perda e a culpa que os iria consumir seria a sua derradeira 
vitria.
A lmina da faca refulgiu  luz dourada do candeeiro. Queriam que ele a visse. Queriam que a antecipasse e receasse, mas isso no aconteceu. Ele morreria de bom 
grado e de cara alegre. Tiraria prazer da prpria dor, como o tirava agora da dor deles. Eles olharam um para o outro e acenaram com a cabea em sinal de assentimento. 
Ele fechou os olhos e levantou o queixo, expondo o pescoo branco, como o de um cordeiro inocente.
- Matem-me, mas no se esqueam de que vos matei primeiro! - regozijou-se ele, num tom de voz triunfante.
Quando a lmina lhe perfurou a garganta, uma golfada de sangue esguichou para o cho e paredes, deixando-as tingidas de um carmesim brilhante. Ele caiu para a frente.
O que tinha a faca recuou, enquanto o outro empurrou o corpo inerte para o cho, de modo a que ficasse com o rosto para cima, expondo o tosco rasgo no pescoo. 
Continuava a sorrir. At na morte sorria.
- J chega! - gritou o homem da faca, dando meia volta para ir embora. -J fizemos o bastante. Era uma questo de honra.
- Para mim, era mais do que honra.


O PRIMEIRO RETRATO


CAPTULO UM

Londres, 1971

- L est ela outra vez a ser alvo das atenes daquele jovem - disse Viv, de p no convs do seu barco-casa. Embora estivesse uma noite primaveril, puxou o xaile 
com borlas para cima dos ombros e aspirou longamente o cigarro.
- No me digas que ests de novo a espiar, querida! - disse Fitz, com um sorriso perverso.
- Uma pessoa no pode deixar de reparar nas idas e vindas dos amantes daquela rapariga - retorquiu Viv, semicerrando os olhos e inalando o fumo pelas narinas dilatadas.
- Dir-se-ia que ests com cimes - comentou Fitz, fazendo uma careta enquanto tomava um gole de vinho francs barato. H anos que era amigo e agente de Viv e, durante 
todo esse tempo, ela nunca tinha comprado uma garrafa de vinho bom.
- Eu sou escritora. Ser curiosa em relao s pessoas faz parte do ofcio. A Alba  uma mulher atraente.  uma criatura muito egosta, mas no podemos deixar de 
nos sentir atrados por ela, como a traa pela chama. Se bem que, no meu caso, eu no seja propriamente uma traa, mas sim uma linda borboleta.
Deambulou pelo convs e inclinou-se sobre uma cadeira, espalhando o cafet azul e rosa  sua volta, como se fossem asas de seda, antes de prosseguir:
- Mesmo assim, gosto da vida que ela tem. H-de ser tema de um livro, um dia, quando j no formos amigas. Eu acho que a Alba  assim. Desfruta das pessoas e, depois, 
segue em frente. No nosso caso, serei eu a seguir em frente. Nessa altura, os dramas da sua vida j tero deixado de me entreter e, alm disso, tambm j me devo 
ter cansado do Tamisa. Os meus velhos ossos ho-de doer por causa da humidade e a chiadeira e as pancadinhas dos barcos no me deixaro dormir. Por essa altura, 
hei-de comprar uma casa de campo em Frana e retirar-me para o anonimato, pois a fama tambm j se deve ter tornado um frete...
Chupou as bochechas para dentro e sorriu ironicamente para Fitz, mas este j no estava a ouvir, embora isso fizesse parte do seu trabalho.
- Achas que eles pagam para estar com ela? - perguntou, com as mos no varandim e os olhos pregados na gua lamacenta do Tamisa. Ao seu lado, estava Sprout, o seu 
velho springer spaniel, a dormir em cima de um cobertor.
-  claro que no! - redarguiu ela. - O barco  do pai. Ela no tem de pagar doze libras de renda semanal, asseguro-te!
- Ento  simplesmente uma mulher liberada.
- Tal como todas as outras da sua gerao. Segue o rebanho. Isso aborrece-me. Eu vivi antes do meu tempo, Fitzroy. Tive amantes e fumei haxixe muito antes das Albas 
deste mundo saberem que eles existiam. Agora, prefiro os cigarros Silva-Thins e o celibato. Tenho cinquenta anos, estou demasiado velha para ser escrava da moda. 
 tudo to frvolo e infantil.  melhor aplicar a minha mente em coisas mais importantes. s capaz de ter menos uns dez anos do que eu, Fitzroy, mas v-se que o 
mundo da moda tambm te aborrece.
- No creio que a Alba me aborrecesse.
- Mas tu, meu querido, acabarias por aborrec-la. Podes achar-te um grande conquistador, mas a Alba chega para ti. Ela no  como as outras raparigas. No estou 
a dizer que tivesses problemas em lev-la para a cama, mas ficar com ela, isso j  outra histria! Ela gosta de variedade. Os seus amantes no duram muito tempo. 
Tenho-os visto chegar e ir embora.  sempre a mesma coisa, saltam para a prancha de embarque e, depois, quando tudo acaba, vo embora a arrastar-se como rafeiros 
maltratados. Ela comia-te ao jantar e depois cuspia-te como um osso de galinha, e isso seria um choque, no  verdade meu querido? Aposto que nunca ningum te fez 
isso antes. Chama-se karma e significa que colhemos aquilo que semeamos.  a paga por destroares tantos coraes. De qualquer forma, na tua idade, devias andar 
 procura da tua terceira mulher, e no de uma aventura passageira. Devias assentar. Entregar o corao a uma mulher e deix-lo l estar. Ela  fogosa porque  meio 
italiana.
- Ah, isso explica o cabelo escuro e a pele cor de mel.
Viv olhou para ele de soslaio e os seus lbios finos abriram-se num sorriso ainda mais fino.
- Mas aqueles olhos muito claros,  estranho... - disse ele, suspirando, j sem dar pelo gosto a vinho barato.
- A me era italiana. Morreu quando a Alba nasceu, creio que num acidente de viao. Ela tem uma madrasta horrvel e um pai enfadonho.  da marinha, sabes? E ainda 
trabalha, o velho fssil. Suspeito que tenha o mesmo trabalho de secretria desde o tempo da guerra. Vai todos os dias de comboio, uma monotonia. E o capito Thomas 
Arbuckle e  claramente um Thomas, e no um Tommy. No  como tu, que s mais Fitz do que Fitzroy, embora eu adore o nome de Fitzroy e continue a us-lo, apesar 
de tudo. No admira que a Alba se tenha rebelado.
- O pai pode ser enfadonho, mas  um enfadonho rico - observou Fitz, passando os olhos pelo barco-casa em madeira brilhante, que balouava suavemente com o movimento 
da mar. Ou com Alba a fazer amor. Sentiu uma cibra no estmago diante desse pensamento.
- O dinheiro no traz felicidade. Devias saber isso, Fitzroy.
Fitz olhou fixamente o seu copo por um momento, reflectindo sobre a sua prpria sina, que s lhe trouxera mulheres avaras e divrcios dispendiosos.
- Ela vive sozinha?
- Costumava viver com uma das meias-irms, mas a coisa no resultou. No me parece que seja fcil viver com aquela rapariga, que Deus a abenoe. O teu problema, 
Fitzroy,  apaixonares-te com demasiada facilidade. Se conseguisses controlar o teu corao, a vida seria muito mais simples para ti. Podias simplesmente lev-la 
para a cama e tir-la da cabea. Ah, j no era sem tempo! - exclamou ela, ao ver o sobrinho, Wilfrid, a descer apressadamente o ponto com a namorada, Georgia, 
a reboque e a desfazer-se em desculpas.
A Viv conseguia ser assustadora quando eles apareciam atrasados para o bridge.

O Valentina era um barco-casa diferente de todos os outros em Cheyne Walk. A curva da proa era bonita, virada para cima, recatada como se estivesse a tentar reprimir 
um sorriso sabedor. A casa em si estava pintada de azul e branco, tinha janelas redondas e uma varanda onde os vasos se enchiam de flores na Primavera e os buracos 
deixavam passar a gua da chuva durante os meses de Inverno. Tal como um rosto que denuncia a vida que viveu, tambm a excntrica depresso na linha do telhado e 
o encantador declive da proa, como um nariz imperioso, revelavam que talvez ela tivesse vivido muitas vidas. Por conseguinte, a caracterstica primordial do Valentina 
era o seu mistrio. Como uma grande dama que nunca se deixaria ver sem maquilhagem, o Valentina no mostraria o que havia por debaixo da pintura. Contudo, a sua 
dona no o amava pelas suas caractersticas invulgares, nem pelo seu encanto, nem mesmo pelo seu carcter nico. Alba Arbuckle amava o seu barco por uma razo muito 
diferente.
- Meu Deus, Alba, tu s linda! - suspirou Rupert, enterrando o rosto no seu pescoo levemente perfumado. - Sabes a amndoas com acar.
Alba deu uma risadinha, achando-o absurdo, mas incapaz de resistir  sensao dos seus plos, que a arranhavam e picavam, e  sua mo, que j passara as botas de 
camura azul e subira pela sua minissaia. Contorceu-se de prazer e levantou o queixo.
- No fales, palerma. Beija-me.
Foi o que ele fez, determinado a agradar-lhe. Sentia-se encorajado por ela ter ganho vida, de repente, nos seus braos, depois de um jantar entediante em Chelsea. 
Pressionou os lbios contra os dela, aliviado por saber que enquanto lhe entretivesse a lngua ela no poderia us-la para o injuriar. Alba tinha uma maneira de 
dizer coisas que magoavam com o mais doce e sedutor dos sorrisos. Contudo, aqueles seus olhos cinzento-claros, como um charco numa manh brumosa de Inverno, despertavam 
um estranho tipo de compaixo, que era desarmante. Atraa um homem. Fazia-o querer proteg-la. Am-la era fcil, conserv-la, improvvel. Mas, juntamente com os 
outros homens esperanados que passavam pelo concorrido convs do Valentina, no podia deixar de tentar.
Alba abriu os olhos enquanto ele lhe desabotoava a blusa e abocanhava um mamilo. Olhou para cima, atravs da clarabia, para as nuvens leves e rosadas e para o primeiro 
cintilar de uma estrela. Esmagada pela inesperada beleza do cair do dia, baixou momentaneamente a guarda e o seu esprito encheu-se imediatamente de tristeza, inundando 
o seu ser e levando as lgrimas queles olhos cinzento-claros, lgrimas que a aguilhoavam. A sua solido atormentava-a e doa-lhe, e nada parecia cur-la. Consternada 
com a ocasio pouco prpria para tal fraqueza, enroscou as pernas  volta do amante e rolou sobre si, de modo a ficar por cima, beijando-o, mordiscando-o e arranhando-o 
como uma gata selvagem. Rupert ficou aturdido, mas mais excitado do que nunca. Passou avidamente as mos pelas suas coxas nuas e descobriu que ela no usava cuecas. 
As suas ndegas estavam nuas e expostas para que ele as acariciasse com dedos impacientes. Logo depois, ele estava dentro dela e. ela montava-o vigorosamente, como 
se apenas estivesse ciente do prazer, e no do homem que o estava a proporcionar. Rupert olhou-a com assombro, desejando encostar a sua boca aos lbios dela, que 
estavam ligeiramente entreabertos e pisados. Ela parecia uma devassa e, no entanto, apesar da sua desinibio, possua uma vulnerabilidade que o fazia desejar estreit-la 
nos seus braos.
Os pensamentos de Rupert no tardaram a perder-se na excitao de fazerem amor. Ele fechou os olhos e rendeu-se ao seu desejo, j sem a lucidez suficiente para contemplar 
o seu lindo rosto. Contorceram-se e rolaram sobre as pilhas de roupa abandonada em cima da cama at carem no cho com um baque surdo, sem flego e a rirem. Ela 
fitou o seu rosto surpreendido com os olhos a brilhar e perguntou-lhe com um riso gutural:
- De que  que estavas  espera? Da Virgem Maria?
- Foi maravilhoso. s um anjo - suspirou ele, beijando-lhe a testa. Ela ergueu o sobrolho e riu-se dele.
- Acho que s absurdo, Rupert. Deus expulsar-me-ia do Cu por mau comportamento.
- Ento isso para mim no  o Cu.
De repente, a ateno dela foi desviada por um rolo de papel que saltara de entre as ripas de madeira, debaixo da cama. Ela no conseguia chegar-lhe de onde estava 
deitada, por isso afastou Rupert e rastejou para o outro lado, estendendo o brao por baixo da cama.
- O que  isso? - perguntou ele pestanejando, num estado de confuso ps-coito.
- No sei - replicou ela e, ao levantar-se, agarrou no mao de cigarros e no isqueiro que estavam sobre a mesa-de-cabeceira e atirou-lhos
- Acende-me um, est bem?
Depois, sentou-se na borda da cama e desenrolou lentamente o rolo de papel.
Rupert no fumava. Na verdade, detestava cigarros, mas, no querendo parecer desajeitado, fez o que ela lhe pedira, atirando-se ele prprio para cima da cama, ao 
lado dela, e passando-lhe a mo pelas costas. Ela retesou-se e, sem olhar para ele, disse:
- Gostei muito de estar contigo, Rupert, mas agora quero ficar sozinha.
- O que  que se passa? - perguntou ele, estupefacto por ela conseguir ficar to fria, de repente.
- J disse, quero ficar sozinha.
Por um momento, ele no soube como havia de reagir. Nunca nenhuma mulher o tratara assim. Sentiu-se humilhado. Quando viu que ela no ia mudar de ideias, comeou 
relutantemente a vestir-se, agarrando-se  intimidade que tinham partilhado momentos antes.
- Voltarei a ver-te? - perguntou, ciente de que a voz traa o seu desespero.
Ela abanou a cabea, irritada.
- Vai-te mas  embora!
Apertou os atacadores. Ela ainda no tinha olhado para ele. A sua ateno estava totalmente centrada no rolo de papel. Era como se ele j se tivesse ido embora.
- Bem, ento vou andando - murmurou.
Ela levantou os olhos para as portas de vidro que davam para o convs superior e olhou fixamente o cu rosado que se dilua agora na noite. No ouviu a porta bater, 
nem os passos pesados de Rupert a subir tristemente a prancha de desembarque; apenas o sussurro de uma voz que pensara ter esquecido.
- Ora, ora! H algum que no parece muito feliz! - comentou Fitz quando Rupert passou para o Chelsea Embankment e desapareceu sob os candeeiros da via pblica.
O seu comentrio suspendeu o jogo de bridge por um momento. O Sprout espetou as orelhas e abriu os olhos, antes de voltar a fech-los com um suspiro.
- bom, ela suga-os bem, meu querido - disse Viv, pondo uma madeixa de cabelo louro perdida por trs da orelha. -  como uma viva-negra.
- Pensava que elas comiam os machos - comentou Wilfrid.
Fitz considerou esse delicioso pensamento, antes de pr energicamente uma carta em cima da mesa.
- De quem  que estamos a falar? - perguntou Georgia a Wilfrid, franzindo o nariz.
- Da vizinha da Viv - redarguiu ele.
-  uma galdria - acrescentou Viv causticamente, ganhando a vaza e puxando-a para o seu lado da mesa.
- Pensei que eram amigas...
- E somos, Fitzroy. Gosto dela, apesar dos seus defeitos. No fim de contas, todos os temos, no ? - disse ela com um sorriso irnico, sacudindo a cinza para dentro 
de um prato verde fluorescente.
- Tu no, Viv. Tu s perfeita.
- Obrigada, Fitzroy - replicou ela e, depois, virou-se para Georgia e acrescentou com uma piscadela de olho - Eu pago-lhe para dizer isto.
Fitz olhou l para fora, atravs da pequena janela redonda. O convs do Valentina estava calmo e sossegado. Imaginou a bela Alba, deitada nua sobre a cama, corada 
e a sorrir, com curvas e elevaes nos stios certos, e distraiu-se momentaneamente do jogo.
- Acorda, Fitz! - disse Wilfrid, estalando os dedos. - Em que planeta ests tu?
Viv colocou as suas cartas sobre a mesa e recostou-se. Deu uma passa no cigarro e expeliu o fumo com uma sonora baforada. Olhando-o com plpebras pesadas devido 
 bebida e aos excessos da vida, disse:
- Oh, est no mesmo planeta que muitos outros homens insensatos!

Alba olhou fixamente o retrato esboado a pastel no rolo de papel pardo e sentiu um frmito de emoo. Era como se estivesse a ver-se ao espelho, mas este ampliava 
a beleza da sua imagem. O rosto era oval, como o dela, com malares salientes e um maxilar forte e determinado, mas os olhos no se pareciam nada com os dela. Eram 
amendoados, de um castanho musgo, e havia neles um misto de riso e de uma profunda e insondvel tristeza. Captaram-lhe a ateno, olharam-na de volta e trespassaram-na 
e, quando ela se moveu, seguiram-na. Ela olhou-os demoradamente, mergulhada em esperanas e sonhos que nunca haviam dado fruto. Embora a boca apenas deixasse adivinhar 
um sorriso, todo o rosto parecia irradiar felicidade, como um girassol. Alba sentiu o estmago apertar-se de saudades. Pela primeira vez, desde que se conseguia 
lembrar, estava a olhar para o rosto da me. Na parte inferior do quadro, escritas em latim, estavam as palavras: Valentina 1943, dum spiro, ti amo. Estava assinado 
a tinta Thomas Arbuckle. Alba releu aquelas palavras uma dzia de vezes at ficarem esborratadas com as suas lgrimas. Enquanto respirar, eu vou-te amar.
Alba tinha aprendido italiano em criana. Num invulgar momento de bondade, a madrasta, o Bfalo, sugerira que ela tivesse lies para manter algum contacto com as 
suas razes mediterrnicas, razes que, em todos os outros aspectos, essa mesma mulher tentara erradicar. No fim de contas, a me de Alba tinha sido o amor da vida 
do pai. E que grande amor... A madrasta estava bem ciente da sombra que Valentina lanava sobre o seu casamento. Incapaz de apagar uma memria to poderosa, restava-lhe 
tentar reprimi-la. Assim, o nome de Valentina nunca era mencionado. Nunca tinham ido a Itlia. Alba no conhecia nenhum dos familiares da me e o pai evitava as 
suas perguntas, por isso h muito que desistira de as fazer. Em criana, fechara-se num mundo isolado de factos dispersos que conseguira reunir por meios tortuosos. 
Refugiava-se nesse mundo e reconfortava-se com as imagens inventadas da sua bonita me nas praias da cidade italiana onde conhecera o pai, durante a guerra, e se 
apaixonara por ele.
Thomas Arbuckle era um homem bem-parecido nessa altura, Alba tinha visto fotografias. com o seu uniforme da marinha, fazia um figuro. Cabelo ruivo, olhos claros 
e um sorriso atrevido e confiante que o Bfalo, com o peso da sua forte personalidade, conseguira reduzir a uma expresso carrancuda. Ciumenta do barco-casa que 
ele comprara e a que dera o nome de Valentina, o Bfalo nunca l pusera os ps, referindo-se-lhe como "aquele barco", e no pelo nome. O Valentina evocava memrias 
de ciprestes e grilos, olivais e limoeiros, e de um amor to grande que no havia pisotear e resfolegar capazes de o denegrirem.
Alba nunca sentira que o seu lugar fosse realmente na casa do pai. Os seus meios-irmos eram reflexos fsicos dos pais, mas ela era morena e estrangeira, como a 
me. Os meios-irmos andavam a cavalo, apanhavam amoras silvestres e jogavam bridge, mas ela sonhava com o Mediterrneo e com os olivais. No houve gritaria com 
a madrasta e o pai que conseguisse arrancar-lhes a verdade ou que os obrigasse a lev-la at Itlia, onde poderia conhecer a sua verdadeira famlia. Assim, acabara 
por se mudar para o barco-casa que tinha o nome sagrado da sua me. A, sentia a presena etrea de Valentina, ouvia a sua voz na subida e descida das mars, num 
sussurro muito prximo, e fechava-se no casulo do seu amor.
Deitou-se na cama, por baixo da clarabia, atravs da qual se viam agora centenas de estrelas cintilantes e onde o Sol dera lugar  Lua. Era como se Rupert nunca 
l tivesse estado. Alba estava sozinha com a me, a sua voz suave falava-lhe atravs do retrato, acariciando a filha com aqueles olhos doces e tristes. com certeza 
que aquela imagem iria derreter as camadas de gelo acumuladas ao longo dos anos e que o pai iria recordar e falar sobre ela...
Alba no perdeu tempo. Remexeu os armrios desmazelados  procura de roupas adequadas, guardou cuidadosamente o rolo de papel dentro da mala e desceu apressadamente 
a escada estreita para sair do barco. Havia um casal de esquilos a jogar  apanhada no telhado e ela enxotou-os, irritada, antes de subir a prancha de desembarque.
Nesse momento, Fitz, que perdera no bridge, estava a sair do barco de Viv, ligeiramente entontecido pelo vinho e espantado com a coincidncia que fizera com que 
o seu caminho e o de Alba se cruzassem. No notou que ela tinha estado a chorar e ela no notou a presena de Sprout.
- Boa noite - disse ele alegremente, decidido a entabular uma conversa enquanto subiam a prancha em direco ao Embankment. Alba no respondeu. - Sou Fitzroy Davenport, 
um amigo da sua vizinha Viv.
- Oh! - respondeu ela, em tom pouco interessado. Tinha os olhos pregados no cho, parcialmente ocultos pelo cabelo. Cruzou os braos e enterrou o queixo no peito.
- Posso oferecer-lhe uma boleia para algum lado? O meu carro est mesmo ali  esquina.
- O meu tambm.
- Ah!
Fitz ficou surpreendido por ela nem sequer levantar os olhos. Estava habituado a ser olhado pelas mulheres e sabia que era um homem bem-parecido, sobretudo quando 
sorria, e alto, o que era uma vantagem; as raparigas gostavam sempre de homens altos. A falta de interesse dela perturbou-o. Observou as longas pernas que se moviam 
com passos largos, metidas numas botas de camura azul, e sentiu um n na garganta provocado pela ansiedade. A sua beleza deixava-o completamente fragilizado.
- Acabei de perder no bridge - insistiu, em tom frentico. - Tambm joga?

- S se no puder evitar.
Ele sentiu-se ridculo.
- Muito sensato da sua parte.  um jogo desinteressante.
- Como os jogadores - retorquiu Alba e, depois, esboou um pequeno sorriso, antes de entrar num MGB de dois lugares e desaparecer na estrada.
Fitz ficou ali sozinho, debaixo do candeeiro, a coar a cabea, sem saber se havia de ficar ofendido ou divertido.
Sozinha no carro, onde ningum a podia ver, Alba soluou. Podia enganar toda a gente com a sua fanfarronice, mas no valia a pena enganar-se a si mesma. O sentimento 
de perda que a esmagara antes voltou a vir  superfcie e, desta vez, com maior intensidade. O seu mundo isolado de ciprestes e olivais j no era suficiente. Ela 
tinha o direito de saber sobre a sua me. Agora, que tinha o retrato, o Bfalo seria obrigado a recuar e a deixar o pai falar. No sabia como  que o desenho l 
tinha ido parar. Talvez ele o tivesse posto l para o Bfalo no o encontrar. Mas agora ia saber porque a Alba ia contar-lhe. Seria um prazer. Meteu outra mudana 
e virou para Talgarth Road.
J era tarde. No estariam  espera da sua visita. Ainda ia levar uma boa hora e meia para chegar a Hampshire, apesar das estradas desertas, onde nem um gato se 
via. Ligou o rdio e ouviu Cliff Richard a cantar Those miss- Jou nights are the longest e as suas lgrimas correram ainda com mais fora. Sado da escurido directamente 
para a luz dos seus faris, surgia agora o rosto da sua me. com cabelo comprido, preto e macio, e olhos castanho-esverdeados, fixava a filha com amor e compreenso 
suficientes para curar o mundo inteiro. Alba imaginava que ela devia ter o aroma dos limes. No tinha uma nica memria, uma nica recordao do seu cheiro. Tinha 
apenas a sua imaginao e sabia-se l as falsidades que ela evocava.
Era fcil perceber por que razo o Bfalo detestava Valentina. Margo Arbuckle no era bonita. Era uma senhora forte, com pernas grossas, mais apropriadas para usar 
galochas do que sapatos de salto alto, um grande rabo que se moldava bem  sela de um cavalo e uma pele sardenta tipicamente inglesa, sem maquilhagem e lavada com 
sabonete Imperial Leather. O estilo de vestir era horrvel, saias em tweed e blusas largas. Tinha um peito muito grande e perdera a cintura que tivera em tempos. 
Alba perguntou a si mesma o que  que o pai teria visto nela. Talvez a dor de perder Valentina o tivesse levado a escolher uma mulher diametralmente oposta. Mas 
no teria sido melhor viver com a sua recordao do que comprometer-se de forma to deplorvel?
Quanto aos filhos que tinham tido juntos, bem, nesse aspecto no haviam perdido tempo. Alba nascera em 1945, no ano em que a me morreu, e Caroline uns meros trs 
anos mais tarde, em 1948. Era vergonhoso. O pai mal tivera tempo para chorar a morte da primeira mulher e tambm no tinha tido tempo para conhecer a sua filha, 
aquela que devia ter amado mais do que qualquer outra pessoa no mundo, como recordao viva da mulher que perdera. Depois da Caroline, veio o Henry e, finalmente, 
a Miranda - e, com cada filho, Alba ia sendo empurrada cada vez mais para o seu prprio mundo de pinhais e olivais e o pai estava demasiado ocupado a constituir 
outra famlia para ver como ela chorava. Mas no era a famlia dela. Meu Deus, pensava tristemente, ser que alguma vez se senta e pensa naquilo que me fez? Agora, 
que tinha o retrato, estava decidida a dizer-lho.
Saiu da A30 e desceu as ruas estreitas e sinuosas. Os faris iluminaram as sebes cheias de cicuta-dos-bosques e um coelho que fugiu como uma flecha, de volta aos 
arbustos. Baixou o vidro e farejou o ar como um co, tirando prazer dos doces aromas primaveris que entravam juntamente com o barulho do motor. Imaginava o pai a 
fumar o seu cigarro depois do jantar e a agitar o brandy num daqueles copos grandes e bojudos de que ele tanto gostava. Margo estaria a falar sobre o novo e empolgante 
trabalho de Caroline numa galeria de arte em Mayfair, propriedade de um amigo da famlia, e sobre as ltimas notcias de Henry, chegadas de Sandhurst. Miranda ainda 
andava no internato - havia pouca coisa para dizer, a no ser referir as notas altas e os elogios dos professores. Alba pensou como tudo aquilo era horrivelmente 
montono e convencional, totalmente previsvel. As suas vidas iriam todas desenrolar-se de acordo com os caminhos para eles traados  nascena, como comboiozinhos 
perfeitos. The runaway train carne down tbe track and she bkw, she bkw..., cantou Alba, menos infeliz,  medida que pensava na sua existncia pouco convencional 
e independente, que seguia o caminho que ela prpria traara.
Finalmente, virou para o caminho de acesso que subia cerca de quatrocentos metros, sob faias altas e acobreadas. Conseguiu distinguir dois cavalos no campo,  sua 
direita, cujos olhos brilharam como prata quando as luzes do carro incidiram neles. Que animais hediondos, pensou, irritada. Era espantoso que no tivessem os joelhos 
deformados, tendo em conta o peso do Bfalo. Perguntou a si mesma se aquela mulher montaria o pai da mesma maneira que montava os cavalos. No conseguiu reprimir 
o riso diante desse pensamento e, depois, apressou-se a esquec-lo. As pessoas mais velhas no faziam dessas coisas...
As rodas do carro derraparam na gravilha em frente da casa. As luzes estavam acesas convidativamente, mas Alba sabia que no estavam acesas para ela. Margo devia 
ressentir-se imenso com a sua presena. Seria mais fcil apagar a memria de Valentina se ela no andasse por perto, como uma recordao constante. Estacionou o 
carro por baixo das paredes imponentes da casa que outrora fora sua. com as suas chamins altas e o tijolo antigo e descorado, suportava ventos e tempestades h 
mais de trezentos anos. Segundo parecia, o seu trisav tinha-a ganho na mesa de jogo, mas no antes de ter perdido a mulher por causa do seu vcio. Ela tornara-se 
rapidamente amante de um duque qualquer, que tinha um vcio de propores similares, mas um bolso muito mais recheado para o suportar. Alba gostava da ideia da amante; 
a madrasta manchara para sempre o seu conceito de casamento.
Deixou-se estar sentada dentro do carro, a contemplar a cena, enquanto trs pequenos ces saram da escurido para vir cheirar as rodas e abanar os cotos das suas 
caudas. Quando o rosto da madrasta apareceu  porta, no teve outra opo seno sair do carro para a cumprimentar. Margo pareceu ficar satisfeita ao v-la, embora 
o seu sorriso no se estendesse aos olhos.
.- Alba, que maravilhosa surpresa! Devias ter telefonado - disse, segurando a porta para que a luz alaranjada inundasse os degraus que levavam ao alpendre.
Alba cumpriu o ritual de a beijar. Cheirava a p de talco e a gua-de-colnia Lily of the Valley, da Yardley. Tinha um grande medalho de ouro pendurado ao pescoo, 
que andava para cima e para baixo, sobre o seu peito saliente. Alba afastou rapidamente a imagem de Margo a montar o pai, como a um dos seus cavalos.
Entrou para o trio, onde as paredes eram forradas a madeira e onde estavam pendurados os retratos austeros de familiares j falecidos. Sentiu imediatamente o aroma 
adocicado do charuto do pai e a sua coragem diminuiu. Ele saiu da sala de visitas, com um casaco de andar por casa e de chinelos. O cabelo, embora mais ralo, continuava 
ruivo e penteado para trs, realando os olhos claros que a avaliavam com firmeza. Por um fugaz instante, Alba conseguiu entrever, para l da constituio forte 
e da barriga dilatada, da pele avermelhada e do trejeito descontente da sua boca, o jovem bem-parecido que ele fora durante a guerra. Antes de ter procurado o conforto 
e o esquecimento na conveno e na rotina. Quando ainda amava a sua me.
- Ah, Alba, minha querida. A que devemos este prazer? - perguntou, beijando-lhe a testa, como sempre, e a voz era espessa e granulosa, como a gravilha l fora. Jovial, 
impenetrvel; o jovem desaparecera.
- Estava apenas de passagem - mentiu.
- ptimo - replicou. - Entra para tomares qualquer coisa e para nos contares o que tens andado a fazer.


CAPTULO DOIS

Alba agarrou na mala. Conseguia sentir o volume do rolo de papel atado com um pedacinho de cordel. Estava a pedir para se dar a conhecer, mas ela tinha de esperar 
pelo momento certo. E precisava de uma bebida para ganhar coragem.
- O que queres tomar, Alba, minha querida?
- Pode ser um copo de vinho - respondeu, deixando-se cair no sof.
Um dos ces da madrasta estava enrolado a dormir na outra ponta. So mais queridos a dormir do que acordados, pensou para consigo. Parecem-se menos com pequenos 
roedores. Olhou  volta da sala, onde tantas vezes se sentara, em criana, enquanto os meios-irmos jogavam ao Racing Demon e ao Scrabble, e teve mais do que nunca 
a sensao de ser uma estranha. Havia fotografias em molduras sobre mesas cheias de caixinhas de charo e outras bagatelas, fotografias dela a sorrir, com os braos 
 volta de Caroline, como se tivessem uma amizade verdadeira e inquebrvel. Se as pessoas no soubessem, dir-se-ia que pertencia a uma famlia grande e unida. Reprimiu 
o seu desdm, recostou-se e ps uma perna em cima da outra, admirando as botas de camura azul que comprara recentemente na Biba. Margo afundou o grande rabo numa 
poltrona e agarrou no seu brandy.
- Ento, como  que vo as coisas em Londres? - perguntou. Era uma pergunta deliberadamente vaga, pois nem ela nem Thomas sabiam o que  que ela l estava a fazer.
- Oh,  sempre a mesma coisa, j se sabe - respondeu Alba, igualmente vaga porque, na verdade, tambm no sabia.
Quase se tornara a musa de Terry Donovan, mas chegara atrasada e ele j se tinha ido embora. Ficara demasiado envergonhada para telefonar a pedir desculpa, por isso 
limitou-se a esquecer o assunto. As suas tentativas para ser modelo de revistas de moda sofreram da mesma falta de motivao. As pessoas enchiam-na de promessas: 
insistiam em que podia ser a prxima Jean Shrimpton, podia ser famosa, mas ela nunca conseguia levar as coisas at ao fim. Tal como Viv dizia: "Deus ajuda aqueles 
que se ajudam a si prprios." Bem, at ela conseguir faz-lo, a pequena mesada que o pai lhe dava ia chegando para os vestidos baratos. Os Ruperts e Tims e Jameses 
tratariam do resto.
- com certeza que fazes mais alguma coisa, sem ser estar sentada todo o dia naquele barco, no? - disse Margo com um sorriso.
Alba resolveu sentir-se ofendida. Margo no tinha tacto nenhum. Os seus modos eram desabridos e insensveis. Teria dado uma boa directora de colgio. Alba achava 
que a sua voz profunda e afectada era ideal para mandar nas raparigas e dizer-lhes para se recomporem quando estas se desfaziam em lgrimas, com saudades das mes. 
Muitas tinham sido as vezes que dissera a Alba para "fechar a torneira", quando ela chorava por uma insignificncia qualquer. Alba sentiu o ressentimento aumentar 
perante toda a humilhao que sofrera s mos da madrasta. Depois, lembrou-se do rolo de papel e a sua simples presena instigou-lhe confiana.
- O Valentina est mais bonito do que nunca - respondeu, sublinhando o nome. - Por falar nisso, estava a limpar debaixo da cama e, para meu espanto, descobri...
Precisamente quando se preparava para lanar o seu mssil, o pai chegou ao p dela e estendeu-lhe um copo de vinho tinto.
-  um Bordeaux. Extremamente bom. Tinha-o na adega h anos. Ela agradeceu-lhe e tentou reatar a conversa, mas foi interrompida uma vez mais. Desta vez, por uma 
voz rouca e aflautada, que vacilava como as cordas de um violino mal tocado. Reconheceu-a imediatamente como pertencendo  av.
- Estou a perder alguma festa?
Todos olharam surpreendidos e viram Lavender Arbuckle  entrada, com o seu roupo e touca de dormir, apoiada numa bengala.
- Me - disse Thomas, espantado diante daquela viso. Durante o dia, com as suas roupas, passava por uma pessoa normal. Mas, em roupo e touca de dormir, tinha um 
aspecto frgil e trmulo, como se tivesse acabado de sair do caixo. ,,
- Bem, eu no gosto de perder uma festa.
Margo pousou o copo e levantou-se com um suspiro enfastiado.
- Lavender,  s a Alba. Ela apareceu para tomar uma bebida connosco - explicou.
Lavender franziu o sobrolho e o seu rosto parecia o de um passarinho, com olhos brilhantes e um bico minsculo.
- Alba? Eu conheo alguma Alba? - perguntou, com a voz a subir de tom e volume, enquanto apontava o nariz empoado para a neta.
- Ol, av! - disse Alba com um sorriso, no se dando ao trabalho de se levantar.
- Mas eu conheo-te? - repetiu, abanando a cabea, de forma que o folho da touca de dormir balouou junto s orelhas. - No creio que conhea.
- Me... - comeou Thomas debilmente, mas Margo tomou a dianteira.
- Lavender,  muito tarde. No estaria melhor na cama? Agarrou a velha senhora pelo cotovelo e comeou a lev-la para fora da sala.
- Se h festa, no. Eu no gosto de perder uma boa festa.
Resistiu s tentativas para a levarem e voltou a coxear para dentro da sala. Thomas estremeceu, fumando o seu charuto, enquanto Margo continuou de p, de mos nas 
ancas, abanando a cabea em sinal de reprovao.
Lavender sentou-se na cadeira de costas direitas que Thomas usava para ler os jornais de domingo. Era grande e confortvel e estava posicionada debaixo de um candeeiro 
que dava muita luz.
- Ento, ningum me oferece uma bebida?
- Que tal um brandy! - sugeriu Margo, deixando o marido em suspenso no meio da sala e dirigindo-se  mesa das bebidas.
- Meu Deus,  claro que no!  uma festa. Um Sticky Green  que vinha mesmo a calhar. O que  que achas? - perguntou, virando-se para Alba. - Um Sticky Green? - 
As faces ficaram rosadas.
- O que  um Sticky Green?
- Creme de Menthe - resmungou Thomas, franzindo o sobrolho.
-  uma bebida muito comum - bufou Margo, servindo um brandy  velha senhora.
Alba, embora vagamente divertida com a av, estava ansiosa por falar ao pai sobre o retrato. O vinho tinha-a deixado um pouco alegre e ajudara a dominar os seus 
nervos. Estava pronta para os enfrentar, para exigir a verdade, e esperava que lhe fizessem a vontade. Olhando de relance para o grande relgio de prata por cima 
da lareira, percebeu que no tinha muito tempo antes do pai e do Bfalo quererem ir para a cama.
- Quanto tempo vai ficar? - perguntou ela  av, sem se dar ao trabalho de disfarar a sua impacincia.
- E quem vens a ser tu, afinal? - foi a resposta fria.
-  a Alba, me! - exclamou Thomas, exasperado.
Margo estendeu o brandy a Lavender e regressou  sua cadeira e  sua bebida. Um dos pequenos ces saltou-lhe para cima do joelho e ela afagou-o com as suas mos 
grandes e eficientes. Lavender inclinou-se em direco a Alba.
- Eles pensam que eu estou nas ltimas, por isso trouxeram-me para casa - disse, soltando um suspiro, contemplando o prprio fim. Esta  a ltima estao. No tardarei 
a partir e eles vo sepultar-me junto ao Hubert. Nunca pensei chegar a velha. Nunca ningum pensa. Mas no h nada de errado comigo. A minha cabea foi-se um bocadinho 
abaixo, mas, fora isso, ainda temos mulher! - Bebeu o brandy de um trago e, de repente, pareceu ficar mirrada e triste. - Quando eu e o Hubert ramos novos, esta 
sala acolhia imensas festas. Costumava ench-la de amigos.  claro que, naquela altura, uma pessoa tinha imensos amigos. Agora, j morreram todos ou esto demasiado 
velhos. J no h energia para festas. Quando se  jovem, espera-se viver para sempre. Imaginamos que podemos conquistar tudo, mas no se pode conquistar a Grande 
Ceifeira. No, ela vem e leva-nos a todos, reis e vagabundos, de igual forma. Vamos todos quando a nossa hora chega, no ? O Hubert costumava dizer que todos tm 
o seu dia de sorte, e eu tive os meus. s casada? Qual era mesmo o teu nome?
- Alba.
Alba reprimiu um bocejo. s vezes, era difcil perceber o que a av dizia, tinha uma pronncia afectada. Parecia uma velha duquesa de outro sculo.
- Uma mulher no  nada sem um homem a seu lado e sem filhos. Quando se  velho, ganha-se uma certa sabedoria. Eu sou velha e sensata e, graas a Deus, os meus filhos 
continuaro a viver depois de eu me ir embora. Isso proporciona uma grande satisfao, que s se consegue apreciar quando se  velho.
- Tambm devemos ter o nosso sono de beleza, no acha? - disse Alba, escorropichando o copo.
- Absolutamente. Embora, com esta idade, j no veja grande interesse em dormir. No fim de contas, j no falta muito para mergulhar no sono eterno. Tenho tempo 
para me fartar disso. Dormir demais  uma coisa m. Deus meu! J so aquelas horas? - Sentou-se abruptamente, de olhos fixos no relgio. - Posso no querer dormir, 
mas o meu corpo  uma criatura de hbitos e j no tenho fora para o contrariar. Foi um prazer - acrescentou, estendendo a mo a Alba.
- Eu sou sua neta - recordou-lhe Alba, gentilmente, mas o tom traa a impacincia.
- Ai s? Meu Deus, no te pareces nada connosco. Os Arbuckles so todos de tez clara e tu s muito morena e tens ar de estrangeira, no ? - redarguiu, voltando 
a olh-la de cima.
- A minha me era italiana - recordou ela  av e, para seu horror, a voz saiu-lhe esganiada e emotiva.
Olhou para o pai, que continuava no meio da sala, furiosamente agarrado ao seu charuto, e viu-lhe o rosto corado. O Bfalo no deixou transparecer os seus verdadeiros 
sentimentos e levantou-se para levar a sogra embora da sala.
Quando Margo regressou, deixou cair os ombros e suspirou pesadamente:
- Oh, meu Deus, ela est mesmo a perder o juzo. Queres passar c a noite, Alba?
Alba ferveu de clera. Margo estava a trat-la como a um hspede na sua prpria casa. Incapaz de conter a sua frustrao por mais tempo, abriu a mala e tirou o rolo 
de papel para fora.
- Encontrei isto debaixo da minha cama. Devia l estar escondido h anos - disse ela, brandindo-o no ar. -  um desenho da Valentina feito pelo paizinho.

Fitou o pai com aqueles seus olhos estranhamente claros. Viu os ombros do Bfalo retesarem-se enquanto trocava olhares nervosos com o marido. Alba ficou furiosa.
Sim, paizinho,  lindo! Deixa-me lembrar-te quando o fizeste. Foi em 1943, durante a guerra, quando a amavas. Tu alguma vez te lembras dela?
Depois, virando-se para Margo, acrescentou num tom glacial:
- Tu deixas que ele se lembre dela?
- Bem, Alba... - comeou Margo, mas a voz de Alba sobreps-se  dela, enquanto continuava a pr em palavras os pensamentos que fermentavam h anos na sua cabea. 
Tal como vinho que se deixa demasiado tempo a fermentar, agora o seu gosto era mais amargo.
-  como se ela nunca tivesse existido. Vocs nunca falam dela.
Tossiu para aclarar a voz e para soltar as cordas vocais, mas elas doam-lhe de tanto desespero.
- Como  que podes deixar que outra mulher apague a memria que tens dela? Porqu tanta cobardia, paizinho? Combateste na guerra, mataste homens mais fortes do que 
tu e, no entanto... no entanto negas-me a minha prpria me, com receio de aborreceres a Margo.
Margo e Thomas ficaram ambos pregados ao cho, em silncio. Nenhum deles sabia como responder. Estavam habituados s exploses de Alba, mas esta era inesperadamente 
custica. S o fumo que se desprendia dos restos do charuto de Thomas perturbava a imobilidade absoluta da sala. At os ces estavam demasiado receosos para se mexer. 
Alba olhava, ora para um, ora para outro, sabendo que deixara que os seus sentimentos se descontrolassem, mas agora no podia voltar atrs. As palavras tinham sido 
disparadas e no havia forma de as retirar, mesmo que ela o quisesse fazer. Por fim, Margo falou. Retraindo o maxilar, para manter a compostura, sugeriu que aquilo 
era assunto para ser discutido entre pai e filha. Saiu da sala sem dar as boas-noites. Alba ficou satisfeita ao v-la ir embora.
Alba foi ter com o pai e entregou-lhe o rolo. Ele agarrou nele e olhou-a demoradamente. Ela retribuiu o olhar, em jeito de desafio. Mas no havia sinais de luta 
na expresso do pai, apenas uma incomensurvel tristeza. Uma tristeza tal que Alba teve de desviar o olhar. Sem uma palavra, ps o charuto no cinzeiro e sentou-se 
na cadeira que a me deixara vaga momentos antes. No abriu o rolo. Limitou-se a olhar para ele, acariciando o papel com o polegar, sentindo o doce aroma das figueiras 
vindo de um passado distante, de um captulo da sua vida h muito encerrado.
Alba observou-o com ateno. Viu o jovem com o uniforme da marinha, como na fotografia que ele tinha no quarto de vestir, com o leno branco, o casaco e o chapu. 
Viu-o mais esbelto, mais bonito e mais feliz. No havia aquela profunda tristeza nos seus olhos, apenas o optimismo que domina o esprito dos jovens e dos mais valentes. 
Tambm no havia desiluso, pois o seu corao vibrava de amor pela sua me, numa altura em que o futuro dos dois se estendia  sua frente como um sumptuoso banquete.
Por fim, falou numa voz muito calma:
- Desta vez, foste longe demais - disse, e Alba sentiu-se ofendida. - H muita coisa que tu no compreendes. Se compreendesses, no falavas com a Margo dessa maneira. 
Foste indesculpavelmente malcriada, Alba, e eu no posso tolerar uma coisa dessas.
As suas palavras foram como uma bofetada na face.
- No, tu  que no compreendes - lamentou-se. - Eu s quero saber coisas sobre a minha me. Tenho o direito de saber. No fazes a mais pequena ideia do que  no 
ter um sentimento de pertena; do que  uma pessoa sentir-se desenraizada...
Ele olhou-a com um ar cansado e, depois, abanou a cabea resignado.
- Esta  a tua casa - disse, com sulcos profundos na testa. - Eu no sou suficiente? No,  bvio que no. Toda a vida nos pressionaste. Para ti, nunca nada  suficiente, 
no ? - Suspirou e virou a ateno novamente para o rolo de papel. - Sim, eu amava a tua me e ela amava-te. Mas ela morreu, Alba, e eu no posso traz-la de volta. 
No h mais nada que te possa dizer. Quanto ao sentimento de pertena, o teu lugar nunca foi em Itlia. Eu trouxe-te para Inglaterra no final da guerra. Tu pertences 
aqui e sempre pertenceste. Se h um obstculo, no  a Margo, Alba, s tu! Olha  tua volta. Durante toda a tua vida, no fizeste outra coisa seno receber, sem 
demonstrar a menor gratido. No sei o que mais poders querer e estou cansado de tentar dar-to.
Ento no me vais falar da Valentina? - perguntou, lutando contra as lgrimas, ao sentir que ele estava a afast-la uma vez mais, a exclu-la a ela e  sua me. 
Mas Alba sabia que o demnio que espreitava sobre o seu ombro no era a sua conscincia, mas sim Margo. - Nem sequer sei como se conheceram - disse ela em voz sumida, 
vendo o msculo do queixo dele a latejar de desconforto. - Nunca partilhaste isso comigo. Em tempos, eras tu e eu, paizinho. Depois, veio a Margo e deixou de haver 
espao para mim.
- Isso no  verdade - replicou. - A Margo  que manteve tudo unido.
- Ela ainda tem cimes da minha me.
- Ests muito enganada.
Alba riu-se cinicamente.
-  preciso ser mulher para compreender outra mulher.
- Mas Alba, minha querida, tu ainda no s uma mulher. Ainda tens de crescer muito.
Dito isto, levantou os olhos, agora injectados de sangue e rasos de gua. A desolao dele teria despertado a sua piedade, se ela no albergasse um ressentimento 
to grande no seu corao.
- No me faas escolher entre ti e a minha mulher - disse ele, e a sua voz estava to calma e grave que ela sentiu os plos eriarem-se e o sbito arrepio de uma 
corrente de ar fria.
- No preciso de te perguntar, pai, porque eu sei quem  que escolherias.

Quando o carro desapareceu ao fundo da estrada, Margo, que tinha ouvido tudo, apareceu  porta da sala. Conseguia ver Thomas atravs da abertura. O seu rosto longo 
e plido estava carregado de sofrimento. Parecia muito mais velho do que era. Passou os dedos pensativamente pelo desenho enrolado. No o abriu. Limitou-se a acenar 
com a cabea antes de se levantar e ir at ao escritrio, onde ela o ouviu a abrir e a fechar uma gaveta.
No tinha qualquer desejo de ressuscitar o passado.
Nessa noite, quando Thomas foi para a cama, Margo tirou os culos de leitura e pousou o livro.
- Creio que est na altura de te livrares daquele horrvel barco.
Thomas ajeitou-se no colcho e ps a cabea na almofada.
- O barco no tem nada a ver com o mau comportamento de Alba - replicou. J tinham discutido aquele assunto vezes sem conta.
- Sabes que no  isso que quero dizer. D pouca sorte.
- Desde quando  que s supersticiosa?
- No percebo porque  que ela no pode alugar um apartamento, como a Caroline.
- Ests a sugerir que voltem a viver as duas juntas?
- Oh, meu Deus, no, isso foi um desastre. Pobre rapariga, a Alba no fazia outra coisa seno discutir com ela e, alm disso,  extremamente desorganizada. A Caroline 
passava a maior parte das noites atrs dela, a limpar as coisas: pontas de cigarro apagadas em copos de vinho e coisas do gnero... No, eu no ia querer sujeitar 
a Caroline a passar por isso outra vez, ela no merece.
- A Alba  perfeitamente feliz no seu barco - argumentou ele, fechando os olhos, muito cansado.
- No haveria mal nenhum se no fosse aquele barco.
- Eu no me vou desfazer do barco. Alm disso, como  que tu achas que a Alba iria interpretar uma coisa dessas? Outro passo para apagar a memria da me?
Margo colocou os culos no estojo e inclinou-se para pr o livro na mesa-de-cabeceira. Apagou a luz e deitou-se, puxando as cobertas at ao queixo.
- No vou fazer-te perguntas sobre o quadro, Thomas. No tenho nada a ver com isso. Mas acho que foi uma pena a Alba t-lo encontrado. No lhe faz bem remexer tanto 
no passado.
- O passado - repetiu ele calmamente, pensando no retrato. Pestanejou na escurido, onde tinha a certeza de poder ver o rosto de Valentina, vibrante de juventude 
e com aquela energia irreprimvel. At tinha a certeza de conseguir sentir o aroma adocicado das figueiras, recuando nos anos, com aquela sensao h muito esquecida 
de como tinha sido amar to intensamente. Os seus olhos embaciaram-se e ele respirou fundo. Depois de todos estes anos, pensou. O retrato ter aparecido precisamente 
agora, quando eu j quase tinha conseguido esquecer aquilo tudo.
- O que  que vais fazer? - perguntou ela. Thomas foi arrancado s suas memrias.
- Em relao a qu?
-- Em relao ao barco.
- Nada.
- Nada? Mas...
- Eu disse nada. Agora vou dormir. No quero continuar a discutir este assunto, Margo. O barco fica e a Alba continua l.

Alba mal conseguia ver a estrada devido s lgrimas que rolavam num fluxo incessante. J passava da meia-noite quando estacionou o carro por baixo de um candeeiro, 
em Cheyne Walk. Estava furiosa por lhe ter dado o retrato. Podia ter ficado com ele. Podia ter sido o seu segredo. Agora, tinha ficado sem nada.
Desceu o ponto lentamente at ao barco, a fungar, sentindo imensa pena de si mesma. Quem lhe dera ter algum  sua espera, um homem bom em quem se aninhar. No 
um Rupert, um Tim ou um James, mas algum especial. No queria estar sozinha naquela noite. Sabendo que Viv escrevia muitas vezes os seus romances at s primeiras 
horas da madrugada, bateu-lhe  porta. Esperou a ver se ouvia algum som, mas s o chiar do barco e o suave marulhar do rio contra o ponto acompanhava o rudo da 
cidade.
Quando j dava meia volta, desanimada, a porta abriu-se e o rosto plido de Viv apareceu na fresta.
- Ah, s tu - disse ela, acrescentando depois de a ver mais de perto - Valha-me Deus!  melhor entrares.
Alba seguiu o cafet esvoaante pelo corredor estreito at  cozinha. O barco cheirava a humidade, tal como o seu, mas Viv tinha uma fragrncia nica a algo extico 
e estrangeiro. Gostava de queimar pauzinhos de incenso da ndia e de acender velas perfumadas que comprava em Camaby Street. Alba sentou-se  mesa redonda, na diviso 
pintada de roxo, e inclinou-se sobre a chvena de caf que Viv lhe enchera.
- Estou no meio de um captulo horrivelmente difcil, por isso vai ser bom fazer uma pausa e falar contigo. No acredito, nem por um instante, que essas lgrimas 
sejam por causa de um homem - disse, puxando uma cadeira e acendendo um cigarro. - Tira um, querida. Vai fazer-te sentir melhor.
Alba tirou um Silva-Thin e inclinou-se para a frente quando Viv acendeu o isqueiro.
- Ento, diz-me l a razo das tuas lgrimas.
- Encontrei debaixo da cama um esboo que o meu pai fez da minha me.
- Valha-me Deus, o que estavas tu a fazer debaixo da cama?
Viv sabia bem que Alba nunca limpava o barco.
-  lindo, Viv, mesmo lindo e o meu pai nem sequer quer falar disso comigo.
- Estou a ver - replicou, inalando o fumo pela boca e expelindo-o pelas narinas, como um drago. - Fizeste esse caminho todo at Hampshire a esta hora da noite?
- No consegui esperar. Pensei que ele ia ficar contente por eu o ter encontrado.
De todos os stios possveis, o que diabo estaria a fazer debaixo da cama? A histria da me de Alba intrigava-a.
- Oh, ele p-lo l para o esconder do Bfalo. Ela tem imensos cimes e nem sequer pe os ps no barco porque o meu pai lhe deu o nome da minha me.  uma palerma!
- O que  que ele comentou quando lhe disseste que o tinhas encontrado?
Alba tomou um gole de caf, retraindo-se porque estava demasiado quente.
- Ficou furioso comigo.
- No! - exclamou Viv, espantada.
- Ficou, ficou! Eu disse-lhe em frente do Bfalo...
- Bem, ento est explicado.
- Eu queria que ela soubesse que ele o tinha escondido dela - riu-se Alba maldosamente, mostrando o canino torto que Rupert - ou seria Tim? - dizia dar encanto  
sua boca. - Aposto que tiveram uma discusso dos diabos depois de eu sair. Aposto que o Bfalo ouviu tudo o que eu disse. At consigo imaginar a sua respirao pesada 
junto ao buraco da fechadura!
- Ele olhou para o esboo?
- No. Apenas ficou muito vermelho e com um ar triste. Ele ainda a ama, Viv. Creio que vai am-la sempre. Provavelmente, est arrependido de se ter casado com o 
Bfalo. Sabes, eu s queria que ele a partilhasse comigo. Mas ele no o faz, por causa do Bfalo.
- Ela  muito cruel e estpida, para conseguir ter cimes de uma mulher morta - disse Viv venenosamente, fazendo festas na mo de Alba.
Os olhos estranhamente claros de Alba ficaram de novo marejados de lgrimas e Viv sentiu o suave instinto da me que havia nela. Alba tinha vinte e seis anos, mas 
grande parte dela nunca chegara a crescer. Por baixo da aparente autoconfiana, estava uma menina que s queria ser amada. Viv passou-lhe um leno de papel.
- E agora, minha querida, o que  que vais fazer em relao a isso?
- No h nada que eu possa fazer - redarguiu Alba, em tom desolado.
- Oh, h sempre alguma coisa que se pode fazer. No te esqueas que Deus s ajuda aqueles que se ajudam a si prprios. Tenho um amigo que  capaz de te poder ajudar 
- prosseguiu, semicerrando os olhos. Se h homem capaz de se insinuar junto de algum, esse homem  Fitzroy Davenport.


CAPTULO TRS

Fitz passou uma noite agitada, a sonhar com Alba, e quando acordou de manh tinha o rosto dela gravado na memria. Deixou-se estar na cama, animado pelo raio de 
sol que entrava pelo intervalo das cortinas, rememorando as suas feies vezes sem conta. O rosto comprido e a boca grande e sensual. Detestava pensar nos homens 
que tinham beijado aqueles lbios e passou rapidamente para os olhos invulgarmente claros. Eram fundos, emoldurados por fartas pestanas pretas e sobrancelhas igualmente 
fartas, mas as sombras  sua volta, no na pele, mas as que pairavam por ali, davam-lhe um ar etreo. A maneira como andava tambm o deixara excitado. Aquelas longas 
pernas, com botas. O pedao de coxa macia, at  minissaia que apenas protegia o essencial. A forma confiante como caminhava. O clich do "potro jovem" que Viv, 
felizmente, evitava nos seus romances. Por outro lado, tinha sido to indesculpavelmente indelicada! Mas o seu sorriso, com aquele dente torto, era to sedutor que 
era como se ela lhe tivesse deitado mel quente sobre a pele e o tivesse lambido com um delicioso movimento da sua lngua.
Ouviu o Sprout l em baixo, na cozinha, e suspirou. No queria levantar-se. Tentou pensar numa desculpa para visitar novamente o barco-casa de Viv, s pela possibilidade 
de poder encontrar Alba. Talvez lhe pudesse telefonar a pretexto de discutirem um eventual acordo comercial no estrangeiro, uma possvel digresso publicitria em 
Frana - os franceses adoravam os seus livros - ou as percentagens de vendas recentes. Viv era fcil de contentar, desde que pudesse falar sobre si mesma, e hoje 
ele estava mesmo com disposio para ouvir. Inclinou-se para agarrar no telefone precisamente quando ele tocou. "Bolas!", murmurou e levantou o auscultador.
- bom dia, meu querido - disse a voz bem-disposta de Viv e Fitz sentiu-se mais animado do que nunca.
- Minha querida, ia mesmo agora telefonar-te.
- . Oh! Sobre que assunto? Alguma coisa boa, espero.
-  claro, Viv. s a minha cliente mais importante, sabes disso.
- Bem, no me mantenhas na expectativa.
- Os franceses querem que faas uma digresso. O teu pblico exige a tua presena - mentiu, mordendo a bochecha. No faz mal, pensou, depois trato disso.
A voz de Viv subiu de tom e ela velou as consoantes, ainda com mais nfase do que era costume.
- Oh, querido, isso  maravilhoso.  claro que uma pessoa tem de cumprir o seu dever. No se deve fazer o pblico esperar. No fim de contas, preciso tanto deles 
como eles de mim.
- ptimo, eu falo com eles ainda esta manh. - Fez uma pausa, enquanto Viv inspirava profundamente, e imaginou-a a fumar o seu Silva-Thin na cozinha roxa. - Porque 
 que querias falar comigo? - perguntou, esperanado num convite.
- Ah, j quase me esquecia. - Diante das novidades de Fitz, Alba deixara de ser importante. - Vem c jantar esta noite. Tenho uma misso para ti e acho que vais 
gostar. H uma certa donzela em apuros que precisa que um cavaleiro de armadura a salve de uma madrasta demonaca e de um pai que parece uma morsa. Fica-te mesmo 
em caminho e, alm disso, tu gostas dela, no ? S no te apaixones, Fitzroy.
- L estarei - respondeu, com a voz rouca de excitao.
Viv revirou os olhos profusamente maquilhados e pousou o auscultador. No lhe parecia que, a longo prazo, lhe estivesse a fazer um favor. Ia tudo terminar em lgrimas.
Alba despertou para um vazio terrvel. Levantou-se e fez uma chvena de ch. No havia nada para comer no frigorfico, s um quarto de litro de leite, duas garrafas 
de vinho e montes de vernizes para as unhas. Estava uma manh glida e ela sentia frio, apesar dos aquecedores a parafina. Aconchegou o roupo  sua volta e esfregou 
os olhos, bocejando idosamente. Ia fazer umas comprinhas para se animar e talvez fosse almoar com o Rupert, que trabalhava como agente imobilirio, em Mayteir. 
Se ele pudesse tirar a tarde, talvez fossem os dois para a cama at ao anoitecer. Ele era tudo aquilo de que ela precisava para sair da depresso e para se sentir 
bem consigo mesma. Fazia amor com uma grande ternura e entusiasmo e era excepcionalmente bom nisso. Nada de gestos desajeitados e respirao pesada; ela detestava 
isso e tambm detestava aqueles que queriam ficar com ela s para si. Rupert no o fazia e, at agora, tambm no a tinha importunado com telefonemas. Estava simplesmente 
ali quando precisava dele e ela sentia-se melhor na sua companhia.
Estava prestes a telefonar-lhe quando ouviu uma pancada com fora na porta. Reconheceu-a de imediato e sorriu. Era Harry Reed, tambm conhecido como "Reed do Rio". 
No seu austero uniforme azul, patrulhava o Tamisa, como membro da Polcia Fluvial. Alm disso, passando por ali de vez em quando para tomar um caf, j por mais 
de uma vez lhe aquecera a cama. No entanto, a forma brutal como fazia amor no era o que ela precisava naquele dia.
- Ol - disse ela, deitando a cabea de fora da porta.
Harry era alto e esbelto, como um junco, com olhos castanhos e um sorriso largo e atrevido num rosto agradvel, embora ligeiramente grosseiro.
- Tinha-me esquecido do teu aspecto quando acordas - disse ele ansiosamente, tirando o bon e segurando-o nas suas grandes mos calejadas.
- Foi por isso que vieste bater  minha porta?
- Tens tempo para um caf com um polcia enregelado? Pelo menos, sabes que ests segura!
Ele j tinha dito aquilo antes e rira com vontade.
- Receio bem que no, Harry. Desculpa. Estou com um bocadinho de pressa. Tenho um encontro - mentiu. - Porque  que no passas por c hoje  noite, antes de jantar?
Os olhos de Harry brilharam e ele voltou a pr o bon na cabea, esfregando as mos alegremente uma na outra.
- Eu apareo para uma bebida ao final do dia. Depois de acabar o turno, vou ter com a rapaziada ao Star and Garter, no queres vir comigo?
Alba lembrou-se do convite de Viv para jantar com Fitzroy, ou l quem era, e teve de recusar, embora gostasse bastante de ir at l e estar sentada com os polcias 
que estavam de folga, envergando os seus pulveres azuis.
- Esta noite no, Harry.
- Um dia destes, venho buscar-te para darmos uma volta na lancha.
- Lembras-te quando tive de te deixar em Chelsea Reach? O sargento dava cabo de mim se eu tivesse sido apanhado.
- Foi divertido - concordou, recordando a sensao hilariante do vento no cabelo. - Eu vou tentar manter-me escondida, embora fosse capaz de gostar desse teu sargento.
- De certeza que ele ia gostar de ti, Alba.
Todos eles gostam, pensou ela. s vezes, era entediante ser to adorada.
- Uma bebida, ento? - confirmou ele, no querendo que ela se esquecesse.
- Se tiveres sorte e me apetecer... - redarguiu sorrindo, deixando  mostra o seu dente torto.
Ele pareceu encolher-se de prazer.
- s uma num milho, Alba.
- Como fazes questo de me estar sempre a lembrar, Harry.
- Ento, at logo.
Regressou a bordo da lancha e arrancou a toda a velocidade pelo Tamisa acima, enquanto lhe acenava com o bon.
Alba foi s compras. Comprou uma camisa na Escapade, em Brompton Road, por catorze libras e um par de sapatos em The Chelsea Cobbler por cinco libras, antes de apanhar 
um txi para Mayfair, para almoar com Rupert. Este teve dificuldade em disfarar a sua alegria, pois receara que ela se tivesse cansado dele. No estava  espera 
de a voltar a ver. Para sua frustrao, tinha um cliente da parte da tarde, por isso separaram-se s duas e Alba ficou a deambular pelo parque enquanto Rupert foi 
mostrar casas, em Bayswater, imaginando uma Alba cor de mel deitada em todas as camas para onde olhava.
Farta do parque e cansada de ter andado a correr as lojas, Alba foi para casa de autocarro, para se entreter. J no dava pelas pessoas que ficavam a olhar fixamente 
para a sua beleza e fazia m cara aos homens que tentavam meter conversa, mas era mais divertido do que apanhar um txi e levava mais tempo. Gostava de observar 
as pessoas, de escutar as suas conversas, de imaginar como viviam. Estava ansiosa para que chegasse a hora de jantar em casa da Viv e para que Reed do Rio apareCesse 
para uma bebida. No lhe ocorreu que a sua vida era vazia. Tinha amigos e arranjava amantes sempre que precisava de companhia  noite. No analisava a sua existncia, 
nem tentava preencher os dias com algo que valesse a pena, limitava-se a deixar correr as coisas. Alm disso, no havia nada que a inspirasse. No era como a Viv, 
que tinha fome da vida, engolindo o tempo com as horas que passava na sua mquina de escrever, a fazer livros que reflectiam o seu entusiasmo (alguns diriam cinismo) 
pelas pessoas e pelos seus pontos fracos. Alba no estava ansiosa por se casar e ter filhos, embora j tivesse vinte e seis anos e comeasse "a ficar velha", como 
Viv prontamente lhe lembrava. Ela no pensava no futuro. No percebia que evitava faz-lo porque tinha medo, porque ele estava vazio.
Alba estava embrulhada numa toalha, tendo acabado de tomar banho e lavar a cabea, e estava a pintar flores nas unhas dos ps quando ouviu a lancha de Reed. No seu 
entusiasmo, tinha-se adiantado. Cheirava imenso a aftershave e tinha puxado o cabelo para trs com um pente molhado. Estava bonito e Alba gostou de o ver. No precisou 
de lhe mostrar onde estavam as bebidas: ele foi l direitinho e encheu um copo de vinho para cada um. Ela reparou nos seus olhos a espreitar por baixo da toalha 
e mudou de posio, na defensiva. No lhe apetecia e, alm disso, tinha um jantar. Tendo acabado de pintar a ltima unha, recostou-se no sof para as deixar secar.

- O Revel encontrou um brao no rio, esta tarde - disse Harry, instalando-se confortavelmente numa cadeira, esticando as longas pernas e pondo-se  vontade.
- Que horror - disse Alba, enrugando o lindo nariz. - E o que aconteceu ao resto?
- Pois, a  que est o mistrio - replicou, com ar importante. - O nosso trabalho  descobrir.
- Era um brao velho ou novo?
- Acho que era velho. J muito decomposto, isso posso eu dizer-te. S o fedor! No quero provocar-te pesadelos, embora tenha uma cura para isso...
Ergueu o sobrolho, mas Alba ignorou-o.
- Talvez sejam os restos mortais de um corteso isabelino torturado. A seguir, vo encontrar a cabea - disse ela com uma gargalhada.
- J estiveste em Tower Bridge?  extraordinrio ter um pedao de histria como aquele mesmo no centro da cidade!
Alba no tinha estado em Tower Bridge e, alm disso, histria era coisa que pouco lhe importava. Para que servia falar de pessoas mortas que uma pessoa no conhecera? 
A nica histria que lhe interessava era a sua.
- Quanto  cabea, h-de aparecer quando menos esperarem - disse ela.
- Ou quando tu menos esperares - redarguiu Harry, com uma risada, voltando a percorrer-lhe as pernas com o olhar.
Alba pensou em qual seria a reaco de Viv se visse aparecer uma cabea desmembrada junto ao barco e sorriu ao pr a hiptese de envi-la ao Bfalo dentro de uma 
caixa de carto.
- Se a encontrares, diz-me - pediu com um sorriso tolo.
Continuaram a conversar enquanto Alba foi l acima mudar de roupa para o jantar. No havia porta que pudesse fechar, pois o quarto e a casa de banho tinham sido 
construdos numa coberta, em que um dos lados era uma balaustrada que dava para a escada e para o corredor que levavam  sala de estar. Estava a ficar tarde e Harry 
j l estava h algum tempo. Escolheu um par de cales Zandra Rbodes, que usava com botas, e uma camisola de caxemira com aplicaes de tecido. Quando Harry apareceu 
ao cimo das escadas, de copo na mo e um brilho lascivo no olhar, Alba estava a aplicar cuidadosamente o eyeliner ao espelho.
- No me assustes dessa maneira - resmungou.
- Eu quero-te - disse ele em voz rouca.
- Oh, Harry, por favor! Eu vou jantar fora. Alm disso, j me vesti. No ests  espera que dispa tudo outra vez, pois no?
- Oh, v l, Alba - instou ele, acercando-se por trs dela e beijando-lhe o pescoo, onde o cabelo ainda estava molhado e emaranhado.
- A nica coisa em que consigo pensar  naquele brao na gua, Harry.  o pensamento menos romntico que tive nos ltimos tempos.
Harry desejou no ter falado nisso. Ela acabou de pr o eyeliner e ligou o secador, o que fez Harry fugir para a cama, onde ficou com ar desolado.
- S uma rapidinha, minha querida: Para me ajudar a suportar o frio.
Riu-se maliciosamente e Alba no pde deixar de sorrir. Eles no tinham culpa de ela ser to desejvel.
Acabou de secar o cabelo e foi at  cama, onde se deitou com ele durante algum tempo, aos beijos. Sabia bem estar nos braos dele. Reed do Rio era outro porto de 
abrigo onde ela se podia refugiar. Quando ele lhe passou as mos pelas coxas, ela afastou-se.
- Acho que  melhor ires embora agora, Harry.
- com quem  que vais jantar esta noite? - perguntou, sem se dar ao trabalho de esconder os cimes. - Espero que no seja um homem.
- com a minha vizinha, a Viv.
- A escritora?
- A escritora.
- bom, ento est bem. No quero que te metas em problemas.  minha funo proteger-te.
- A mim e ao resto de Londres... de membros flutuantes - disse ela com uma gargalhada, voltando a beij-lo e empurrando-o porta fora.
Para horror de Harry, enquanto ele estivera a desfrutar de um copo de vinho ilcito, uma vez que ainda estava de servio, a mar tinha vazado, deixando-o encalhado. 
Olhou incrdulo, enquanto a sua lancha oscilava como uma baleia que d  costa, incapaz de se libertar, e dois patos passavam junto dela a grasnar, como que divertidos.
- Merda! - exclamou, perdendo repentinamente o seu sentido de humor. - Estou feito!
Nesse momento, Fitz vinha a descer o ponto. Desta vez, tinha trazido o seu prprio vinho. Duas garrafas de bom tinto italiano. Vestia um casaco sobre uma camisa 
verde e branca e o seu cabelo ruivo esvoaava ao vento. No instante em que viu Alba e o polcia no convs do barco, sentiu um n no estmago, provocado pelos cimes. 
A mo dela sobre o brao dele sugeria intimidade e Fitz pensou se teriam acabado de sair da cama. Viv dissera que ela tinha carradas de amantes. Quando a boca se 
lhe retorceu num esgar, ela virou-se, brindando-o com um sorriso encantador. Lembrar-se-ia dele da noite anterior? Para seu aborrecimento, deu consigo a retribuir 
o sorriso e a levantar o vinho:
- No se demore, seno acaba-se! - gritou.
- O meu amigo meteu-se em trabalhos - respondeu Alba, fazendo-lhe sinal com a mo para que se aproximasse.
Explicou-lhe que Harry estava preso na lama.
-  como uma querida morsa velha, a respirar com dificuldade na praia - disse ela, espetando o queixo e rindo.
Fitz lembrou-se que Viv descrevera o pai dela de forma semelhante e baixou os ombros aliviado; nenhuma mulher se iria referir a um amante naqueles termos. Harry 
no estava divertido. Sentia-se humilhado e irritado por Alba no lhe ter dito que tambm ia um homem ao jantar.
Enquanto os trs discutiam o que fazer, apareceu outra lancha de patrulha com um homem de ar muito severo, de sobrolho franzido sob o seu bon de marinheiro. Harry 
encolheu visivelmente.
.- Ora muito bem, o que  que se passa aqui?
- Estou encalhado - respondeu Harry e preparava-se para tentar explicar, em primeiro lugar, por que razo tinha ido at ali, quando Alba o interrompeu.
- Sargento, que sorte ter aparecido neste preciso momento.
O sargento endireitou-se ao ver os cales e as botas de Alba e o seu rosto suavizou-se numa expresso preocupada.
- Eu e o meu marido estamos to gratos ao agente Reed - disse ela, pondo o brao  volta da cintura de Fitz. Este sentiu-se subitamente muito quente. - Sabe,  que 
tenho a certeza que vi uma cabea, sim, uma cabea, juro! Sem corpo. Andava a boiar ali - e apontou para a gua castanha. - Levantou os olhos para o sargento e fez 
o possvel por parecer assustada. - Foi uma grande aflio, como pode imaginar. Uma cabea sem corpo!
- vou mandar vir a equipa para investigar, senhora...
Alba deu-se conta que desconhecia o apelido de Fitzroy.
- Davenport - interps Fitz espontaneamente. - Senhor Davenport. Fico-lhe muito agradecido se o fizer. No quero que a minha mulher d outra vez com aquilo.
-  claro, senhor Davenport - disse, olhando para a lancha de Harry. - Eu levo o agente Reed comigo, na minha lancha, e mando-o de volta quando a mar subir. Deixe 
as coisas comigo.
-  isso mesmo que vou fazer, e com a maior confiana. Agora, vou levar a minha mulher a jantar fora. Foi um prazer conhec-lo, sargento, e a si, agente... - hesitou 
propositadamente.
- Reed - disse Harry, de m vontade. -  claro, e muito obrigado.
Dito isto, levou Alba, deixando Reed do Rio  merc do seu sargento. Enquanto a lancha se afastava, o sargento virou-se para Harry e disse com um ar entendido:
- Que linda rapariga!  uma sorte ser casada com um homem forte, seno havia de estar sempre metida em sarilhos.
Harry observou, impotente, enquanto ela desaparecia no barco da vizinha, com Fitz.
Viv pusera um turbante de seda indiana antiga para a ocasio. Estava sentada, envergando um cafet azul-celeste, a fumar atravs de uma elegante boquilha em bano, 
com as unhas vermelhas to compridas que era um prodgio conseguirem lidar com as teclas da mquina de escrever. com o cabelo louro escondido, o rosto tinha um ar 
muito mais velho, com a maquilhagem seca e empastada nas rugas  volta dos olhos e boca. No entanto, as suas feies ganharam vida quando Fitz e Alba entraram e 
as suas faces ganharam uma tonalidade rosada e natural.
- Entrem, meus queridos - disse langorosamente, acenando-lhes e fazendo sinal para se porem  vontade. - Mas que balbrdia que vocs os dois estavam a fazer l fora. 
Vejo que o velho Reed ficou preso na lama. Gostava de t-lo visto a safar-se dessa... - riu-se e aspirou longamente o cigarro.
Fitz sentia-se nervoso por estar na companhia da mulher com quem sonhava h tanto tempo. Sentou-se no sof de veludo cor de laranja como se estivesse numa entrevista 
para um emprego, tamborilando com os dedos. Alba deixou-se cair no monte de almofadas de seda alegremente coloridas empilhadas no cho, cruzando as pernas debaixo 
dela, e acendeu um cigarro. Observou Fitz com os seus olhos estranhamente claros, pensando como  que ele iria resolver o seu problema. O barco cheirava fortemente 
a incenso. Viv acendera velas e dispusera-as em taas de vidro em torno da pequena sala de estar. As luzes estavam diminudas e ouvia-se uma msica suave. Alba observou-o 
atravs do fumo. Era atraente, com um ar muito aristocrtico: olhos inteligentes, com uma centelha de humor; um sorriso largo e contagiante; um queixo e uma linha 
de maxilar fortes; mal-arranjado, cabelo encaracolado cor de palha que no via uma escova h muito tempo. Gostou logo dos seus olhos. Eram honestos e doces, como 
acar amarelo, com um ligeiro toque de pimenta. Detestava homens cuja bondade os tornava estpidos. Era bvio que ele no era desses. Naquele momento, parecia apenas 
ansioso e ela sentiu pena dele. Na sua companhia, os homens dividiam-se em duas categorias: os que a assediavam e os que eram demasiado decentes para o fazer. Fitz 
pertencia, claramente,  segunda categoria, que era a sua preferida. At  data, nunca encontrara um homem que pertencesse  terceira: os indiferentes.
- Ento, Fritz - comeou ela, numa voz imperiosa. - Onde  que entras na vida de Viv e porque  que ainda no te conhecia?
-  Fitz - corrigiu em tom srio. - Diminutivo de Fitzroy. E sou o seu agente literrio.
Viv entrou na sala com uma das garrafas de vinho de Fitz e trs copos.
- Querido, tu s muito mais do que meu agente. Tambm  meu amigo - acrescentou para Alba. - Mantive-o escondido, de propsito. S estou a partilh-lo contigo esta 
noite por uma questo de amabilidade, mas no te iludas, vou ficar muito zangada se o roubares, minha querida.  que Fitzroy  uma daquelas pessoas com quem podemos 
sempre contar para nos pr um sorriso nos lbios, mesmo quando h muito poucas razes para sorrir. Foi por isso que o convidei. Pensei que estavas a precisar que 
te animassem.
Fitz retraiu-se, no se sentia muito divertido. Para comear, tinha a boca seca. Talvez um pouco de vinho o descontrasse. Ainda bem que tinha trazido o dele...
- Oh, o Reed do Rio j tratou disso - replicou Alba, sem pensar como  que as suas palavras iriam soar. Fitz perdeu o nimo. - Quase rebentei a rir quando vi que 
o barco tinha ficado encalhado. - Depois, brindou Fitz com o seu sorriso rasgado e malicioso, e ele sentiu o nimo voltar. - Ganhmos o dia, no foi? Sem o nosso 
estratagema, de certeza que ele tinha perdido o emprego. L se acabavam as idas de lancha a Wapping. Ia ter saudades disso.
- Que histria foi aquela de uma cabea a flutuar?
- Oh, o Revel, um dos rapazes que trabalha com ele, descobriu um brao a flutuar no Tamisa. Que horror! - Levantou o queixo e riu-se com vontade. - Eu disse-lhe 
para me avisar se, por acaso, encontrasse a cabea. Adorava mand-la ao Bfalo dentro de uma caixa.
- Ah, o Bfalo - suspirou Viv, afundando-se na poltrona. -  a madrasta demonaca de quem te falei.
Alba no ficou preocupada com os mexericos de Viv; era natural que as pessoas falassem sobre ela.
- Acho que conheo o gnero. Uma pessoa capaz, mas insensvel.
- Precisamente - concordou Alba, sacudindo a cinza para um dos pratos verde-limo de Viv. - O que  que vamos fazer em relao a ela?
- Tal como um bom livro, precisamos de um enredo - disse Viv, com um ar importante. - Sendo eu a escritora, tomei a liberdade de arranjar um.
- Nunca desapontas o teu pblico - disse Fitz jovialmente, sentindo-se culpado ao lembrar-se que se tinha esquecido de telefonar aos franceses.
- Se for parecido com os teus livros - disse Alba, que nunca lera nenhum - deve ser fascinante!
Viv fez uma pausa para efeito dramtico, bebeu um longo gole de vinho e, depois, comeou a falar muito lentamente, velando as consoantes:
- Nunca te vais livrar do Bfalo. Tambm no conseguirs ganhar o afecto do teu pai, se estiveres sempre a discutir com ele. No, na verdade  muito simples. Vais 
passar o fim-de-semana a Hampshire com o Fitzroy.
- com o Fitz?
- Comigo? - disse Fitz, engolindo em seco, entusiasmado por ter sido includo.
- Sim. Vais apresentar aos teus pais o teu novo namorado perfeito.
Fitz respirou fundo para controlar a excitao. Gostava mais deste enredo do que de qualquer outra coisa que ela tivesse escrito.
- Ests a ver, querida - disse ela, virando-se para Alba. - Sempre foste a filha pouco convencional e rebelde. Agora, vais aparecer com o homem mais convencional, 
encantador e apropriado. Fitzroy ser tudo aquilo que eles considerarem conveniente e respeitvel. Vai jogar bridge e tnis, fazer festas aos ces, beber um vinho 
do Porto depois do jantar com o teu pai, falar sobre arte, literatura, poltica e as suas opinies sero iguais s deles. Que coincidncia! O pai dele tambm combateu 
na guerra, precisamente em Itlia. Ser que se conheciam? Onde  que as suas tropas estavam estacionadas? Fitzroy vai insinuar-se junto de Thomas Arbuckle, que lhe 
vai ficar to grato por ele namorar a filha problemtica que acabar por baixar a guarda. Talvez discutam a guerra enquanto fumam um charuto, depois do jantar, de 
homem para homem, depois das mulheres terem ido para a cama. Ele vai confiar a Fitzroy a histria do seu passado. Sim, j consigo ver tudo a acontecer. - Esticou 
os dedos e moveu lentamente a mo para conseguir mais efeito. - J so altas horas de uma noite lmpida e estrelada. Thomas sente-se melanclico e no h nada mais 
eficaz do que a lisonja para despertar num homem o desejo de abrir o corao. Se h algum capaz de arrancar um velho teimoso  sua concha e de conquistar a sua 
confiana, esse algum s tu, Fitzroy. Sir Fitzroy Pode-Tudo.
Ps o cigarro entre os lbios, antes de expelir o fumo numa baforada longa e fina, claramente excitada com a sua apresentao.
Fitz estava agora sentado, inclinado para a frente, com os cotovelos em cima dos joelhos.
- Deixa-me levar isto um bocadinho mais longe, Viv - disse, entrando no esprito da coisa.
- com certeza, meu querido.
- Depois de eu descobrir os pormenores, ainda falta fazer uma coisa - afirmou, muito srio.
Alba, que tinha ficado calada e atenta durante todo aquele tempo, perguntou:
- O qu, Fitz?
- Se queres mesmo saber a verdade sobre a tua me, ento tens de ir a Itlia.
Alba franziu os olhos. Embora aquele pensamento lhe tivesse ocorrido muitas vezes, nunca imaginara faz-lo sozinha. Nunca tinha feito nada sozinha. Pensou em Fitz. 
Era bem-parecido, encantador, atencioso e era bvio que estava apaixonado por ela. Deixa-me levar isto um bocadinho mais longe, Fify pensou. Tu vais comigo.


CAPTULO QUATRO

Depois do jantar e da terceira garrafa de vinho, mudaram-se para o convs para se deitarem sob as estrelas que espreitavam de vez em quando por detrs de espessas 
nuvens negras. Estava frio, por isso deitaram-se bem juntinhos, tapados com um cobertor, a olhar para o cu, em vez de olharem uns para os outros. Depois de tanto 
riso, era inevitvel que o vinho, combinado com a beleza da noite tempestuosa, despertasse neles uma certa melancolia. Viv pensou no ex-marido e perguntou a si mesma 
se os seus livros tinham substitudo os filhos que nunca tivera. Fitz no conseguia pensar noutra coisa, a no ser no corpo morno de Alba comprimido contra o seu 
e na ideia de desempenhar um papel to importante na sua redeno, enquanto Alba enchia o vazio da sua alma com a imagem do rosto doce da me.
- Nunca conheci o amor incondicional de uma me - disse ela, de repente.
- Eu tive-o - disse Fitz. - E  a coisa mais maravilhosa que h no mundo.
- Fala-me sobre isso, Fitz! Por que razo  assim to maravilhoso? - perguntou Alba, sentindo o peito esmagado por um objecto invisvel, macio e pesado.
Fitz suspirou. Sempre o tomara como certo. Agora, a sua mente evocava imagens desses tempos de mido, quando corria para os braos da me  procura de consolo, e 
sentiu-se desesperadamente triste por Alba, que nunca conhecera isso.
- Em criana, sabes que s o centro do mundo da tua me - comeou ele. - No h nada mais importante do que tu. Ela  capaz de sacrificar tudo por ti, e f-lo muitas 
vezes, porque a tua sade e felicidade so muito mais importantes do que as dela. Em adulto, sabes que, faas tu o que fizeres, por pior que seja o teu comportamento, 
ela vai amar-te para sempre. Para a nossa me, somos brilhantes, espertos, bonitos e especiais. No posso falar por toda a gente, s por mim, mas acredito que  
assim que deva ser. A minha me  a minha amiga mais querida. O meu amor por ela tambm  incondicional. Mas os filhos so egostas. No pem as mes em primeiro 
lugar. Talvez o devessem fazer.
- Eu gostava de ter tido um filho - disse Viv calmamente.
- A srio, Viv? Gostavas? - Fitz nunca a ouvira expressar o desejo de ter filhos.
-  um desejo enterrado bem l no fundo, Fitzroy, e a maior parte do tempo nem o ouo. Mas com uma noite to bonita e ao p de amigos, comeo a pensar no valor da 
vida e na minha prpria mortalidade.  nessa altura que sinto que falhei num aspecto muito importante. Mas estou velha e esses pensamentos inteis s servem para 
nos entristecer...
- Terias dado uma boa me - disse Alba com sinceridade. - Quem me dera que tivesses sido tu a casar com o meu pai, em vez do Bfalo.
- No me parece que gostasse do teu pai - replicou Viv, dando uma pequena risada.
- No, tambm no me parece.
- Conhece-lo? - perguntou Fitz.
- No, mas digamos que no gosto do que ouo dizer sobre ele, nem sobre a mulher.
- Eu c reservo a minha opinio para depois de os conhecer - disse Fitz.
- Ento sempre vais? - perguntou Alba.
Ele queria responder que faria qualquer coisa por ela, mas Alba j devia estar farta de ouvir homens a dizerem-lhe isso, por isso limitou-se a replicar que no perderia 
aquela oportunidade por nada deste mundo.
Ficaram deitados no convs at as estrelas se retirarem e o cu ficar mteiramente nublado, dando origem a um chuvisco leve e persistente. O barco comeou a balouar, 
 medida que o rio corria mais depressa, e a chiadeira e as pancadas surdas intensificaram-se de tal forma que Viv Decidiu que nem sequer ia tentar adormecer; ia 
antes sentar-se  secretria e escrever outro captulo. Sem o saber, Alba tinha aberto uma ferida antiga. No valia a pena tentar fech-la durante a noite; s a 
luz do dia o podia fazer e no lhe apetecia nada ficar na cama a remoer velhas tristezas.
Deu-lhes as boas-noites e foi para dentro, onde as velas j estavam todas derretidas e o gramofone parara. Ainda pairava no ar o cheiro a incenso e havia outra garrafa 
de vinho no frigorfico. Tirou o turbante e o cafet e vestiu um roupo confortvel. Tirar a maquilhagem era sempre uma experincia que a fazia recuperar a sobriedade. 
Sem ela, ficava com um aspecto avelhentado. S olhava de relance para o espelho quando no podia deixar de ser e massajava a pele cansada com um creme espesso que 
prometia operar milagres e inverter os ponteiros do relgio. Ela gostaria de poder fazer o tempo recuar. Faria tudo outra vez, mas de forma diferente.
O amor era uma coisa efmera. Pensava que era muito melhor escrever sobre ele do que viv-lo. Agora, j era demasiado velha para ter filhos e demasiado intolerante 
para viver com algum. Ainda era capaz de dar com um homem j com filhos, que Deus a livrasse, e ter uma enteada como Alba. Secretamente, sentia alguma simpatia 
pelo Bfalo. Alba era difcil de controlar e egocntrica. S esperava que Fitzroy fosse capaz de dominar o seu terno corao. Merecia melhor do que a Alba. Ele precisa 
 de uma coisa certa, pensou. Uma mulher de fibra que tome conta dele, e no de uma Alba que s pensa em si mesma.
Fitz acompanhou Alba at ao barco dela. Desejava que fosse na outra ponta do Embankment, para poderem caminhar juntos sob o leve chuvisco e conversar. Havia tantas 
coisas que ele lhe queria perguntar. A arrogncia dela era sedutora, mas o que o atraa era a sua fragilidade. Queria ser o seu cavaleiro de armadura resplandecente. 
Queria ser aquele a quem ela ficasse presa.
Quando chegaram  porta, ela virou-se para ele e sorriu, no com aquele seu habitual sorriso sedutor, mas com o sorriso triste de uma rapariguinha solitria.
- Queres ficar? No quero ficar sozinha esta noite.
Fitz estava prestes a abra-la, a beijar aqueles lbios carnudos e a dizer-lhe que ficaria para sempre se ela quisesse, mas sentiu alguma coisa l dentro que lhe 
dizia que, se ficasse, seria apenas como todos os outros.
- No posso.
Os olhos de Alba abriram-se de espanto. Nunca ningum recusara tal oferta.
- S para dormir - explicou, perguntando a si mesma porque  que uma pessoa como ela estava reduzida a implorar de forma to humilhante.
- Tenho uma reunio logo de manh e deixei a pasta em casa. Desculpa - murmurou de forma pouco convincente, lembrando-se que deixara Sprout fechado na cozinha. - 
No  que no queira - acrescentou, quando viu os lbios dela crispados de fria.
- Bem, ento boa noite - disse ela friamente, fulminando-o com o olhar, antes de desaparecer dentro do barco e trancar a porta atrs de si.
Fitz fez o caminho de volta e tentou lembrar-se onde  que tinha estacionado o carro. Sentia-se infeliz. Ela tinha-lhe aberto o corao no convs do barco da Viv. 
Tinham ficado ntimos e agora separavam-se como dois estranhos. Apetecia-lhe voltar atrs e bater-lhe  porta, chegando a ensaiar aquilo que lhe diria: Pensei melhor... 
Mudei de ideias... Sou um louco por ter posto o trabalho antes de ti... Quero partilhar a tua cama e a tua vida... Amo-te loucamente... Estava embriagado e emotivo 
e no conseguia encontrar o carro.
A noite comeara to promissora, pensou tristemente. Provavelmente, ela j no ia querer apresent-lo como seu namorado, agora que ele a rejeitara de forma to deselegante. 
Tinha frio, sentia-se tonto e continuava sem encontrar o carro. Normalmente, costumava estacion-lo ali ao p, naquela linha amarela. Andou para cima e para baixo, 
desnorteado, na esperana de o ver aparecer como que por magia. Finalmente, depois de j estar um bom bocado no mesmo stio, a olhar inexpressivamente para a estrada, 
fez sinal a um txi. No conseguia aguentar a ideia de ir a p at casa.
Deixou-se cair no banco forrado a pele e atirou a cabea para trs.
- Clarendon Mews, por favor.
O motorista ps o taxmetro a trabalhar e arrancou.
- Est um bocadinho molhado - disse o taxista, na esperana de uma conversa. Tinha sido uma longa noite...
-- No me importo - murmurou Fitz - Faria tudo por ela!
- Ah, uma amiga - retorquiu, com ar de entendido. Estava habituado a que os coraes desfeitos carpissem as suas mgoas no banco de trs.
- O poder que elas tm... Basta um olhar, um pestanejar, e ficamos feitos em papa.  assim que me sinto, um bocado de papa.
- No seja duro consigo, chefe! Ela no merece!
- Ah, merece, merece! - suspirou Fitz de forma melodramtica. O txi curvou para a esquerda e Fitz acompanhou o movimento, deixando a cabea rolar sobre o banco 
como um melo. - Ela no  uma pessoa qualquer.  diferente de todas as outras.
- Isso  o que todos dizem - riu-se o taxista. - Tambm pensava isso da minha senhora. Agora, vejo que est sempre a pegar comigo, tal qual como as outras. Quem 
quer que tenha inventado o amor, tem um sentido de humor muito perverso. O problema  que, quando comeamos a ver as coisas com clareza, j  tarde demais: estamos 
casados e ela anda atrs de ns a lamentar-se da triste sorte que lhe coube. Se no fosse esse truque do amor, no havia homem que entrasse na igreja. Maldito trapaceiro, 
mas eu tambm ca que nem um patinho.
- No est a perceber. Eu estou a falar de Alba Arbuckle. :
- Belo nome, Alba.
-  italiano.
- Se eu fosse a si, no confiava nessa gente. No pudemos confiar neles durante a guerra. Ficaram  espera, at ver quem estava a ganhar, e depois puseram-se do 
lado dos alemes. Grandes palermas! Mas ns mostrmos-lhe, no foi? Ensinmo-los a no desrespeitar os ingleses.
- Ela  demasiado jovem para saber o que se passou na guerra - disse Fitz, rolando para o outro lado quando o txi virou para Clarendon Mews.
- Qual ? - perguntou o taxista, abrandando e inclinando-se para a frente, para espreitar atravs do vidro, onde as escovas limpa pra-brisas chiavam hipnoticamente.
- A segunda guerra,  claro - replicou irritado.
- No  isso. Qual  o nmero da porta? - repetiu o taxista, abanando a cabea. Era sempre quela hora da noite que apanhava os bbedos. Este era todo janota e no 
parecia violento, apenas melanclico.
Fitz abriu os olhos. Inclinou-se para a frente e viu o seu carro estacionado precisamente  porta do nmero 8.
- Bolas! - exclamou, franzindo o sobrolho. - Como  que diabo veio aqui parar?
No seu estado embriagado, Fitz no conseguia ver a diferena entre as moedas e acabou por pagar muito mais, para satisfao do taxista. L conseguiu enfiar a chave 
na fechadura e entrou aos tropees. Estava demasiado cansado para se despir, por isso achou melhor deitar-se uns minutos em cima da cama, para assentar a cabea. 
Quando abriu os olhos, eram dez da manh e o telefone estava a tocar.
Soergueu-se apoiado num cotovelo e agarrou no auscultador. Tossiu para aclarar a voz.
- Daqui fala Fitzroy Davenport. - Houve uma pausa. - Estou?
- Ol. - disse a voz rouca de Alba.
Fitz sentou-se de repente, incapaz de conter a alegria:
- Ol - respondeu alegremente. - Como te sentes?
- Ensonada - ronronou, com voz de quem ainda estava na cama.
- Eu tambm - disse, mas depois lembrou-se que lhe dissera que tinha uma reunio logo de manh. - Estou a p desde que amanheceu. Gostei muito da noite de ontem, 
mas o vinho fez das suas. Acho que foi aquela ltima garrafa que me toldou as ideias.
- Eu estou com uma horrvel ressaca - suspirou Alba. - Na verdade, pouco me recordo do que se passou ontem.
 claro que era mentira, mas Alba no queria lembrar-se que Fitz a rejeitara. Este sentiu uma onda de desapontamento.
- No entanto - prosseguiu com um suspiro sonolento - lembro-me do plano da Viv. Era muito bom. Continuas disposto a participar?
Fitz cavalgava agora a crista da onda, em vez de se deixar submergir por ela.
-  claro que continuo.
- ptimo. vou telefonar ao Bfalo e marcar para este fim-de-semana. Vai ser um tdio, acredita.  melhor encontrarmo-nos antes, para discutirmos o plano de aco.
- Concordo.
- Ento, que tal quinta-feira  noite?
- Eu levo-te a jantar fora - sugeriu, tentando compensar o facto de a ter desiludido na noite anterior.
- No, eu arranjo alguma coisa. Vem s oito.
Alba continuava furiosa com Fitz, mas precisava dele. Alm disso, o plano de Viv era formidvel. Assim que Fitz conseguisse saber pormenores sobre Valentina, iriam 
ambos para Itlia, onde ela conheceria a famlia. Conseguia imaginar a cena: as lgrimas, os abraos e, depois, as histrias sobre a vida da me, pelas quais ansiava. 
Haveria fotografias. Talvez irmos e irms, sobrinhos e sobrinhas, tios e tias. Cada um deles teria memrias que partilharia com ela. Assim, conseguiria finalmente 
preencher as lacunas e regressar inteira. Iria visitar o tmulo, pr l flores e o seu mundo passaria a ter tudo no stio certo.
Quando quinta-feira chegou, Alba certificou-se que Rupert passava por l primeiro para tomar uma bebida. Chegou cedo, com um grande ramo de rosas vermelhas, cujo 
cheiro o precedeu, trazido pela brisa. Alba recebeu-o  porta, envergando um roupo de seda rosa-velho que mal lhe chegava s coxas. As suas longas pernas brilhantes 
culminavam num par de farfalhados chinelos cor-de-rosa, que deixavam ver as unhas perfeitas, igualmente pintadas de rosa, cuidadosamente arranjadas aquela tarde, 
em Chelsea. Ela cheirou as rosas, juntamente com a colnia familiar de Rupert, puxou-o pela gravata e bateu com a porta. Depois, pousou os lbios nos dele e beijou-o. 
Rupert deixou cair as flores. Ela agarrou-lhe na mo e levou-o l para cima, para o pequeno quarto por baixo da clarabia. Tinha chovido muito na noite anterior 
e durante grande parte do dia, mas o cu tinha agora uma tonalidade azul clara, onde flutuavam nuvens cor-de-rosa e cinzentas.
Deitou-se na cama e Rupert desembaraou-se das suas roupas. Observou-o com plpebras pesadas, o longo cabelo castanho espalhado  volta do rosto, como um halo. As 
faces estavam rosadas: os lbios entreabertos, expectantes, lascivos. Assim que se despiu, saltou para cima dela, devorando a sua carne como um leo devora a sua 
presa. Ela fechou os olhos e afagou-lhe calmamente o cabelo, enquanto ele descia pelo seu corpo, lambendo-lhe a pele  medida que o fazia.
Quando faltava um quarto para as oito, estavam deitados, os corpos entrelaados, congestionados e despenteados, a sorrir de contentamento.
-  uma pena que tenhas de te ir embora - disse ela com um suspiro.
- Da prxima vez, no marques nenhum jantar. Assim, podemos passar a noite toda juntos.
- Eu sei. Foi uma palermice.  melhor vestirmo-nos. No quero que o Fitz me veja assim.
- Quem  que tu disseste que era esse tal Fitz? - perguntou Rupert, tentando no parecer ciumento. No fim de contas, ele partilhava a cama dela e o Fitz no.
-  o agente literrio da Viv - replicou com indiferena, levantando-se com um bocejo. -  um chato, mas estou a fazer um favor  Viv.
- Estou a ver - disse ele, mais tranquilo.
- Ele vai chegar a horas e vai-se embora cedo. Depois, posso ter uma boa noite de sono. Estou exausta! s c uma fera, Rupert!
- Rupert vestiu as calas, sentindo novamente o volume contra o tecido.
- Que pena ter de o guardar - respondeu com um sorriso. - J est outra vez pronto para entrar em aco.
- Mas eu no.
Olhou para o relgio em cima da mesa-de-cabeceira. Faltavam cinco minutos para as oito. Conhecendo Fitz, ele ia estar  entrada dentro de trs minutos, precisamente 
a altura em que Rupert se iria embora, pensou ela, triunfante.
Fitz tinha comprado flores, uns longos ps de jarros, e uma garrafa de vinho. Vinho italiano, para preparar o fim-de-semana, que ele baptizara de "Itlia reconquistada". 
Tinha borrifado a cara com gua-de-colnia e vestira uma camisa nova que o seu colega, que gostava muito de moda, lhe recomendara. Sentia-se atraente e optimista. 
O simples facto de Alba lhe ter telefonado mostrava que lhe tinha perdoado. Se ela voltasse a fazer a oferta, o que muito duvidava, desta vez aceitaria.
Desceu o ponto, com o corao suspenso, a respirao rpida e excitada. Um momento mais tarde, estava  sua porta. Tinha acabado de levantar a mo para bater  
porta quando esta se abriu para deixar passar Rupert, que lhe sorriu afectadamente com ar de superioridade, antes de subir o ponto, a assobiar, em direco ao Embankment. 
Quando se virou, Alba sorria para ele. Por mais zangado e humilhado que estivesse, o seu corao aqueceu com o calor daquele sorriso. Era suficientemente inteligente 
para saber que ela tinha planeado aquele momento para o pr no lugar; para lhe mostrar que no se importava. E funcionara. Sentia-se mesmo humilhado. Quando lhe 
retribuiu o sorriso, f-lo com acanhamento, entregando-lhe as flores.
- Oh! So lindas! - disse ela alegremente. - Entra.
Quando entrou, teve de passar por cima das rosas que estavam no cho.
-  o meu dia de sorte - disse Alba com uma risadinha, apanhando-as. - Quantas raparigas recebem dois ramos numa s noite?
A palavra galdria veio-lhe  cabea, mas Fitz corou, espantado por ser capaz de pensar uma coisa dessas de Alba.
- Tu mereces os dois - disse, decidido a no se mostrar incomodado.
Seguiu-a pelo corredor at  cozinha. No importava quem  que tinha rejeitado quem, pensou ele com um suspiro, observando o seu belo traseiro nas calas de ganga 
justas; a atitude dela era a de quem ganhava sempre.
O seu pequeno barco-casa estava uma confuso. Entreviu, de relance, o quarto l em cima. Havia roupas espalhadas por cima da cama francesa antiga, que se estendiam 
at  balaustrada e seguiam pelas escadas abaixo. Havia um grande armrio aberto, com as gavetas puxadas para fora, de onde saam cuecas de renda e combinaes de 
seda brilhante todas remexidas, como presentes abertos  pressa. No cho do corredor, havia um par de sapatos de plataforma cor-de-rosa, como se ela tivesse acabado 
de os descalar. Na sala, viam-se revistas de capa lustrosa atiradas de qualquer maneira para cima dos sofs cor de marfim. H semanas que o p no era limpo... 
O lava-loua da cozinha estava cheio de pratos e chvenas. As divises eram pequenas, decoradas em tons claros de rosa e azul, com tectos baixos. O lugar cheirava 
a perfume e a parafina, combinado com o agradvel aroma a madeira encerada. No entanto, apesar do caos, o barco, tal como Alba, tinha um enorme charme.
Na cozinha, Alba vasculhou os armrios  procura de jarras. No encontrando nenhuma, colocou um ramo de flores num jarro e o outro na cafeteira, enquanto conversava 
sem parar sobre as coisas que Reed do Rio descobrira no Tamisa, infelizmente no encontrara a cabea, nem sequer o outro brao... Depois, encheu um copo com o vinho 
italiano de Fitz para cada um deles.
- Que simptico teres-te dado ao trabalho de o trazer - disse ela.
- Muito apropriado.
-  para comemorar o incio da "Itlia reconquistada" - replicou, erguendo o copo.
Os olhos claros de Alba escureceram e ela pareceu ficar repentinamente emocionada.
-  a coisa mais bonita que alguma vez algum fez por mim. A tua f  total e ests a comemorar a minha deciso de abrir feridas antigas.
-  mais do que o meu pai e a minha madrasta fariam. Juntos, vamos cativ-los aos dois. O meu pai vai abrir-se contigo. Ele vai adorar-te. A Viv disse-me que toda 
a gente te adora, que s esse tipo de homem.
- No sei se  uma coisa boa ser esse tipo de homem - disse ele, encolhendo os ombros. - J tive dois casamentos e s tenho quarenta anos. J fui rico, mas foi tudo 
para as mos das mulheres por quem me apaixonei. Ainda me sinto culpado por lhes ter despedaado os coraes e dado cabo das suas vidas.
- s demasiado bom - disse Alba com sinceridade. - Eu c no tenho conscincia.
- No pareces pessoa para magoar seja quem for.
- Oh, Fitz!
- Bem, tenho a certeza que o teu sorriso curaria qualquer ferida que pudesses infligir.
Ela deu uma gargalhada gutural e acendeu um cigarro.
- s terrivelmente romntico?  esse o teu problema?
Alba sentou-se  mesa, afastando pequenos frascos de verniz para as unhas. Fitz procedeu da mesma forma.
- Sou irremediavelmente romntico, Alba. Quando me apaixono, no consigo voltar atrs. Acredito no amor e no casamento. S que no sou muito bom em nenhum deles.
- Seguramente que no acredito no casamento, havia de ser muito m nisso. Quanto ao amor, bem, h muitos gneros diferentes de amor, no h?
Fitz bebericou o vinho e sentiu-se melhor.
- Alguma vez estiveste apaixonada, Alba? Perdidamente apaixonada?
Ela pensou na pergunta, inclinando a cabea para um lado e olhando de esguelha sob as suas fartas pestanas pretas.
- No - disse em tom confiante. - No me parece.
-- Bem, ainda s jovem.
-- Tenho vinte e seis anos. A Viv diz-me que eu tenho de me apressar, se quiser ter filhos.
- Queres ter filhos?
Alba franziu o nariz.
- No sei. Ainda no. De uma maneira geral, no gosto muito de crianas. So queridas e isso tudo, mas so muito exigentes e cansativas,  bom olhar para elas, mas 
s durante um minuto ou dois.
Riu novamente e Fitz riu-se com ela. O seu desprendimento era encantador. Ela estava incrivelmente  vontade consigo mesma. Invejou-lhe a descontraco. Deve ser 
to fcil ser a Alba, pensou.
- Vais sentir as coisas de outra maneira quando forem os teus filhos - disse ele, repetindo o que ouvira outras pessoas dizer.
- Oh, assim o espero. Gostava de ser uma boa me!
A voz morreu-lhe nos lbios e baixou os olhos, fixando o copo com ar desolado.
- Penso que a minha me teria sido um bom exemplo. Mas nunca saberei - rematou com um sorriso triste.
- Tu vais saber - disse Fitz com convico, esticando-se para lhe segurar a mo. - Porque ns vamos descobrir tudo sobre ela.
- Achas mesmo que sim?
- Quando acabarmos, vamos conhec-la muito bem, minha querida.
- Oh, Fitz! Espero que tenhas razo. Toda a minha vida desejei conhec-la... - No retirou a mo, mas olhou-o ansiosamente. - Confio em ti, Fitz, sei que no me 
desapontars.
E Fitz rezou silenciosamente, a quem quer que o estivesse a ouvir, para que isso nunca acontecesse.


CAPTULO CINCO

Sbado de manh, bem cedo, Fitz foi buscar Alba no seu Volvo, com Sprout deitado todo contente na parte de trs, a ver as gaivotas atravs do vidro. Teve de esperar 
c em baixo, enquanto ela se vestia. Conseguia ouvi-la l em cima, a andar de um lado para o outro, enquanto decidia o que havia de vestir. Ele tinha reparado nas 
suas roupas. Eram cuidadosamente escolhidas e sempre na ltima moda. No sabia por que razo ela se dava a esse trabalho. Seria igualmente sedutora se vestisse uma 
saca velha.
Espreitou atravs de uma das janelas da sala que dava para o local onde o barco de Viv estava, imvel e silencioso. Conseguia imagin-la a escrever  mquina, vestindo 
um roupo comprido e largo, com o cigarro a fumegar num daqueles pratos verde-limo. Tambm pensou na quantidade de vezes em que se sentara no seu convs, a tentar 
ver o interior do barco de Alba, na esperana de uma apario rpida, de uma pista, qualquer coisa... Lembrou-se do aviso de Viv: "No te apaixones, Fitzroy", dissera 
ela. Demasiado tarde, pensou ele com um suspiro.
No ficara desapontado na noite em que tinham jantado juntos. J estava  espera de se ir embora a seguir e de guiar at casa. Pelo menos, no se tinha embriagado 
nem perdido o carro. Tinham conversado at muito depois da meia-noite, com os estmagos cheios de risotto que ele cozinhara; Alba no tinha sido capaz de arranjar 
nada, apesar do seu entusiasmo. Ela tinha-lhe contado sobre a sua infncia, sobre a horrvel Madrasta e a sensao de isolamento de que sofrera toda a sua vida.
Ele tentara explicar-lhe que era natural o pai ter tentado refazer a vida aps a perda da primeira mulher. A tragdia da sua morte devia t-lo deixado destroado. 
Ainda por cima, ficar com um beb pequenino...
No teria conseguido cri-la sozinho. Tinha precisado da Margo. Alba era apenas uma vtima inocente da sua determinao em construir uma nova vida e esquecer o passado.
- Estou a analisar a situao do ponto de vista de um homem -- dissera-lhe. - Isso no significa que ele te ame menos, s no quer que o arrastem de volta ao passado 
e, provavelmente, tambm te quer proteger dele.
Alba ficara muito calada.
- Talvez tenhas razo - admitiu, por fim. - Mas isso no muda aquilo que sinto em relao ao Bfalo. Tenho muita pena do meu pai. Ele esconde a sua infelicidade 
por detrs de uma alegria superficial. O meu pai  uma pessoa bonacheirona e dedicada. Uma bebida s seis, jantar s oito e meia, um copo de whisky e um charuto 
no seu escritrio, s dez. Nunca desperdia um charuto, fuma-o sempre at ao fim, at quase lhe queimar os dedos. Protege-se na estrutura da rotina. Sempre o mesmo 
fato de trs peas em tweed durante o dia, o casaco de andar por casa e os chinelos  noite. Almoo de domingo na casa de jantar, jantar de domingo na sala, junto 
 lareira. A cozinheira faz o mesmo assado todos os domingos, embora haja sempre alguma coisa de especial quando o vigrio vem almoar. Perna de carneiro ou vaca, 
pudim caseiro ou crumble de ma.  tardinha, vai dar um passeio depois de chegar no comboio das 18.30, que vem de Londres, agarra num pau e inspecciona a propriedade. 
Conversa com o administrador, discute sobre faises e plantao de rvores.  sempre a mesma coisa, nada muda. Depois, encontrei o esboo, que ele no esperava voltar 
a ver, e fi-lo voltar ao passado. Pobre homem, ele no sabe o que fazer comigo. Mas tenho a certeza que contigo vai falar. Ele  um homem  moda antiga e tu s o 
gnero dele.
Fitz no sabia se isso era uma coisa boa. Provavelmente, aos olhos de Alba, no era. Viv descrevera Thomas Arbuckle como um "velho fssil", mas, se era um jovem 
no tempo da guerra, s devia ter uns cinquenta e tal anos... No se podia dizer que fosse velho.
Fitz afastou-se da janela e dos seus pensamentos quando Alba apareceu  porta. Vestia umas simples calas e um casaco de bombazina bege sobre uma camisola de gola 
alta em caxemira branca. Tinha apanhado o cabelo em rabo-de-cavalo, deixando a longa franja cada sobre a testa e as mas-do-rosto. No se deu ao trabalho de pedir 
desculpa por toda aquela confuso.
- Estou pronta. Vesti as minhas roupas mais conservadoras, para condizer contigo.
Fitz podia ter ficado ofendido, caso ele prprio no se considerasse conservador. No entanto, o seu comentrio s veio, mais uma vez, sublinhar as diferenas gritantes 
entre eles e o facto de, provavelmente, ela no se sentir atrada por ele. Mas no ficou desapontado, pois, pelo menos, eram amigos e isso era melhor do que ser 
deixado l fora, a apanhar chuva.
- Ests linda - disse, olhando-a de cima a baixo com ar apreciativo.
Ela esboou um grande sorriso.
- Gosto quando fazes isso - replicou, virando-se e seguindo em direco  porta.
- Isso o qu?
- Quando me olhas de alto a baixo dessa maneira. Consigo sentir os teus olhos como um par de mos. Fazem-me ccegas.
Estava agradvel l fora. A brisa primaveril danava sobre o rio, provocando uma pequena ondulao. As gaivotas flutuavam no ar e os seus gritos interrompiam o rudo 
montono do trnsito.
- Bem, espero que tenhas um carro a condizer com a tua imagem. Nada de carros desportivos. O meu pai desconfia dos homens que tm carros desportivos.
- Tenho um Volvo bastante velho e em mau estado.
-- Parece-me bem - disse, dando-lhe o brao. - Temos de nos apresentar como um casal - acrescentou, quando ele a olhou interrogativamente.
Alba entrou no carro, mas teve de atirar alguns livros e um manuscrito l para trs, para ter espao para se sentar. Para alm do caos literrio, cheirava a co.
- No sabia que tinhas um co - observou, quando ele entrou e ps o motor a funcionar.
-  o Sprout. Est l atrs.
Alba arregalou os olhos.
- Espero que no seja um rato peonhento como os da Margo.
-  um cruzamento entre um springer e um pointer.
- Seja l o que isso significa - suspirou, virando-se para trs para o ver. - Oh, sim, este serve. Ainda bem que  um co a srio. Detesto os latidos esganiados.
- O ladrar do Sprout  muito msculo, garanto-te.
- Graas a Deus, seno tinhas de o deixar c, a menos que estivesse disposto a comer os ratos da Margo ao lanche.
- No ligues, Sprout! Ela no  assim to insensvel.
Sprout suspirou pacientemente l atrs.
- Espera que logo vais perceber, quando os vires. O Bfalo gosta de coisas que possa transportar debaixo do brao.
- O teu pai no, espero eu!
Alba soltou uma gargalhada e deu-lhe uma pequena cotovelada.
- Seu tonto! Ela  forte, mas no  o Hrcules!
Conversaram o tempo todo, enquanto faziam a A30. Quando saram da estrada principal e comearam a descer as vielas estreitas e sinuosas, o campo revelou-se em todo 
o seu esplendor. Os bosques floresciam, com o tempo mais quente, e vibravam com um verde-vivo e fosforescente, que lembrou a Fitz os pratinhos de Viv. O ar era puro 
e adocicado e havia pssaros a voar ou empoleirados nos cabos dos telefones, a descansar da tarefa esgotante de construir os ninhos. Pararam de falar e olharam  
sua volta. A suave quietude da terra era um antdoto refrescante para o bulcio da cidade. Apaziguava a alma. Fazia respirar profundamente, mesmo l do fundo do 
peito. Fitz sentiu que os ombros se descontraam e que todas as coisas fastidiosas que tinha de fazer no trabalho se lhe varriam da cabea. At Alba parecia mais 
calma. com os prados verdejantes como pano de fundo, parecia mais nova, como se no tivessem deixado apenas a cidade para trs, mas tambm a sua sofisticao urbana.
Fitz abrandou a marcha e viraram para o caminho de acesso, que tinha cerca de quatrocentos metros, ladeado por majestosas faias acobreadas, cujos rebentos estavam 
a comear a abrir, deixando ver as tenras folhas vermelhas.  direita, estendia-se um campo, at uma densa floresta. Havia alguns cavalos a pastar, que nem se deram 
ao trabalho de levantar os olhos para ver a origem daquela perturbao, e um casal de coelhos, juntos a um canto, arqueados e de orelhas crispadas, como se estivessem 
a discutir. Fitz estava encantado. Mas nada o podia ter preparado para a beleza da casa.
Beechfield Park era uma grande manso de tijolo vermelho e pedra, com imensa personalidade e encanto. Glicnias e clematites trepavam pelas paredes, com total liberdade 
para irem para onde quisessem. As janelas eram pequenas, mas estavam alerta e vigilantes, como olhos, e tinham imensa graa. O telhado era irregular, curvo, como 
se o esprito da casa se tivesse rebelado contra as linhas rgidas do arquitecto e tivesse esticado e flectido as pernas para se pr mais  vontade. O resultado 
era um edifcio muito caloroso.
-  magnfica! - exclamou Fitz quando o carro derrapou na gravilha e parou em frente da porta principal.
- Era do meu trisav - explicou Alba. - Ganhou-a  mesa de jogo. Infelizmente, tambm foi a que perdeu a mulher, antes dela poder usufruir desta casa.
Alba nunca deixava que a verdade interferisse com uma boa histria.
- Ele perdeu a mulher ao jogo?
- Sim, para um duque rico.
- Talvez ela fosse um pavor.
- Bem, no podia ser grande coisa, para ele estar disposto a perd-la ao jogo... Oh, l vm os ratos - disse Alba, a rir, quando os terriers de Margo saram porta 
fora com o seu ladrar esganiado. - So os amores da Margo. Por amor de Deus, no te sentes em cima de nenhum! Uma vez, o meu tio-av Hennie sentou-se em cima do 
co da minha av e matou-o.
- Um ligeiro faux-pas!
- No descobriram durante uma semana. Ele escondeu-o debaixo da almofada para a governanta o encontrar.
Nesse momento, Margo e Thomas saram do alpendre, com um grande sorriso. Margo chamou os ces com a sua voz grave de comando, batendo nas coxas. Tinha o cabelo grisalho 
e apanhado atrs de qualquer maneira. No usava maquilhagem e a pele estava enrugada e averrnelhada, como seria de esperar de algum que passava muito tempo a montar 
a cavalo.
- Hedge, j aqui! - ordenou. - Tenho muito prazer em conhec-lo, Fitzroy - acrescentou, estendendo a mo. Fitz apertou-lha e sentiu o seu aperto firme e confiante.
- Que casa encantadora que aqui tem, capito Arbuckle - disse Fitz, dando-lhe um aperto de mo.
- Trate-me por Thomas - replicou, rindo com ar bem-disposto. - Espero que no tenham encontrado muito trnsito. As estradas podem ser bastante desagradveis ao sbado 
de manh.
- No houve problema nenhum - retorquiu Fitz. - Viemos sempre a andar, sem qualquer dificuldade.
Thomas beijou a testa de Alba, como sempre fazia, e ela sentiu um enorme alvio por ele no guardar ressentimento depois do ltimo encontro. Margo esboou um sorriso 
tenso. Tinha mais dificuldade em esconder os seus sentimentos.
- Importam-se que deixe sair o Sprout para dar um passeio? - perguntou Fitz. - J  velhote e  particularmente simptico para os pequenotes.
- No subestime os ces pequenos - respondeu Margo. - So mais do que capazes de se defenderem sozinhos.
Fitz abriu a bagageira e um Sprout visivelmente tolhido arrastou-se pesadamente c para fora. Os ces cheiraram-se uns aos outros, curiosos, embora os terriers da 
Margo mostrassem mais interesse por Sprout do que o velho co por eles. Tinha mais vontade de alar a perna no pneu e de cheirar a gravilha do que de brincar com 
aquelas criaturinhas que encostavam o focinho ao seu rabo. Fitz deixou a porta da bagageira aberta, para que Sprout pudesse refugiar-se l quando os terriers comeassem 
a importun-lo demasiado, e seguiu Margo e Thomas para dentro de casa.
- A Caroline vem c depois do almoo e a Miranda j voltou da escola. O pobre Henry est em Sandhurst. Tem sempre muito que fazer - disse Margo, enquanto atravessavam 
o trio em direco  sala.
Fitz estava agradavelmente surpreendido com os pais de Alba. No eram os ogres que ela descrevera, mas sim pessoas do campo, convencionais. A sala estava decorada 
de forma simples, em tons claros de amarelo e bege. Deixou-se cair no sof e, para sua surpresa, Alba posicionou-se ao lado dele, pegou-lhe na mo e apertou-a. Ele 
viu a troca de olhares entre Thomas e Margo. Era bvio que Alba nunca l tinha levado um namorado antes. ;
- Quer beber alguma coisa, Fitzroy? - perguntou Thomas.
Thomas perguntou a si mesmo o que estariam eles  espera que bebesse e, depois, pediu um whisky com gelo. Thomas pareceu ficar agradado e foi at  mesa das bebidas. 
Margo sentou-se no banco junto  lareira e ps um dos ces ao colo.
- Ento, Fitzroy, o que faz? - perguntou, enquanto passava a mo pelo dorso do co.
- Sou agente literrio.
- Ah! - exclamou, impressionada.
- Entre outros, represento Vivien Armitage.
Ela ergueu as sobrancelhas, ao reconhecer o nome. Margo Arbuckle era um exemplo tpico do tipo de leitores de Viv.
- Oh, ela  muito boa - disse. - Eu no tenho muito tempo para ler. Governar esta casa e tomar conta dos meus cavalos leva-me o tempo todo, mas quando tenho oportunidade, 
adoro ler os romances dela. O Thomas gosta de Wilbur Smith, no  Thomas?
- Eu gosto de uma boa leitura. Contudo, hoje em dia tenho mais tendncia para ler biografias - disse, entregando a bebida a Fitz. - Nada como uma histria verdica, 
no ?
- Pois , Fitzroy - comeou Margo - por acaso no ser um dos Davenports de Norfolk?
- Sim - mentiu Fitz.
J que ia mentir, tinha de faz-lo com a maior confiana possvel. Apertou a mo de Alba e ela retribuiu. Estava a gostar daquilo.
- Conhece o Harold e a Elizabeth?
- O Harold  pai do meu primo - respondeu Fitz, embora nunca tivesse ouvido falar de nenhum Harold nem de nenhuma Elizabeth.
- Ah, ento o seu pai ...?
- Geoffrey.
Outra mentira, mas porqu desistir agora?, pensou. Margo semicerrou os olhos e franziu o sobrolho.
- No conheo nenhum Geoffrey - disse ela, abanando a cabea.
- Conhece o... George?
- No.
- E o David?
Aquilo era um jogo.
- Sim - respondeu ela, com os pequenos olhos castanhos a brilhar. - Sim, conheo o David. Casado com a Penelope.
- Isso mesmo - disse Fitz. - A Penelope  uma mulher deveras encantadora.
-- , no ?  uma pena no terem tido filhos - suspirou, esboando um sorriso simptico. - Ento os seus pais tambm vivem perto de Kings Lynn?
- No. O meu pai mudou-se para sul, para Dorset. Mas tem uma propriedade na Esccia. Quando era criana, dividamos o nosso tempo entre as duas casas e tambm pelo 
chal na Sua.
- Faz esqui? - perguntou Thomas, que adorava todos os desportos. No sabia o que o impressionava mais: se a propriedade na Esccia ou o chal na Sua.
Thomas sentou-se na poltrona e tomou um gole de Martini.
- Espero que fique connosco todo o fim-de-semana, Fitzroy. O Reverendo vem c almoar amanh, depois da missa. Joga squash?
-  claro que sim - e era verdade. - Gostava muito de jogar, mas, de preferncia, sem ser com o Reverendo. No me atrevo a jogar com um homem que tem Deus do seu 
lado.
Margo riu-se. Alba estava espantada. O pai estava corado de prazer. Gostavam mesmo dele. A Viv tinha razo. No era por acaso que era uma autora best-seller.
E como se Fitz ainda no os tivesse cativado o suficiente, inclinou-se e pegou num dos cezinhos de Margo.
- A minha me tinha terriers - disse, afagando-lhe o plo. - Comeou a deixar de ir de frias porque no era capaz de deix-los em lado nenhum.
Margo inclinou a cabea para um lado e sorriu compreensivamente.
- E os seus, senhora Arbuckle, so deliciosos.
- Oh, Fitzroy, faz-me sentir to velha. Trate-me por Margo.
- S se me tratar por Fitz.
Nesse momento, Miranda entrou a correr na sala. Era alta e esbelta, com cabelo louro liso, atado num rabo-de-cavalo. Vestia calas e botas de montar e tinha uma 
expresso contrariada no rosto redondo e corado.
- A Summer fugiu outra vez, mezinha! - disse ela, a bufar de irritao.
Margo levantou-se.
- Querida, deixa-me apresentar-te Fitz Davenport, amigo de Alba.
- Oh, desculpe - disse ela alegremente, estendendo-lhe a mo. - Receio bem que a minha gua seja uma "fujona"!
pitz esteve quase a fazer um trocadilho com a alcunha de uma personagem do romance Love in a Co/d Climate, de Nancy Mitford, mas mudou de ideias; provavelmente, 
essa referncia nada diria a algum to jovem.
- Quer ajuda para a fazer voltar? - perguntou, em vez disso.
- Ajuda-nos? - interrompeu Margo - Meu Deus, Fitz,  muito gentil da sua parte. Acabou mesmo agora de chegar de Londres.
- Deixe-me s ir trocar estas roupas por outras que possa encher de lama  vontade. Depois, podemos ir todos juntos, no , Alba?
- Ele fica no quarto amarelo - interrompeu Margo, ao sair da sala.
Alba estava horrorizada. Esperava poder ficar a segurar a cancela aberta, ou qualquer coisa assim. Em criana, tinha sido obrigada a montar e a limpar os arreios, 
mas quando cresceu o suficiente para expressar as suas opinies, fazia um rebulio tal que Margo a deixou em paz, desde que ajudasse na horta, a apanhar e a descascar 
as vagens, que era o menor de dois males. Colher vegetais era uma tarefa mais maadora do que rdua; ela gostava muito mais de fazer outras coisas, como ler revistas 
e brincar com a maquilhagem da cozinheira, mas, pelo menos, era uma ocupao solitria que a deixava sozinha com os seus pensamentos. Ouvia os outros a gritar no 
campo sobranceiro  casa, as suas vozes enrgicas ecoavam pelo vale, e sentia-se grata por no estar no meio deles. Sempre tivera averso a actividades em grupo 
- sobretudo as de famlia. Levou Fitz pelas escadas acima e, quando ficaram sozinhos, irrompeu em comentrios.
- Tu s o maior, Fitz! - exclamou, abraando-o. - J os conquistaste e, sabes uma coisa? Eles tm melhor opinio sobre mim por tua causa. De repente, passei a ser 
tratada como uma adulta.
Fitz saboreou a sensao do seu corpo junto ao dele e dos seus braos em redor da sua cintura, antes de ela se afastar.
- Tu s uma adulta - disse, vendo-a dirigir-se vagarosamente para a janela.
Espreitou para dentro da mala vazia, surpreendido por j ter sido desfeita.
- Foi a senhora Bromley.  a governanta, uma figura esquiva, que raramente se deixa ver, como um ratinho do campo - disse Alba ao ver a sua expresso perplexa.
- Ela desfaz sempre as malas?
- As dos hspedes, sim. Infelizmente, no desfaz a minha, e eu preciso muito mais do que tu, porque sou catica. - Deu uma gargalhada rouca. - No h ratinho do 
campo que consiga correr no meu quarto
- Conseguirei encontrar alguma coisa?
Abriu uma gaveta e descobriu um par de calas e um par de meias muito bem dobrados juntos, como um velho casal na cama.
- Essa  uma pergunta difcil. No sei como  que o crebro dela funciona, presumindo que o tem,  claro! Ela  um fssil!
- Pelo menos, sei onde esto as minhas calas! - disse ele a rir. Depois, abriu o guarda-fatos e encontrou as calas de ganga penduradas num cabide.
- J pensaste como seria horrvel se acabssemos por ficar juntos? Eles iam descobrir que mentiste...
- No tinha pensado nisso - respondeu Fitz, muito srio, mas Alba ria-se como se fosse um absurdo.
- Espero por ti l em baixo - disse Alba, sacudindo o rabo-de-cavalo. - No vou mudar de roupa e tambm no vou atrs de um maldito cavalo num campo cheio de lama. 
Francamente, Fitz, isso vai muito para alm do que seria de esperar. Sabes que ela tem porcos no meio do bosque?
- Porcos?
- Sim, javalis. Seis fmeas e quatro machos num cercado que tem cerca de um acre. Ela acha que lhe vo render bom dinheiro. Esto sempre a fugir e, acredita, no 
vais querer encontrar o Boris numa noite escura.  assustador. Alm disso, tem os maiores tomates que j viste na tua vida - rematou, erguendo as sobrancelhas com 
ar brincalho.
- No me faas sentir envergonhado - replicou Fitz, com uma risada.
- Ento no me faas correr atrs de um maldito cavalo. Acho que ests a gostar demasiado deste teatrinho.
Alba saiu do quarto. Fitz vestiu as calas de ganga e uma camisola cinzenta. Alba tinha razo: estava a gostar imenso de representar. No era difcil. Thomas e Margo 
eram pessoas a quem era fcil agradar. Tambm no era difcil dar a mo a Alba e fingir que o corao dela lhe pertencia. Infelizmente, no passava disso mesmo, 
de uma representao, quando o fim-de-semana terminasse, iria deix-la em Cheyne Walk e regressar sozinho a Clarendon Mews. Se tudo corresse bem, ficaria a saber 
o suficiente sobre a me de Alba para ela poder viajar para Itlia e descobrir mais coisas sozinha. Ele teria cumprido o seu objectivo e deixaria de ter utilidade 
para ela. L teria de continuar a jogar as suas partidas de bridge com Viv e de suportar a viso de Rupert a descer o ponto a assobiar, gozando antecipadamente 
a inigualvel hospitalidade de Alba. Nessa altura, qualquer intimidade que pudesse ter existido entre ambos j se teria evaporado como a neblina que pairava sobre 
o Tamisa. Afastou esse pensamento e saiu do quarto. Enquanto estivesse naquela casa, era o namorado de Alba e tudo faria para que a realidade no lhe estragasse 
a vida. No tinha qualquer inteno de se transformar em abbora, antes de ser absolutamente necessrio.
Margo e Miranda estavam  espera no trio, com Alba. Margo tinha atado um leno  volta da cabea e vestira umas calas de bombazina castanha. Alba estava ao p 
da janela, enquanto a madrasta e a meia-irm discutiam o problema da vedao e a extraordinria inteligncia de Summer.
- Est a tornar-se uma dor de cabea - disse Margo em voz estridente. - O Peter vai ter de examinar a vedao, centmetro por centmetro, e remendar os pontos mais 
fracos. No podemos deixar que ela ande sempre a fugir. Um dia, ainda vai parar  estrada e provoca um acidente! Ah, Fitz - disse, rasgando um sorriso no rosto avermelhado. 
- E mesmo bom rapaz!
-  um prazer - replicou. - Alm disso, est um dia to bonito!  uma pena desperdi-lo l dentro.
As faces de Miranda coraram quando ele pousou os olhos nela.
- Espero que no tenha ido para muito longe - disse ela por entre dentes e, depois, virou-se e seguiu a me para o exterior.
Alba revirou os olhos para Fitz.
- s doido - disse ela afectuosamente. - Eu disse que eles iam adorar-te, no disse? s mesmo o tipo deles.
Fitz sabia que aquilo no era um elogio.
Apanhar a Summer no foi tarefa fcil. Ela tinha subido em direco ao caminho de acesso  casa e estava quase na estrada, a mastigar vorazmente a cicuta-dos-bosques. 
A princpio, foi a Margo que deu as ordens.
e mesmo Alba teve de participar no cerco, nas suas tentativas para a encurralarem. No se safou com a ideia de ficar a segurar a cancela. Fuzilou Fitz com o olhar; 
se ele no tivesse sugerido que ajudassem, ela ainda estaria a bebericar o seu vinho na sala. Sprout e os terrers andavam de volta da gua, a ladrar, mas Summer 
limitou-se a sacudir a cabea e fugiu triunfantemente a galope. Quando a estratgia de Margo falhou, Fitz assumiu o comando. A sua principal preocupao no era 
a Summer, mas sim Alba, a quem queria desesperadamente agradar. Ordenou-lhe que regressasse ao campo e mantivesse a cancela escancarada. Depois, ele, Miranda e Margo, 
em vez de tentarem apanhar a teimosa gua, encorajaram-na a trotar sozinha de volta ao campo, caminhando simplesmente na sua direco, uns ao lado dos outros, de 
braos abertos. O seu instinto natural era afastar-se deles. Aos poucos, com pacincia, conseguiram afugent-la de volta. Para espanto de Miranda, a Summer galopou 
at ao campo e a Alba fechou alegremente a cancela atrs dela. Tinha levado tempo, mas havia agora um enorme sorriso no rosto de Alba. Tinha valido a pena...
Quando Margo deu os parabns a Fitz, ele explicou que tinha crescido com cavalos
- De qualquer forma, eu mandava examinar a vedao - disse, fazendo o possvel por parecer ser algum com muita experincia. - Em tempos, tivemos uma gua que fugiu. 
Pois bem, cortou a perna no arame farpado, a ferida infectou, enfim, foi uma situao realmente muito desagradvel.
- Valha-me Deus. Queremos evitar isso a todo o custo.  uma pena a Alba no montar, seno podiam ir os dois dar um passeio a cavalo antes do almoo.
Alba deu o brao a Fitz. A admirao de Miranda por ele no lhe passara despercebida.
- Eu gostava de lhe mostrar a propriedade.
- A Miranda pode ir consigo, se quiser ir a cavalo - insistiu Margo, com a sua falta de tacto habitual.
Alba ficou furiosa. Ela quer o Fitz para a Miranda, pensou irritada. Fitz sentiu a animosidade de Alba, a seu lado, e recusou delicadamente.
-  muito gentil da sua parte. Talvez noutra altura. - E depois chamou o Sprout - Anda c, meu velho. Vamos l ver o afortunado Boris.
- Afortunado? - inquiriu Alba, franzindo o nariz.
- Sim,  claro - replicou ele, erguendo sugestivamente as sobrancelhas.
- Oh! - disse ela com um sorriso. -  claro.
Margo viu Alba e Fitz afastarem-se em direco ao pomar e virou-se para regressar a casa.
- Que homem encantador - disse para a filha.
- A Alba teve muita sorte - respondeu Miranda com um suspiro. -  atraente, no ?
- Pois  - concordou Margo. - Mas no  o gnero dela. Segundo a Caroline, ela costuma andar com rapazes bonitinhos e modernos.
- Eu diria que ele tem uma beleza rude.
- Espero que saiba em que  que se meteu - riu Margo, abanando a cabea. - Ela  uma rapariga teimosa. Mas ele tambm no  de se encolher, pois no?  alto e bem 
constitudo. Tenho a certeza que vai saber lev-la.
- Fico contente por ela ter encontrado algum assim.
- Oh, eu tambm! Uma pessoa respeitvel.
- Ele  um bocadinho mais velho do que ela, no ?
- Graas a Deus! Nenhum homem com a idade dela daria conta da tarefa!
- Acha que ele vai casar com ela?
- com a Alba, nunca se sabe.
- Bem, ento acho que vou dar um passeio a cavalo sozinha - disse Miranda, afastando-se.
- Eu vou contigo - disse-lhe a me. - A Alba no precisa de mim.
Margo virou-se para olhar para o jardim, mas eles tinham desaparecido. Soltou um suspiro e entrou em casa para mudar de roupa.
Alba e Fitz regressaram  hora do almoo. Tinham os rostos corados e os olhos brilhantes. Alba tinha-lhe mostrado a propriedade. Os jardins e o campo de tnis, o 
campo de squash e os estbulos. Tinha-lhe mostrado a piscina, que estava sem gua e cheia de folhas, e a lagoa onde os patos e as galinhas-de-gua nadavam entre 
agries e juncos. Depois, tinham ido at ao bosque, onde Boris ficara todo contente por poder exibir os seus dotes e a bela forma como os utilizava. At tinham avistado 
um casal de coras e ouvido a tosse spera de um pequeno veado. As campainhas estavam quase a abrir e os aromas frteis da natureza tinham enchido o ar e a sua alma. 
Thomas estava impressionado. A Alba nunca ia passear sozinha. Estava contente por ela sentir orgulho na sua casa e ter vontade de mostr-la. O Fitz  uma boa influncia, 
pensou ele alegremente.
Fitz tinha cativado facilmente a famlia Arbuckle. Miranda observava-o enquanto o seu corpo de adolescente palpitava com algo negro e primitivo e deliciosamente 
perturbador. Margo estava radiante por Alba ter encontrado um homem normal com um emprego normal. Um homem que ela podia apresentar, um homem do seu mundo. Thomas 
estava ansioso por fumar um charuto depois do jantar na companhia de um homem educado. Sentia prazer ao ver a filha to feliz e calma, pois calma era coisa que Alba 
desconhecia. Desaparecera a criana furiosa que surgira na outra noite proferindo injrias. Mas havia um membro da famlia com que Alba e Fitz no estavam a contar.


CAPTULO SEIS

Lavender Arbuckle entrou na sala a coxear. Margo olhou horrorizada, enquanto Thomas se levantava para dar o lugar  me na confortvel cadeira de leitura. Lavender 
passava a maior parte do tempo escondida no andar de cima, no seu apartamento, mas sentira o cheiro da excitao no ar, tal como um co sente o cheiro da comida, 
e descera para descobrir o que se estava a passar. Usava um elegante saia-e-casaco em tweed, que datava dos anos 20. Ficava-lhe muito largo, pois ela tinha mirrado 
com o passar dos anos e comia to pouco que tinha os ossos todos espetados. At admirava que no furassem a sua velha carne.
- Me, deixe-me apresentar-lhe Fitzroy Davenport - disse Thomas.
Fitz ps-se imediatamente de p. Fez uma vnia e apertou-lhe a mo. Ao p dele, ela parecia um pequeno pardalito.
- E quem  o senhor? - perguntou ela em voz lenta e altiva, fixando-o com o seu olhar formidvel.
Nesta altura, Margo interveio:
-  um amigo da Alba, Lavender.
- Ah! - exclamou, levantando o queixo. - Amigo da Alba.
Virou-se para ela:
- Voltaste outra vez! Que bom!
Alba continuou sentada. Ningum falou. Estavam todos  espera que a velha senhora se sentasse na cadeira.
-  casado, Fitzroy?
Margo tentou intervir uma vez mais. Era muito embaraoso.
- No - respondeu Fitz calmamente.
- Ainda bem! Pode casar com a Caroline ou com a Miranda. Parece ser boa pessoa.
Alba tomou a mo dele nas suas e ganhou flego:
- Se ele casar com algum, esse algum serei eu - afirmou categoricamente, velando as consoantes como Viv fazia.
- E quem s tu?
- Por amor de Deus, av, sou a Alba e preciso de um cigarro! - exclamou ela, levantando-se e saindo da sala.
- Tambm gostava de fumar um cigarro - disse Fitz, apressando-se a ir atrs de Alba.
Mal saram da sala, a velha senhora pestanejou desconcertada.
- Foi alguma coisa que eu disse?
- Me, realmente no  muito natural que no consigas reconhecer a tua prpria neta - queixou-se Thomas, passando-lhe um brandy.
- Ah, sim, a morena - disse ela calmamente, e a voz morreu-lhe nos lbios enquanto tentava perceber porque  que a rapariga era to morena quando todos os Arbuckle 
eram louros. - Estou muito confusa - admitiu, virando-se para Margo. - Ela  tua?
-  nossa, Lavender, francamente! - respondeu Margo, agora enervada. Estava tudo a correr to bem at a tonta da me de Thomas ter aparecido...
- Bonita rapariga - disse ela, sem se aperceber de que tinha ofendido a nora.
Foi a vez de Thomas falar, num fio de voz que mal se ouvia:
- A me morreu quando ela nasceu. No me diga que j no se lembra?
Lavender deixou cair o queixo e soltou um gemido profundo.
- Oh, sim! A Valentina - sussurrou, como se tivesse receio de dizer o nome, como se fosse de alguma forma sagrado. - Quase me esqueci. Que tonta que sou!
Os seus olhos brilharam subitamente e as suas faces macilentas ficaram arroxeadas.
- Tm de me desculpar. Querida rapariga - acrescentou Lavender, abanando a cabea. - Que histria! Que histria pavorosa!
- Acho que  melhor irmos comer - disse Thomas, levantando-se.
- Miranda, vai dizer  cozinheira que estamos prontos. Se encontrares a Alba, diz-lhe tambm. Vamos para a sala de jantar.
Miranda saiu da sala e Margo estendeu a mo a Lavender. Como a maioria das pessoas idosas que se recusam a aceitar que esto a perder as foras, ela ignorou-a e 
levantou-se com grande esforo.
- No h nada de errado comigo, garanto-te - resmungou ela, e foi a coxear em direco ao trio.
Quando seguia para a sala de jantar, foi envolvida por um cheiro delicioso, quente, suculento e estrangeiro. Deixou-o inundar os seus sentidos de prazer.
- Figos - disse com um suspiro. - No como um figo h anos!
- Ela est a piorar - murmurou Margo para o marido, que encolheu os ombros. -  muito embaraoso. O que  que o Fitz vai pensar? com tantas outras perguntas que 
podia fazer...
- A Alba gosta muito dele, no ? - disse Thomas. - Isso  bom.
-  extraordinariamente bom, Thomas. Espero que a Lavender no o tenha assustado.
- Ele  feito de um material mais forte do que tu pensas, Margo. Ouve bem o que te digo. Ele tambm gosta da Alba.
Margo fez figas, mostrando-as ao marido.
- Vamos rezar para que seja verdade - disse e saiu para o trio, com os seus cezinhos atrs dela.
Margo certificou-se que Lavender ficava sentada entre Thomas e Miranda, colocando Fitz e Alba junto dela. A cozinheira serviu um borrego delicioso com batatas assadas 
e feijes, como acepipe especial, porque a Alba tinha trazido o novo namorado. Lavender estava abatida e comia em silncio, embora no despregasse os olhos de Alba. 
Ela no olhava da mesma maneira que as pessoas no autocarro, mas com um misto de curiosidade e simpatia. Alba tentou no ligar; no fim de contas, a av j era velha. 
Em tempos, estava lcida e contara histrias maravilhosas sobre as pessoas que tinham entrado na sua vida. "Arco-ris", era assim que lhes chamava. "Se no fossem 
os meus amigos, a minha vida seria como um cu triste e vazio", dissera ela muitas vezes. Depois, exclamara "Deus me livre!" Alba perguntou a si mesma se ainda teriam 
sobrado alguns arco-ris ou se ela agora existiria no cu vazio que tanto receara.
Fitz continuava a cativar o pai e a madrasta com as suas elaboradas mentiras e um sorriso agarotado. Por uma ou duas vezes, esqueceu-se e a verdade escapou-lhe, 
contradizendo as mentiras que ele urdira antes, mas conseguiu sempre compor as coisas, tartamudeando daquela forma muito britnica e fingindo incerteza, o que j 
era, por si s, muito cativante. No havia ningum mais sagaz. Alba observava-o com uma afeio crescente. Ele seguira-a at ao alpendre depois das observaes insensatas 
da av e tinham partilhado um cigarro. Se no tivesse sido ele era capaz de se ter metido no carro e feito o caminho de volta at Londres. Nunca se dava ao trabalho 
de l ficar quando havia alguma coisa que a aborrecia. Fitz falara sobre o sucedido, transformando a situao numa anedota. Ela concordara em piscar-lhe o olho duas 
vezes sempre que Lavender dissesse alguma coisa chocante e indelicada. Agora, estava  espera, mas Lavender no disse nada.
A cozinheira entrou com um grande pudim de melao. Lavender levantou a cabea, na expectativa, para logo deixar descair os ombros estreitos, desapontada.
- Pensei que amos comer figos! - exclamou em tom indignado.
- Figos? - disse Margo, franzindo o sobrolho.
- Figos - foi a resposta.
-  pudim caseiro - explicou Margo. - Porque  que no se servem? - e fez sinal  cozinheira para pr o prato no aparador.
- Tenho a certeza que me cheirou a figos no trio. A ti no? perguntou ao filho.
- No, a mim no - replicou Thomas, mas franziu a testa, confuso, porque nas ltimas semanas podia jurar que sentira o cheiro desesperadamente familiar daquele fruto. 
Trazia-lhe memrias que pusera de lado h muito: da guerra, de Itlia, de uma jovem belssima e de uma terrvel tragdia.
- Estou terrivelmente desapontada - lamentou-se Lavender. H anos que no como um figo!
- Sinto muito, Lavender - disse Margo, respirando fundo. - Da prxima vez que for ao Fortnum's, trago-lhe um figo. Prometo.
Lavender ps a mo magra sobre a do filho, mas continuou com os olhos pregados na mesa.
- Cheirou-me mesmo a figos. No estou a perder o juzo!
Alba piscou duas vezes o olho a Fitz e esboou um sorriso. Contudo, Fitz j no estava divertido. A confuso da velha senhora apenas lhe despertava compaixo.
Depois do almoo, foram para a sala de visitas, onde o caf foi servido com quadradinhos de bolo. Os ces de Margo estavam deitados aos ps dela, mas Hedge ocupou 
o lugar privilegiado habitual, ao seu colo. Lavender retirou-se para descansar e o riso voltou a tomar conta do grupo. Thomas sugeriu uma partida de bridge. Alba 
sentou-se no sof a fumar, enquanto Fitz se instalava com a sua famlia. Fazia tudo parte do plano e, por mais que o quisesse levar dali, sabia que isso seria insensato; 
no fim de contas, ele era um excelente jogador e o bridge era um dos jogos favoritos do pai.
Caroline chegou mal o jogo terminara. Margo e Fitz estavam a autopsiar a sua derrota, analisando onde  que tinham falhado e o que deviam ter feito. Ela entrou com 
um grande sorriso.
- Oh!  to bom estar em casa! - disse entusiasmada, beijando os pais e fazendo festas aos cezinhos.
Depois, abraou Miranda e Alba e estendeu a mo ao estranho.
- Estou apaixonada! - declarou radiante, deixando-se cair numa cadeira e cruzando as pernas por baixo da sua longa saia. - Ele chama-se Michael Hudson-Hume. Vo 
ador-lo - disse para a me. - Andou em Eton e depois em Oxford.  muito inteligente. Agora trabalha na City.
Margo pareceu ficar contente.
- Que bom, minha querida! Quando  que vamos conhec-lo?
- Muito em breve - redarguiu, sacudindo o cabelo do ombro com a mo plida. - Os pais vivem em Kent e ele vai l quase todos os fins-de-semana.  um jogador de tnis 
sensacional, paizinho, e vai ensinar-me a jogar golfe. Diz que j deu para ver que terei um bom swing.
- ptimo - disse Thomas, com um riso bonacheiro.
- A me dele chama-se Daphne? - perguntou Margo, franzindo os olhos e colocando mentalmente o Michael Hudson-Hume numa bonita caixa onde se lia Pessoa respeitvel.
Caroline arregalou os olhos e o sorriso.
- Sim! - confirmou entusiasmada. - E o pai chama-se William.
Margo levantou o queixo e acenou com a cabea.
- A Daphne andou comigo na escola. Andvamos as duas no hipismo. Ela era uma ptima amazona.
- Oh, sim, e continua a ser. Compete em vrias disciplinas de equitao - disse Caroline, com orgulho.
Margo no achou apropriado mencionar que Daphne tambm gostava muito de rapazes e ganhara a alcunha de "Lapin" porque, como eles to grosseiramente diziam, "vinha-se 
como um coelho".
- Estou ansiosa por voltar a v-la.
- E vais ver - disse Caroline. - Muito em breve!
Alba teve a sensao de que Michael estava prestes a pedi-la em casamento. Conhecendo o gnero Hudson-Hume, era de esperar que viesse at ali para pedir ao pai a 
mo de Caroline. Faria a coisa certa, como fizera toda a sua vida. Tal como Caroline e Miranda. Aspirou o cigarro e expeliu o fumo numa longa baforada, enquanto 
as plpebras cediam ao peso do tdio. Foi arrancada a essa letargia quando Fitz lhe apertou a mo.
- Vamos dar um passeio - sugeriu em voz baixa. Antes que me perguntem se conheo os Hudson-Humes, pensou, sabendo que acharia irresistvel mentir e dizer que sim, 
com todos os problemas que isso lhe acarretaria no futuro. Depois, franziu o sobrolho. Se conseguisse dar a Alba aquilo que ela queria, no teriam futuro, pelo menos 
os dois juntos.
Naquela noite, enquanto mudava de roupa para o jantar, Fitz percebeu, ao tentar domar o cabelo emaranhado pelo vento, que no estava a tentar cativar os Arbuckles 
s para os enganar, mas porque queria, de facto, que gostassem dele. No era representao nenhuma.  verdade que pregara umas mentiras, o que tinha sido divertido, 
e explorara o fraquinho do Bfalo por se rodear de pessoas do seu prprio mundo. Mas queria realmente que pensassem bem dele, incluindo a Alba. Uma parte dele esperava 
que, ao ajud-la a descobrir a me, compusesse as coisas com o pai e ela o recompensasse com o seu amor.
Estava irremediavelmente apaixonado. S com muito esforo era capaz de desviar o olhar, de to irresistvel que ela era. As irms s confirmavam aquilo que sempre 
suspeitara: ela era nica. Nas veias delas tambm corria sangue dos Arbuckles e, apesar disso, no possuam a beleza de Alba nem a sua aura misteriosa. Deus tinha 
quebrado o molde depois de criar Alba. Fixou o prprio reflexo no espelho. Alguma vez ela viria a am-lo? No saberia quanto o atormentava? O seu corao alguma 
vez seria capaz de recuperar? Ficaria reduzido a analisar os seus lances, tal como fazia depois de uma partida de bridge, e a pensar que, se tivesse jogado um pouco 
melhor e com um pouco mais de astcia, poderia ter ganho?
Ao jantar, ficou sentado entre Miranda e Caroline. Enquanto as escutava, lembrou-se de aorda e de como esta ficava sensaborona quando no tinha sal. Miranda e Caroline 
precisavam de muito mais sal. Mas, tal como ele e Alba tinham conversado durante o seu passeio, os homens como Michael Hudson-Hume no queriam mulheres de fibra. 
Essas assustavam-nos. Tambm a eles lhes faltava sal. Olhou para Alba, do outro lado da mesa. Parecia cansada, ou aborrecida, e os seus olhos revelavam-se ainda 
mais claros  luz das velas, embora nunca os tivesse visto to sombrios. Estava sentada ao lado do pai e, contudo, mal falavam. Era imperioso que tivesse sucesso 
naquela noite.
Depois do jantar, chegou a sua oportunidade. Thomas ps a mo nas costas de Fitz e sugeriu que fossem at ao seu escritrio para tomar um clice de Porto e fumar 
um charuto. Fitz l conseguiu piscar os olhos duas vezes a Alba, mas embora ela respondesse do mesmo modo, tinha uma expresso derrotada.
- J chega da companhia de mulheres - disse Thomas, servindo um clice de Porto para cada um. - Este  muito bom - acrescentou, passando o clice a Fitz. - Um charuto?
Abriu a caixa humidificadora e tirou um, passando-o sob o nariz e cheirando-o.
- Ah, o cheiro delicado de um charuto...
Fitz pensou que seria indelicado no fumar. Alm disso, esta era a sua oportunidade para puxar conversa.
Passaram ambos alguns minutos a preparar os respectivos charutos.
- Fumei tantos cigarros na guerra - disse Thomas - que, depois, quando aquele horror acabou, passei antes a fumar charutos. No queria recordar-me daquilo, percebe?
Sentou-se numa cadeira de pele j gasta. Fitz fez o mesmo. As luzes eram fracas. Olhou  sua volta, para todos aqueles livros nas estantes envidraadas, a maioria 
antigos, com encadernaes belssimas, herdados, sem dvida. Depois de uns bons dez minutos de conversa, Fitz foi directo ao assunto:
- O meu pai esteve na guerra e ela mudou-o. Nunca mais foi o mesmo depois disso.
- Onde  que ele esteve?
- Em Itlia.
Fitz notou os sulcos profundos na testa de Thomas. Este fez uma longa pausa, fazendo rodar o Porto no seu clice.
- Onde?
-- Npoles.
Thomas acenou tristemente.
- Que coisa terrvel, Npoles.
- Ele diz que nunca esquecer a pobreza, o desespero... Seres humanos no limite da degradao... A indignidade daquilo tudo. Ainda hoje  continuamente perseguido 
pela lembrana do que viu.
- Eu nunca cheguei a ir a Npoles - disse Thomas, bebendo um gole de Porto e tragando-o com rudo. - Eu estava na Marinha.
- Ah! - exclamou Fitz.
- Era capito de um MTB.
Fitz acenou com a cabea. Uma vez, lera um artigo sobre as lanchas-torpedeiras. Parece que tinham perseguido os comboios de navios inimigos no canal da Mancha, mar 
do Norte, Mediterrneo e Adritico.
- Era uma sensao nica, cortar as ondas a quarenta ns. Aproximvamo-nos e desaparecamos em segundos, antes dos nossos alvos perceberem o que  que os tinha atingido. 
Era espantoso! - continuou e, depois, esvaziou o clice. - Hoje, no gosto de pensar nisso. Nunca l voltei.  um captulo encerrado. Um homem deve sofrer a sua 
dor em privado, no acha?
- No concordo, Thomas - disse Fitz corajosamente. - Acho que um homem s deve sofrer a sua dor na companhia de outros homens. Combatemos juntos e fumamos juntos. 
H uma boa razo para as mulheres sarem da mesa no final da refeio:  para os homens ficarem livres para mostrar a sua vulnerabilidade. No h que ter vergonha 
disso.
Thomas expeliu o fumo, observando com olhos hmidos o homem que parecia ter amansado a sua filha.
- Nunca pensei em ver a Alba com um homem assim.
- No? - Fitz riu-se com ar bonacheiro. - E porque no? - e, naquele momento, no estava a representar.
- Voc  uma pessoa sensata. Tem a cabea no stio.  inteligente e motivado. Tem uma profisso respeitvel. Vem de uma boa famlia, porque  que a Alba havia de 
se interessar por algum assim?
- No sei o tipo de homem por quem ela se costuma interessar - disse Fitz, tentando no se sentir ofendido.
- Homens que possam satisfaz-la a curto prazo, e no um maratonista como voc.
- Ela  uma rapariga cheia de vida - disse Fitz, surpreendido pelo prprio pai aludir  sua promiscuidade, embora de forma indirecta. - No s  linda, Thomas, como 
 invulgar, vibrante, misteriosa.  uma pessoa intrigante. - Suspirou profundamente e fruiu uma vez mais do seu charuto. - Um mistrio insondvel...
Thomas aquiesceu e riu-se.
- Como a me - disse ele, e foi como se Fitz j no estivesse ali. - Tambm era misteriosa. Foi a primeira coisa que notei nela, o seu mistrio.
Serviu-se de outro clice de Porto. Era bvio que estava embriagado. Fitz sentiu uma pontada de culpa momentnea. No era justo bisbilhotar o seu passado, aproveitar-se 
da sua vulnerabilidade. Mas Thomas continuou. Era como se precisasse de falar sobre isso. Como se a bebida tivesse facilitado um desejo profundo e doloroso.
- Sempre que olho para a Alba, vejo a Valentina. - A boca crispou-se e o rosto empalideceu. - Valentina - repetiu. - A simples meno do seu nome ainda me deixa 
debilitado. Ao fim destes anos todos. Porqu agora este cheiro a figos? A minha me no est louca, sabe? Tambm me cheirou queles frutos doces e quentes. Figos. 
Sim, a Alba  mesmo parecida com a me. Eu tento proteg-la...
Levantou os olhos, agora rasos de lgrimas.
- Ela era uma lenda. Toda a gente sabia o seu nome por muitas lguas em redor. A sua beleza estendera-se muito para alm daquela pequena baa feiticeira. Valentina 
Fiorelli, La bella donna di Incantellaria. Uma estranha enseada, Incantellaria. Incanto significa "encanto", sabe? Era encantada, enfeitiada, como se algum tivesse 
lanado algum sortilgio. Todos ns sentimos isso, mas o meu corao foi o nico que sofreu. Oh, se as coisas tivessem sido diferentes... A guerra faz coisas estranhas 
as pessoas. Tambm fui tomado por aquela sensao de efemeridade, de oportunidade, de realidade suspensa. Eu sempre fora ousado, mas a Valentina fez-me esquecer 
inteiramente de mim. Era um homem diferente, Fitz.
- O tempo no cura a dor, Thomas. S torna mais fcil viver com ela.
- Seria de esperar que assim fosse, mas h coisas que me iro perseguir para o resto da vida. Coisas tenebrosas, Fitz. No posso esperar que compreenda. - Lanou 
umas baforadas antes de continuar. - Um homem  a soma da sua experincia. No posso livrar-me da guerra. Ela atormenta o meu subconsciente. Sonho com ela. - A sua 
voz tornou-se um murmrio. - H anos que no sonhava com a Valentina. Depois, na outra noite...  aquele retrato, sabe? Sonhei com ela e era como se estivesse viva.
- Mas ainda tem a Alba - disse Fitz.
- A Alba - murmurou Thomas com um suspiro. - Alba, Alba, Alba... O Fitz vai olhar por ela, no vai? No se pode viver no passado.
- Sim, vou olhar por ela - replicou, ansiando realmente por essa oportunidade.
- Ela no  uma rapariga fcil. Anda perdida... Sempre andou.
Os seus olhos comearam a fechar-se. Ele queria mant-los abertos, combater o sono.
- Voc  um bom homem, Fitz. Tem a minha total aprovao. Sobre esse tal Hamilton-Home ou Harbald-Hume, no sei... - disse ele, pigarreando. - Mas tenho a certeza 
sobre si, Fitz.
- Acho que vou para a cama, se no se importa - disse Fitz diplomaticamente, pondo-se de p.
- Faz favor. No me deixe mant-lo acordado.
- Boa noite, Thomas.
- Boa noite, meu rapaz. Bons sonhos.
Fitz regressou  sala e descobriu que as mulheres j se tinham ido deitar e que as luzes estavam desligadas. Olhou para o relgio sobre a salincia da lareira: os 
ponteiros prateados brilhavam  luz do luar que entrava pelas janelas. Era uma da manh. Nem dera pelo tempo. Tinha passado to depressa. Lamentava ter perdido momentos 
preciosos com Alba. No entanto, cumprira a sua misso. Sabia agora de onde viera Valentina. No seria difcil desencantar Incantellaria num mapa. com um pouco de 
persistncia, conseguiria descobrir facilmente o resto.
Foi at l fora para ver se estava tudo bem com Sprout. O cu estava negro, salpicado de estrelas, e a Lua brilhante e fosforescente. Quando abriu a porta da bagageira, 
Sprout espetou as orelhas e abanou a cauda, pois estava demasiado cansado para levantar a cabea. Fitz afagou-o afectuosamente. "Lindo co!", disse ele suavemente, 
na voz que reservava para o seu velho amigo. "Se ao menos soubesses o que  estar apaixonado, talvez me pudesses dar alguns conselhos. Mas no sabes, pois no, Sproufi" 
Sprout soltou um suspiro ruidoso e contente. Fitz cobriu-o com um cobertor quente e fechou a porta com um olhar afectuoso.
Subiu lentamente as escadas, sentindo o corao mais apertado a cada degrau. O fim-de-semana no tardaria a chegar ao fim e Alba deixaria de precisar dele.
Percorreu o corredor. Gostava de ter batido  porta de Alba e de lhe contar aquilo que descobrira. Mas no sabia qual era o quarto e a casa era to grande que no 
se podia deitar a adivinhar. Abriu a porta do seu quarto e ligou a luz. Alba mexeu-se dentro da cama.
- Desliga isso - murmurou ela, sem abrir os olhos.
- Alba! - exclamou Fitz, desligando a luz. A primeira coisa que pensou foi que tinha entrado no quarto dela por engano. Talvez estivesse to embriagado como o pai 
dela. - Peo imensa desculpa!
- No sejas tonto! Vem para a cama! - disse Alba com ar sonolento e, depois, abafou o riso na almofada. - No fim de contas,  a tua cama. O Bfalo havia de ficar 
espantado, se nos visse.
- Ah! - disse Fitz, embaraado.
- No me vais voltar a rejeitar, pois no?
-  claro que no. S pensei...
- No penses, por amor de Deus. Pensar nunca levou um homem a lado nenhum. Muito menos para dentro da minha cama. V, rpido, estou com frio. O teu pijama est debaixo 
da almofada - disse ela, bocejando.
Fitz desembaraou-se rapidamente das suas roupas e, quando os olhos se habituaram  escurido, tirou o pijama de debaixo da almofada, vestiu-o e meteu-se na cama. 
Estava precisamente a decidir o que fazer a seguir quando Alba falou:
- Se me abraares, Fitz, prometo que no mordo.
Ele mudou de posio e puxou-a para si. O corpo dela era esguio e quente, por baixo de uma camisa de dormir em algodo cardado que lhe subira pelas pernas. Sentiu 
o sangue ficar mais quente, mas controlou os seus impulsos e ps os braos  volta dela, que suspirou alegremente.
- O que  que descobriste, querido? - Ela nunca lhe chamara "querido" antes.
- Que a tua me era a beleza lendria de Incantellaria e que s igualzinha a ela. - Alba ajeitou-se e aninhou a cabea debaixo do queixo dele. - O teu pai pensa 
nela cada vez que olha para ti. , .
- E o que mais disse ele? ,, (
- Que a simples meno do seu nome continua a mago-lo.
-  por isso que ele no quer falar sobre ela?
- No  que ele queira excluir-te, Alba, mas porque  demasiado doloroso. Devias ter visto a cara dele. Estava lvida de tristeza. :,
- Pobre paizinho! - exclamou ela, bocejando.
- Tu, minha querida, suspiras por algum que no conheceste. O teu pai suspira por uma mulher que conheceu e amou. A sua dor  muito maior do que a tua e se ele 
quer guardar essa dor s para si, deves deix-lo fazer isso.
- Oh, e deixo, Fitz, porque agora posso fazer o resto. - disse Alba, beijando-lhe a face. - Obrigada. - Fechou os olhos e, passado algum tempo, a sua respirao 
tornou-se regular e pesada.
Fitz ficou acordado, perguntando a si mesmo onde  que aquilo os levaria. No lhe ocorreu que j era diferente de todos os outros. Alba nunca partilhara a sua cama 
com um homem, sem fazer amor. Pela primeira vez, sentia-se reconfortada sem sentir a necessidade de oferecer o corpo como recompensa. Alba tambm no tinha conscincia 
disso; estava demasiado aconchegada nos seus braos para pensar nos seus actos.
Quando Fitz saiu, Thomas foi a cambalear at  secretria. Pousou o clice e apagou o charuto; depois, abriu a gaveta onde tinha guardado o retrato enrolado. Agarrou 
nele e passou o polegar sobre o papel, deliberando o que havia de fazer a seguir. J se tinham passado tantos anos e, pouco a pouco, esses anos tinham-no mudado, 
de tal forma que agora j mal se lembrava da pessoa que era quando se apaixonara pela primeira vez: despreocupado, indiferente, audacioso. Como uma lagarta, perdera 
a sua pele, mas emergira sob a forma de traa quando, em tempos, se as coisas tivessem sido diferentes, poderia ter emergido sob a forma de borboleta. Tinha conscincia 
daquilo em que se tornara e, contudo, fora impotente para mudar, ou talvez no tivesse querido faz-lo. Era mais fcil construir uma concha e esconder-se l dentro.
Voltou a sentar-se na cadeira e abriu o rolo. A viso do rosto de Valentina fez o seu corao falhar e ele respirou profundamente. Conseguia senti-la. Os seus olhos 
comearam a ficar embaciados e ele pestanejou para os aclarar. Que beleza desenfreada. Que mistrio. Sentiu a cabea a andar  roda,  medida que as recordaes 
saltavam c para fora, depois de tanto tempo aprisionadas. Fechou os olhos e viu o seu rosto sorridente. Que sedutor fora aquele sorriso! E aqueles olhos escuros 
que escondiam tanta coisa... Olhos que atraam um homem com um encanto sobrenatural. Quando as lgrimas lhe rolaram pela face, soube que ela ainda no o deixara 
libertar-se. A luz de Alba tinha iluminado o espao escuro no seu corao, que fechara a sete chaves, e a verdade  que lhe continuava to dedicado como sempre. 
Depois, o ar voltou a trazer aquele aroma familiar. A princpio, era quase imperceptvel, mas,  medida que foi percorrendo o esboo com o olhar, comeou a sentir 
o cheiro doce dos figos, que o envolvia agora numa nuvem de memrias. Em seguida, uma luz brilhou no meio da bruma e l estava ela, na obscuridade do cais, sedutora 
e dolorosamente bela... Valentina Fiorelli, La bella donna de Incantellaria...


CAPTULO SETE

Primavera de 1944

O tenente Thomas Arbuckle guiou a lancha-torpedeira para o calmo porto italiano de Incantellaria, uma jia inesperada escondida entre os penhascos vermelhos e as 
grutas da costa de Amalfi. O mar estava cristalino, da cor das safiras. Pequenas ondas captavam a luz plida da manh e brilhavam como diamantes. Os seus olhos perscrutaram 
a baa em forma de ferradura, que era o porto daquela singular vila medieval, onde casas de um branco imaculado e cor-de-rosa se aqueciam ao sol, com as janelas 
abertas e as varandas em ferro forjado adornadas com gernios e cravos vermelhos. A cpula de uma igreja elevava-se nos cus e, por trs dela, as colinas subiam 
a pique, ao longe, de onde lhe chegava agora o aroma dos pinheiros. Havia barcos de pesca pintados de azul-celeste parados na areia, como baleias encalhadas  espera 
que a mar chegasse e as levasse para o mar. Semicerrou os olhos e ajustou o bon. Havia um pequeno grupo de pessoas no cais, a acenar.
- O que achas deste lugar? - perguntou o tenente Jack Harvey, de p, a seu lado, sobre a ponte.
Empoleirado no seu ombro estava o pequeno esquilo vermelho que o acompanhara para todo o lado - desde o Norte de frica, onde o cheiro acre da morte e da mutilao 
fora suavizado pelos bordis baratos do Cairo e Alexandria, at  Siclia, onde nem mesmo os bombardeamentos dos Messerschmitts alemes tinham diminudo o seu desejo 
de aventura. Brendan, que recebera o nome do grande amigo ruivo de Churchill, Brendan Bracken, vivia no bolso de Jack, tendo desafiado a autoridade enquanto a guerra 
durou. Tinha ganho o seu lugar nesta famlia de oito homens cansados da batalha, com o seu esprito indomvel e um forte instinto de sobrevivncia. Era agora um 
smbolo de esperana, assim corno uma recordao da sua ptria.
-  lindo, Jack - replicou Thomas. - Como se o tempo tivesse parado aqui h cerca de trezentos anos. - Depois das trevas da guerra, era surreal estar a pestanejar 
 luz de uma tal tranquilidade. - Estaremos no Cu?
Se no soubesse, diria que sim.  to verdejante e cheio de vida!
E que tal se ficssemos por aqui um tempo?
- Tirar umas frias, queres tu dizer? Suspeito que haja mais aco nesta vila indolente do que em todo o Mediterrneo. Aguas paradas, cautela com elas - disse Thomas 
com um riso abafado, erguendo sugestivamente uma sobrancelha. - Precisava de um banho e de uma refeio decente.
- E de uma mulher. Eu precisava de uma mulher - acrescentou Jack, passando a lngua pelos lbios secos, recordando as raparigas nbeis que saboreara quando estava 
de licena, no Cairo. Quando no estava em aco, no conseguia pensar em mais nada seno em Brendan e no seu "instrumento", no necessariamente por essa ordem.
- Ora isso  que  falar - concordou Thomas, cujo pensamento vagueava muitas vezes at Shirley, que lhe enviava cartas de amor perfumadas e encomendas com comida; 
Shirley, com quem prometera casar se sobrevivesse, num ataque de alucinao ps-coito; Shirley, que seria uma nora intolervel para os seus pais, em virtude do pai 
dela ser o construtor local. - Todos ns precisvamos! - disse, recordando Shirley.
Desde que as foras aliadas tinham ido para norte, havia relativamente pouca aco no mar. O trabalho dele era patrulhar a costa italiana, mantendo abertas as linhas 
de abastecimento aos Aliados. Thomas comandava a Vosper de 21 m de comprimento, chamada "Marilyn", h mais de trs anos, primeiro baseado em Alexandria, depois em 
Malta, Bon, na costa da Tunsia, e, finalmente, em Augusta, depois da invaso da Itlia. Ele - e ela - tinham estado metidos no meio daquilo tudo: desde ajudar 
aos desembarques no Norte de frica ao patrulhamento nocturno do estreito de Messina durante os desembarques na Siclia, em Julho de 1943. Depois disso, tinha sido 
usado para operaes clandestinas dos Servios Especiais, que envolviam o desembarque de agentes secretos e provises em Creta e na Sardenha. Thomas era conhecido 
pela sua temeridade e coragem, sobretudo durante os dias negros de 1942 quando a devastadora ofensiva contra Malta atingiu o auge, destruindo praticamente todo o 
estaleiro, assim como quase todos os avies estacionados em Malta. As lanchas-torpedeiras eram pequenas e velozes, capazes de se movimentar sem serem vistas nas 
guas iluminadas pela Lua penetrando nos campos de minas e nas defesas dos portos e deslocando-se, pela calada, at bem perto, de onde disparavam torpedos contra 
as embarcaes inimigas, antes de desaparecerem a grande velocidade no meio da noite. A adrenalina era enorme. Desde a morte do irmo mais velho, Freddie, Thomas 
s se sentia vivo quando andava no "fio da navalha". Sentia-se melhor quando no tinha tempo para se sentir culpado por Freddie ter morrido, enquanto ele sobrevivera.
Perdera amigos, toda a gente passara por isso, mas nenhuma perda fora to devastadora quanto a de Freddie, a quem sempre respeitara, imitara e amara com a devoo 
de um co. Freddie tinha uma personalidade enorme e uma energia e ambio sem limites. Era algum que havia sido destinado  grandeza, e no a uma triste sepultura 
no fundo do mar, preso nos destroos retorcidos de um Hurricane. No, Freddie aparentara ser imortal. Se a morte o viera buscar, ento podia vir buscar qualquer 
pessoa, a qualquer momento. Isto deixou uma cicatriz profunda e insidiosa na alma de Thomas.
Thomas teria seguido o exemplo de Freddie e ingressado na Fora Area se a sua me no interviesse, argumentando, em lgrimas, que dois filhos no ar era como entregar 
ambos a Deus "e eu ainda no estou pronta para te entregar". Ela no o permitiria. Por isso, Thomas sara de Cambridge e alistara-se na marinha. Tinha sentido inveja 
de Freddie, mas essa inveja desaparecera agora. Algures, no fundo do oceano, naquele mar vasto e implacvel, o corpo de Freddie era arrastado pela corrente eterna.
O barco entrou no porto. As neblinas matinais pairavam sobre as colinas e Thomas inspirou as fragrncias silvestres a pinheiro e a eucalipto, um ptimo antdoto 
para o cheiro do mar salgado. Os habitantes da vila continuavam a acenar, atraindo mais pessoas, que se aglomeravam como um rebanho de ovelhas curiosas. Viu um rapazinho 
a erguer a mo na saudao nazi antes da me lhe dar apressadamente uma sapatada para a fazer baixar e o cingir nos seus braos. Il sindacco, o presidente da cmara, 
estava todo aperaltado no cais, ao lado do carabiniere local, que usava um uniforme de caqui sujo, com grandes manchas castanhas do suor por baixo dos sovacos. Tinha 
o peito inchado, como um peru gordo que disputa o lugar principal, e ajeitou o chapu com um ar importante. Apesar da guerra, a sua barriga era gorda e caa-lhe 
sobre as calas. A comida podia ser escassa no interior, mas ali, naquela pequena vila piscatria, isolada do resto do pas por colinas escarpadas e rochedos, havia 
muito que comer. Havia os pssaros na floresta, fruta nas rvores e peixe no mar. Nenhum dos dois homens presenciara qualquer aco desde que os Aliados tinham desembarcado, 
fazendo os alemes fugir para norte. Agora, era o momento de afirmarem a sua autoridade e de recuperarem a sua auto-estima.
Brendan meteu-se na algibeira de Jack, enfiando-se l no fundo, como lhe tinham ensinado. De repente, Thomas reparou numa linda rapariga, com longos cabelos negros 
e olhos grandes e tmidos. Tinha um cesto de verga nos braos. No pde deixar de se sentir atrado pelo volume moreno dos seus seios, expostos pelo decote do vestido. 
Estava de p, no meio da multido, mas, no entanto, parecia ter um espao prprio, como se estivesse um pouco  parte. A sua beleza era tal que a sua imagem se destacava 
do resto. Os rostos  sua volta fundiam-se num s, mas o dela era ntido e perfeito, como Vnus no cu nocturno. Sorria, no com o sorriso largo e bovino das gentes 
da vila, mas com um ligeiro revirar dos lbios que fazia com que os olhos se estreitassem ligeiramente. Era o sussurro de um sorriso. To subtil que tornava a sua 
beleza difcil de digerir, como se fosse produto da sua imaginao e no uma mulher de carne e osso. Foi nessa altura que Thomas Arbuckle se apaixonou. Ali, no cais 
da pequena vila piscatria de Incantellaria. Virou-se para cumprimentar o presidente da cmara. Quando voltou a procurar a rapariga, esta tinha desaparecido.
Il sindacco deu-lhes um aperto de mo formal e as boas-vindas em italiano. No viu Brendan pr a cabecinha de fora do bolso de jack, como se sentisse que estavam 
em territrio dos Aliados e livres da presena de oficiais superiores, que se oporiam  sua presena. Sem tirar os olhos do presidente da cmara, que estava a pedir 
desculpa pelo seu pssimo ingls, Jack empurrou o esquilo para dentro do bolso. Thomas tentou no procurar a linda rapariga no meio da multido. Recordou a si mesmo 
que tinha uma misso a cumprir e que, se usasse de astcia, poderia prolong-la at voltar a encontr-la.
O presidente da cmara era um homem bem-parecido, de cabelo preto e pele cor de caramelo. Era de estatura baixa e andava muito direito, de forma a parecer mais alto. 
O seu fsico esguio desmentia a idade que devia andar pelos cinquenta anos, e usava um par de culos redondos sobre um nariz ligeiramente aquilino, que encimava 
um belo bigode. O uniforme estava limpo e engomado e Thomas reparou que tinha as unhas rosadas e arranjadas, como se passasse mais tempo no salo do que nas ruas 
ou atrs de uma secretria. Era claramente um homem fastidioso e afectado; agora que os alemes se tinham ido embora, era a pessoa mais importante da cidade.
O carabiniere ergueu a mo, imitando a saudao naval, ao mesmo tempo que esboava um sorriso tolo e pretensioso.
- Lattarullo, ao seu dispor - disse ele, ciente de que estava a tirar o protagonismo ao presidente da cmara.
Thomas retribuiu a saudao. O seu italiano no era perfeito, mas tinha tido umas boas bases na escola e muita prtica nos ltimos dois anos, embora a utilizao 
dos verbos se resumisse praticamente ao infinitivo. Lattarullo j estava a irrit-lo. Era um esteretipo. Gordo, letrgico e, muito provavelmente, incompetente. 
Eram todos receptivos ao suborno, to corruptos como a prpria mfia, e pouco se podia fazer em relao a isso, tendo em conta a insuficincia dos seus salrios. 
Em tempo de guerra, quando os civis mal conseguiam sobreviver, no era de estranhar que o mercado negro florescesse, sobretudo  custa de provises roubadas aos 
Aliados, e que a administrao local ganhasse com isso. Era uma batalha perdida que os exrcitos no tinham tempo para combater.
Thomas explicou a razo de estar ali. Tinham informaes sobre a existncia de um depsito de armas, abandonado pelo exrcito alemo em retirada. Tinham-no enviado 
para investigar e para se certificar de que no caa nas mos erradas. Pediu que o escoltassem at uma quinta desactivada chamada La Marmella. O presidente da cmara 
fez um sinal de assentimento.
- O Lattarullo vai lev-los s colinas. Temos um carro - disse orgulhosamente, referindo-se ao nico que existia na cidade.
Todas as outras pessoas,  excepo do Marchese, deslocavam-se a cavalo ou em carroas, de bicicleta ou a p. O Marchese, que vivia completamente isolado no Palazzo 
na colina, tinha um grande Lagonda antigo, em que mandava o criado  vila comprar vveres, sempre que precisava. O Marchese raramente se deixava ver. Nem sequer 
ia  igreja; em vez disso, tinha uma capela privada na sua propriedade, onde o padre Dino, o sacerdote local, administrava a comunho uma vez por ms, em troca de 
uma pequena quantia.
- Deixo-vos entregues a Lattarullo - continuou o presidente da cmara. - Se precisarem de mais alguma coisa, no hesitem em pedir.  meu dever tornar a vossa estada 
o mais agradvel possvel, e tenho todo o gosto em faz-lo. Tenham um bom dia.
- Parece mesmo que estamos de frias - sibilou Thomas para Jack, quando o presidente rodou sobre os taces lustrosos.
Lattarullo coou a virilha e gritou  multido para que deixasse os oficiais passarem. Os dois homens altos, envergando os uniformes da marinha, faziam um figuro 
naquela pequena vila. Jack seguia atrs, observando os rostos  procura de jovens bonitas, e os olhos convidativos de uma ou duas ainda lhe chamaram a ateno por 
um momento, at entrar rapidamente para o carro oficial, que gorgolejava e tossia como um velho asmtico.
L foram aos solavancos pelas estreitas ruas empedradas, evitando um gato que desapareceu nas sombras com um salto, pouco habituado a veculos to barulhentos. A 
estrada comeou a subir e a tornar-se sinuosa,  medida que deixavam a enseada para trs, em direco s colinas. Thomas queria fazer perguntas sobre a rapariga 
que vira no cais; de certeza que Lattarullo sabia quem ela era. Tinha parado o tempo com a sua beleza e assim o mantivera, imvel, de modo que nada se mexera a sua 
volta, apenas a brisa que lhe agitava levemente os longos cabelos, como fios de seda fina.
Lattarullo conversou o tempo todo, enquanto subiam por aquele caminho estreito e poeirento. Comprazia-se com a sua importncia, contando histrias do seu herosmo 
contra saqueadores.
- Eu j vi o Lupo Bianco - disse em voz baixa. - Fitei-o olhos nos olhos, longamente e com firmeza. Ele pde ver que eu sou um homem corajoso. Lattarullo no tem 
medo de ningum. Depois, sabem o que  que ele fez? Acenou a cabea em sinal de respeito. Respeitai No tern nada a recear de Lupo Bianco enquanto estiverem sob 
a minha proteco.
Thomas ejack sabiam tudo sobre Lupo Bianco, o Lobo Branco .
graas a ele e a outros homens poderosos, os Aliados tinham conseguido entrar na Siclia. No entanto, estavam a brincar com o fogo do Inferno pois Lupo Bianco era 
um criminoso sanguinrio. Simultaneamente receado e admirado, falava-se dele em surdina, como se as prprias paredes tivessem ouvidos e pudessem denunci-los.  
claro que Lattarullo afirmava que nunca tinha apoiado os alemes. Mussolini tinha sido um grande tolo em ter ficado do lado da Alemanha.
- Se Mazzini e Garibaldi pudessem ver agora o seu pas, dariam voltas no tmulo - disse com um forte suspiro e Thomas percebeu que Lattarullo passaria com a mesma 
rapidez para o outro lado, se a guerra comeasse a ser favorvel aos fascistas.
Passaram por olivais e por latadas de parreiras, onde o solo era rido, ressequido pelo calor do sol italiano, por uma pequena quinta onde se viam cabras escanzeladas 
 sombra, cheirando o cho  procura de ervas, e um rafeiro faminto. Havia crianas andrajosas a brincar com paus e pedras e uma me, com ar esgazeado, lavava roupa 
numa tina, com as mangas enroladas at aos cotovelos e o rosto corado e a transpirar com o esforo. Thomas resolveu trazer lpis e papel da prxima vez que viesse 
a terra para registar, com a sua mo de artista, aquilo que considerava serem cenas buclicas encantadoras. Ele mantinha um registo pictrico das suas experincias. 
Mas o seu corao sangrava pelas pessoas cujas vidas inocentes eram afectadas pela guerra e os seus pensamentos viraram-se uma vez mais para a rapariga misteriosa. 
Tambm a ia desenhar. A sua beleza contrastava com a fealdade da guerra.
Encontraram o depsito de armas. No era to grande como Thomas esperava. Sem dvida que a maior parte j tinha sido roubada pela mfia local. S havia granadas 
de mo, metralhadoras e outras armas pequenas, escondidas num celeiro abandonado. No valera a pena o trabalho. com a ajuda entusistica de Lattarullo, carregaram 
algumas delas na traseira do carro.
Enquanto estavam de p, sem chapu, a limpar as testas molhadas, Lattarullo sugeriu que ficassem.
- Lavem-se, comam qualquer coisa, tomem um copo de Marsala. Tambm lhes posso trazer mulheres, se quiserem. A Trattoria Fiorelli  o melhor restaurante da vila.
Ele no mencionou que era o nico restaurante da vila.
- Seria bom comer qualquer coisa - replicou Thomas, ignorando Jack que mostrava, pela forma frentica como arregalava os olhos, que mulheres tambm seriam bem-vindas.
- Queres apanhar gonorreia? - sibilou, quando Lattarullo j no os podia ouvir. - Quantos soldados  que tu achas que estiveram c antes?
- De certeza que h-de haver algumas sem doenas - implorou.
- Isso  contigo, mas eu estou fora.
- A minha mo est a precisar de descanso - riu-se Jack, brandindo-a num gesto inequvoco. - Vi um par de raparigas no cais, quando chegmos. Via-se que estavam 
desejosas... Provavelmente, andam na vida. Posso tentar a minha sorte. Sempre me sa bem no Four Hundred.
Por um momento, conseguiu sentir o fumo e o perfume do clube Four Hundred, em Londres, que frequentara antes da guerra. Thomas pensou naqueles olhos negros e misteriosos 
e sentiu o corao apertado de ansiedade. Esperava que no andasse na vida... Preferia que fosse casada e no estivesse ao seu alcance do que sab-la nessa degradao 
indigna. Brendan voltou a pr a cabea de fora do bolso de Jack, como que protestando em relao  sugesto das prostitutas.
- Como queiras. Podemos ficar um tempo. Porque no? Todos precisamos de esticar as nossas pernas de marinheiro!
- E estas mulheres esto a precisar de provar o "instrumento" do marinheiro! - acrescentou Jack, com um sorriso irnico, apertando a virilha.
Lattarullo conduziu o carro de volta pelo caminho poeirento, com as armas a saltar ruidosamente l atrs, como uma caixa de ferramentas, sempre que o carro batia 
em desnveis do terreno e pedras. De repente, ouviu-se uma buzina estridente e um chiar de traves, viu-se uma coisa branca e o brilho de metal e Lattarullo gritou 
Madonna!, em pnico, enquanto guinava o carro para fora da estrada. Um Lagonda branco acabou por parar tranquilamente. O condutor, que era s pele e osso, saiu c 
para fora e sacudiu o p da roupa com uma expresso desgostosa. O seu imaculado uniforme cinzento e respectivo chapu no faziam nada para esconder o corpo envelhecido 
e emaciado, que teria um ar menos deslocado se estivesse deitado num caixo. Lattarullo cambaleou at a estrada, com o rosto vermelho de fria, vociferando uma srie 
de blastetnias. O motorista limitou-se a olh-lo, como se ele fosse um besouro irritante que se lhe tivesse atravessado no caminho. Fungou, fechou os olhos e abanou 
a cabea. Depois, virou-se, voltou a entrar no carro e foi-se embora. O seu nariz mal passava a altura do volante. Era bvio, pela forma como franzia os olhos, que 
o sol o cegara momentaneamente, fazendo com que fosse parar ao meio da estrada.
- Quem  ele? - perguntou Thomas, assim que Lattarullo conseguiu tirar o carro da valeta.
- O lacaio do Marchese - respondeu e, depois, resfolegou e cuspiu para a estrada. - Isto  o que eu penso dele! - acrescentou sorrindo como se o gesto porco lhe 
tivesse valido uma pequena vitria. - Ele pensa que  importante porque trabalha para um marqus. Em tempos, a famlia Montelimone era a mais poderosa da regio, 
e tambm era uma famlia caridosa, mas o Marchese tratou de arruinar o seu bom nome. Sabem o que dizem sobre o Marches? Nem queiram saber! - comentou, semicerrando 
os olhos e abanando a cabea.
Embora Thomas ejack fossem razoavelmente curiosos, estavam ensonados e tinham a barriga a roncar de fome. Lattarullo resfolegou e cuspiu novamente antes de seguir 
viagem, murmurando para consigo tudo aquilo que gostaria de ter feito ao motorista.
Regressaram ao cais e, com a ajuda do resto da tripulao, descarregaram as armas e levaram-nas para o barco. Joe Cracker, o mais gordo dos oito homens que compunham 
a equipa, abriu a sua grande boca e comeou a cantar a sua ria favorita da pera Rgoletto, da a alcunha de Rigs. Tinha um ar grosseiro, com pele rosada e cabelos 
ruivos que comeavam a rarear, mas cantava com a voz de um contralto profissional.
- Ele pensa que arranja midas assim - disse Jack, deixando Brendan saltar-lhe para o brao e empoleirar-se no ombro.
-  a sua nica hiptese - comentou o outro. - A seguir vai fazer-lhes uma serenata debaixo do "parapeito".
Riram todos com gosto, mas Rigs continuou a cantar; ele j tinha visto os olhos deles ficarem embaciados naquelas noites solitrias, quando o simples facto de terem 
sobrevivido era miraculoso e a msica fora a nica fuga para os seus receios.
Dois membros da tripulao ficaram no convs para tomarem conta do barco e o resto percorreu a p a curta distncia at  Trattoria Fiorelli. Havia mesas de madeira 
espalhadas c fora, junto  estrada, onde se via um burro escanzelado com dois cestos sobre o dorso, a piscar os olhos vagarosamente, por causa do sol. Numa das 
mesas, estavam sentados dois velhotes a jogar um jogo com fichas e a beber copos de gim e tambm se viam crianas de aspecto andrajoso e cara suja a correr por ali 
com paus na mo. Os seus gritos estridentes ricocheteavam no ar parado da tarde. A ementa estava junto  porta aberta. L dentro, havia dois empregados sentados, 
a ouvir uma telefonia sem fios, ao fresco, prontos para entrar em aco. Quando os dois oficiais apareceram com Lattarullo, seguidos por quatro membros da tripulao, 
um deles a cantar alto, puseram-se em p de um salto e indicaram-lhes as mesas l fora com mais entusiasmo do que haviam exigido desde que os alemes se tinham ido 
embora.
Lattarullo sentou-se com Thomas ejack, espantado ao ver Brendan, que naqueles tempos difceis daria uma refeio bem saborosa.
-  melhor vigi-lo bem - comentou, sentindo, para sua vergonha, que a boca lhe comeava a salivar. Presunto de esquilo devia ser bastante saboroso. - H sempre 
comida em casa da Immacolata. Quando o resto do pas est a morrer de fome, a Immacolata transforma carne e peixe num sumptuoso banquete. Vo ver! Jesus transformou 
gua em vinho e alimentou cinco mil pessoas apenas com umas fatias de po e algum peixe. A Immacolata  abenoada.
De repente, rugiu uma voz l de dentro.
-  a Immacolata Fiorelli - sibilou Lattarullo num aparte, tirando o chapu e enxugando a testa suada. - Este restaurante  o motor que faz girar a cidade. E  ela 
quem o conduz. Eu sei disso, o presidente da cmara sabe disso, o padre Dino sabe disso. At os alemes sabiam que era melhor no se meterem com ela. Descende de 
uma santa, sabem?
Thomas empertigou-se. Afinal de contas, era comandante na marinha britnica, o que poderia haver de to assustador no vozeiro de uma mulher italiana a ralhar com 
o pessoal preguioso?
- Signora Fiorelli - disse Lattarullo com o maior respeito, pondo-se de p. - Deixe-me apresentar-lhe dois oficiais da marinha britnica.
Afastou-se para o lado e a mulher minscula levantou o queixo, mostrando uns olhos castanhos, fundos e inteligentes. Semicerrou-os Pensativamente e estudou os seus 
rostos, como que a avaliar a fiabilidade do seu carcter. Thomas e Jack levantaram-se, fazendo-a parecer uma an, mas notando que a sua personalidade era mais formidvel 
do que a deles os dois juntos.
-  um homem muito bem-parecido - disse ela a Thomas numa voz calma, bastante diferente do rugido de ainda h pouco. Os seus olhos pequenos e brilhantes como contas 
miraram-no da cabea aos ps como se fosse uma costureira a avaliar qual o fato que lhe assentaria melhor. - vou preparar-lhe spaghetti com ucchini e treda di mosgarella.
Depois, virando-se para Jack, disse com as narinas dilatadas:
- E a boa gente de Incantellaria bem pode trancar as suas filhas...
- Jack engoliu em seco e Brendan voltou rapidamente para o seu bolso.
- Para si fritelle - acrescentou, acenando com a cabea, satisfeita, antes de prosseguir: - Antigamente, este lugar era cheio de vida, mas a guerra sufocou essa 
vida. As pessoas mal tm dinheiro para comer, quanto mais para irem ao restaurante. Rezo para que venham dias melhores. Para que esta carnificina acabe depressa. 
Para que o leo se deite com o cordeiro. Convido-vos a ambos para jantarem em minha casa. Um pequeno recanto desta terra onde ainda existe civilizao, tal como 
h geraes. Onde se mantm os costumes antigos. Eu prpria cozinharei para vs e podemos brindar  paz. Lattarullo leva-os l. Podem tomar banho no rio e esquecer 
a guerra.
-  uma mulher muito generosa - disse Thomas.
- Sou apenas uma humilde anfitri e vocs esto na minha vila.
Thomas no achou que ela tivesse um ar humilde; tinha a arrogncia estampada no rosto.
- Alm disso, a vossa presena aqui ir ajudar a comunidade. Os vossos gastos sero o incentivo de que a nossa economia tanto precisa. E que fraca economia a nossa. 
Estes so tempos difceis, signore. Se tiver tanto de rico como de bonito, todos nos congratularemos.
- Tem filhas? - perguntou Jack com descaramento.
Ela franziu os olhos e olhou para ele do alto do seu nariz imperioso, embora tivesse menos uns trs palmos do que ele.
- Se tivesse, seria insensato da minha parte apresent-la a si e ao seu esquilo.
- Porqu ao Brendan? - perguntou, pondo a mo no bolso para lhe afagar o plo. - O Brendan sabe apreciar as senhoras...
- Porque a minha filha sabe apreciar os esquilos - riu-se ela, mas o seu riso era triste e doloroso como o som melanclico dos sinos. Ah, pensou Lattarullo, presunto 
de esquilo, e lambeu os beios, salivando como um co.
No foi preciso muito tempo para que o restaurante ficasse cheio de lindas raparigas, de rosto pintado como bonecas, com a pouca maquilhagem que conseguiam arranjar, 
usando os seus melhores vestidos e penteados. Os seios saam-lhes dos decotes fundos, como cappuccinos com natas. No faziam nada para esconder o desejo de caar 
um ingls. Aqueles marinheiros eram os seus bilhetes para sarem daquela vila pobre e claustrofbica. Observavam-nos com ar coquete, dando risadinhas e sussurrando 
por detrs das suas mos morenas, mostrando sem vergonha as barrigas das pernas e os tornozelos ao cruzarem as pernas, fazendo subir impudicamente as saias.
Os olhos de Jack quase saltavam das rbitas e Brendan subiu rapidamente para o seu ombro para ver melhor. As raparigas acharam o lindo esquilo irresistvel e no 
tardou muito at que Jack estivesse rodeado de perfume e de braos morenos, que se esticavam para o afagarem. "Ah, Brendan, a minha mascote!", riu ele por entre 
dentes, esforando-se por conversar com elas num italiano macarrnico. Para que ningum fizesse melhor do que ele, Rigs subiu para cima de uma cadeira e abriu os 
seus tremendos pulmes para deleite de toda a gente. Gesticulava de forma dramtica, como se estivesse no palco de Covent Garden.
Lentamente, a gente da vila saiu de trs das portadas das suas janelas e dirigiu-se  Trattoria Fiorelli, atrada pela msica dilacerante de Pagliacci, que ressoava 
no ar parado da tarde. As raparigas acalmaram-se, regressando s suas cadeiras: tinham agora a cabea pousada nas mos e os olhos cheios de melancolia. Thomas acendeu 
um cigarro e observou a cena atravs de um vu de fumo. Pensou uma vez mais na linda rapariga que vira no cais e perguntou a si prprio por que razo no teria vindo. 
As outras eram agradveis  vista - Jack mal conseguia conter-se dentro das calas - mas no eram para ele. Quando a multido se adensou, procurou os seus rostos 
na esperana de que pudesse aparecer. Mas ficou desapontado.
Um velhote desdentado comeou a tocar concertina. Rigs cantava de forma ainda mais dramtica, com os olhos rasos de lgrimas,  medida que se embrenhava na letra 
e na msica, pois elas eram a forma de exprimir a sua desolao, sem vergonha. A guerra parecia agora muito longe, embora a sua marca lhes queimasse as almas. Nunca 
se libertariam dos horrores que tinham testemunhado. Marcados para toda a vida, carregariam as cicatrizes at que os seus espritos se libertassem dos corpos e se 
fossem juntar queles que, como Freddie Arbuckle, tinham partido antes.
Quando Rigs terminou, Thomas pediu uma cano alegre, uma que todos pudessem acompanhar. Ele enxugou o rosto hmido com um guardanapo, bebeu um grande gole de gua 
e atacou, com grande entusiasmo La donna  mobile... No tardou muito at que a trattoria vibrasse ao som das vozes, das palmas e dos ps a bater no cho.


CAPTULO OITO

Thomas ejack no queriam jantar com Immacolata Fiorell, e Brendan estava mais nervoso do que qualquer um deles. Teriam preferido voltar a comer na trattoria onde 
havia uma pista de dana. com Rigs e o tocador de concertina desdentado, de certeza que haveria dana. Tambm haveria mulheres, desejosas de amor e excitao. Jack 
estava furioso por Thomas ter aceite o convite.
- Porque  que no podias ter dito simplesmente que "no"?
- Teria sido indelicado - explicou Thomas. - No fim de contas, aparentemente,  ela que dirige a cidade enquanto o presidente da cmara est no salo de beleza.
- Ela nem sequer tem filhas!
- A que tem come esquilos - disse Thomas, abrindo e fechando os dentes com fora para Brendan, que o olhou com ar de superioridade.
Rigs e os rapazes mandaram-nos embora alegremente, divertidos com a sua relutncia. Lattarullo tinha dormido toda a tarde no seu escritrio com a porta trancada, 
o chapu puxado sobre os olhos e os ps em cima da secretria, e estava agora mais empertigado do que nunca.
Subiram os caminhos sinuosos em silncio. Lattarullo tentou comear uma conversa, mas ambos os homens estavam sozinhos com os seus pensamentos: Jack a pensar nas 
mulheres que iria "comer" quando regressasse  trattoria e Thomas na bela estranha que se tinha ido embora com o seu corao. Lattarullo continuou, sem se importar 
com o facto de eles estarem, ou no, a ouvir.
Por fim, estacionou a carrinha ao lado de uma oliveira retorcida. No havia estrada at  casa, apenas um caminho de terra batida.
- Immacolata Fiorelli vai mostrar-lhes o rio - disse Lattarullo, j sem flego. - Alm disso, ela tem sabo! - riu-se.
Thomas sabia que s havia sabo no mercado negro e que a maior parte das mulheres italianas se lavava com pedra-pomes, cinzas e azeite.
Thomas olhou para o mar l em baixo, que se estendia calmamente at ao horizonte enevoado, antes de desaparecer no alm. Se no fosse o seu uniforme de marinheiro 
e as experincias que tinham deixado uma marca indelvel na sua alma, ele quase poderia ter esquecido que o mundo estava em guerra; esquecido que, l longe, o mar 
chegava  costa de frica tingido com o sangue daqueles que, como ele, tinham combatido pela liberdade e pela paz. A paisagem era encantadora e os seus dedos crisparam-se 
com a vontade de capt-la com os seus lpis-pastel; teria gostado de montar um cavalete ali mesmo, na encosta da colina, entre as oliveiras cinzentas. Se no fosse 
a guerra, iria  procura daquela rapariga e p-la-ia em frente daquele cu enorme. Depois, desenh-la-ia sem pressas. Os suspiros do mar e o canto das cigarras acrescentariam 
a sua melodia nica  languidez do final do dia e eles haviam de deitar-se e fazer amor. Mas o tempo era de guerra e ele tinha uma misso a cumprir.
Aps algum tempo, avistaram a modesta casa cor de areia, com telhas cinzentas. Ramos grossos de glicnias trepavam pelas paredes e as suas flores lilases caam em 
cachos pesados, como uvas, e havia passarinhos a voar de um lado para o outro num jogo que s eles percebiam. Estava protegida por ciprestes e meio escondida por 
detrs de vasos de dentelria, jarros altos, alfazema e capuchinhas em grandes tufos, dando a impresso de se mostrar timidamente. Quando se aproximaram, tiveram 
a sensao repentina de entrar numa nuvem invisvel de perfume. Era quente, doce e irresistvel.
- O que  este cheiro? - perguntou Jack, farejando o ar com as narinas dilatadas.
- No sei, mas parece o Cu - replicou Thomas, parando. Ps as mos nas ancas e inalou. -  to forte que me est a deixar tonto!
Virou-se para Lattarullo e perguntou-lhe em italiano. Este abanou a cabea e disse:
- No sei do que est a falar. No me cheira a nada.
-  claro que cheira! - retorquiu Thomas.
- Niente, signor Arbwkle. - Fez uma careta e encolheu os ombros.
- Bo!
- Meu caro amigo, deve ter perdido o olfacto. Mas certamente que lhe sentir o gosto?
A expresso no rosto do ingls revelava tal incredulidade que Lattarullo achou melhor concordar. No fim de contas, ele conseguia sentir um ligeiro aroma, mas nada 
de invulgar. As colinas estavam cheias de fragrncias; quando se vivia ali, deixava-se de dar por elas.
- Cheira-me a figos! - disse de m vontade.
Depois, fez outra careta e encolheu os ombros, desta vez virando as palmas das mos para o cu.
- Meu Deus, . isso mesmo! - exclamou Thomas, entusiasmado. - So figos, no ? - perguntou ajack.
Jack fez que sim com a cabea e tirou o chapu para limpar a testa suada.
- So figos - repetiu. - Directamente do jardim de Deus.
Lattarullo observou-os com uma curiosidade crescente e abanou a cabea. Immacolata Fiorelli h-de saber o que fazer, pensou, tirando o chapu e caminhando at  
porta.
Immacolata Fiorelli nunca trancava a porta, nem mesmo em tempo de guerra. Sendo uma mulher formidvel, tanto em termos de carcter como de envergadura, considerava 
estar  altura de qualquer homem, mesmo que este tivesse uma baioneta. Lattarulo ps a cabea l dentro e chamou-a pelo nome:
- Siamo arrivati - anunciou e, depois, ficou  espera, rodando o chapu entre as mos como um rapazinho acanhado.
Thomas revirou os olhos para Jack. Aps um longo momento, Immacolata apareceu, ainda vestida de preto, como que num estado de luto permanente. Tinha uma grande cruz 
de prata pendurada ao pescoo, profusamente enfeitada com pedras semipreciosas.
- Venham - chamou-os, fazendo sinal com a mo.
L dentro, a casa era fresca e escura. As portadas estavam fechadas, deixando entrar apenas finos raios de luz. O salotto era pequeno e austero, com sofs gastos, 
uma pesada mesa em madeira e o cho em laje. No entanto, apesar da sua austeridade, era acolhedor; uma casa acostumada a ver a vida das pessoas. Aquilo que chamou 
imediatamente a ateno de Thomas foram os pequenos santurios, cruzes e iconografia religiosa que se viam nas paredes nuas e nos cantos. Na obscuridade, a prata 
e a folha de ouro, usada com parcimnia, cintilavam e brilhavam de forma irreal.
- Valentina! - e a voz de Immacolata j no rugia, chamando no tom baixo e suave que se usa com quem se ama. - Temos convidados.
- O marido da signora morreu a combater na Lbia - disse Lattarullo em surdina. - Os quatro filhos tambm esto a combater, embora dois estejam nas mos dos britnicos 
e ningum saiba onde  que esto os outros dois. A Valentina  a mais nova e a mais preciosa de todos os seus filhos. Vo ver!
Thomas ficou  escuta, pois o suave canto de Valentina ouvia-se l fora. O forte aroma a figos precedeu-a e Thomas sentiu a cabea andar  roda com o prazer que 
isso lhe dava. Ele soube, antes de a ver. Sentiu-o. Nada bulia, a no ser a suave brisa que entrava atravs da porta, um preldio de qualquer coisa mgica. E no 
minuto a seguir l estava ela, com um vestido branco que ficava meio transparente com a luz do sol por trs. com o corao suspenso, apreciou a sua pequena cintura, 
a suave curva das ancas, a forma feminina das suas pernas e tornozelos, os ps enfiados numas sandlias simples. A sua beleza era ainda mais assombrosa do que quando 
a vira ao desembarcar. Mal se atrevia a pestanejar, no fosse dar-se o caso dela desaparecer outra vez. Mas ela estava a sorrir e a estender a mo. A sensao da 
sua pele contra a dela aguou-lhe os sentidos e ouviu-se a si mesmo balbuciar em italiano  un piacere. O seu sorriso, embora tnue, era cheio de confiana e conhecedor, 
como se estivesse habituada a que os homens soltassem a lngua na sua presena e lhe entregassem o corao. A voz de Immacolata quebrou o feitio e, de repente, 
a sala voltou a mexer-se ao ritmo normal e Thomas ficou a pensar se teria sido ele o nico a dar pela mudana.
- A Valentina vai mostrar-vos o rio onde podem tomar banho - disse Immacolata, dirigindo-se  cmoda onde se via a fotografia de um homem numa moldura, rodeada de 
pequenas velas acesas e de uma bblia preta, j muito gasta.
Thomas presumiu que era o seu falecido marido. Ela tirou para fora um pequeno objecto embrulhado em papel pardo e entregou-o  filha, antes de fechar a gaveta.
- Mesmo em tempos de guerra, devemos ser civilizados - disse solenemente, fazendo sinal com a cabea para que fossem at ao rio.
Deve ser o famoso sabo, pensou Thomas.
Valentina virou-se e saiu de casa. Thomas notou que ela tinha uma maneira de andar invulgar: com os ps virados para fora, encolhia a barriga, espetava o rabo e 
meneava as ancas. Era um andar cheio de vida, nico, e Thomas pensou que era o andar mais encantador que alguma vez vira. Quem lhe dera estar sozinho com ela, sem 
ojack, que parecia to espantado quanto ele. Ambos os homens a seguiram ao longo de uma descida ngreme, que s tinha largura suficiente para andarem em fila.
O ar estava quente e pegajoso e cheio de mosquitos. Continuava a cheirar a figos, embora Thomas no conseguisse ver uma nica figueira, apenas eucaliptos, limoeiros, 
pinheiros e ciprestes. A colina estava cheia de grilos, com o seu cantar ritmado e incessante, muito ruidoso para quem no estava habituado. O caminho j estava 
muito batido, a terra clara e seca semeada de pedras, pinhas e agulhas de pinheiro. De vez em quando, havia uns degraus de madeira, construdos para evitar as escorregadelas. 
Por fim, Thomas viu o rio atravs das rvores. Era mais um ribeiro do que um rio, mas suficientemente largo para nadar. Descia pela colina, saltando sobre rochas 
e pedras lisas, descansando algum tempo numa piscina cristalina antes de correr para o mar. Era ali que iam tomar banho.
Valentina virou-se para trs e sorriu. Desta vez, o seu sorriso era rasgado e cheio de humor.
- A mezinha deve t-lo em alta conta - disse. - Ela no d o seu precioso sabo a qualquer um...
Thomas tinha ficado chocado com o facto de a me permitir que ela fosse sozinha com dois estranhos. Na verdade, devia mesmo t-los em alta conta. Valentina estendeu 
o pequeno embrulho.
- Tomem e aproveitem. Faam-no durar.
Thomas agarrou nele, novamente irritado por Jack estar ali ao p, sem dvida prestes a estragar o momento com uma piada indecorosa.
- Faz-nos companhia? - perguntou Jack, rindo maliciosamente. Valentina corou e abanou a cabea.
- Vou-me embora para tomarem banho em privado - replicou graciosamente.
- No v! - arquejou Thomas, ciente do seu tom desesperado. Pigarreou e prosseguiu - Espere at estarmos dentro de gua e depois fique a conversar connosco. No 
sabemos nada sobre Incantellaria. Talvez nos possa falar um pouco sobre a vila.
- Eu costumava sentar-me ali a ver os meus irmos - disse ela apontando para o banco que ficava numa clareira cheia de sol. - Chapinhavam que se fartavam!
- Ento, sente-se l para ns - insistiu Thomas.
- H muito tempo que no temos a companhia de uma mulher muito menos a de uma assim to bonita - acrescentou Jack, habituado a cativar as raparigas.
Em circunstncias normais, Thomas ter-se-ia afastado e t-lo-ia deixado cortej-la com o seu esprito irreverente e o seu encanto algo depravado. Afinal, era sempre 
por Jack que as raparigas se sentiam atradas, e no por ele. Mas, desta vez, no tinha qualquer inteno de deix-lo dominar.
- A mezinha no ia querer que eu ficasse aqui sozinha na companhia de homens a tomarem banho.
- Ns somos oficiais britnicos - disse Thomas, fazendo o possvel por encarnar o papel, empertigando-se e acenando a cabea com formalidade. Seria isso que Freddie 
teria feito. - Est em muito boas mos, signorina.
Ela sorriu timidamente e seguiu em direco ao banco, para se sentar, desviando o rosto enquanto eles se despiam. Quando ouviu a gua a esparrinhar, virou-se.
- Est ptima! - disse Jack entusiasmado, arfando enquanto a gua fria lhe diminua o ardor. - Acho que era mesmo disto que eu estava a precisar!
Thomas esfregou o sabo entre as mos e lavou os braos. Sabia que ela tinha os olhos postos nele. Eram castanhos, mas,  luz do sol, adquiriam um tom verde-amarelado, 
da cor do mel. Quando levantou os olhos, ela sorriu-lhe. Tinha a certeza de que era um sorriso coquete. Quando se virou, viu que Jack estava agachado debaixo de 
gua e, nessa altura, soube que ela tinha sorrido s para ele.
Depois do banho, sentaram-se a secar, com a roupa interior vestida. Thomas gostaria de ter desenhado Valentina ali, com o sol a bater-lhe no cabelo e no rosto, a 
cabea inclinada para a frente, olhando-os sob a proteco das sobrancelhas, para no ter de piscar os olhos. Parecia ser tmida, mas Thomas e Jack falavam por ela. 
Fizeram-lhe perguntas sobre a vila. Ela tinha crescido ali.
-  o tipo de vila onde as pessoas se conhecem todas umas s outras - disse ela, e Thomas teve a certeza de que, mesmo que fosse do tamanho de Londres, toda a gente 
saberia quem ela era.
Depois de secos, vestiram-se e regressaram, subindo o caminho estreito, agora refrescados pelo banho. Valentina excitava-os aos dois e fazia-os sentir uma energia 
ilimitada e entusiasmo pela vida.
Quando entraram em casa, o cheiro a cozinhados encheu-lhes as narinas e despertou-lhes a fome. Immacolata guiou-os pela casa at um terrao coberto por videiras, 
que cheirava a jasmim. Na relva, mais  frente, algumas galinhas debicavam o cho e havia um par de cabras amarradas a uma rvore. A mesa estava posta. Havia um 
cesto de po no meio, ao lado de uma agitara de azeite. Lattarullo regressara  vila, prometendo vir busc-los depois de jantar. Tinha sugerido que voltassem a La 
Marmella na manh seguinte, com uma equipa de homens, para recuperar o resto do material. Thomas duvidava que houvesse muita coisa para trazer; confiava tanto em 
Lattarullo como num co guloso para guardar um osso. No lhe importava. Estava farto de patrulhar a costa. A aco agora estava concentrada no norte, em Monte Cassino. 
com o seu pequeno barco, como  que ele poderia competir com os bandidos? A corrupo estava to entranhada na cultura como o machismo. Olhou de relance para o perfil 
de Valentina e decidiu que, acontecesse o que acontecesse, arranjaria razes para ficar o mximo de tempo possvel.
Immacolata fez-lhes sinal para que tomassem os seus lugares, para darem graas. Falou num tom grave e solene, agarrando a cruz que lhe pendia do pescoo: Padre nostro, 
figlio di Dio... Quando acabou, Thomas puxou a cadeira de Valentina para ela se sentar. Esta virou para ele os seus olhos castanhos e doces e agradeceu com um sorriso. 
Ele queria ouvi-la falar novamente, mas a me presidia  mesa e teria sido indelicado t-la ignorado.
- O meu filho Falco era um guerrilheiro, Signor Arbuckle - disse ela. - Agora no h nenhum combate para ser travado aqui. com quatro filhos, no  de estranhar 
que a minha famlia represente quase todas as faces desta guerra. Graas a Deus, no tenho nenhum que seja comunista. No poderia tolerar uma coisa dessas! - Encheu 
os seus copos com Marsala, um vinho doce fortificado, e depois levantou o dela para brindar:
-  vossa boa sade, cavalheiros, e  paz. Que o bom Deus nos traga a paz!
Thomas e Jack ergueram os copos e Thomas acrescentou:
-  paz e  sua boa sade, Signora Fiorelli. Muito obrigado por esta maravilhosa refeio e pela sua amvel hospitalidade.
- No tenho muito, mas sou uma pessoa muito vivida - respondeu. - Agora, j estou velha e tenho a certeza de que j vi mais do que vocs alguma vez vero. Qual  
a vossa misso aqui?
- Nada de importante. Alguns armamentos que o exrcito alemo deixou c, ao retirar-se. Embora no tenha sobrado grande coisa...
Immacolata acenou solenemente:
- Bandidos - disse ela. - Esto por todo o lado. Mas so suficientemente inteligentes para no me roubarem. At mesmo o todo-poderoso Lupo Bianco teria problemas 
em entrar na minha fortaleza. At mesmo ele.
- Espero que esteja em segurana, signora. Tem uma filha muito bonita.
Thomas sentiu que corava ao falar de Valentina. De repente, o bem-estar dela era mais importante para ele do que qualquer outra coisa no mundo. Valentina baixou 
os olhos. Immacolata pareceu ficar contente com o comentrio e o seu rosto abriu-se no primeiro sorriso que se dignara dar.
- Deus tem sido bondoso, Signor Arbuckle. Mas a beleza pode ser uma maldio em tempo de guerra. Fao o que posso para a proteger. Enquanto estivermos na companhia 
de oficiais britnicos, no precisamos de temer pela nossa segurana - disse, e depois pegou no cesto de po. - Comam. Uma pessoa nunca sabe quando  que volta a 
comer.
Thomas serviu-se de um bocado de po escuro e molhou-o em azeite. Embora um pouco rijo, sabia bem. Immacolata comeu com gosto. Era bvio que no poupara esforos 
para cozinhar a massa, que preparara com um molho de peixe. Havia muito pouca comida nas redondezas e, contudo, tal como na trattoria, de manh, conseguira dar-lhes 
o tipo de festim que poderiam ter esperado antes da guerra. Como que inspirada pelo banquete, a sua conversa virou-se para os dias ureos que a sua famlia vivera 
sob a Roma imperial.
- Eram tempos civilizados. Tento trazer um pouco dessa civilizao para a minha casa, independentemente do que se passa no resto do pas, pela minha filha.
Depois, falou-lhes sobre um seu antepassado que era conde:
- Combateu com Caraciolo na guerra contra Nelson e os Bourbons, sabem?
Thomas escutava-a sem lhe dar muita ateno; o resto dos seus sentidos estavam focados na silenciosa Valentina.
- Quanto tempo vo c ficar? - perguntou ela quando j tinham acabado de jantar e continuavam sentados, um pouco tontos com o vinho e de barriga cheia.
- O tempo que for preciso para recolher as armas - respondeu Thomas.
- H por a muitas mais. As colinas esto cheias de espingardas e granadas. A vossa misso  certificarem-se que elas no caem nas mos erradas, no ?
-  claro - replicou Thomas, franzindo o sobrolho.
- Ento tm de ficar. Este lugar pode parecer encantador, mas o perigo espreita em cada sombra. As pessoas no tm nada, sabem? Nada. So capazes de matar por um 
pedao de comida. A vida tem pouco valor hoje em dia.
- Ficaremos enquanto precisarem de ns - disse ele com ar confiante, embora soubesse que havia pouco que pudesse fazer contra o tipo de perigo de que ela falava.
Enquanto o sol poente pintava o cu de um tom rosceo, deixaram-se estar sentados a falar debaixo da videira. Immacolata acendeu velas,  volta das quais esvoaavam 
borboletas da noite e mosquitos, com as minsculas asas cada vez mais perto da chama letal. Thomas e Jack fumavam, ambos intensamente cientes da presena de Valentina. 
Quando ela falava, eles escutavam. At mesmo Jack, que compreendia pouca coisa do que era dito, se recostou para deixar que a sua voz doce e maravilhosamente articulada 
o percorresse como um delicioso fio de xarope. Jack foi obrigado a deixar Thomas dominar a conversa; o seu italiano era muito mais fluente. No entanto, ele tinha 
a sua mascote e, quando sentiu que se estava a eclipsar como o sol, deixou Brendan subir-lhe pela manga da camisa at ao ombro. Tal como previra, o esquilo chamou-lhe 
a ateno e, para alvio da pequena criatura, ela no mostrou a mais pequena inteno de com-lo.
-- Ah, che bellol - suspirou, estendendo a mo.
Thomas viu os seus dedos esguios e trigueiros a acariciar a pelagem avermelhada e no pde deixar de imaginar aqueles mesmos dedos a acarici-lo. No olhou directamente 
para Jack, no fosse o amigo levantar o sobrolho de forma sugestiva. Mas Jack tambm estava encantado com a sua graciosidade e tinha conscincia de que as suas piadas 
licenciosas no tinham lugar quela mesa.
Por volta das dez e meia, o carro chegou, envolto numa nuvem de poeira
- L est o Lattarullo - disse Thomas.
Quem lhe dera ter tido oportunidade para falar com Valentina, mas Immacolata dominara a conversa e ela tambm no parecera importar-se com isso. Talvez com tantos 
irmos estivesse habituada a permanecer na sombra.
Lattarullo apareceu no terrao, com a testa a brilhar e a camisa bege manchada de suor. A sua barriga inchara com o calor, como um porco morto, e os mosquitos zumbiam 
 volta da sua cabea. Era uma viso desagradvel. Ele informou Thomas e Jack que o resto da tripulao tinha danado toda a noite na trattoria.
- O cantor entreteve a vila inteira! - disse entusiasmado.
A julgar pelo suor na sua camisa, o gordo carabiniere tambm estivera a danar.
Thomas sentiu uma onda de pnico. Quando  que voltaria a ver Valentina? Agradeceu a Immacolata pela sua hospitalidade; depois, virou-se para a filha. Os olhos escuros 
de Valentina olharam-no com intensidade, como se conseguisse ler os seus pensamentos. Os cantos da boca recurvaram-se num pequeno sorriso tmido e as faces coraram. 
Thomas procurou as palavras, quaisquer palavras, mas no lhe saiu nenhuma. Os pensamentos perderam-se no seu olhar. O sol j desaparecera por trs do mar e a luz 
das velas parecia transformar o castanho dos seus olhos em ouro.
- Talvez tenhamos o prazer de voltar a v-la - disse, finalmente, e a sua voz era rouca.
Valentina preparava-se para responder quando a me interrompeu.
- Porque  que no vm para a festa di Santa Benedetta, amanh  noite? - sugeriu. - Na capelinha de San Pasquale. Vo testemunhar um milagre e talvez Deus permita 
que tenham sorte. - disse, brincando com a cruz que tinha ao pescoo com as suas mos rudes. - A Valentina acompanha-vos.
- A mezinha participa na cerimnia, por isso estarei sozinha - disse Valentina, baixando os olhos, como se tivesse vergonha de pedir. Gostaria muito que viessem.
- Ser um prazer acompanh-la - disse Thomas, encantado com a sua timidez.
Esta era uma excurso que ele faria sozinho.
Quando j estavam dentro do carro, Jack irrompeu em comentrios.
- Aquela Valentina  uma verdadeira "brasa"! At o Brendan ficou impressionado. E olha que ele  difcil de contentar!
- Apaixonei-me, Jack - anunciou Thomas solenemente.
- Ento  melhor recompores-te - respondeu ele com um riso abafado. - No vamos ficar aqui por muito tempo...
- Mas eu tenho de voltar a v-la.
- E depois o qu? - perguntou Jack, com a mesma careta de Lattarullo. - No vai dar em nada.
- Talvez no. Mas tenho de saber.
- Agora no  altura para uma pessoa se apaixonar. Muito menos por uma italiana. Alm disso, a me dela d-me arrepios.
- No  na me que eu estou interessado.
- Dizem que devemos sempre olhar para a me antes de nos envolvermos com a filha.
- A beleza de Valentina nunca murchar, Jack.  eterna. At tu consegues ver isso.
- Ela  extraordinariamente bonita - admitiu ele. - Faz o que tens a fazer, mas depois no venhas chorar no meu ombro, quando tudo acabar em lgrimas. Tenho coisas 
mais importantes em que pensar. Se no levar ningum para a cama esta noite, acho que vou sodomizar o Brendan!
Mas quando chegaram  vila, nenhum deles sentia vontade de danar. Em vez disso, deambularam frente ao mar. Havia dois velhotes sentados nos seus barcos, a remendar 
as velas, com os rostos enrugados e desdentados iluminados por lanternas  prova de vento. Olhando mais atentamente, era bvio que estavam a servir-se de tapearias 
roubadas para esse fim. Algum cantava Toma a Sorrento acompanhado por uma concertina, a voz dolorosa ecoava misteriosamente pelas ruas. As portadas azul-celeste 
estavam todas fechadas e Thomas no pde deixar de pensar no que se passaria por detrs delas, se os ocupantes estariam a dormir ou a espreitar atravs das frestas. 
Relutantes em regressar ao barco, subiram tranquilamente uma das vielas estreitas. Apareceu uma jovem. O rosto de Jack iluminou-se. Era uma das raparigas que admirara 
naquela manh. com cabelo comprido encaracolado e pele morena, era agradvel, com um sorriso descontrado e sonhador.
- Venham e vejam o que a Claretta pode fazer por vocs. Parecem cansados - ronronou enquanto se aproximava. - As mulheres italianas so famosas pela sua hospitalidade. 
Deixem-me mostrar-vos. Venham.
Jack virou-se para o amigo.
- Demoro cinco minutos.
- s maluco.
- Maluco s tu. Pelo menos, saio com o corao intacto.
- Mas o mesmo pode no acontecer ao "instrumento"!
- Eu tenho cuidado. ,
- No quero um imediato doente. No posso substituir-te.
- Um homem precisa de dar uma "queca"! Tenho a certeza de que ainda acabo cego! E um "Jimmy" cego tambm no te serve de nada! Alm disso, vou estar a ajudar a economia. 
Toda a gente precisa de ganhar a vida...
Thomas viu Jack afastar-se em direco  casa. Encostou-se  parede e acendeu um cigarro. Sozinho na rua vazia, os seus pensamentos viraram-se novamente para Valentina. 
Ia v-la na noite seguinte, na cerimnia da Santa Benedetta. No conseguia pensar em mais nada. Se pudesse fazer um esboo dela nessa altura, teria alguma coisa 
para a recordar depois. Para levar consigo. Sentiu um aperto no estmago ao antecipar as saudades. Tinha lido poemas de amor e as obras de Shakespeare, mas nunca 
acreditara que existisse mesmo aquela intensidade de sentimento. Agora j sabia que sim.
Alguns minutos mais tarde, Jack apareceu com um enorme sorriso, ainda a abotoar a braguilha. Thomas atirou a ponta do cigarro para o cho e esmagou-a sobre as pedras 
com o p.
- Vamos - disse. - Vamos voltar para o barco.
Na manh seguinte, quando acordaram, depararam com uma cena mgica: o MTB estava adornado com flores. Gernios vermelhos e rosa, ris, cravos e lrios. Estavam cuidadosamente 
entrelaadas nos varandins e espalhadas como confetti pelo convs. Rigs, que estivera de vigia, tinha adormecido. No vira nada, a no ser o pblico em Covent Garden, 
que aplaudira a sua interpretao de sonho de Pagliacci. Thomas devia ter ficado furioso. Adormecer quando se estava de vigia era um delito grave e que podia custar 
a vida a todos eles. Mas a viso daquelas flores, lindas, vibrantes e inocentes, suavizou a sua fria. Pensou em Valentina, na noite que o esperava, e deu uma palmada 
nas costas do marinheiro transgressor, dizendo-lhe:
.- Se apanhares os criminosos que fizeram isto, acaba com eles imediatamente.


CAPTULO NOVE

Na manh seguinte, como previsto, foram ao celeiro e constataram que as armas tinham desaparecido. Lattarullo resmungou e encolheu os ombros.
- Bandidos! Devamos ter vindo mais cedo - disse ele, abanando a cabea.
Depois, numa tentativa para ganhar as suas boas graas, sabendo que era o principal suspeito, falou-lhes de outros depsitos de cuja existncia acabara de ser informado. 
Thomas riu-se, pois estava mesmo  espera daquilo. No fim de contas, estavam em Itlia... Alm disso, ele precisava de uma desculpa para ficar mais um dia e Lattarullo 
tinha-lhe dado essa desculpa. Deu umas palmadinhas nas costas ao carabiniere.
- Ento, vamos ter de encontrar os outros antes dos homens do Lupo, no ?
Quando Lattarullo se foi embora, os dois homens foram tranquilamente at  trattoria para tomar uma bebida. Encontraram Rigs e os outros sentados ao sol, rodeados 
de raparigas. Rigs s sabia pera italiana, mas isso parecia satisfazer as raparigas, que estavam todas a rir com ele, acariciando-lhe as faces e fazendo-lhe festas 
no cabelo, para grande desgosto dos membros da tripulao mais bem-parecidos.
- Quem  que disse que ele nunca ia conseguir uma mulher com a sua cantoria? - disse Thomas com uma risada. - Aposto que ele podia ter qualquer uma daquelas raparigas.
- Se  que no teve j - acrescentou Jack. - Mas aqui estou eu para dar cabo da festa com a minha mascote.
Brendan andava agora sempre empoleirado no seu ombro. .
- Isto pode ser interessante - brincou Thomas. - A voz versus o rato!
- Mas quantas vezes tenho eu de te dizer que ele no  um rato? - atalhou Jack.
.- Um rato com cauda.
Ah, mas o que ele faz com aquela cauda no  da conta de ningum - redarguiu, com um olhar irnico.
Thomas franziu o nariz.
- Eu no quero saber o que  que tu fazes ao pobre animal.
- Digamos apenas que tem uma obsesso por mamas!
- Meu Deus, as tuas perverses no tm fim!
Immacolata no apareceu para o almoo. Segundo o empregado de mesa, estava a preparar-se para a festa di Santa Benedita, uma cerimnia altamente religiosa que requeria 
todas as suas energias. No entanto, tinha sugerido que comessem rica di mar. Thomas e Jack nunca tinham comido ourios-do-mar e o pensamento de engolirem aquelas 
entranhas brilhantes revolvia as suas prprias entranhas. Quando o prato foi posto diante deles, uma das raparigas mostrou-lhes como  que se fazia. com mos experientes, 
cortou um ao meio, espremeu o limo para o interior ainda palpitante e depois retirou-o com uma colher que levou direitinha  boca.
- Che buono\ - disse entusiasmada, lambendo o batom dos lbios.
- Eu digo-lhe o que  que ela pode pr mais naquela boca - comentou Jack com um riso sarcstico.
Os marinheiros riram ruidosamente e a rapariga, desnorteada, sem perceber o que  que ele dissera, riu-se tambm.
No tardou muito para que voltassem a ser o entretenimento da vila. Thomas no se sentia  vontade a comer em frente de um rebanho de mirones a salivar. Aps algum 
tempo, apareceu Il sindacco, engomado e a cheirar a colnia, para os levar embora, como um agricultor faria s suas vacas. Estalando os dedos, todo importante, chamou 
um empregado.
- Rica di mar - disse, engolindo a saliva que se acumulara na boca ao ver os pratos dos ingleses.
Quando Il sindacco levou cuidadosamente  boca a primeira colherada, Lattarullo apareceu com um envelope de papel branco. Thomas agarrou nele e franziu o sobrolho. 
Tinha o seu nome escrito a tinta numa caligrafia requintada. Passou alguns minutos a olhar para ele, tentando adivinhar de quem seria. Lattarullo sabia, mas no 
disse. No queria estragar a surpresa ao ingls. Ficou ali de p, ao calor, enxugando a testa suja com um leno, desejoso de tirar uma soneca.
- Por amor de Deus, abre isso! - disse Jack, impaciente, curioso como era.
Thomas rasgou o envelope e tirou para fora um carto elegante com o nome Marchese Ovidio di Montelimone gravado em cima, a azul-marinho. Por baixo, na mesma caligrafia 
requintada, estava um convite para ir tomar ch a sua casa, o Palazzo Montelimone.
- Ento este  que  o famoso Marchese? - perguntou ele a Lattarullo.
- Sim, o aristocrata que vive l em cima, na colina. Aquele cujo motorista nos tentou matar ontem.
- O que  que ele me querer?
Lattarullo encolheu os ombros e fez a careta habitual. ;.>.".
- Boi - respondeu, sem nada adiantar.
Thomas virou-se para Jack e este imitou o carabiniere.
- Boi Vamos l descobrir. Talvez queira pedir desculpa pelo motorista.
- Ento devemos aceitar - replicou Thomas, fazendo deslizar o carto novamente para dentro do envelope. -  uma questo de delicadeza. Mas imagino que isso no passe 
de uma desculpa para se apresentar. Conheo o gnero. Adoram falar um pouco sobre si mesmos e mostrar como so importantes...
- Dizem que tem uma adega do tamanho de uma casa e que os alemes no a encontraram. S por isso vale a pena a visita - comentou Lattarullo, passando a lngua seca 
pelos lbios ressequidos. -  melhor acompanhar-vos. Alm disso, no sabem o caminho.
Naquela tarde, l foram os trs pelo caminho poeirento. Aps um curto percurso, Lattarullo virou para uma colina ngreme, onde o caminho dava uma curva apertada. 
As rvores invadiam cada vez mais a estrada at ser quase impossvel passar com o carro. Este continuou com grande esforo, a engasgar-se e aos arrancos como um 
velho doente, at que, por fim, um par de imponentes portes pretos sinalizou a entrada para o Palazzo Montelimone. Estavam enferrujados e com a tinta a descascar, 
e cobertos de vegetao por anos de abandono. Era como se a floresta fosse invadindo lentamente os jardins, enrolando os seus verdes tentculos  volta daqueles 
portes at que, um dia, eles e a casa desaparecessem completamente, engolidos pela fora superior da natureza.
Entraram com o carro, silenciados pela cena. O edifcio era lindo, embora corrodo pela falta de cuidado e pela implacvel aco do tempo. As glicnias caam sobre 
si mesmas numa gloriosa abundncia, como se o palazzo tentasse disfarar a podrido com atavios luxuriantes. Os jardins eram selvagens. As flores tinham resistido 
corajosamente por toda a parte, mas nada podia impedir que fossem lentamente sufocadas por ervas daninhas mal-intencionadas.
Lattarullo estacionou o carro em frente da elaborada fachada com frontes triangulares e ornamentos que se erguiam at s torres e torrees e uma bandeira esfarrapada 
que esvoaava debilmente com a brisa. A grande porta abriu-se imediatamente, num bocejo silencioso. Um velho curvado vestido de preto aguardava-os solenemente. Thomas 
ejack reconheceram-no logo como o motorista do Marchese.
-  to fiel como um co - disse Lattarullo, sem se dar ao trabalho de esconder a sua averso. - Trabalha para o Marchese h dcadas. Era capaz de vender os dentes 
de ouro por ele, se fosse preciso. Aquilo que sabe  l com ele e ningum tem nada com isso. H-de lev-lo para a cova. J no deve demorar muito!
- Ele no vai bater as botas enquanto houver aquele vinho todo escondido na adega - disse Thomas ajack com uma gargalhada. -  o vinho que o mantm vivo.
Nessa altura, Lattarullo, que no compreendera o seu ingls, disse exactamente a mesma coisa em italiano.
Saram do carro e Alberto cumprimentou-os com formalidade, sem o mais pequeno indcio de um sorriso. Tinha ar de quem no sorria h anos. Ou talvez nunca o tivesse 
feito. Seguiram-no pelo corredor escuro at um ptio com sombra, onde a relva crescia entre as lajes do cho e, mais adiante, at ao corpo principal da casa. Enquanto 
atravessavam os aposentos, cada um mais encantador do que o anterior, com os seus intricados ornamentos em gesso e os tons de rosa e azul-plido nas paredes, o som 
dos seus sapatos ecoava nos tectos altos: no havia moblia para absorver o som e as tapearias h muito que tinham desaparecido. Lareiras em mrmore emolduravam 
as grelhas frias e vazias e o vidro nas janelas altas estava manchado e com bolor. A casa parecia estar impregnada por uma atmosfera sobrenatural, como se estivessem 
a caminhar entre fantasmas.
Por fim, chegaram a uma das poucas divises que estava ocupada. A, numa poltrona, estava sentado um gentleman digno do seu nome, com cerca de setenta anos, rodeado 
por uma vasta biblioteca de livros lindamente encadernados, um grande globo e dois quadros gigantescos. Tinha o cabelo grisalho penteado para trs, deixando-lhe 
a face a descoberto, e ainda era bem-parecido, com um nariz romano muito direito e olhos profundos, de um verde-azulado. Estava impecavelmente vestido, com uma camisa 
engomada, um casaco em tweed e um leno de seda muito bem posto  volta do pescoo. As suas origens eram certamente nrdicas, pois tinha pele clara e o porte de 
um prncipe.
- Sejam bem-vindos - disse ele num ingls perfeito, levantando-se da cadeira.
Caminhou na sua direco, saindo da obscuridade para lhes apertar a mo. Fez um aceno de cabea a Lattarullo e, depois, para desiluso do carabiniere, disse a Alberto 
para o levar  cozinha, para lhe dar po e queijo. Em seguida, fez-lhes sinal para se sentarem.
- O que  que acha da minha vila, tenente Arbuckle? - perguntou, servindo-lhes um ch, que tinha sido cuidadosamente disposto num tabuleiro de prata. A porcelana 
era fina e elegante, pintada com parras delicadas. Um servio de ch daqueles parecia um bocadinho deslocado naquele aposento pobre.
-  encantadora, Marchese - replicou Thomas com igual formalidade.
- Espero que tenham aproveitado para dar uma volta. As colinas so especialmente bonitas nesta altura do ano.
- Realmente so - concordou Thomas.
-  uma vila cheia de gente simples, com pouca educao. Eu tive sorte. A minha me deu-me um preceptor ingls e, depois, mandaram-me para Oxford. Foram os dias 
mais felizes da minha vida.
Tamborilou com os longos dedos no brao da cadeira. As suas mos fizeram lembrar a Thomas as de uma pianista de concerto. Depois, soltou um suspiro arquejante. Talvez 
tivesse asma, ou qualquer outra doena pulmonar.
- Estas pessoas so cheias de supersties - continuou. - Apesar de viverem no sculo XX, esto obcecadas com as relquias medievais. Eu mantenho distncia, vivendo 
c em cima, na colina. Tenho uma boa vista do mar e do porto de abrigo. Vejo quem chega e quem parte. Tenho um telescpio ali no terrao. No me envolvo nos seus 
rituais, no entanto, os rituais mantm as mentes das pessoas ocupadas e, por conseguinte, alheadas dos problemas, e as pessoas do sul so muito religiosas. Cresci 
aqui com os meus irmos, embora desconhea agora o seu paradeiro, nem sequer sei se ainda esto vivos. Uma rixa separou a nossa famlia. Eu fiquei com este palato. 
Se calhar, se tivesse casado, ele talvez pudesse ter beneficiado das atenes de uma mulher, mas infelizmente no casei e agora j  tarde. A casa est a cair-me 
em cima, empurrando-me cada vez mais para o seu interior, at chegar uma altura em que j no restar nada seno esta sala. Sobreviveu aos alemes, mas no sobreviver 
 passagem do tempo. Esse no perdoa.  casado, tenente Arbuckle?
- No, no sou.
- A guerra no  boa altura para o amor, no ?
Pelo contrrio, pensou Thomas, mas, em vez disso, respondeu:
- Fico contente por no ter deixado uma mulher para trs, em Inglaterra. Se morrer, s a minha me chorar a minha perda.
Pensou em Freddie e sentiu o estmago contrair-se de dor. Pelo menos, Freddie tambm no tinha esposa nem filhos. De repente, sentiu-se deprimido e desejou que o 
Marchese fosse directo ao assunto. A sala estava escura e o ar viciado. Cheirava como uma cripta antiga.
- E quanto a si? - perguntou o Marchese, virando-se para Jack. - Vejo que ainda tem o seu amiguinho peludo.
Jack abriu a boca, surpreendido. Brendan saiu lentamente do seu bolso como um rapazinho maroto apanhado a mexer no armrio dos doces.
- Se viajar para o interior, o que presumo que no far,  melhor escond-lo. H muita fome. As pessoas esto a vender as prprias filhas em troca de comida.
- O Brendan j sobreviveu a coisas piores do que italianos famintos, Marchese - disse Jack, invulgarmente respeitoso; o Marchese tinha uma aura de grande importncia.
- Imagino que j fossem amigos antes da guerra.
- Andmos juntos em Cambridge - respondeu Thomas.
- Ah, Cambridge. Ento so meus rivais! - riu-se, olhando directamente para Thomas. Mas os olhos continuaram srios.
O Marchese no queria falar sobre a guerra. No perguntou por que razo Thomas e Jack estavam em Incantellaria; com o telescpio e a sua aparente omniscincia, j 
devia saber. Falou sobre a infncia no palcio raramente fazendo visitas  vila, e sem nunca se misturar com as outras crianas de l. Disse que era como se vivessem 
por detrs de uma vidraa. Podiam ver o que se passava, mas participar, isso nunca.
- Quanto tempo vo ficar connosco? - perguntou ele de repente.
Thomas pensou que seria o momento apropriado para encolher os ombros como Lattarullo e fazer uma careta, mas respondeu que, provavelmente, seriam chamados  base 
na manh seguinte.
- A guerra  uma coisa terrvel - prosseguiu o Marchese, levantando-se. - Agora, esto entalados em Monte Cassino. Acham mesmo que os Aliados vo ganhar? Ainda vo 
cometer algum deslize. Que desperdcio de jovens magnficos. As pessoas nunca aprendem com a histria, pois no? Continuamos a cometer os mesmos erros que os nossos 
pais e avs cometeram. Pensamos que iremos fazer do mundo um lugar melhor e, contudo, destrumo-lo aos poucos. Venham, deixem-me mostrar-vos o meu telescpio.
Saram pelas portas envidraadas para o terrao, piscando os olhos sob a luz do sol. Thomas sentiu o ar fresco, como uma onda de gua fria que revitalizou os seus 
sentidos. Olhou  sua volta. Em tempos, um jardim bem tratado devia estender-se pelo declive at ao lago ornamental, que estava agora estagnado como um Wadi pouco 
fundo. Conseguia imaginar as mulheres com lindos vestidos a passearem aos pares por entre os salgueiros, a conversarem, protegidas do sol pelas suas sombrinhas, 
e a mirarem os seus reflexos na gua. Nessa altura, devia ser de cortar a respirao, antes do tempo e do abandono lhe terem roubado a sua glria. Mas, agora, ningum 
se importava. Estava a morrer diante dele, como a casa. Como o velho Marchese a tossir na sua sala sem ar, agarrando-se  ltima das tradies da famlia.
O Marchese caminhou at ao telescpio, que estava a apontar para o porto. Espreitou por ele, rodou qualquer coisa, carregou num boto e, depois, afastou-se para 
dar lugar a Thomas.
- O que acha disto? - perguntou com o rosto iluminado de prazer. - Engenhoso, no ?
Thomas conseguia ver nitidamente a vila. As ruas estavam calmas. Centrou-se no seu barco. A velha e leal Marilyn. Os seus homens andavam por ali, em grupos, a disciplina 
desaparecera. No ia conseguir mant-los ali por muito mais tempo. O seu corao balanou ao pensar na partida. Ainda agora tinha acabado de conhecer Valentina... 
Perscrutou o cais,  sua procura, mas ela no estava l.
- Engenhoso - repetiu sem nfase.
Naquele momento, estava disposto a trocar de lugar com o Marchese, s para estar junto dela. Foi a vez de Jack.
- Tambm observa as estrelas? - perguntou ele.
O Marchese vibrou com a pergunta e embarcou numa longa descrio de constelaes, estrelas cadentes e planetas, com o sotaque italiano cada vez mais acentuado,  
medida que deixava de estar concentrado na pronncia.
Thomas estava de p, com as mos sobre a balaustrada, a olhar o mar, que brilhava sob o sol da tarde. Ficou aliviado quando Lattarullo apareceu, com a barriga a 
sair das calas, do po e queijo que comera. Alberto parecia ainda mais esqueltico; tinha ar de quem no comia h sculos.
-  melhor irmos andando - observou Thomas, ainda confuso em relao ao objectivo da visita.
- Foi um prazer - disse o Marchese com um sorriso, apertando-lhe a mo.
Quando estavam prestes a ir-se embora, viram um rapazinho a subir um carreiro sinuoso que ia dar ao terrao, vindo de algum stio escondido atrs dos ciprestes demasiado 
crescidos e do matagal. Era extremamente bonito, com um rosto largo, caracis de um louro quase branco e olhos castanho-escuros, to brilhantes como prolas. Pareceu 
surpreendido ao v-los, mas reconheceu Lattarullo, a quem cumprimentou educadamente.
- Este  o Nero - disse o Marchese. - No  uma beleza?
Thomas e Jack trocaram olhares, mas mantiveram uma expresso impassvel.
- Faz-me recados. Eu tento ajudar a comunidade. Tenho sorte, sou um homem rico. No tenho filhos com quem esbanjar a minha fortuna. Estes so tempos difceis. A 
guerra no se trava apenas no campo de batalha, mas todos os dias, em todas as aldeias, vilas e cidades de Itlia.  uma guerra de sobrevivncia. Pelo menos o Nero 
no h-de morrer de fome, no , meu querido? - disse, afagando-lhe afectuosamente o cabelo.
Quando Nero sorriu, viram que lhe faltavam os dois dentes da frente.
- Mas que tipo mais estranho - comentou Thomas, enquanto o carro se afastava.
- Est-se mesmo a ver que lhe faz recados! - troou Jack, em ingls, para que o carabinim no percebesse. - O Nero tem um aspecto extraordinrio. No estava  espera 
de ver aquela cor de cabelo aqui no sul!
- H qualquer coisa de errado com aquele homem - disse Thomas, coando a cabea. - Detesto pensar o que  que ele ter feito em Oxford. Os dias mais felizes da sua 
vida, diz ele! O que raio fomos ns l fazer? Tomar ch? Aborrecer-nos de morte a ouvi-lo falar sobre a famlia e sobre as estrelas?
- No sei.  desconcertante - observou Jack, abanando a cabea.
- Digo-te uma coisa. Tenho a certeza de que ele tinha uma boa razo para nos convidar para l ir hoje e, digo-te mais, de uma maneira ou de outra, acabmos por satisfazer 
a sua curiosidade.


CAPTULO DEZ

As sombras adensaram-se e o aroma a pinheiro tornou-se mais forte com o ar da tarde. As gentes de Incantellaria saram das suas casas e reuniram-se em frente da 
capelinha de San Pasquale. Havia um sentimento de expectativa. Thomas ficou  porta da farmcia, de acordo com as instrues de Immacolata, e esperou por Valentina 
com uma apreenso crescente. Notou que muitas das pessoas seguravam em pequenas velas que tremeluziam misteriosamente na semiobscuridade. Um corcunda imundo andava 
de um lado para o outro no meio da multido, como um escaravelho sagrado, enquanto toda a gente lhe tocava nas costas para dar sorte. Thomas nunca tinha visto uma 
cena assim e ficou intrigado. Por fim, a multido pareceu dispersar e Valentina foi ter com ele, com o seu andar bamboleante. Usava um simples vestido preto estampado 
com flores brancas e tinha o cabelo apanhado, enfeitado com margaridas. Ela sorriu-lhe e ele sentiu que o corao lhe falhava, pois a sua expresso era apaixonada 
e ntima. Era como se j tivessem declarado os seus sentimentos um ao outro, como se fossem amantes h muito tempo.
- Ainda bem que veio - disse ela quando chegou ao p dele.
Estendeu-lhe a mo e ele agarrou-a. Depois, agiu por impulso: encostou a palma da mo aos lbios e beijou-a. Fitou-a longa e intensamente, enquanto saboreava a sensao 
da sua pele e o aroma a figos, agora familiar. Ela enterrou o queixo no peito e riu-se. Ele nunca a tinha ouvido rir. F-lo rir-se tambm, pois era um riso que vinha 
da barriga e a enchia de prazer.
- Tambm estou contente por ter vindo - respondeu, sem querer largar-lhe a mo.
- A mezinha  uma das parenti di Santa Benedetta.
- O que  isso?
- Uma das descendentes da Santa.  por isso que fica sentada junto ao altar, para testemunhar o milagre.
- O que  que acontece?
- Jesus verte lgrimas de sangue - disse-lhe ela, em voz solene e o sorriso deu lugar a uma expresso de enorme reverncia.
- A srio? - perguntou Thomas, incrdulo. - E se no o fizer?
Os seus olhos arregalaram-se de horror.
- Nesse caso, vamos ter azar durante todo o ano.
- At o milagre voltar a acontecer?
- Exactamente. Acendemos velas para mostrar o nosso respeito.
- E tocam no corcunda para dar sorte.
- Sabe mais do que eu pensava - disse ela, com o riso de volta ao rosto.
- Foi apenas um palpite.
- Venha, queremos ficar o mais  frente possvel. - Agarrou-o pela mo e levou-o atravs da multido.
Estava escuro quando as portas da capela se abriram. Esta era pequena e rstica, decorada com frescos do nascimento e da crucificao de Cristo. Ele suspeitava que 
tudo o que tinha valor fora roubado pelos alemes, ou por saqueadores, por isso s havia uns simples candelabros no altar e um pano branco. Por detrs, a esttua 
em mrmore de Cristo na cruz permanecia intacta.
Um silncio pesado, cheio de medo, incerteza e expectativa vibrava no ar, como o som abafado de violinos. Thomas no acreditava em milagres, mas o esprito deste 
era contagiante e comeou a sentir o corao a acelerar, juntamente com o dos crentes. Sentia muitos pares de olhos cravados em si, alguns deles hostis, pois havia 
membros da congregao que pensavam que a sua presena podia impedir que o milagre acontecesse. Ou talvez no gostassem do facto de Valentina ter chamado a ateno 
de um ingls. Reparou numa mulher de certa idade que olhou para Valentina com o semblante carregado e, depois, desviou o olhar com uma fungadela de reprovao. Esperava 
no a ter comprometido com a sua vinda.
Embora curioso, estava desejoso que a cerimnia terminasse, para poder levar Valentina at um stio sossegado, onde pudessem estar sozinhos. Precisamente quando 
imaginava o primeiro beijo, as pesadas portas de madeira voltaram a abrir-se e uma rajada de vento trouxe consigo trs mulheres de pequena estatura, envergando longos 
vestidos pretos e vus difanos. Cada uma delas segurava uma vela que alumiava o seu rosto mirrado, produzindo um efeito fantasmagrico. Immacolata caminhava um 
pouco  frente das outras duas, que se arrastavam atrs dela, como damas de honor num casamento sinistro. Vinham de cabea baixa, ao passo que Immacolata tinha o 
queixo bem levantado e uma expresso altiva, com os olhos fixos no altar, consciente da sua importncia. At o padre Dino vinha atrs delas, segurando um rosrio 
e murmurando oraes. Vinha acompanhado de um menino do coro, que agitava suavemente um turbulo, enchendo o ar de incenso. Toda a gente se ps de p.
A procisso chegou ao altar e as trs parenti di Santa Benedetta tomaram os seus lugares no banco da frente. O padre Dino e o rapazinho ficaram de lado. Ningum 
falou. No houve sermo de boas-vindas, nem cnticos, nem msica; apenas um silncio ansioso e a fora invisvel da orao. Os olhos de Thomas foram atrados pela 
esttua, tal como os de toda a gente. Ele no conseguia acreditar que um objecto de mrmore pudesse deitar sangue. Seguramente, tratava-se de algum truque. Mas ele 
havia de perceber; no conseguiriam engan-lo. Toda a gente observava, mas nada aconteceu. O relgio da vila bateu as nove horas. Os fiis sustiveram a respirao. 
O calor era agora intenso dentro da capela e Thomas comeou a suar.
Foi ento que o milagre se deu. Thomas pestanejou vrias vezes. De certeza que era imaginao sua. Desejara tanto que acontecesse, juntamente com as outras pessoas, 
que agora estava a alucinar. Virou-se para Valentina, que fez o sinal da cruz e murmurou qualquer coisa inaudvel. Quando voltou a olhar, o sangue escorria pelo 
rosto impassvel de Cristo, vermelho-vivo contra o mrmore branco, pingando do Seu queixo para o cho.
Immacolata levantou-se e acenou solenemente com a cabea. O sino da capela tocou uma melodia triste e montona e o padre, o rapazinho e as trs parenti di Santa 
Benedetta saram em fila.
A vila irrompeu em jbilo. Os msicos comearam a tocar e formou-se um grande crculo no meio da multido. De repente, as jovens, antes to recatadas, danavam agora 
a tarantela com a exuberncia de possessas. A multido batia palmas e dava vivas. Thomas deixou-se arrebatar, batendo palmas tambm. Valentina apareceu no meio de 
toda aquela diverso, suscitando os aplausos e assobios dos homens e os olhares surpreendentemente rancorosos das mulheres. Thomas pensou em como a inveja as deixava 
feias. Distorcia-lhes as feies, normalmente bonitas, em imitaes grotescas, como reflexos em espelhos de feira. Valentina avanou para o centro do palco, at 
ficar a danar sozinha. Movia-se com graa, o cabelo a esvoaar  volta da cabea, enquanto girava e rodopiava ao ritmo animado da msica. Thomas estava estupefacto: 
agora, que no estava  sombra da me, mostrava-se surpreendentemente socivel. No havia inibio na forma como mexia o corpo, com a saia a subir-lhe pelas pernas 
acima enquanto danava, expondo as barrigas das pernas e as coxas morenas e lustrosas. A parte de cima dos seus seios, revelada pelo decote fundo do vestido, subia 
como sufl de chocolate, e Thomas foi tomado pelo desejo. O seu encanto virginal fundia-se com uma sexualidade explosiva, que Thomas achava irresistvel.
Observava petrificado e ela olhava directamente para ele. Os seus olhos negros e risonhos pareciam ter lido a sua mente, pois foi a danar at junto dele e agarrou-lhe 
na mo:
- Vem - sussurrou-lhe ao ouvido, e ele deixou-a lev-lo para fora da praa e pelas ruas estreitas que desciam at ao mar.
Caminharam de mos dadas ao longo da praia e para alm dela, pelas rochas, at chegarem a uma pequena enseada isolada, onde o luar e o suave marulhar das ondas revelaram 
uma praia de seixos deserta onde podiam, finalmente, estar sozinhos.
Thomas no perdeu tempo a falar. Ps-lhe a mo atrs do pescoo, ainda quente e hmido da dana, e beijou-a. Ela respondeu com prazer, descerrando os lbios e fechando 
os olhos, deixando escapar um suspiro de satisfao. Ainda se ouvia a msica na vila, agora distante, um zumbido longnquo, como o alegre zunido das abelhas. A guerra 
bem podia passar-se noutro planeta, de tal forma afastados eles estavam da realidade. Ele ps os braos  volta dela, puxando-a para si, de modo a sentir a sua carne 
macia e o fcil abandono do seu corpo. Ela no se afastou quando ele enterrou o rosto no seu pescoo, sentindo na lngua o sal do seu suor e o cheiro a figos, agora 
atenuado. Ela atirou a cabea para trs, expondo-a voluntariamente para que ele pudesse beijar-lhe a linha do maxilar e a superfcie delicada da garganta. Thomas 
sentiu a excitao retesar-lhe as calas. Mas ela no se afastou. Passou os dedos pela pele aveludada, onde os seios emergiam do vestido. Depois, ps as mos em 
concha sobre eles, acariciando os bicos com os polegares, e ela deixou escapar um gemido baixo, como o suspirar do vento.
- Facciamo l'amore - murmurou ela.
Ele no questionou se seria certo ou errado fazerem amor, ou se estaria a ser indelicado ao possu-la assim, na praia, tendo-a conhecido apenas h dois dias. O tempo 
era de guerra. As pessoas comportavam-se de forma irracional. Eles estavam apaixonados e podiam no voltar a encontrar-se. A sua inocncia era algo que ele levaria 
consigo. Tinha esperana de que ao faz-la sua, agora, pudesse lev-la a esperar por ele. No final da guerra, regressaria e casaria com ela. Rezou para que Deus 
a protegesse at que ele prprio o pudesse fazer.
- Tens a certeza?
Ela no respondeu, limitou-se a passar os lbios pelos dele. Ela queria-o. Num movimento rpido, levantou-a nos braos e subiu pela praia at um ponto abrigado, 
onde a deitou sobre os seixos e fez amor com ela sob o luar fosforescente.
Ficaram entrelaados at os raios vermelhos da madrugada mancharem o cu no horizonte. Thomas falou-lhe sobre a sua vida em Inglaterra, sobre a bela casa onde viveriam 
um dia e sobre os filhos que teriam juntos. Disse-lhe o quanto a amava; que, afinal, era possvel uma pessoa apaixonar-se instantaneamente e entregar alegremente 
o corao.
Fizeram o caminho de regresso pelas rochas. As comemoraes j tinham terminado e a vila ainda mantinha a atmosfera de mistrio. S um gato desgarrado caminhava 
silenciosamente sobre um muro,  caa de ratos. Antes de a acompanhar a casa, Thomas foi buscar a caixa de pintura ao barco.
- Deixa-me desenhar-te, Valentina! Eu no quero esquecer o teu rosto!
Ela riu-se e abanou a cabea.
- Che carnol - disse ternamente, pegando-lhe na mo. - Se  isso que queres, segue-me. Conheo um stio lindo.
Subiram um pequeno carreiro entre os rochedos, depois desceram um caminho poeirento que atravessava uma floresta. Pairava no ar um odor a tomilho, misturado com 
a fragrncia dos eucaliptos e pinheiros, e os grilos cantavam entre as folhas. Uma salamandra atravessou o caminho como uma seta, para se esconder na vegetao  
sua passagem, e o canto dos pssaros anunciava a manh. Aps algum tempo, as rvores deram lugar a um campo de limoeiros. Da, conseguiram ver o mar, liso como prata 
derretida, a cintilar por detrs dos ciprestes. No topo de uma ligeira colina, havia um ponto de vigia abandonado, com os tijolos a esboroarem-se por sculos de 
vento martimo e de sal. A vista era de cortar a respirao. Dali, conseguiam ver ao longo de quilmetros em redor. Valentina apontou para a sua casa, rindo ao pensar 
na me, aconchegada na cama, alheia  aventura em que a filha estava a embarcar. Sentou-se encostada  torre de vigia, com o cabelo a esvoaar ao vento, e deixou-o 
desenh-la. Ele fez o esboo a pastel de leo, tirando prazer em analisar o seu rosto e em traduzi-lo para o papel o melhor que conseguia. Queria retratar o seu 
mistrio, aquela qualidade que a diferenciava de toda a gente, como se tivesse um delicioso segredo. Era um grande desafio e ele queria estar  altura para que, 
quando se separassem, pudesse olhar para o desenho e record-la como ela era agora.
- Um dia, havemos de contar aos nossos filhos sobre esta manh - disse ele, por fim, segurando o papel  sua frente e semicerrando os olhos. - Eles vo olhar para 
este quadro e ver por si prprios como a me era linda quando era jovem, quando o pai se apaixonou por ela.
Ela riu-se ternamente e toda ela respirava amor.
- Que tonto que s - retorquiu, mas ele soube pela forma como o olhava que no o achava nada tonto.
Ele segurou o desenho para ela ver. As suas bochechas coraram de espanto e o rosto ficou muito srio.
- s um maestro - exclamou, percorrendo os lbios com os dedos.
- Est lindo, Signor Arbuckle.
Thomas riu-se. Ela nunca o tratara pelo nome. Depois de toda aquela intimidade, Signor Arbuckle soava demasiado formal e inadequado.
- Trata-me por Tommy.
- Tommy.
- Todos me tratam por Tommy.
- Tommy - repetiu ela. - Gosto do nome. Tommy. - Levantou os olhos escuros e fitou-o como se fosse a primeira vez. Empurrou-o suavemente at  relva e deitou-se 
em cima dele. - Ti voglio bene, Tommy.
Quando se afastou, os seus olhos tinham um brilho dourado, como mbar. Ela passou-lhe a mo pela testa e pelo cabelo e, depois, deu-lhe um beijo na cana do nariz, 
sussurrando Ti amo. Voltou a sussurrar a mesma coisa vezes sem conta, ti amo, ti amo, pousando os lbios em todas as partes do seu rosto, como um animal que marca 
o seu territrio, disposta a record-lo.
Ele no queria lev-la a casa. Receava o momento agonizante em que a perderia de vista, em que teria de se ir embora. Enquanto puderam, ficaram na colina, junto 
 torre de vigia, ambos receosos do mar e da terrvel separao que este lhes imporia. Estreitaram-se com fora.
- Como  possvel amar-te to profundamente, Valentina, quando te conheo to pouco?
- Foi Deus que te trouxe para mim - replicou ela.
- No sei nada sobre ti.
- O que  que queres saber? - Riu-se tristemente, percorrendo-lhe o rosto com os dedos. - Gosto de limes e de jarros, do cheiro do amanhecer e do mistrio da noite. 
Gosto de danar. Quando era criana, queria ser danarina. Tenho medo de estar sozinha. Tenho medo de no ser ningum, de no ser importante. A Lua fascina-me, era 
capaz de passar a noite inteira a olhar para ela e a pensar. Faz-me sentir segura. Detesto esta guerra, mas gosto dela por te ter trazido at mim. Tenho receio de 
amar demasiado e de ser magoada; de viver a minha vida no meio da dor e do sofrimento por ter amado algum que no posso ter. Tambm tenho um pavor de morte do nada; 
de morrer e descobrir que no h Deus; da minha alma ficar a vaguear num limbo terrvel, que no  a vida nem a morte. A minha cor favorita  o roxo, e a minha pedra 
favorita, o diamante. Gostava de usar um colar de diamantes para poder brilhar durante uma noite e ficar a saber como  ser-se uma senhora. A minha parte do mundo 
favorita  o mar e o meu homem favorito s tu.
- Mas que resumo! A ltima parte  a de que eu gosto mais - riu-se Thomas.
- H mais alguma coisa que queiras saber?
- Vais esperar por mim, no vais? - disse ele muito srio. - Eu volto para ti, prometo!
- Se Deus existir, Ele saber o que acontece no meu corao e vai trazer-te de volta para mim.
- Caramba, Valentina - suspirou ele, em ingls. - O que  que tu me fizeste?
Percorreram o caminho de regresso a casa em silncio e ele beijou-a uma ltima vez.
- Isto no  um adeus - disse ele. -  um at  vista. No vai demorar.
- Eu sei - sussurrou ela. - Confio em ti, Tommy.
- Eu escrevo.
- E eu hei-de beijar o papel em que escreveres.
Prolongar o momento teria sido uma tortura, por isso ela desceu o caminho a correr e apressou-se a entrar em casa, sem um olhar de despedida. Thomas compreendeu 
e deu meia volta. De repente, a manh pareceu-lhe menos bonita, como se nuvens negras tivessem agora escondido o Sol. O campo perdera o seu fulgor. O canto dos pssaros 
deixou de ser to melodioso e o dos grilos martelava-lhe os tmpanos como cmbalos. S o odor a figos persistia na sua pele para que ele a recordasse, e tambm tinha 
o retrato que desenhara. com uma tristeza to funda como s sentira uma vez em toda a sua vida, quando o seu adorado irmo tinha sido morto, fez lentamente o caminho 
de regresso ao porto, de volta ao seu barco, de volta  guerra...


CAPTULO ONZE

Beechfield Park, 1971

Thomas acordou com o toque do relgio, no trio. Sentia o pescoo rgido e a doer-lhe e piscou os olhos desnorteado. Por um momento, ficou confuso. Onde  que estava? 
Pensava que estava no barco, mas o cho por baixo dele no se mexia. Aos poucos, comeou a divisar o escritrio. Estava frio e escuro,  excepo do candeeiro da 
secretria. Meu Deus, que horas seriam? Olhou para o relgio: trs da manh. Olhou de relance para o retrato que tinha na mo. O rosto de Valentina fitou-o, como 
fizera aquele dia na colina. Conseguira captar tudo o que havia de nico nela; tudo aquilo que talvez nunca conseguisse traduzir em palavras. At mesmo a nica qualidade 
que nem sequer sabia que ela possua. At essa. Como  que lhe escapara?
Percebeu que tinha estado a chorar. As lgrimas tinham-lhe humedecido as faces enquanto dormia e sonhava. Enrolou o desenho e levantou-se com os movimentos presos. 
Ia p-lo no cofre e nunca mais ia olhar para ele. Ela estava morta. De que servia recordar aquilo tudo? De que servia chorar durante o sono, como uma criana? Era 
tudo passado e era a que pertencia. Retirou cuidadosamente o retrato do pai, que escondia o cofre que Margo mandara construir depois de casarem. A Margo pensava 
em tudo. Foi buscar a chave e abriu-o. Havia caixas de jias e papis na cavidade forrada a veludo. Por um segundo, continuou a segurar o esboo. Parte dele no 
queria relegar aquele rosto lindo para o fundo de uma caixa escura. Era como coloc-la outra vez num caixo. No entanto, ele sabia que tinha de o fazer. Era o que 
estava certo. Sem voltar a olh-lo, colocou-o na parte de trs do cofre. Assim que deixou de o ver, sentiu-se melhor. No exercia uma influncia to grande sobre 
ele. Voltou a pr o retrato do pai no lugar, deu um passo para trs e esfregou o queixo, enquanto olhava. Ningum saberia. Talvez at ele acabasse por esquecer.
Quando Fitz acordou, Alba estava na casa de banho. Piscou os olhos na obscuridade e, embora as cortinas fossem grossas, teve a sensao de que o dia estava claro 
e solarengo. Esticou-se e ps as mos atrs da cabea. Embora desapontado por no ter acordado com o corpo quente de Alba junto ao seu, percebeu que, provavelmente, 
era melhor assim. No tinham feito amor. No tinham feito mais nada, a no ser dormirem juntos, como amigos. Ouviu-a a lavar os dentes, cantarolando enquanto o fazia. 
Sentiu-se pouco  vontade. O que  que deveria fazer?
Quando Alba saiu da casa de banho, ainda estava de camisa de dormir, com o cabelo emaranhado cado sobre o rosto e as longas pernas morenas tentadoramente nuas. 
Ela sorriu-lhe preguiosamente, antes de voltar para a cama.
- Usei a tua escova de dentes. Espero que no te importes.
Fitz ficou confuso. Ela tinha voltado para a cama, depois de ter usado a sua escova de dentes, o que era uma coisa bastante ntima para um casal que no dormia junto. 
Levantou-se e usou a casa de banho.
Quando saiu, no tinha a certeza se ela estava  espera que ele voltasse para a cama ou que se vestisse, mas foi um dilema que teve de resolver numa fraco de segundo. 
Alba estava deitada com a cabea na almofada, a sorrir para ele, divertida com a sua hesitao.
- Os homens, normalmente, no costumam ficar assim ao p da cama quando eu estou l dentro - disse ela com uma gargalhada. - Tu gostas de mulheres, no gostas, Fitz?
Fitz subiu para a cama, aborrecido com a provocao. Sem esperar pelo convite, ps-lhe a mo por trs do pescoo e encostou ardentemente os seus lbios aos dela. 
Alba no ofereceu resistncia e retribuiu o beijo, com entusiasmo. Deixou escapar um gemido e ps os braos  volta dele. Foi esse gemido que restabeleceu o equilbrio 
e o fez sentir-se novamente um homem. Quando a mo subiu pela perna dela, por baixo da camisa de noite, descobriu que no usava cuecas.
- Estiveste nua durante toda a noite? - perguntou, acariciando-lhe as ndegas.
- Eu nunca uso cuecas - replicou. - S servem para atrapalhar.
- Nunca? - Meu Deus, sou to convencional, pensou ele para consigo.
- Nunca, avozinho! - replicou, abafando o riso no seu pescoo.
- Asseguro-te que fao amor como um jovem amante! - riu-se Fitz.
- No assegures, jovem amante, mostra-me!
Fitz tentou no pensar na quantidade de homens que j tinham dormido com Alba. Tentou imagin-la pura e sem mcula. Mas isso era difcil, pois Alba tinha mesmo gozado 
das atenes de muitos homens, demasiados para poder cont-los. Ao longo do percurso, aprendera a desfrutar do sexo. A sua novidade decorria do entusiasmo e de uma 
crueza totalmente despudorada. Por mais que Fitz tentasse comandar as coisas e imagin-la inocente, ela contorcia-se e gemia como zfemme du monde que era.
- Querido, beija-me um pouco mais acima, sim... a... com a lngua... mais ao de leve... mais ao de leve... mais devagar, muito muito mais devagar. A. Sim!
Ela ficava contente por lhe dizer o que queria e suspirava com prazer quando ele o fazia. No podia negar que ela era maravilhosa na cama. Tecnicamente, era ptima. 
Mas, depois, enquanto estavam deitados, esgotados e ofegantes, o corao disparado no peito molhado de suor, Fitz no pde deixar de sentir que faltava alguma coisa. 
Oh, estava l tudo, a percia, o know-how, a tcnica. Mas, para ele, a tcnica de pouco valia sem o sentimento. Era a paixo que tornava especial o acto de fazer 
amor. Fitz amava Alba, mas era bvio que ela no o amava.
Passado algum tempo, Alba foi em bicos dos ps para o seu quarto, com a secreta esperana de dar de caras com o Bfalo, s pelo prazer de ver a cara dela. Fitz sentia-se 
vazio. Insatisfeito. Como se tivesse comeado a comer um donuts delicioso e descobrisse que o centro no tinha geleia. Ele tinha-lhe dado a sua alma e ela apenas 
lhe emprestara o corpo com uma gargalhada divertida. Pensou em Viv e no que ela diria, se lhe contasse. "Seu palerma!", diria ela. "Disse-te para no te apaixonares. 
A Alba vai chupar-te at ao tutano e depois cospe-te, quando tiver acabado." Era assim que tratava todos os homens antes dele. Mas ele era diferente. At o pai dela 
admitira isso: "Porque  que a Alba havia de se interessar por algum assim?" Porqu? Porque ele era um corredor de fundo.
Aperaltou-se, j a pensar na igreja e no Reverendo, que estava convidado para o almoo de domingo. Fitz perguntou a si mesmo como  que as coisas correriam quando 
regressassem a Londres. Estaria ela simplesmente a gostar de desempenhar aquele papel? Ou significaria mais alguma coisa para ela? "Estou a comportar-me como uma 
mulher!", disse para o seu reflexo, enquanto tentava pr o cabelo em ordem. Acabou por se resignar com o facto de que, por mais que escovasse, penteasse ou molhasse 
o cabelo, este continuaria a ser um monte de caracis indisciplinados. O Reverendo ia ter de aceit-lo assim.
Ao regressar a casa, depois de tirar Sprout do carro para o deixar correr um pouco pelos jardins, ouviu vozes vindas da sala de jantar. Entrou e Margo cumprimentou-o 
calorosamente.
- Dormiu bem, Fitz? A cama era confortvel? Estava suficientemente quente?
- Era muito confortvel e quentinha - respondeu, satisfeito por Alba no estar presente para olhar para ele e faz-lo sorrir.
- ptimo. Tem ali caf e ch - disse, apontando para o aparador. - Ovos e bacon, torradas. Se quiser um ovo escalfado, a cozinheira trata disso.  s pedir.
- No, os ovos estrelados so perfeitos. Mas que banquete!
Cheirou o bacon salgado e cresceu-lhe gua na boca.
- A cozinheira  uma pequena maravilha. No sei o que faria sem ela. H anos que est connosco. J era a cozinheira da Lavender e do Hubert quando o Thomas era mido, 
no era, Thomas?
Thomas, que estava sentado  mesa a ler os jornais e a beber caf, tentando ignorar as conversas frvolas da mulher e das filhas, levantou os olhos raiados de sangue 
e fez que sim com a cabea. Fitz reparou imediatamente no seu aspecto cansado e doente. Tinha o rosto plido, como se todo o sangue tivesse sido absorvido pelas 
suas meias vermelhas.
- bom dia, Fitz. Espero que tenha dormido bem.
- Sim, obrigado - respondeu Fitz, sentindo que ele no estava para conversas. Virou-se para Margo, deixando Thomas voltar a desaparecer por detrs do jornal.
Aps algum tempo, durante o qual Caroline falou sem parar do homem por quem se apaixonara, Alba entrou. Vestia uma saia curtssima, collants de fantasia e botas 
de camura at aos joelhos. Fitz pensou imediatamente que ela estava esplendorosa; depois, lembrou-se de que Alba nunca usava cuecas e sentiu uma ereco de todo 
o tamanho. Nem pensar em sair da mesa agora. Para alm da roupa escandalosa, exibia uma expresso triunfante. No foi preciso muito tempo para perceber porqu. Ele 
desviou o olhar para a madrasta. Margo estava de queixo cado, sem palavras, coisa pouco usual nela. Alba foi ter com Fitz e deu-lhe um beijo apaixonado e demorado 
na boca. Foi a sua vez de ficar to mudo quanto Margo. Thomas foi o nico que no foi afectado pela sua presena, continuando a ler o jornal, alheio  mudana que 
se sentia no ar. Finalmente, enquanto Alba enchia uma chvena de caf, Margo deu voz  sua fria.
- Minha menina - disse, num tom que sugeriu a Fitz que ela pudesse ter estado em tempos no exrcito ou, pelo menos, numa fora policial. - No ests a pensar ir 
 igreja vestida dessa maneira!
- Ah, estou, estou! - replicou Alba, imperturbvel.
De repente, os ovos e o bacon de Fitz perderam o ar apetitoso. Em vez disso, bebeu um gole de caf e esperou pela discusso prestes a suceder.
- Ah no, no ests! - retorquiu Margo, articulando lentamente cada palavra para ser o mais assustadora possvel. Mas Alba j no era uma criana e aquela maneira 
de proceder s a encorajava a portar-se pior.
- Porqu? - disse ela, virando-se com a sua chvena de caf e sentando-se ao lado de Fitz. - No  do seu agrado?
-  irrelevante se  ou no do meu agrado.  imprprio para ir  igreja.
- Eu penso que Deus vai gostar de mim tal como sou - disse ela, barrando manteiga numa torrada.
- Mas o Reverendo Weatherbone no vai.
- E o que  que ele vai fazer? Expulsar-me? - perguntou em tom de desafio.
Fitz tentou servir de mediador, mas isso foi um grande erro.
- Querida - comeou corajosamente. - Se vestires um casaco, talvez seja uma maneira de agradar a ambas: a ti e  Margo. - Parecia-lhe uma soluo satisfatria, mas 
Margo no concordou.
- Desculpe, Fitz, mas no  digno. Somos a famlia mais importante desta povoao e cabe-nos dar o exemplo ao resto da comunidade.
- Oh, por amor de Deus! - exclamou Alba. - Ningum est interessado no que eu tenho vestido. J no vou  igreja h anos. At deviam ficar agradecidos por eu l 
estar.
- Minha menina, enquanto estiveres na minha casa, cumpres as minhas regras. Se quiseres andar por a quase nua, podes faz-lo em Londres, naquele teu barco, mas 
no aqui, onde somos respeitados.
Fitz encolheu os ombros. Sabia que a referncia ao barco devia ter deixado Alba furiosa. Susteve a respirao. Alba crispou os lbios e mastigou a torrada por um 
momento. Fez-se silncio. Caroline e Miranda tentaram intervir a favor da me.
- Mas tens mesmo de ir  igreja? - perguntou Caroline.
- Podias ir dar um passeio com a Summer - sugeriu Miranda.
- Eu vou  igreja e visto aquilo que me apetecer. Ningum tem nada a ver com isso.
Margo recorreu ao marido, fazendo-o sair de trs do jornal, como uma tartaruga relutante da sua carapaa.
- Ajuda-me, Thomas!
Thomas endireitou-se.
- Qual  o problema?
- Bem, j viste o que  que a tua filha tem vestido?
Alba detestava quando ela se lhe referia como filha de Thomas, apesar da luta que travava para se distanciar da madrasta.
- Acho que ela est encantadora - comentou Thomas.
Alba no foi capaz de conter a sua alegria. A reaco do pai era totalmente inesperada. Raras vezes se pusera do lado dela...
- Sentes-te bem, Thomas? - perguntou Margo. - Ests com uma cor um pouco estranha.
- Talvez um casaco por cima fosse apropriado para o Reverendo Weatherbone - disse ele, sem responder  esposa, pois no se sentia nada bem. Pensou no retrato trancado 
no cofre. Valentina continuava a chegar at ele, a partir desse lugar escuro, no rosto da sua filha.
- Pronto, est bem, eu levo um casaco - cedeu Alba alegremente.
- Talvez me possa emprestar um, Margo. Receio que o que trouxe comigo seja to imprprio quanto a minha saia. - Ps o ltimo bocado de torrada na boca. - Delicioso! 
- exclamou.
Juntaram-se no trio, Miranda e Caroline com casacos e chapus castanhos e Margo com um saia-casaco em tweed e uma grande pregadeira com flores no peito. Thomas 
estava de fato e Fitz, que fora criado no campo, tinha uma indumentria extremamente apropriada, envergando um casaco em suaves tons de verde, gravata sbria e chapu 
de veludo. Alba desceu as escadas, vestindo o casaco informe em plo de camelo que Margo lhe emprestara. Tinha-o abotoado at acima para aplacar o Bfalo, mas, quando 
chegasse  igreja, tencionava abri-lo. Foi at junto de Fitz e pegou-lhe na mo. Depois, sussurrou-lhe ao ouvido:
- Quando me vires a rezar, estarei a pensar em fazer amor contigo!
Fitz riu-se. Margo torceu o nariz, em sinal de reprovao; se havia coisa que abominava eram os segredinhos.
Thomas seguiu no seu carro, com a mulher e as filhas de ambos, enquanto Fitz levou Alba no seu Volvo, com Sprout pendurado na janela de trs, ofegante.
- Espero que o Reverendo Weatherbone esteja preparado para a Alba - disse Margo, tentando minimizar a situao.
- Mesmo com o teu casaco, mezinha, ela consegue ter um ar indecente - comentou Caroline do banco de trs.
- O Fitz  um homem to bonito - disse Miranda. - Fica to bem com aquele chapu!
- O que ser que ele v na Alba? - perguntou Caroline. - So to diferentes...
- Vamos mas  dar graas por ele estar disposto a tomar conta dela - disse Margo, olhando de relance para o marido, e acrescentando diplomaticamente: - Ela pode 
ser uma rapariga pouco convencional, mas  muito animada. Aposto que a vida com ela nunca  aborrecida.
- Pode ser animada, mas no h ningum com um temperamento como o dela - observou Caroline. - Espero que o Fitz saiba aquilo em que se meteu.
- Aposto que ele ainda no viu o seu mau gnio! - comentou Miranda.
- Que Deus o ajude - disse Margo a meia voz, voltando a olhar de relance para o marido. Mas ele estava a quilmetros de distncia.
A igreja de Beechfield era como seria de esperar: tpica, pitoresca e muito antiga. Toda em tijolo e pedra, com um campanrio em madeira onde Fred Timble, Hannah 
Galloway e Verity Forthright detinham o invejado cargo de sineiros h mais de trinta anos. Margo assumia as suas obrigaes como senhora da povoao, com a mxima 
seriedade. Estava escalada para fazer os arranjos de flores na igreja, uma vez por ms e certificava-se de que as suas criaes eram as mais elaboradas. Isso era 
um grande desafio, pois Mabel Hancock cultivava um jardim formidvel e os seus arranjos eram sempre muito ousados. Quando era a vez de Mabel, Margo sentia o estmago 
embrulhado no caminho para a igreja, at ter a certeza de que no tinha sido destronada por uma mulher da aldeia. Quando estavam a chegar, os sinos tocaram, chamando 
os aldeos, vestidos com as suas melhores roupas, para a celebrao. Os contactos sociais ficavam para depois, quando as oraes j tinham sido ditas e as conscincias 
serenadas. Alba deu a mo a Fitz e seguiu o pai e a madrasta. Quando eles no estavam a olhar, desabotoou o casaco.
- O que ests a fazer?- perguntou Fitz, preocupado, pois no queria assistir a mais outra discusso.
- A dar uma lio de moda ao vigrio. ; 
- No achas que devias...
- No - respondeu de forma brusca. - Estou-me nas tintas para o que o Bfalo pensa. Por amor de Deus, tenho quase trinta anos!
Ele no podia discutir com ela.
- Assim, podes olhar para as minhas pernas - acrescentou Alba com um sorriso dengoso. - Quero sentir-te a olhar para elas. '>
Brindou-o com o mais sedutor dos sorrisos e ele no pde deixar de retribu-lo. Ela era irresistvel. O seu corao cedeu e Fitz tentou esquecer a sensao anterior 
de vazio. Se voltassem a fazer amor, talvez as coisas fossem diferentes. Talvez ela estivesse nervosa e todos aqueles gemidos e contores servissem apenas para 
disfarar.
- No te preocupes! No pensarei noutra coisa seno nas tuas pernas! - replicou, ao passarem pela grande porta de madeira e ao avanarem pela nave.
A igreja estava cheia. S o banco da frente estava vazio, reservado para os Arbuckles, tal como todos os domingos. Thomas desviou-se para deixar passar a mulher 
e as duas filhas mais novas, que passaram por ele e se sentaram. Acenou com a cabea para Fitz, o tipo de aceno que um homem s faz a outro homem, um aceno de cumplicidade 
silenciosa, e sentou-se, deixando os ltimos dois lugares livres para ele e Alba.
Alba sentou-se, com o casaco a cair para o lado, pelas coxas, e admirou o padro dos seus collants, comprados por 40 pence na loja do Exrcito e Marinha. Sentiu 
os olhos de Fitz sobre eles e reviveu a forma como se tinham amado. Contudo, aquilo que melhor recordava era o seu beijo, je alguma forma mais terno do que qualquer 
outro beijo que alguma vez lhe tivessem dado. Sentira-se embaraada, pois tinha sido demasiado ntimo. Assustara-a, mas tinha gostado. Talvez ele a voltasse a beijar 
assim.
Se o fizesse, talvez ela conseguisse controlar a sensao insuportvel de perder o estmago, como quando o carro passava demasiado rpido naquela ponte, nos arredores 
de Kings Worthy.
De repente, o Reverendo Weatherbone entrou com passo impetuoso na nave da igreja. Impetuoso era o mnimo que se podia dizer: as vestes esvoaavam atrs dele, como 
se ali soprasse um vento forte. O cabelo era um tufo grisalho, revolto e comprido, que danava ao sabor de um vento imaginrio, como a batina. O rosto irradiava 
entusiasmo, os olhos coruscantes, a boca rasgada e sorridente. Alba crescera habituada ao severo e arrogante Reverendo Bolt. Ela no estava  espera que o substituto 
se parecesse com um cientista louco. A sua voz era hipnotizante, ecoando nas paredes de forma vibrante. Ningum se mexia. Era como se ele os tivesse encantado a 
todos com a sua incrvel presena. Alba apressou-se a atirar o casaco sobre os joelhos. Ele virou os olhos para ela e Alba sobressaltou-se com o peso do seu olhar.
- Oh, Deus! - exclamou.
- Obrigado pela promoo, menina Arbuckle - disse ele e um risinho abafado percorreu a congregao.
Alba corou intensamente e baixou os olhos. Engoliu em seco e olhou de relance para a madrasta.
A expresso de Margo era de uma admirao profunda e inabalvel. Aqui est ele diante desta boa gente, pensava ela secretamente, e vai almoar connosco! Tinha de 
arranjar maneira de dizer a Mable que o Reverendo era convidado  sua mesa. Uma coisa totalmente inocente,  claro, tranquilizou-se, ciente do local onde se encontrava. 
Rivalidade infantil no  pecado...
Alba s tinha ido  igreja para irritar o Bfalo com a sua minissaia e para exibir o "namorado". No tinha inteno de ouvir, nem por um momento. Deus no era uma 
presena bem-vinda na sua vida e, se alguma vez pensava n'Ele, era sem sentimentos de culpa. Crescera com Ele, como toda a gente naquela pequena comunidade rural 
de Beechfield, mas, depois, desinteressara-se.  claro que sabia que havia algum tipo de poder superior. A me estava l em cima, algures. De certeza que no estava 
morta dentro de um caixo sepultado na terra para os vermes a comerem. Havia algum tipo de vida espiritual, mas ela nunca pensara muito sobre isso, principalmente 
porque, se a me a visse, iria com certeza desaprovar a vida promscua e decadente que levava, o que deixava Alba por momentos infeliz e com averso por si mesma. 
No, o melhor era viver o presente. No entanto, o Reverendo Weatherbone captou a sua ateno. No tirou os olhos dele por um segundo. Tinha caminhado pela nave, 
a esbracejar, de vestes esvoaantes, o cabelo a ondular como se tivesse vida prpria, com tal carisma que at mesmo ela, a mais cptica da congregao, acreditou 
que Deus devia estar a falar atravs dele directamente com ela.
No pensou em sexo. No remoeu no beijo de Fitz. Por uma vez na vida, Alba Arbuckle pensou em Deus. "


CAPTULO DOZE

Quando o servio religioso terminou, o Reverendo Weatherbone foi at ao alpendre, para apertar a mo aos fiis,  medida que saam. Margo acabou por ficar atrs 
de Mabel Hancock. O esprito de competio deixou-a tensa quando o Reverendo felicitou Mabel pelos arranjos de flores da semana anterior e sentiu-se compelida a 
interromper, desesperada para que Mabel soubesse que o Reverendo ia almoar a Beechfield Park.
- Oh, sim, no poderia passar sem ela!
- Nem sem si, senhora Arbuckle - disse o Reverendo diplomaticamente.
- Foi uma celebrao estimulante - disse Margo, retribuindo o elogio.
- Fiquei contente por ver a Alba hoje entre ns.
- Sim, veio at c passar o fim-de-semana com o novo namorado. Estamos todos com esperana que este seja para durar. Ainda bem que vai ter oportunidade de o conhecer 
melhor ao almoo. Venha quando estiver pronto - rematou, com um sorriso triunfante para Mabel. r - Fico parva com as coisas que os jovens usam hoje em dia - disI 
se Mabel, abanando a cabea, enquanto se afastava. l Margo virou-se e viu Alba a cumprimentar o vigrio, com o casaco l aberto a esvoaar ao vento, revelando a saia 
minscula e os collants de ? fantasia. Foi at l, disposta a intervir. Tinha de brincar com a situao. j Porque  que aquela tonta no tinha abotoado o casaco? 
Para espanto de
Margo, ao aproximar-se, percebeu que toda a conversa deles girava agora em torno daquela pavorosa tira de tecido e que o vigrio estava a expressar em voz alta e 
de forma entusistica a sua aprovao.
A minissaia de Alba tambm despertara o interesse dos invisveis tocadores de sinos: Fred Timble, Hannah Galloway e Verity Forthright.
Depois de terminarem o seu trabalho altamente especializado que, infelizmente, passava despercebido  maior parte da comunidade, sentaram-se nos bancos de madeira, 
bem por cima dos fiis, agora cada vez em menor nmero, para recuperarem o flego e falarem sobre a cerimnia. No perderam tempo a dissecar o sermo ou a admirar 
as flores, ou mesmo as personagens cuja familiaridade suscitava agora uma espcie de desdm afectuoso; foram direitinhos a Alba Arbuckle.
- Via-se bem o ar de reprovao na cara da senhora Arbuckle... comentou Verity, que nunca dizia bem de ningum. - Mesmo com o casaco comprido, era impossvel deixar 
de reparar naquela saia e naquelas botas. E logo na igreja!
Fred estivera apaixonado por Margo durante muitos anos. Considerava-a uma verdadeira senhora: amvel, capaz, digna e de classe alta. Gostava do modo como ela falava, 
daquela forma antiquada de articular as palavras que a distinguia de todas as outras pessoas de Beechfield. Por uma ou duas vezes, dignara-se falar com ele. Elogiara 
a forma como tocava o sino e tinha-lhe dito que fazia um trabalho magnfico. "Pe as pessoas no estado de esprito certo para a cerimnia", dissera. Ele recordara 
as suas palavras, uma por uma. Mas ficara com pior opinio dele desde que o descobrira a tomar uma bebida ilegal e a fumar um cigarro, na companhia da jovem Alba, 
ento com catorze anos, no pub Hen's Legs. Entrara em passo de marcha, com uma expresso contrada e furiosa, e arrastara a adolescente l para fora. "Senhor Timble, 
mas que desiluso!", exclamara. Ainda lhe doa lembrar-se disso. "Tinha-o na conta de uma pessoa mais honrada! Ela  uma criana e est a lev-la por maus caminhos!" 
Arrastara Alba l para fora por uma orelha. Cerca de um ms mais tarde, quando Alba se esgueirara novamente at ao pub, contara-lhe que ela lhe tinha retirado todos 
os privilgios: nada de doces nem sadas e tinha de andar a cavalo todos os dias durante as frias, no pnei irrequieto de Miranda. Acrescentara com um sorriso imoral 
que as pernas lhe tinham ficado a doer de tal maneira que mal conseguia fech-las. " bem feito para o bfalo velho! Ela  que me educa para ser uma galdria!", 
dissera com uma gargalhada roufenha. Depois disso, tinham passado a ter o cuidado de se esconderem.
- A Alba sempre passou dos limites - disse ele, em resposta ao comentrio de Verity. - A senhora Arbuckle tem sofrido muito.
- Oh, a Alba  apenas uma jovem. Gosta de se divertir, pobre mida! - disse Hannah, que tinha o dom de ver apenas coisas boas em toda a gente. - Eu achei que ela 
estava fantstica.  uma bonita rapariga e tem um namorado novo muito simptico.
Apalpou o carrapito grisalho para ter a certeza de que estava tudo no lugar. Era uma mulher forte e bem vestida, que gostava de estar no seu melhor ao domingo. Decidira 
que estava a ficar demasiado velha para tocar o sino; mais um ou dois anos e estaria demasiado trmula para subir a escada estreita.
- Provavelmente, ainda acaba por casar com aquele jovem simptico e assentar. Parece que todas acabam por faz-lo. A minha neta...
Verity no estava interessada na neta de Hannah. Era uma mulher amarga porque no tinha tido filhos, apenas um velho marido embirrento que lhe dava mais trabalho 
do que qualquer beb.
- Oh, no tarda muito, despacha-o - disse com azedume. - Conheo o gnero da Alba. J teve mais amantes do que eu refeies quentes!
- Verity! - exclamou Hannah, chocada.
- Verity! - repetiu Fred. s vezes, parecia que se esqueciam que estavam na companhia de um homem.
-  uma falta de respeito falar dela assim, neste lugar! - sibilou Hannah num sussurro. - No sabes nada sobre isso!
- Sei, pois - disse Verity, levantando-se e endireitando a saia pregueada. - A Edith ouve tudo o que se passa em Beechfield Park. Dem-lhe um clice de xerez, que 
ela conta tudo. No que me passasse pela cabea perguntar-lhe.
Cerrou os lbios, irritada por ter sido forada a trair Edith, que era cozinheira em Beechfield Park h cinquenta e dois anos. Mas, agora, j no era capaz de se 
conter e prosseguiu:
- Tm tido discusses horrveis, sabem? A Edith diz que a Alba e a senhora Arbuckle esto sempre a entrar em conflito e que o capito Arbuckle se limita a enterrar 
a cabea na areia, como uma avestruz. Ela diz que ele se sente culpado por ela no ter uma me a srio.  claro que a culpa no  dele, mas isso pesa-lhe sobre os 
ombros. Parece muito mais velho do que , no acham? A senhora Arbuckle est muito mais interessada nas suas prprias filhas. No fim de contas, sangue  sangue, 
no ? E as filhas dela no lhe do problemas. No so como a Alba.
- A Edith devia aprender a ficar calada, para seu prprio bem! -- disse Hannah, num tom invulgarmente rspido.
- Ela  muito discreta. S me conta a mim.
- E tu contas a toda a gente! - observou Hannah, enfiando os braos nas mangas do casaco. - Bem, vou almoar.
- E eu vou at ao Hen's Legs - disse Fred, encolhendo os ombros sob a velha pele de ovelha.
- O Reverendo Weatherbone vai almoar hoje a Beechfield Park. Pergunto a mim mesma o que  que ele ir pensar da Alba. No me parece que se conhecessem.
- Bem - disse Hannah, irritada. - Se h algum capaz de descobrir, esse algum s tu, Verity!
De volta a Beechfield Park, Margo estava a sentar toda a gente para o almoo. A cozinheira passara a manh numa azfama, a preparar a carne de vaca assada, o pudim 
Yorkshire, as batatas assadas, que eram sempre especialmente estaladias, e uma srie de vegetais cozinhados. O molho era espesso e escuro, uma receita sua, que 
no partilhava com ningum, nem mesmo com Verity Forthright, que a pedira em inmeras ocasies.
A cozinheira era uma pessoa que no se chocava facilmente. Vivera metade da sua vida com os Arbuckles e tinha visto de tudo, desde as frias de Alba at aos rapazes 
que ela beijava atrs das sebes, no jardim, quando, em adolescente, aproveitava os torneios de tnis e os concursos hpicos que a madrasta realizava para Caroline 
e Miranda. No entanto, aquele farrapito que Alba usava ao almoo tinha conseguido choc-la. Por baixo daquela amostra de saia, as pernas de Alba eram longas e ficavam 
com um ar terrivelmente ordinrio com aquelas botas. No admirava que a senhora Arbuckle no a tivesse deixado ir  missa naquela figura. Por isso, tambm foi um 
choque terrvel quando o bom vigrio chegou para almoar, a fazer piadas em relao ao seu guarda-roupa. Ento ele no era um homem de Deus?
Na verdade, quando a cozinheira estava a servir o almoo, fingindo no prestar ateno a mais nada, no pde deixar de ouvir um fragmento da conversa, enquanto eles 
se serviam de feijes e batatas. O vigrio estava sentado entre a senhora Arbuckle e Alba, um erro terrvel por parte da anfitri, pensou a cozinheira, pois a saia 
de Alba desaparecia completamente quando ela estava sentada. Era a mesma coisa do que estar sentada de cuecas. No estava certo um homem de Deus olhar para as coxas 
de uma rapariga, quanto mais falar sobre elas...
- Quando eu era novo, ningum via as coxas de uma mulher at se casar - disse ele.
Alba riu-se com aquele seu riso provocante, baixo e rouco, como fumo de chamin. A cozinheira ficou chocada com o seu ar atiradio.
- Eu ia detestar essas restries. Alm disso, estas botas fazem-me sentir no topo do mundo. Ando por a como se fosse sua dona - replicou. - So em camura italiana...
- Tambm gostava de ter um par de botas dessas. Como  que acha que me ficavam debaixo da batina?
- No me parece que faa muita diferena aquilo que usa por baixo. At podia no usar nada que ningum ia perceber...
Riram ambos.
A cozinheira olhou para a senhora Arbuckle, que estava a falar com Fitz. Aquele sim, era um homem encantador. Sensvel, gentil, simptico. Na noite anterior, at 
tinha ido  cozinha depois do jantar para lhe agradecer o "banquete sumptuoso", nas suas amveis palavras. Reparou que o Reverendo j tinha tirado quatro batatas. 
No s tinha olho para as mulheres, mas tambm um apetite insacivel. No seu tempo, os vigrios eram homens de moderao e pudor. Torceu o nariz, retirando o prato 
antes que ele tirasse a quinta.
O capito Arbuckle cumprimentou a cozinheira pelo almoo. Ela gostava muito do capito, conhecia-o quase desde que nascera. Quando ele regressara da guerra com aquele 
beb minsculo nos braos, tinha ficado com o corao despedaado. Como  que ele ia conseguir desenvencilhar-se sozinho com uma criaturinha to pequena? A dor distorcera-lhe 
as feies. Parecia um velho, e no o jovem vistoso e o rebelde da famlia. Tinha sido um bom patife, sempre a preparar alguma, mas sempre encantador. O Tommy, como 
lhe chamavam na altura, conseguia tudo o que queria com aquele seu sorriso. Mas no quando regressou da guerra. Estava mudado. O desespero tinha-o mudado. Se no 
fosse a menininha que segurava nos braos, com um ar to possessivo, era bem capaz de ter perdido a vontade de viver e de no ter durado muito. A cozinheira tinha 
ouvido dizer que isso acontecia. Tinham falado de Valentina num tom de voz abafado, como se o facto de mencionar o seu nome naquela altura to triste fosse o suficiente 
para o denegrir. Fora uma mulher linda, um anjo, diziam eles. Depois, a nova senhora Arbuckle entrara em cena e o nome sagrado de Valentina nunca mais fora mencionado 
l em casa, pelo menos directamente. No era de estranhar o facto de Alba se ter rebelado. A cozinheira resmungou o seu desagrado e o capito, pensando que era por 
causa dele ter tirado batatas a mais devolveu uma discretamente.
A cozinheira avanou para Fitz. Cheirava a sndalo. Conseguia sentir o cheiro, mesmo com o aroma dos seus cozinhados. Ela gostava de Fitz. Mas ele e Alba faziam 
um estranho par. Via-se que gostavam um do outro. Fitz fazia Alba rir-se. Era esse o caminho para o seu corao, embora ela no tivesse a certeza de que ele l tivesse 
chegado. Sabia onde estava, ia na direco certa e, contudo, tal como acontecia com todos os jovens com quem Alba namorava, no conseguia l entrar completamente. 
Ela percebia isso nos olhos de Alba. Podia ser que Fitz l chegasse com o tempo, se fosse perseverante. No entanto, Alba no tinha um bom historial. Ela no era 
uma maratonista, no dizer do seu prprio pai. Tinha-o ouvido uma noite, a falar com a mulher, lamentando os amantes que ela arranjava, o seu estilo de vida decadente, 
ansiando para que assentasse. No fim de contas, ela at estava a fazer progressos. Quando Fitz se serviu da ltima batata, no se importou nem um bocadinho.
Ao fim da tarde, quando andava  procura dos patres para lhes dizer que deixara carnes frias e salada no frigorfico para o jantar, a cozinheira deu com Alba a 
vasculhar o escritrio do pai. Deixou-se estar na sala das bebidas, a espiar Alba pela fresta da porta, incapaz de conter a sua curiosidade. Sabia que aquilo no 
se fazia, mas no conseguiu controlar-se.
Alba abria cuidadosamente as gavetas da secretria, levantava papis, examinava-os, sempre de semblante carregado. Era bvio que no conseguia encontrar aquilo de 
que andava  procura. A cozinheira manteve-se de atalaia em relao  porta que dava para o trio, com medo que algum pudesse entrar e apanh-la. s vezes, Alba 
fazia uma pausa, retesava-se como um gato assustado, antes de relaxar de alvio e retomar a sua busca. A cozinheira estava fascinada. De que andaria ela  procura?
De repente, a cozinheira tambm ficou tensa, ao ver uma sombra que se projectava do outro lado da sala. A senhora Arbuckle estava  porta e a sua estrutura larga 
tapava a luz que vinha do trio. Alba levantou-se de repente e arquejou. Por um momento, ficaram simplesmente a olhar uma para a outra. O rosto da senhora Arbuckle 
denunciava uma grande fria, embora controlada. Agora, a cozinheira no se podia ir embora, mesmo que quisesse. O mais pequeno movimento iria, certamente, denunciar 
a sua presena. Sentiu a pele arrepiar-se de apreenso. Por fim, a senhora Arbuckle perguntou num tom de voz muito calmo:
- Ests  procura de alguma coisa, Alba?
A cozinheira, que s conseguia ver o perfil de Alba, conseguiu detectar um sorriso malicioso no rosto de Alba, que se inclinou sobre a secretria do pai e agarrou 
num lpis.
- J encontrei - disse com irreverncia. - Mas que tonta que eu sou. Estava mesmo aqui  minha frente o tempo todo.
A senhora Arbuckle olhou-a incrdula, enquanto a enteada fazia uma sada teatral.
Por fim, a senhora Arbuckle mexeu-se. Avanou calmamente at  secretria e comeou a arrum-la. Fechou as gavetas que tinham ficado abertas e ps as cartas do marido 
novamente num montinho em cima do mata-borro. As suas mos diligentes moviam-se lenta e cuidadosamente e no pararam at estar tudo como devia ser. O capito era 
um homem fastidioso. Os anos que passara na marinha tinham-lhe deixado o gosto por ter tudo no seu devido lugar. Depois, a sua mo pairou sobre uma das gavetas. 
Mordeu o interior da bochecha, como que a decidir o que fazer. Era como se alguma coisa l dentro a estivesse a atrair. Estaria ela  procura da mesma coisa que 
Alba? Aps um longo momento, retirou a mo e saiu, fechando a porta suavemente atrs de si.
Quando a cozinheira encontrou a senhora Arbuckle na sala de estar, estava empoleirada no banco da lareira, a falar com Caroline, como se nada tivesse acontecido. 
Sorriu para ela, agradeceu-lhe pelo almoo e deu-lhe as boas-noites. A cozinheira ficou intrigada. A animosidade entre Alba e a senhora Arbuckle era bem conhecida, 
mas percebia agora que ningum era capaz, realmente, de apreciar a sua dimenso.
A cozinheira foi para casa, onde encontrou uma mensagem de Verity. Poderia fazer o favor de lhe telefonar? Resmungou com arrogncia. Aquela Verity, pensou com intolerncia. 
Anda outra vez atrs da minha receita. Mas eu no lha vou dar, disso pode ela ter a certeza.
Alba e Fitz foram embora pouco depois da cozinheira. Thomas beijou a testa da filha e deu um forte aperto de mo a Fitz.
- Espero voltar a v-lo.
- Eu tambm - respondeu Fitz. - Adorei cada minuto. Agora que conheo os pais da Alba, percebo onde  que ela foi buscar aquele charme todo.
Thomas riu-se. Por um momento, sentiu o jovem tenente a rir na pele curtida do velho capito. Tinha-se esquecido de como era bom. Deu umas palmadinhas nas costas 
de Fitz e, de repente, parecia ser o rosto de Jack que estava a rir para ele. Pestanejou para afastar essa imagem. No falava com Jack desde a guerra. No sabia 
onde  que ele estava, se  que ainda era vivo. Virou-se para o alpendre e lembrou-se de subir aqueles degraus, segurando a pequena Alba, com o mundo feito em pedaos. 
Contudo, aquela pequena trouxa que tinha nos braos acabava por representar a esperana e a luz, quando tudo  sua volta era desespero e trevas... Viu-a entrar no 
carro. Eles disseram adeus e foram-se embora.
No carro, Alba deu livre curso  sua fria.
- Ele escondeu-o! - exclamou. - Procurei em todas as gavetas daquela secretria. Ou o escondeu ou destruiu-o. Quem me dera nunca lho ter dado! Sou uma parva!
- No acredito que o tenha destrudo, Alba. No depois da forma como falou dela ontem  noite - disse Fitz, tentando acalm-la. Alm disso, gostava verdadeiramente 
do pai dela. No era nada um velho "fssil"! Era um homem ainda novo. Aquilo devia ter-lhe acontecido na primavera da vida. No entanto, como muitos dos que tinham 
sobrevivido  guerra, as suas experincias tinham-lhe roubado a juventude. - Tu pediste-lho?
Alba pareceu surpreendida.
- No. Ns no falamos sobre ela. De cada vez que pronunciei o nome dela, no passado, acabmos sempre a discutir, tudo por causa do Bfalo. Suspeito que ele o tenha 
escondido num lugar seguro, onde o possa tirar para fora e olh-lo de vez em quando, em privado. Dificilmente o deixaria na secretria. A Margo ia encontr-lo num 
segundo. Devia ser uma coisa que pudssemos partilhar - disse ela, em voz calma. - Ela pertence-me a mim e ao paizinho, no ao Bfalo, Caroline, Miranda ou Henry. 
Devia ser uma coisa de que pudssemos falar  lareira, enquanto tomvamos um copo de vinho. Podia ter sido to especial. Mas, por causa do Bfalo,  um segredo feio 
e eu no me sinto digna porque sou produto desse segredo.
Fizeram a viagem em silncio, cada um tentando encontrar uma maneira de sair do lodo que Valentina criara, involuntariamente, ao morrer. O Sol estava a pr-se atrs 
deles, deixando o cu com uma tonalidade dourada, onde flutuavam nuvens rosadas como os gansos, c em baixo. Sprout dormia pacificamente l atrs.
- Eu vou encontr-la sozinha - disse Alba, deslizando no banco e cruzando os braos. - vou encontrar Incantellaria.
- ptimo - respondeu Fitz. - Eu ajudo-te...
- A srio? - interrompeu-o ela, sem o deixar acabar a frase. - Quer dizer que vais comigo? - Endireitou-se, toda contente.
Fitz riu-se.
- Ia oferecer-me para te ajudar a encontr-la num mapa!
- Oh! - disse ela, desapontada.
Quando chegaram a Cheyne Walk, Fitz estacionou por baixo do candeeiro. No sabia o que esperar. J no precisavam de continuar a representar o seu papel. Podiam 
voltar  normalidade. Teria ele de voltar s noites de bridge com Viv e contentar-se em olhar ansiosamente atravs das janelas de Alba, sofrendo ao ver os seus pretendentes 
subirem a prancha de embarque com os braos cheios de rosas e sorrisos satisfeitos?
- Apanhas uma multa, se estacionares aqui - disse ela.
- Eu no vou ficar.
- Porque no? - perguntou, franzindo o sobrolho.
Fitz suspirou.
- No te quero partilhar, Alba.
- Partilhar-me?
- Sim, no te quero partilhar com o Rupert nem com o Reed do Rio, nem com qualquer outro dos teus amigos. Se ficar contigo, quero exclusividade.
Ela riu-se alegremente.
- Ento vais t-la, querido Fitz. Podes ter-me toda para ti.
Fitz voltou a sentir aquele vazio desconfortvel. O seu tom tinha sido superficial. Era tudo demasiado fcil.
- Queres dizer que vais deixar de estar com outras pessoas?
- Mas  claro! Por quem me tomas? - exclamou, parecendo magoada. - No te ocorreu que eu tambm podia no querer partilhar-te?
- Bem, no - respondeu Fitz, desconcertado.
- Ento, estaciona o carro e vamos tomar um banho juntos. O Sprout pode assistir, se se portar bem. No h nada de que eu goste mais do que tomar um copo de vinho 
na banheira e no, caso estejas a pensar nisso, nunca partilhei um banho com ningum antes. Vai ser a primeira vez contigo e a primeira vez com o Sprout. . .
Fitz sentiu-se culpado.
- Desculpa - disse, beijando-lhe a face.
- Desculpas aceites. - Depois, riu-se com aquele riso contagiante que vinha bem l de dentro. - E pensar que nos transformmos no casal que fingimos ser durante 
todo o fim-de-semana. A vida no  uma coisa estranha?


CAPTULO TREZE

Alba fez como tinha prometido e disse a todos os outros homens que gozavam da animada excitao da sua cama que agora tinha um namorado e no poderia voltar a estar 
com eles. Rupert ficou destroado. Apareceu no barco, com os braos cheios de flores e uma expresso infeliz, suplicando-lhe que casasse com ele. Tim gritou com 
ela pelo telefone, desligou e, depois, enviou-lhe uma prenda comprada na Tiffany,  laia de desculpa, esperando que ela a aceitasse e casasse com ele. James, normalmente 
to conciliador e amvel, apareceu embriagado uma noite e, com a espingarda que o pai lhe tinha oferecido, comeou a disparar contra os esquilos no telhado de Alba 
at a polcia, alertada por Viv, chegar e lev-lo. Alba atirou isso tudo para trs das costas, encheu outro copo de vinho e levou-o l para cima para fazerem amor.
Fitz ignorou os avisos de Viv e perseguiu cegamente o objecto do seu amor. Passava a maioria das noites no Valentina, pois Alba detestava estar sozinha. Ela adorava 
as noites em que no faziam amor, quando se podia aninhar junto dele, com os seus braos  volta dela, a respirao a roar-lhe a pele e a voz a murmurar-lhe ao 
ouvido. Ele era mais do que seu amante; no fim de contas, os amantes eram fceis de arranjar... Era seu amigo, e ela nunca tinha tido um amigo como Fitz.
Alba levou-o s compras ao Mr. Fish, em Beauchamp Place, e persuadiu-o a comprar camisas novas.
- As tuas roupas eram da Idade Mdia - disse Alba, quando ele usou uma delas para almoarem em Drones. - A srio, encaixavas-te demasiado bem em Beechfield Park, 
para meu gosto! Aposto que o Bfalo estava de olho em ti para a Caroline. Eu no queimo as camisas antigas, pelo sim pelo no...
Fitz no gostava das suas brincadeiras. Ento ela no sabia que ia casar com ele?
Foram  exposio de pop art de Andy Warhol, na Tate, e, num esforo para ser moderno, Fitz comprou-lhe o novo LP de Led Zeppelin que continha a sua cano favorita: 
Stainvay to Heaven.  noite, iam at ao Tramp ou AnnabeFs e danavam at ao amanhecer. A nica coisa que o mantinha a danar at essas horas da madrugada eram os 
novos cales de Alba. Para ela, no fazia mal; no tinha de se levantar de manh cedo, embora Reed do Rio viesse muitas vezes cham-la de manh, permanecendo obedientemente 
l em baixo. Mas Fitz tinha de fazer o seu trabalho. Viv andava a massacr-lo com a digresso para promover os livros e, ao que parecia, esta no se resumiria a 
Frana. Tambm tinha de se levantar cedo para ir passear o Sprout em Hyde Park.
- Pareces cansado, Fitzroy - comentou Viv, dando as cartas.
- Estou exausto - respondeu, e Viv no pde deixar de reparar no seu sorrisinho presunoso.
- Isso no vai durar - disse de forma custica, sacudindo a cinza para o prato verde.
- O que  que quer jogar? - perguntou Wilfrid. - Fraco ou forte, sem trunfo?
- Fraco - disse Viv com um suspiro. - Eu continuo a ver esse Reed do Rio a aparecer por a de manh...
- Eu confio nela - disse Fitz, com segurana. -  claro que tem todo o direito de ter amigos.
Fitz gostaria de lhe ter explicado que ela s tinha dormido com homens por causa da solido. Agora, tinha-o a ele, j no havia razo para se sentir sozinha.
- Eu tenho imensas amigas e a Georgia no se importa, pois no, querida? - interps Wilfrid, ordenando as cartas e coando o queixo.
- Aposto que nenhuma delas  como a Alba - disse Viv. Georgia ficou ofendida. Por mais que dissesse o contrrio, teria secretamente adorado ter amigas como Alba.
- No vou falar dela enquanto jogo bridge. No  bonito - disse Fitz, na defensiva. - Uma de ouros.
- Mudaste de cantiga - Viv ficou de fora. - Passo.
- Uma de copas - disse Georgia.
- Passo - disse Wilfrid com um suspiro.
-- Trs sem trunfos. Eu respeito-a - disse Fitz.
Viv resmungou:
.- As pessoas nem sempre so o que parecem, Fitzroy. Sendo escritora, estou sempre a observ-las. A Alba est acostumada a ser coisas diferentes para pessoas diferentes. 
 uma actriz. Aposto que ela nem sequer sabe quem , sob aquela capa de fanfarronice.
- Sempre vai a Itlia para encontrar a me? - perguntou Georgia.
- Sim, creio que sim - respondeu Fitz.
- O que  que ela espera encontrar? - perguntou Wilfrid, que, tendo apanhado apenas a parte final da conversa, estava confuso em relao  me de Alba.
- Isso  uma boa pergunta. No me parece que a Alba tenha pensado muito sobre isso. Estamos a falar de h trinta anos atrs. Muita coisa pode acontecer em trinta 
anos. A famlia da me at se pode ter mudado. Mas suspeito que ela v  procura de recordaes e de histrias para ter a certeza de que a me a amava. Ela nunca 
sentiu que fizesse parte da famlia da madrasta e quer ter essa sensao de pertena, de olhar para os familiares e ver os seus traos reflectidos neles.
- s um romntico incurvel, Fitzroy. Vais com ela? - perguntou Viv, semicerrando os olhos quando Georgia ganhou a vaza.
- No.  algo que tem de fazer sozinha.
- No me parece que ela alguma vez tenha feito fosse o que fosse sozinha - acrescentou Viv.
- Onde  que isso fica? - perguntou Wilfrid, como se conhecesse Itlia, tendo estudado Histria da Arte em Oxford.
- A cerca de uma hora para sul de Npoles, na costa de Amalfi. J encontrmos no mapa. Ela vai dizer ao pai este fim-de-semana.
- Ento ainda tens um papel a desempenhar nesse teatro? - disse Viv.
- J no  teatro, Viv - retorquiu Fitz. -  a vida.
Nessa noite, em Beechfield Park, Margo e Thomas estavam a despir-se para ir para a cama. L fora, chovia com fora e o granizo batia nas vidraas como pedra.
- Est um frio dos diabos, nem parece Primavera! - disse Thomas, espreitando atravs das cortinas do seu quarto de vestir.
Quando conseguiu ver, para l do seu reflexo, o jardim s escuras, em baixo, ensopado e a brilhar sob a luz que se escapava de dentro de casa, lembrou-se de repente 
da noite em que regressara com a pequena Alba. Tambm chovera nessa altura.
- Espero que no haja geada, caso contrrio vai matar os botes que ainda agora comearam a rebentar - replicou Margo. - Ultimamente, tem estado tanto calor, e agora 
isto. Neste pas, nunca se sabe
Tirou os ps de dentro da saia e ficou de combinao, a tirar o colar.
- Lembraste-te de dizer ao Peter para dar uma olhadela na pata do Bons? Reparei que anda a coxear.
Thomas afastou-se da janela e fechou as cortinas.
- Provavelmente, aleijou-se a correr atrs das porcas o dia todo no cercado - disse, dobrando as calas e colocando-as sobre a cadeira. De repente, viu o rosto de 
Jack, com Brendan alerta e brincalho sobre o ombro. Estava a rir-se da sua piada, com o seu sorriso rasgado e contagiante.
- O que  que disseste? - perguntou Margo, deixando cair a combinao no cho.
- Nada, querida - respondeu, desabotoando a camisa.
- Sabes que a Mabel telefonou para me lembrar de arranjar as flores para este domingo? Como se eu me esquecesse!
Tirou as cuecas e o suti e vestiu a camisa de dormir branca. Depois, sentou-se em frente do espelho e penteou o cabelo, agora totalmente grisalho. Margo no parecia 
importar-se. Esfregou um pouco de creme da Ponds nas mos, secando o excesso no rosto.
- A srio, a Mabel  c uma metedia! Devia candidatar-se para presidente da cmara, ou coisa assim, e pr esse talento ao servio de uma boa causa. A Alba vem c 
com o Fitz - acrescentou. Como no obtivesse resposta, prosseguiu: - Este ms, j  a terceira vez. Acho que o Fitz consegue amansar a fera, no te parece?
Quando Thomas entrou no quarto, tinha o rosto corado e os olhos a brilhar.
- Ests bem, querido? - perguntou Margo, franzindo a testa. Sentes-te indisposto?
Ultimamente, no parecia o mesmo.
- Sinto-me perfeitamente - replicou. - Vamos fazer amor.
Margo ficou surpreendida. J no faziam amor, bem, h sculos!
Nem conseguia lembrar-se da ltima vez que isso acontecera. Ela tinha sempre tanto em que pensar: na Summer, no Boris, nos filhos, na Alba, na festa da aldeia, nas 
flores da igreja, na feira sobre rodas, nas corridas de cavalos, no Women's Institute, para no falar dos convidados que recebiam. No havia tempo para fazer amor.
Foram para debaixo dos lenis. Margo gostava de ter ido ler o seu livro. J tinha passado os primeiros captulos, mais difceis, e as personagens estavam a comear 
a ganhar vida. com um suspiro de resignao, apagou a luz e deitou-se, na expectativa. Thomas apagou a luz do lado dele e rolou sobre si mesmo para a beijar.
- No somos um bocado velhos para isto? - perguntou ela, envergonhada.
- S os nossos corpos  que envelheceram, Margo - segredou-lhe ele junto ao pescoo. - com certeza que os nossos espritos continuam jovens.
A sua voz parecia desesperada, como se precisasse que ela concordasse. Margo sentiu uma terrvel inquietao na alma. No era o mesmo desde que Alba tinha aparecido 
com o retrato da me. Aquelas memrias tinham estado bem guardadas, como sedimento no fundo de uma lagoa cristalina. Agora, Alba tinha ido raspar os dedos nele, 
deixando a gua turva. Enquanto ele fazia amor com ela, Margo no pde deixar de perguntar a si mesma se Thomas estaria a pensar em Valentina.

Alba ouviu a chuva a bater na clarabia. Estava feliz e satisfeita. No entanto, o mesmo no se passava com Fitz. Ainda no era capaz de chegar perto dela. "Como 
 que  possvel chegares ainda mais perto?", argumentava ela, encostando o seu corpo quente ao dele. Mas no era isso que ele queria dizer e no esperava que Alba 
compreendesse. Talvez fosse apenas a sua natureza, mas ele sabia que havia uma parte no mago do seu ser que continuava a ser-lhe estranha. No conseguia deixar 
de sentir que ela estava a representar. No acreditava que ela fosse superficial, sabia que havia nela profundezas secretas, s no sabia como l chegar. D tempo 
ao tempo, dizia para se tranquilizar.
- Querido, por favor, vem comigo! - implorou ela, passando-lhe a mo pelo peito.
- Mas  claro - respondeu, supondo que ela estava a referir-se ao fim-de-semana.
- No, estou a falar de Itlia.
Houve uma longa pausa. Fitz inspirou profundamente, prevendo a sua reaco.
- Sabes que no posso.
-  por causa do Sprout.
- No.
- Do trabalho?
- Nem por isso.
- A Viv no se ia importar. Podias dizer que ias preparar a digresso dela. Tenho a certeza de que h uma livraria em Incantellaria.
- Eu no teria tanta certeza.
- No me amas? - e a sua voz parecia magoada.
- Tu sabes que eu te amo. Mas, Alba, isto  uma coisa que tu tens de fazer sozinha. Eu s vou atrapalhar.
-  claro que no vais atrapalhar. Preciso de ti - implorou, com um tom inflexvel.
Fitz suspirou.
- Querida, eu nem sequer falo italiano...
- Essa  a desculpa mais esfarrapada que alguma vez ouvi. Esperava que fosses uma pessoa mais leal! - Sentou-se amuada e acendeu um cigarro.
- No tem nada a ver com lealdade. Sou-te cem por cento leal. V isso como uma aventura.
Ela olhou-o, como se ele tivesse feito uma coisa terrvel.
- Estou to desapontada contigo, Fitz. Pensava que eras diferente!
Agora era a sua vez de ficar ofendido.
- Como  que eu posso largar tudo para ir atrs de ti para Itlia? Tenho uma vida e, embora tu sejas uma pea central nela, h coisas que eu no posso deixar para 
os outros fazerem. Adoraria fazer umas longas frias contigo num lugar maravilhoso. Mas, neste momento, no  boa altura!
Ela levantou-se, foi para a casa de banho e bateu com a porta. Fitz olhou para cima, para a clarabia, onde a chuva continuava a saltar do vidro numa torrente. Desde 
que estavam juntos que ele tinha tido o cuidado de no a contrariar. Tinha testemunhado o seu mau gnio e feito um esforo consciente para evitar despert-lo. Tivera 
demasiado receio de a perder. Percebia agora, enquanto Alba amuava na casa de banho, que a sua incapacidade de se aproximar dela podia ter algo a ver com esse fingimento. 
No tinham sido honestos um com o outro. Ele no lhe estava a fazer favor nenhum ao ceder a todos os seus caprichos; estava apenas a incit-la a ser manipuladora 
e mimada. Se queria que a relao funcionasse, tinha de cair na realidade.
Quando Alba saiu da casa de banho, tinha o roupo cor-de-rosa vestido e as chinelas cor-de-rosa farfalhudas caladas.
- No estou habituada a ser tratada desta maneira - disse ela, com a boca tensa e petulante. Cruzou os braos e fitou-o com um olhar ameaador. - Se no me vais 
apoiar, por que razo ests comigo?
- L porque me recuso a ir para Itlia contigo, isso no significa que no te ame - explicou, mas ela no estava a ouvir. Quando Alba estava furiosa, no ouvia nada 
a no ser a sua voz.
- Esta  a coisa mais importante que farei na minha vida. No acredito que um homem que diz amar-me no queira partilhar isso comigo. Parece-me que o melhor  deixarmos 
de estar juntos - disse ela, em lgrimas.
- No nos podemos separar por causa de uma discusso banal - argumentou Fitz, sentindo um n no estmago, provocado pelo arrependimento.
- O problema  mesmo esse. Tu pensas que  banal, mas, para mim, a minha me  a pessoa mais importante da minha vida, e encontr-la  realmente essencial. No  
nada banal...
- Mas separarmo-nos por causa disso . Alba, tens de compreender que o mundo no gira  tua volta. s linda e adorvel, mas s o ser humano mais egosta que alguma 
vez encontrei. Se cedesse  tua exigncia, no estaria a ser verdadeiro comigo ou contigo. Se queres mesmo a separao, vou-me embora neste preciso momento, com 
enorme pena minha.
Os lbios de Alba tremeram e ela olhou para ele por detrs das suas pestanas. Tinha pressionado, mas ele no tinha cedido. Eles cediam sempre.
- Sim, quero que te vs embora.
Ele abanou a cabea tristemente.
- Eu sei que no  isso que tu queres fazer.  uma questo de orgulho, no ?
- Vai-te embora e pronto!
Fitz vestiu-se e arrumou os seus pertences, enquanto ela o observava. No falaram. O barco balanava e chiava no agitado Tamisa, embatendo de poucos em poucos segundos 
na borracha que protegia o barco de Viv do Valentina. De repente, Fitz sentiu-se enjoado. Esperava que Alba reconsiderasse, se ele fizesse as coisas devagar. Por 
mais que desejasse que ela mudasse de ideias, era demasiado orgulhoso para implorar e demasiado homem de princpios para se vergar  sua vontade. O cheiro a parafina 
dos foges que aqueciam o barco invadiu o ar hmido, enquanto a chuva continuava a cair em lenis de gua. No gostava da ideia de ir embora com um tempo daqueles, 
a meio da noite. No tinha trazido o carro e tambm no tinha guarda-chuva. Estava muito confortvel l em baixo, na cozinha quente de Alba.
- Muito bem, suponho ento que isto  um adeus - disse, dando-lhe uma ltima oportunidade para mudar de ideias, mas a sua boca manteve-se firmemente cerrada numa 
linha fina e decidida. - vou andando.
Alba ouviu a porta fechar-se atrs dele e, depois, fez-se silncio, interrompido apenas pela chiadeira do barco e pelo gemido baixo dos seus prprios soluos. Atirou-se 
para cima da cama e ps o rosto entre as mos.
A sua ateno foi desviada pelo som de um gotejar. Era mais alto e mais lento do que o barulho da chuva na clarabia. Levantou o rosto e viu que o telhado estava 
a deixar entrar gua. Esta caa em pingos grossos, como lgrimas, sobre o tapete que ficava por baixo. Fez um esforo para se levantar, pois o corpo pesava-lhe como 
se tivesse uma armadura vestida. Foi buscar o caixote do lixo  casa de banho e p-lo por baixo. Comeou por fazer um barulho metlico e, depois, um pequeno "chape" 
 medida que ia enchendo. Quem lhe dera que Fitz no se tivesse ido embora. Ele saberia o que fazer. Normalmente, Harry Reed ou Rupert faziam-lhe as reparaes, 
ou mesmo Ls Pringle, da Companhia de Iates e Barcos de Chelsea, que vinha diariamente encher o reservatrio de gua. Mas ela j no queria o Harry nem o Rupert: 
queria o Fitz.
Infeliz, meteu-se na cama e enroscou-se sobre o cobertor elctrico, que comeara a fumegar por causa da humidade. Convenceu-se de que ele era capaz de lhe mandar 
flores na manh seguinte, ou uma prenda comprada na Tiffany. Ela aceit-lo-ia de volta e tudo voltaria a estar bem. No ficaria sozinha. Dormiu o resto da noite 
com a luz acesa.
Fitz ps os ps na prancha e sentiu a chuva a escorrer-lhe pelas costas. Puxou o casaco para cima, at ao queixo, e arqueou os ombros. Sprout estava todo encolhido 
e gania de infelicidade. O Embankment estava calmo. Passavam alguns carros, mas txis, nem sinal. No podia ir a p para casa: ficava a quilmetros de distncia. 
No teve outro remdio seno bater  porta de Viv. Houve uma longa espera at se ligarem as luzes Naquela noite, no tinha ficado a escrever. Quando apareceu  porta 
fez uma expresso surpreendida.
- Oh, pensei que era a Alba - disse, ensonada.
Parecia muito diferente sem a sua maquilhagem. Mas antes que ele pudesse explicar, acrescentou, ao mesmo tempo que o fazia entrar rapidamente, para no deixar entrar 
a chuva:
- No vou dizer que j te tinha dito, no sou pessoa para me cornprazer com a infelicidade dos outros, e sim, podes c ficar esta noite. O Sprout pode dormir na 
cozinha. S uma coisa: por amor de Deus, no lhe mandes flores amanh de manh.  um clich horrvel e eu sei que a razo est do teu lado.
Alba ficou primeiro desapontada e, depois, furiosa quando no recebeu nada de Fitz na manh seguinte. Nem flores, nem prenda, nem um telefonema. Ficou  espera, 
de roupo vestido, sem se dar ao trabalho de se vestir. No ia receber ningum e, se Fitz aparecesse, haveria menos coisas para tirar. Deixou-se estar deitada na 
cama, a pintar as unhas de vermelho, para se consolar. Ao final do terceiro dia, percebeu que ele no ia estabelecer contacto, pelo menos para j. Teria de ir at 
Beechfield Park sozinha.
A reaco do pai e da madrasta  sua deciso de viajar para Itlia foi exactamente como previra. Desta vez, escolheu o momento certo durante o jantar. Lavender aparecera, 
envergando um vestido de seda, com a gargantilha de prolas que Hubert lhe oferecera num dos aniversrios de casamento. A sua memria de curto prazo era pssima, 
mas lembrava-se de tudo o que acontecera no passado distante como se fosse ontem e sentiu um enorme prazer em contar a todos os presentes a histria da sua compra. 
A cozinheira tinha feito um empado de carne e serviu-o com ervilhas e cenouras e Thomas abriu uma garrafa de vinho. Quando lhe perguntaram por Fitz, Alba mentiu.
- Teve de ir a Frana em servio. Est a organizar a digresso literria da Viv. Ela  muito importante em Frana.
Margo imaginou que tivessem discutido. Alba no estava com o seu ar arrogante habitual.
Durante o pudim, sem esperar que a cozinheira sasse da sala, Alba largou a sua bomba.
- vou a Itlia para descobrir a famlia da minha me - disse.
Margo pareceu ficar horrorizada. Henry, Caroline e Miranda sustiveram a respirao.
- Estou a ver - disse Thomas.
- Sinto que, j que vocs no me contam nada sobre ela, vou ter de descobrir sozinha. Tal como diz a Viv, "Deus s ajuda aqueles que se ajudam a si prprios", por 
isso tambm estou a contar com a Sua orientao. Tenho a certeza de que o Reverendo Weatherbone ia aprovar -- disse, em tom irreverente.
- Querida - comeou Margo, tentando no demonstrar a sua agitao. - Tens a certeza de que queres remexer no passado?
- Absoluta - respondeu Alba.
- Se calhar  melhor deixar as coisas como esto.
- Porqu?
A pergunta foi feita com uma serenidade inesperada e Margo sentiu-se uma tonta por ter dito aquilo.
- Porque sim - tartamudeou.
- Porque sim, minha querida - interps o marido. - Aconteceu tudo h muito tempo. Mas se  isso que queres, no te podemos impedir. Apenas podemos aconselhar-te 
a no o fazeres. Para a tua prpria felicidade.
- No posso ser feliz, a menos que volte s minhas razes - explicou Alba, surpreendida com a sua prpria compostura.
- E sabes onde  que essas razes esto? - perguntou ele.
- Incantellaria.
Ele sentiu-se tonto, de repente.
- Incantellaria - repetiu Lavender, e todos os que estavam  mesa se viraram para a velha senhora. - Morte e infelicidade so as nicas coisas que se podem encontrar 
em Incantellaria.
- Quer mais um bocado de empado? - perguntou Margo, estendendo-lhe o prato. Depois apercebendo-se, de repente, que a cozinheira ainda estava na sala, acrescentou: 
- Por favor, poderia trazer-nos um pouco mais de natas? - Sabia que o pequeno jarro de prata ainda estava cheio mas no conseguira pensar em mais nada. - No me 
parece que devamos discutir isto em frente da criadagem - disse para o marido. -Na verdade, acho que nem devamos discutir isto. A Alba conhece os nossos sentimentos. 
A tua famlia est aqui. Para qu ir at Itlia desenterrar uma data de fantasmas?
Alba estava cansada.
- vou para a cama - disse, levantando-se. - Eu vou, com ou sem o vosso apoio. S achei que devia dizer-vos. No fim de contas, paizinho, ela era a tua esposa!
Thomas viu a filha sair da sala. Em vez de sentir aquele desespero terrvel, tinha uma sensao de libertao. J no era responsabilidade sua. Ela j no era uma 
criana. Se queria ir, no podia impedi-la.
Depois do jantar, Thomas retirou-se para o escritrio para fumar um charuto e beber um clice de brandy. Sentou-se na sua cadeira em pele e olhou para o retrato 
do pai at sentir a vista ficar turva e os olhos comearem a brilhar. Por detrs da pose digna de Hubert Arbuckle, estava o retrato de Valentina, um segredo tenebroso.
Todavia, no a esquecera. Thomas tentara, mas no conseguira esquec-la. Agora, voltou a sentir o aroma a figos, como se ela se estivesse a debruar sobre a sua 
cadeira para lhe dar um beijo na testa. A torre de vigia emergiu das neblinas nostlgicas da sua mente e ele sentiu que estava, finalmente, a regressar a Incantellaria.


CAPTULO CATORZE

Itlia, Maio de 1945

Thomas sentiu um frmito de emoo quando o barco acelerou em direco ao pequeno porto de Incantellaria. Olhou para cima, para o topo da colina, onde se via a silhueta 
da velha torre de vigia contra o cu. Lembrava-se de Valentina como ela era: o cabelo a esvoaar ao vento, os olhos cheios de tristeza, as faces incendiadas depois 
de fazerem amor. Tambm era assim que ela lhe tinha aparecido em sonhos. Sedutora e misteriosa, como um raio de luz impossvel de agarrar.
Depois de se terem separado, ele tinha combatido na tomada da ilha de Elba, antes de ser transferido para o Adritico. Em 15 de Agosto de 1944, tinha comandado a 
sua lancha-torpedeira na invaso do Sul da Frana, a sequela menos conhecida dos famosos desembarques na Normandia - Dia D. Logo aps a morte do irmo, Thomas deixara 
de querer saber se vivia ou morria. Tinha travado combate com uma temeridade que s se via naqueles homens valentes a quem a vida pouco importa. Depois, conhecera 
Valentina e, de repente, a vida voltara a ser preciosa. Qualquer escaramua o enchia de terror. Sempre que abordara cargueiros inimigos, fizera o sinal da cruz e 
agradecera a Deus t-lo preservado mais um dia, pois cada dia que passava levava-o inevitavelmente para mais perto dela. A sua vontade de viver era to forte que 
a sua coragem era agora maior do que antes, pois j no era prejudicada pela temeridade.
Depois, Thomas foi mandado para o golfo de Gnova, onde patrulhava a costa. Escrevia a Valentina sempre que podia. O seu italiano escrito no era bom, mas conseguia 
comunicar as saudades que sentia, apesar das falhas na gramtica e do vocabulrio limitado. Dizia-lhe como olhava fixamente para o retrato que tinha desenhado dela, 
l na colina, ao lado da velha torre de vigia a esboroar-se, onde o amor que tinham feito os fundira num elo indestrutvel. Escrevia sobre o seu futuro. Ia casar 
com ela na linda capela de San Pasquale e lev-la para Inglaterra, onde tudo faria para que vivesse como uma rainha, com tudo o que pudesse desejar. No recebia 
nada dela, s cartas perfumadas e encomendas com comida da Shirley. Depois, uma noite, em Setembro, depois de ter conseguido afundar um navio mercante inimigo, regressou 
 base, em Leghorn, e encontrou uma carta  sua espera. A caligrafia era redonda, infantil e estrangeira. O carimbo postal era italiano.
Estudou o envelope longamente, com o corao suspenso. Esperava desesperadamente que fosse de Valentina. Quem mais lhe iria escrever de Itlia? Depois, o optimismo 
desvaneceu-se. E se a carta fosse uma missiva de rejeio? Como  que o seu frgil corao iria suportar uma perda to grande? Passou os dedos pela caligrafia, com 
o rosto contorcido numa expresso preocupada. Depois, sentou-se, inspirou profundamente e abriu-a.
S tinha um lado escrito, num papel to difano como asas de borboleta, e estava datada de Agosto de 1944.
Meu querido Tommy. O meu corao tambm suspira por ti. Todos os dias vou at  torre de vigia na colina, na esperana de ver o teu barco a entrar no nosso pequeno 
porto. Todos os dias fico desapontada. Tenho novidades para ti. Queria esperar at estar contigo, mas temo por ti nesta guerra. Temo que morras sem saber. Por isso, 
conto-te nesta carta e espero que a recebas. Estou grvida. Tenho o corao cheio de alegria, pois carrego o filho que fizemos juntos com o nosso amor. A mezinha 
diz que vai ser uma criana abenoada porque foi concebida na festa di Santa Benedetta, quando o nosso Senhor demonstrou o Seu amor por ns, ao verter lgrimas de 
sangue. Rezo para que saias so e salvo desta guerra e para que Deus te traga de volta para mim, para que possas conhecer o teu filho ou filha. Espero por ti, meu 
amor. A tua dedicada Valentina.
Thomas leu a carta vrias vezes, mal conseguindo acreditar que um filho seu estava prestes a vir ao mundo. Imaginou Valentina, com a sua barriga redonda e os olhos 
brilhantes, com a luz da maternidade iminente. Depois, foi tomado por um arrepio de alarme: ela estava vulnervel naquela pequena enseada. Levantou-se e comeou 
a andar de um lado para o outro, muito agitado, pensando em todas as coisas terrveis que podiam acontecer-lhe sem a sua proteco. Ansiava por ir ter com ela e 
no entanto, no podia. A sua misso era no norte e a guerra continuava a grassar como um fogo florestal. Os Aliados tinham-na contido e as perspectivas eram boas, 
contudo a sua sorte podia mudar de um momento para o outro.
Depois, pensou em toda a inocncia que a guerra destrura, os horrores vistos por olhos demasiado jovens para entenderem, e o seu corao inundou-se de medo. O seu 
filho ia nascer no meio de todo aquele terror. Estaria certo trazer um inocente para um mundo to cruel?
- Porque  que ests com um ar to abatido? - perguntou Jack, sentando-se ao seu lado.
- Recebi uma carta da Valentina - respondeu, abanando a cabea de espanto.
- O que  que aconteceu?
- Ela est  espera de um filho meu, Jack.
- Meu Deus! - exclamou Jack, em sobressalto. Depois, aps um longo momento de reflexo, acrescentou: - O que diabo vais tu fazer?
- Casar com ela - respondeu, sem hesitar.
Jack olhou para ele de soslaio.
- Isso no ser uma soluo um bocadinho drstica? Tu nem sequer a conheces!
- Sei tudo o que preciso de saber sobre ela: gosta de limes, do mar e de roxo. - Sorriu com ternura, ao recordar o seu solilquio infantil. - Meu Deus, fui atingido 
bem no meio da testa, primeiro pelo amor e agora isto!
- No me parece que a Lavender e o Hubert vo gostar muito dela!
-  melhor do que a Shirley!
- No sei. O teu pai  um snobe dos diabos e desconfia dos estrangeiros, sobretudo italianos...
- No vo ter alternativa.
-- Agora, que Freddie morreu, s tu o herdeiro.
Thomas encolheu os ombros.
- De qu? De uma casa? Falas como se o meu pai tivesse um condado para me deixar!
- Mas ele leva Beechfield Park muito a srio. No  fcil administrar uma propriedade daquelas.
- Ela vai aprender. Eu ensino-lhe.
- Macacos me mordam! Tu, pai!
Jack abanou a cabea, pasmado. Depois, olhou-o intensamente, j no como seu subordinado, mas como amigo de infncia. Falou em voz baixa, com os olhos turvos de 
emoo.
- A guerra mudou-te, Tommy. Antes, ramos os dois to parecidos. No fazamos caso das regras, em Eton, interrompamos as aulas, pavonevamo-nos por l como se aquilo 
fosse nosso. Em Oxford, no foi muito diferente, s havia menos regras para quebrar. Depois veio esta maldita guerra. Tornmo-nos homens, no foi? Nunca pensmos 
que isso pudesse acontecer. O Hubert havia de ter imenso orgulho em ti, se soubesse. Quando tudo isto acabar, vou contar-lhe.
Thomas suspirou pesadamente e aceitou o cigarro que Jack lhe oferecia.
- Mas eras tu que ficavas com as raparigas todas. Eu s ficava com as migalhas da mesa do homem rico!
- Mas tu ficaste com a nica que interessava, Tommy.
- Desta vez, sim.
- E tu merece-la - disse Jack, embora se sentisse apreensivo. Valentina no falava ingls, tinha sido criada numa pequena vila porturia e provinciana, com uma populao 
que no ultrapassava umas centenas de pessoas.
Como  que Tommy podia pensar que ela ia conseguir tomar conta de uma casa do tamanho do palazzo do Marchete? Integrar-se entre os ingleses frios e presumidos que, 
quando tocava a classes, eram mais terrveis do que dez Immacolatas... A fantasia era uma coisa muito romntica, mas a realidade suscitaria todo o tipo de problemas, 
que ele nem sequer equacionara. No entanto, agora tambm no era altura para os discutir. Ele tinha engravidado a rapariga e era um homem honrado. Faria o que estava 
certo. - s mais parecido com o Freddie do que eu pensava, Tommy - disse, por fim, e os seus olhos traram repentinamente a tenso da guerra que o humor normalmente 
encobria.
Thomas estava demasiado comovido para falar: a angstia embargava-lhe a voz. Endireitou-se e pigarreou:
- Para si  meu comandante, tenente Harvey - disse, para disfarar a emoo.
Jack piscou os olhos para afastar as memrias de infncia que tinham conseguido atravessar, de repente, as suas defesas fragilizadas.
-- Sim, meu comandante - respondeu. Mas continuaram a olhar um para o outro com os olhos de meninos.

Agora, enquanto Thomas navegava em direco ao minsculo porto num pequeno barco a motor, j no estava a comandar o MTB. A guerra tinha acabado. Tinham sido desmobilizados 
e tinham-lhe dado um trabalho administrativo no Ministrio da Defesa. Jack, Rigs e os outros rapazes tinham ido para casa. Brendan sobrevivera miraculosamente, no 
s  guerra, como ao bolso fundo de Jack e s interpretaes de Rigs das rias de Pagliacci. Thomas planeava regressar a Inglaterra com Valentina e a filha, assim 
que casassem.
Nos ltimos meses, tinha sonhado com aquele momento. Recebera notcias de Valentina a dizer que tinha dado  luz uma menina e que correra tudo bem. No mencionava 
o nome. Ele comemorara calmamente com Jack: uma bebida, um cigarro e lgrimas que ele no tivera vergonha de derramar em frente do amigo. Apressara-se a responder, 
expressando o seu orgulho e amor em mau italiano, confundindo verbos e tempos no meio de tanta emoo. At mesmo a sua caligrafia, normalmente to legvel e bem 
apresentada, andava erraticamente para cima e para baixo.
Agora, imaginava a filha nos braos da me e ansiava por abra-las a ambas. Segurava na mo as poucas cartas que ela lhe enviara, finas e gastas como a musselina 
bem-amada das vestes de uma criana. Cheiravam a figos - aquele seu indelvel aroma que conseguira banir o cheiro acre da morte. Agora, cheirava os pinheiros e eucaliptos 
de Incantellaria e recordava com nostalgia a primeira vez que tinha posto os olhos naquela pequena vila encantadora, com Jack e Brendan ao seu lado, sem saber, na 
altura, que lhe iria ficar gravada no corao. Era um homem diferente e no tinha sido s a guerra que alterara o seu estado de esprito. Valentina despertara os 
seus instintos gregrios e protectores. Agora, que tinha uma filha, tinha uma responsabilidade muito maior do que qualquer outra que tivesse tido antes.
O barco acostou ao cais e Thomas saltou com o pequeno saco de pertences, envergando ainda o seu uniforme azul. Sob a proteco do chapu, espreitou o porto adormecido 
inundado pelo sol clido da Primavera. A princpio, ningum reparou nele. Conseguiu passar os olhos pela fila de casas brancas, com as varandas de ferro forjado 
adornadas, como antes, com gernios vermelhos e pela pequena Trattoria Fiorelli.
foi arrancado s memrias sentimentais quando os pescadores pousaram as redes e as mulheres emergiram das sombras, puxando os filhos para junto dos seus aventais, 
observando-o com olhos semicerrados e desconfiados. Nessa altura, o velhote que tocava concertina reconheceu-o. Apontou o seu dedo artrtico e o rosto encarquilhado 
caiu sobre si mesmo quando a boca se abriu num sorriso desdentado.
-  L'ingkse!
O corao de Thomas impou de felicidade. Lembravam-se dele.
As palavras confusas do velhote ricochetearam pela frente martima,  medida que os habitantes da vila espalhavam a notcia.  tornato, L'ingkse. No levou muito 
tempo at que a rua poeirenta ficasse cheia de gente. Batiam palmas e acenavam. O rapazinho que, da primeira vez, fizera a saudao fascista, desta feita levou a 
mo  testa, como Lattarullo fizera, e Thomas sorriu-lhe, retribuindo a saudao. Desta vez, a me no lhe deu nenhuma sapatada; afagou-lhe orgulhosamente a cabea. 
O rapaz corou e juntou as pernas com fora, pois toda aquela excitao dera-lhe vontade de fazer chichi.
Os olhos de Thomas foram novamente atrados pela Trattoria Fiorelli. Os empregados estavam de p, c fora, de boca aberta, com as bandejas nas mos que ainda h 
pouco tempo seguravam armas. Os antigos, que sempre l haviam estado, sorriram melancolicamente, recordando as cantigas e o pequeno esquilo vermelho. O caf estava 
agora envolto em quietude, enquanto a multido se agitava e crescia  sua volta, como ondas no mar revolto. Era como se aquela casa, pequena e modesta, sustivesse 
a respirao,  espera que acontecesse algo de mgico. Foi ento que ela apareceu. O corao de Thomas elevou-se nos ares e a se manteve, em animao suspensa, 
sem subir nem descer, completamente imvel, com receio de que, ao mexer-se, o feitio se quebrasse e ela desaparecesse como um arco-ris na luz do sol.
Os empregados afastaram-se para o lado. Valentina no tirou os olhos, uma vez que fosse, do homem que amava, caminhando na sua direco com aquele andar nico e 
cheio de vida. Trazia nos braos a sua beb de trs meses, embrulhada apenas num fino lenol branco, bem apertada junto ao peito. As suas faces coraram de orgulho 
e os lbios abriram-se num pequeno sorriso. S quando ela se aproximou  que ele viu que os seus olhos brilhavam com lgrimas.
Thomas tirou o chapu e notou que as suas mos tremiam. Valentina estava  sua frente. Ao ver o beb a pestanejar para ele, sentiu-se humilde. No meio de todo aquele 
horror e carnificina, ali estava uma alma pura e inocente. Era como se Deus tivesse feito brilhar uma luz num lugar muito escuro. O seu rosto era o reflexo em miniatura 
do da sua me,  excepo dos olhos, que eram cinzento-claros como os dele e que faziam um grande contraste com o cabelo escuro e a pele castanho-azeitona. Ela estava 
a agitar a sua mo minscula e Thomas agarrou-a deixando-a fechar os dedinhos em torno de um dos dele. Sorriu e, depois, levantou os olhos para Valentina.
Os habitantes da vila continuaram a olhar petrificados quando Thomas baixou a cabea e deu um beijo na testa de Valentina. Deixou os lbios l pousados por um longo 
momento, inalando o seu aroma nico e saboreando o sal da sua pele.
De repente, uma voz forte sobreps-se aos aplausos e vivas da multido.
- Toca a andar. Isto no  nenhum espectculo!  um momento privado. Vamos embora, j chega! Toca a andar!
A voz de Lattarullo era inconfundvel. Lentamente e com alguma relutncia, as pessoas comearam a dispersar. Todos tinham visto a barriga de Valentina a crescer 
e testemunhado as suas saudades e, muitas vezes, o seu desespero. Enquanto regressavam s suas sestas, os pescadores s suas velas e redes e as crianas aos seus 
jogos, Lattarullo apareceu, cheio de calor, a suar e a coar a virilha.
- Signor Arbuckle - disse ele quando Thomas afastou relutantemente os seus lbios da testa de Valentina. - Havia muitas pessoas que duvidavam que fosse voltar. Fico 
contente por lhe poder dizer que eu no era uma delas. No, eu nunca duvidei de si, nem por uma vez. Isto no  apenas um cumprimento ao seu carcter, mas tambm 
 beleza da signorina. Helena de Tria no era to bonita e vejam s o efeito que ela tinha nos homens! Teria ficado espantado, e tambm bastante mais pobre, se 
no tivesse voltado para a Signorina Fiorelli.
Thomas imaginou todos eles sentados no caf, a fazerem apostas relativamente  possibilidade de ele voltar, ou no, para ela.
Foram at  Trattoria Fiorelli. Immacolata estava sentada no interior do caf, como um morcego pequeno e solene. Estava vestida de preto, desde o xaile na cabea 
aos sapatos que tinha nos ps, e abanava-se com um grande leque negro, bordado com flores.
Quando viu Thomas, pousou o leque sobre a mesa e foi ter com ele com as mos estendidas, como uma mulher cega a pedir esmola.
- Sabia que Deus o ia poupar para a Valentina - disse ela, e os seus pequenos olhos ficaram rasos de lgrimas. - Hoje  um dia abenoado. - Ele deixou-a dar-lhe 
umas palmadinhas afectuosas nas faces, embora estas tivessem ficado rosadas e a arder. - Sente-se, Tommasino. Deve estar cansado. Beba qualquer coisa e conte-me 
tudo. Trs dos meus quatro filhos regressaram ao meu seio. Deus achou melhor levar o meu Ernesto. Que a sua alma descanse em paz. Agora, a minha felicidade est 
completa.
Thomas sentou-se. Era impossvel no fazer aquilo que Immacolata dizia. Ela era uma mulher formidvel, habituada a que lhe obedecessem. Alm disso, Thomas no estava 
em posio de poder desobedecer. Era uma mulher profundamente religiosa e ele engravidara a filha dela antes do casamento. Tremia s de pensar no que ela diria sobre 
isso. Para sua surpresa, recebera-o calorosamente. No entanto, a primeira pergunta revelou a sua verdadeira inteno.
- Ento - disse ela, vendo o empregado encher dois copos de vinho. - Voltou para se casar com a minha filha?
Thomas pareceu ficar envergonhado e replicou:
- Eu ia pedir formalmente a sua permisso.
O rosto de Immacolata contorceu-se de simpatia.
- Quando  da vontade de Deus, no  preciso pedir autorizao a ningum - disse ela com uma voz suave, que irradiava juventude.
Ele tomou a mo de Valentina na sua.
- Soube que estvamos destinados a casar desde o primeiro momento em que pus os olhos nela.
- Eu sei - redarguiu Immacolata acenando muito sria com a cabea. - A minha filha  muito bela e deu-lhe uma filha, a Alba.
- Alba?  um nome lindo - disse, no querendo pensar na reaco dos pais. Talvez pudesse ter Lavender como segundo nome.
- Alba Immacolata - acrescentou Valentina.
Talvez no, pensou Thomas. Ficou aliviado por Jack no estar ali para testemunhar a conversa.
- Esta criana  muito especial para mim - disse Immacolata, pondo a mo sobre o peito. - Tem um lugar muito especial no meu corao.
-  parecida com a me - disse Thomas.
- Mas os olhos so do pai. No h dvida de quem  filha. - Immacolata passou os dedos pelo rosto do beb. - Veja, os olhos so de um azul-acinzentado muito claro, 
como o mar quando  fundo e calmo. Tem de segurar nela ao colo - acrescentou, fazendo sinal  filha.
Valentina estendeu-lhe o beb. Ele nunca tinha segurado antes num beb to pequenino e no sabia muito bem como faz-lo. Para sua surpresa, no era assim to difcil 
e a pequena Alba no chorou.
- Est a ver - disse Immacolata. - Ela sabe que  o pai dela.
Thomas olhou fixamente as feies da filha, mal conseguindo acreditar que ela tinha os seus genes e os de toda a sua famlia, incluindo Freddie. No era nada parecida 
com ele, seguramente nada parecida com um Arbuckle, a no ser nos olhos, que eram realmente como os seus. Era to vulnervel, to indefesa... Mas o que o fez am-la 
foi o facto de se parecer tanto com a me. Era uma parte de Valentina e, portanto, mais preciosa do que qualquer outra coisa no mundo.
- Vo casar na capela de San Pasquale - continuou Immacolata.
- vou convidar o padre Dino para almoar amanh connosco, para que se conheam. No  catlico?
Thomas abanou a cabea.
- Isso no  problema. Quando  da vontade de Deus, nada  problema. Esto juntos pelo amor e isso  tudo o que importa. Vai ficar aqui, na trattoria, at ao casamento. 
Tenho um quarto confortvel l em cima.
Thomas desviou o olhar da pequena Alba para Valentina e os seus olhos castanho-musgo sorriram-lhe ternamente. Nesse momento de comunicao silenciosa, disseram tudo 
o que era preciso dizer.
Lattarullo sentou-se l fora, como se fosse um co de guarda, pronto a morder algum que se atrevesse a tentar entrar. No tardaria muito para que a Trattoria Fiorelli 
vibrasse com a msica da celebrao, pensou. Toda a cidade seria convidada e haveria dana. Valentina adorava danar. A pequena rea dentro do caf no seria suficientemente 
grande para acomodar toda a gente, por isso viriam tambm para a rua e danariam ali, sob a lua cheia. Immacolata escolheria um dia auspicioso para o casamento, 
que havia de se realizar junto ao mar que os juntara.
Valentina colocou Alba na sua alcofa e Thomas levou-a para a carroa que esperava por eles  sombra de uma accia, puxada por um cavalo grande e dcil. Lattarullo 
ofereceu-se para os levar, anunciando orgulhosamente que estava na posse do carro da cidade, mas Thomas recusou educadamente. No queria partilhar Valentina com 
mais ningum, muito menos com Lattarullo, que cheirava fortemente ao seu suor inconfundvel.
Pode ir buscar-me depois do jantar - disse ele ao porco carabiniere, que assentiu um pouco desconcertado.
Quando o cavalo comeou a andar, disseram-lhe adeus. No havia pressa. No havia nada de urgente para os fazer regressar. Tinham o dia todo, se quisessem. O som 
lento dos cascos do cavalo no cho ressoou no ar parado e quente e arrancou a vila  sua descarada modorra. At as crianas pararam de brincar para ver a carroa 
avanar at desaparecer na viela frondosa que levava  colina. Lattarullo ps o lbio inferior para fora e enxugou a testa com um leno hmido. No conseguia perceber 
porque  que tinham recusado o carro. Esperava que ningum tivesse ouvido o ingls a recusar a oferta. Era uma questo de orgulho, de apparncia.
Valentina pegou na mo de Thomas e encostou-a ao rosto, beijando-a afectuosamente.
- Enfim, ss!
Passado um bom bocado, o som ruidoso de um motor cortou o tranquilo silncio da tarde. Thomas pensou imediatamente em Lattarullo e o corao caiu-lhe aos ps. Mas, 
depois, percebeu que o carro vinha a descer a colina na sua direco, e no da vila, de onde tinham acabado de sair. Valentina guiou o cavalo para a beira da estrada 
e a carroa parou. O barulho aumentou de volume at o Lagonda branco e reluzente do Marchese aparecer vagarosamente a dobrar a curva. O metal do radiador brilhava 
ao sol e os dois faris redondos cintilavam como os olhos de uma r. Era impossvel no ficar impressionado com o design de um veculo to elegante. A memria da 
quase coliso no ano anterior estava agora distante e nebulosa no olhar apreciativo de Thomas.O motor trabalhava com tal eficincia que parecia mais uma cano do 
que um rudo Mecnico: tic-a-tic-a-tic-a-tic. Abrandou. No lugar da frente, com o rosto protegido pela sombra do chapu, estava o esqueltico Alberto. O tejadilho 
em lona estava para baixo, por isso era possvel v-lo em toda a sua glria. O uniforme cinzento estava to limpo como o carro e as mos enluvadas de branco agarravam 
o volante como se fosse as rdeas de um animal magnfico e poderoso. O nariz estava to levantado que o queixo quase desaparecera. No sorriu, nem acenou, embora 
fosse bvio, pela palidez que lhe levou as cores do rosto j de si sinistro, que reconhecera Thomas, e quase perdeu o controlo do carro. L'ingkse estava de volta.


CAPTULO QUINZE

Thomas no estava pronto para conhecer o resto da famlia de Valentina. Queria lev-la ao antigo ponto de vigia, onde tinham feito amor. Por isso, fizeram o cavalo 
descer pelo carreiro empoeirado que levava ao campo de limoeiros. Tendo vindo a dormitar metade do caminho, deixando que os cascos subissem automaticamente a colina 
mais do que familiar, o animal estava agora bem desperto e olhava  sua volta com um vigor invulgar. O cheiro dos ciprestes, do alecrim e do tomilho tambm parecia 
aguar os seus sentidos e comeou subitamente a andar com um passo muito mais vivo, resfolegando com prazer no ar fortemente perfumado. Thomas no conseguiu refrear 
o seu ardor. Beijou o pescoo de Valentina e tambm o seu peito, onde o decote fundo do vestido expunha os topos intumescidos dos seus seios cor de mel. Passou-lhe 
os dedos pelo cabelo comprido e ondulado e inalou o cheiro quente a figos. Ela riu-se com aquele riso suave e borbulhante e fingiu repeli-lo para o caso de algum 
os estar a ver.
- A nica pessoa capaz de nos ver  o velho Marchete - disse ele, enquanto enterrava o rosto na bela curva onde o ombro encontrava o pescoo.
Pensou momentaneamente no efeminado Marchese, com o cabelo penteado para trs com brilhantina e os olhos lacrimosos, a espreitar atravs do telescpio, mas logo 
afastou esse pensamento. Tinha deixado o palazzo decadente no ano anterior com uma sensao desconfortvel; agora, a imagem do seu rosto tinha sido suficiente para 
trazer de volta esse desconforto. Valentina retesou-se e ficou sria.
-- Eu no quero ser vista por ningum, Tommy - disse, olhando de relance para trs, para ver se a filha continuava a dormir  sombra. De repente, os seus olhos encheram-se 
de receio - Vais levar-me daqui para fora, no vais?
Thomas acariciou-lhe a face, fez que sim com a cabea e franziu o sobrolho.
-  claro que sim. Assim que casarmos, vamos para Inglaterra. De que  que tens medo?
- De voltar a perder-te - disse ela com voz rouca.
- Nunca te deixarei enquanto for vivo - replicou, com ar srio. - A nica razo por que sobrevivi a esta guerra foi querer viver para ti. Depois, passei a ter-te 
a ti e  Alba, e a minha vida tornou-se mais preciosa do que nunca. vou tomar conta de ti, prometo!
Ela sorriu e os olhos voltaram a iluminar-se.
- Eu sei que sim. No sabes o quanto te amo; no sabes o quanto di.
- Tambm me di a mim - disse ele e, diante deles, a colina subia at ao antigo ponto de vigia, que estava precisamente como na primavera anterior. Como a minha 
vida mudou, pensou Thomas. E que mudado que eu estou. O Jack tinha razo. J no sou como ele. A minha vida tem um objectivo. No escolhi ser responsvel, a responsabilidade 
 que me escolheu e, agora, estou grato por isso.
Levou a pequena Alba na alcofa at  torre esboroada. Continuava a dormir, com as mos junto s orelhas e a cabea virada para um lado. Tinha um ar anglico, como 
um dos querubins adormecidos de Rafael. Podia muito bem estar deitada em cima de uma nuvem e se, ao virar-se, revelasse ter asas, ele no teria ficado nem um pouco 
surpreendido.
- Ela  igual a ti - disse ele, quando se sentaram  sombra.
A brisa trazia a fragrncia aromtica das colinas, juntamente com o cheiro refrescante do mar, e Thomas pensou que nunca sentira, em toda a sua vida, uma leveza 
e uma felicidade to grandes.
- Espero que no cresa parecida comigo - replicou, mas Thomas abanou a cabea.
- Que sorte a dela se crescer parecida contigo, Valentina!
- No quero que cometa os erros que eu cometi na minha vida.
- Mas tu s to jovem. Que erros poders ter cometido? - riu-se Thomas, e ela sorriu timidamente.
- Todos ns cometemos erros, no ?
- Sim,  verdade, mas...
- A melhor coisa que alguma vez fiz foi conhecer-te.
ps os braos  volta dele, deitaram-se na relva e beijaram-se. Por mais que quisesse fazer amor com ela, no lhe parecia bem, com o beb a dormir ali ao lado. Ele 
sabia que Valentina sentia o mesmo desejo, pois o suor perlava-lhe a testa e o nariz e a respirao tornara-se pesada, mas tambm no o encorajou a ir mais longe.
Esperaram o mais que puderam at voltarem  casa de Immacolata. Ficaram deitados entrelaados enquanto o dia passava lentamente. Alba acordou e Valentina deu-lhe 
o peito. Thomas sentiu-se comovido. Nunca tinha visto uma criana a mamar. Valentina estava luminosa, serena e inatingvel, de alguma forma. Enquanto amamentava 
a filha, era como se j no lhe pertencesse, mas sim a Alba, e ele voltou a sentir a sua natureza etrea. Aquela qualidade que reconhecera no ano anterior e que 
a deixava fora do seu alcance. Foi assaltado por um sbito sentimento de possessividade. No importava o facto de ela repetir vezes sem conta que o amava, nem que 
o beb que amamentava fosse a filha dele, pois sentia na mesma uma mo a apertar-lhe o corao.
- Meu Deus, Valentina - disse, em ingls. - Desencadeias em mim as reaces mais estranhas!
Ela virou a cabea para o lado com uma expresso perplexa.
- s to bonita - continuou ele, agora em italiano. - Quero ficar contigo nos braos para sempre.
Riu-se das suas palavras e retorquiu:
- Tu no me conheces, Tommy!
- Gostas de limes, da escurido, do mar e de roxo. Querias ser danarina quando eras pequena. Como vs - riu ele melancolicamente - lembro-me de tudo sobre ti.
- Mas no me conheces.
- Temos o resto das nossas vidas para nos conhecermos - replicou, pondo-lhe o cabelo atrs do ombro, para que no lhe tapasse o rosto. - Vai ser o maior projecto 
da minha vida.
-Vamos ter mais filhos - disse ela, acariciando a testa de Alba, enquanto mamava. - Quero que a Alba tenha irmos. No quero que fique sozinha. Eu estive sozinha 
nesta guerra. Espero que ela cresa num mundo pacfico - disse, de repente, e os olhos encheram-se-lhe de lgrimas. - A guerra reduz os homens a animais e transforma 
as mulheres em criaturas indignas. Quero que ela s veja o lado bom das pessoas. No quero que seja cnica. Quero que seja capaz de confiar sem que essa confiana 
seja quebrada. Quero que saiba quem , que seja confiante. Que no tenha de depender de ningum, que seja independente e livre. Ela vai ser essas coisas todas em 
Inglaterra, no vai?
Thomas estava confuso.
-  claro que sim. Foi para isso que lutmos, Valentina, pela paz, para que as crianas como Alba possam crescer sem receio, numa sociedade livre e democrtica.
- s to corajoso, Tommy. Quem me dera ser corajosa como tu.
- No tens de ser corajosa porque eu estou aqui para te proteger - disse, passando os dedos pelo rosto dela, onde as lgrimas tinham deixado rastos brilhantes e 
hmidos. - A Alba vai crescer sem conhecer os horrores da guerra. Mas havemos de lhe contar sobre os homens corajosos que perderam a vida para ela poder apreciar 
a sorte que tem.
Depois, falou-lhe num tom calmo e triste sobre Freddie, memrias que nunca partilhara com mais ningum, a no ser Jack.
- O meu irmo morreu, Valentina. Era piloto de um caa. Ningum imaginava que pudesse ser abatido. No o Freddie, que tinha um carcter indmito, maior do que a 
prpria vida. Mas houve tantos que pereceram em Malta que, no fim de contas, ele foi apenas mais um. Nunca consegui despedir-me dele. A morte  uma coisa solitria, 
Valentina. Morre-se sempre sozinho. Gostava de acreditar no Cu, gostava de acreditar que ele est agora com Deus, mas a verdade  que o seu corpo jaz no fundo do 
mar e no tenho forma de lhe prestar as ltimas honras.
Valentina estendeu a mo e tocou na dele.
- Eu compreendo, meu querido Tommy. O meu pai e Ernesto, um dos meus irmos, tambm morreram. Foram tantos aqueles a quem aconteceu o mesmo e, no entanto, os nmeros 
no nos trazem consolo, no ? A mezinha construiu um altar para o meu pai e agora fez o mesmo para o Ernesto. As velas esto acesas dia e noite; nunca se apagam, 
tal como os seus espritos.  a nica coisa que podemos fazer. Tu prestas homenagem ao teu irmo quando o recordas, Tommy. Tens de me contar coisas sobre ele. Tens 
de me contar tudo aquilo de que te lembras, pois  ao record-los que lhes damos vida.
O seu rosto ganhara uma maturidade e sabedoria que ele nunca vira nela e, para sua surpresa, aquelas palavras reconfortaram-no; o Jack nunca tinha sido capaz de 
o fazer.
Por fim, Thomas comeou a ficar com fome e Valentina estava desejosa de voltar para casa, por causa de Alba. Sentaram-se na carroa uma vez mais e o cavalo, que 
tinha estado a dormir  sombra de um eucalipto fugoso, l seguiu relutantemente pelo caminho empoeirado.
Valentina avisou Thomas de que os irmos tinham voltado da guerra. Ludovico e Paolo, os dois que tinham sido presos pelos britnicos, iam acolh-lo bem, agora que 
a guerra acabara e que tinham sido bem tratados no cativeiro. Mas o mesmo no sucederia com Falco. Tinha sido um guerrilheiro, explicou, e era uma pessoa sombria, 
conflituosa e perturbada.
-  um homem complicado. Sempre foi, desde criana. A mezinha diz que, como foi o primeiro, estava  espera de ser mais amado do que os outros e que acabou por 
ficar desapontado e com cimes. Ele tem mulher, a Beata, e um rapazinho de cinco anos chamado Toto. Mas se pensas que o amor de uma mulher e de um filho adorvel 
suavizou o seu corao, ests enganado. Continua to frio e desconfiado como sempre.
Thomas sentiu-se ansioso em relao ao encontro com Falco. Ele era o chefe da famlia, agora que o pai j no estava vivo. Mas acabou por pensar que ele tambm no 
podia ser uma pessoa assim to difcil. Ao fim e ao cabo, tinham combatido do mesmo lado. A haver m vontade, era mais fcil ser da parte dos dois que estavam do 
lado dos alemes.
Quando se aproximaram da casa, o cheiro a figo voltou a submergi-lo e recordou a primeira visita, no ano anterior. Immacolata saiu l de dentro, como um morcego, 
pestanejando por causa da luz e torcendo as mos.
- Onde  que estiveram? Tenho estado to preocupada!
- Mezinha! - repreendeu Valentina. - S levmos a Alba ao ponto de vigia.
- O Falco estava inquieto. Encheu-me a cabea com todo o tipo de parvoces.
- Peo desculpa, signora - disse Thomas, ajudando Valentina a descer da carroa. - Queramos passar a tarde sozinhos.
Nesse momento, Falco saiu e ps-se ao lado da me. Era um homem de aspecto rude devido a anos de luta, com olhos fundos de um castanho muito escuro e pele grossa 
e estragada. Era indubitavelmente bem-parecido, com o seu cabelo comprido e encaracolado e o seu ar melanclico. Thomas notou imediatamente que era um homem alto 
e de ombros largos; alm disso, coxeava um pouco, talvez um resqucio do seu passado violento de guerrilheiro. Duvidava que se sasse muito bem numa luta... Tentou 
fazer um sorriso, mas o homem, que parecia mais velho do que os seus trinta anos, limitou-se a lanar-lhe um olhar carrancudo.
- Tem de ter cuidado - resmungou, e a sua voz era profunda e granulosa, como areia. - A guerra pode ter acabado, mas as colinas esto cheias de bandidos. As pessoas 
continuam cheias de fome. No percebe a sorte que temos aqui, em Incantellaria. Fora do povoado, o mundo  sombrio e perigoso.
Thomas sentiu-se imediatamente irritado com o facto de Falco estar a insinuar que ele era ingnuo.
- Asseguro-lhe que estvamos em perfeita segurana - respondeu friamente.
Falco riu-se dele.
- No conhece estas colinas. Eu conheo-as melhor do que as linhas das minhas mos. Consigo andar de olhos fechados por entre os rochedos e arbustos. Ficaria surpreendido 
com os demnios que andam por a  espreita. As vezes, no tm nada aspecto de demnios.
Valentina ps a mo no brao de Thomas e disse:
- No lhe ds ouvidos. No havia demnios onde ns estvamos. Os nicos demnios que assombram estas paragens so os que ele tem na cabea!
Thomas debruou-se sobre a carroa e retirou a alcofa. Valentina passou pela me e pelo irmo e entrou em casa.
- A Valentina sabe do que estou a falar, embora seja teimosa como uma mula.
Thomas queria saltar em defesa de Valentina, mas viu o rosto de Immacolata contorcido pela dor e optou pela via pacfica. Estendeu a mo a Falco.
- A guerra acabou - disse. - No vamos comear outra aqui.
Falco cerrou os lbios, mas apertou-lhe a mo. Thomas sentiu a pele dura e calejada, mas o seu aperto tinha qualquer coisa de tranquilizador - era o aperto firme 
de um homem seguro de si. No entanto, no sorriu e os seus olhos eram escuros e impenetrveis, por isso Thomas no conseguiu decifrar-lhe os pensamentos. Immacolata, 
subjugada pela presena do filho, j no era a matriarca omnipotente de antigamente. Era bvio que o respeitava, se  que no lhe tinha mesmo um bocadinho de receio. 
Contudo, estava contente por terem feito trguas.
- Deus juntou-vos atravs de Valentina. Vamos comer e tentar ser amigos.
!; No demorou muito at aparecer o resto da famlia. Ludovico e Paoj,lo, que ainda viviam com a me, eram o oposto do irmo mais velho. ; Enquanto o antigo guerrilheiro 
era sombrio e frio como uma noite invernosa, eles eram raios clidos do sol estival. Era difcil distingui-los, pois eram ambos baixos, rijos e atlticos, com olhos 
castanhos como os da irm, e sorriso enigmtico e malicioso. No possuam o magnetismo do irmo nem eram bem-parecidos como ele, mas eram divertidos e o seu riso 
tinha rompido a juventude dos seus rostos e aberto rugas profundas e atraentes. Apesar de terem combatido contra os Aliados, apertaram a mo a Thomas e deram-lhe 
palmadinhas nas costas, fazendo piadas sobre ele lhes ir levar a Valentina e de a ir salvar do squito de pretendentes italianos.
Beata chegou com Toto para o jantar. Era uma mulher de natureza doce, que, obviamente, nada sabia das actividades do marido durante a guerra. Era uma camponesa simples, 
pouco dada a outros pensamentos, sem ser o filho e a preparao das refeies. Receosa do estrangeiro, nem sequer lhe apertou a mo: baixou os olhos e sentou-se 
 longa mesa por baixo das videiras, onde Immacolata presidira ao jantar no ano anterior. O filho sentou-se ao lado dela e encostou a cabea ao corpo da me, aninhado 
por baixo do seu brao protector. Como um animal dcil e vigilante, Beata olhava  sua volta, escutando a conversa, mas sem participar. Falco raramente a olhava 
e no falava com ela. Era bvio que Beata fora espezinhada por aquele homem dominador e obstinado. Thomas sentiu-se grato por ter chegado a tempo de salvar Valentina 
de um destino semelhante.
Immacolata pontuava a sua discusso com referncias religiosas. Parecia ter o ouvido de Deus, pois sabia exactamente quais eram as Suas intenes, porque  que Ele 
permitira que a guerra acontecesse, e at porque  que lhe levara o marido e o filho. Deus era a nica forma que ela tinha de dar sentido quilo tudo. Talvez doesse 
menos acreditar na vontade de Deus, como uma criana que confia nas aces dos pais, sem as questionar. Thomas mal era capaz de conciliar a mulher que gritara com 
os empregados na Trattoria Fiorelli com esta me de falinhas mansas e submissa, que parecia ter encolhido  sombra do filho mais velho Se ~Lattarullo pudesse v-la 
agora, pensou divertido, a sua presena deixaria de assust-lo tanto.
No final da refeio, Valentina e Beata levantaram os pratos e levaram-nos para a cozinha. Toto foi atrs delas, levando as coisas midas que no eram demasiado 
pesadas para ele. Era uma criana bonita, com grandes olhos castanhos e uma boca cheia e sensual, com os cantos virados para cima, numa expresso divertida. Via-se 
que adorava a av, que lhe acariciava o rosto e o beijava com uma afeio solene.
J era noite. As borboletas esvoaavam  volta das lanternas  prova de vento e um coro de grilos cantava por entre os arbustos e rvores. Thomas acendeu um cigarro 
e viu o fumo subir no ar frio, volteando e espiralando com a brisa que vinha do mar. Conseguia ouvir Beata e Valentina a rirem-se na cozinha. No tinha havido risos 
 mesa e Immacolata parecia ter perdido o sentido de humor h muito tempo. Era animador ouvir a alegria das duas. Imaginava que estivessem a falar dos filhos, a 
partilhar as histrias do dia ou talvez a fazerem uma piada  custa dos homens, no sabia. Reparou que, por qualquer razo, Valentina exasperava Falco. Este observava-a 
de olhos semicerrados e a sua averso estava estampada neles, tocando as raias do dio. Valentina ignorava-o e quando ele tentava humilh-la, retorquia com ar divertido 
e revirava os olhos. Thomas estava orgulhoso dela. Lembrou-se de a ver danar na festa di Santa Benedetta; nessa altura, tambm dera mostras de uma coragem surpreendente. 
Olhou-a fixamente atravs do fumo com olhos sonolentos e percebeu que ela tinha razo; ele mal a conhecia.
Por fim, a famlia retirou-se para ir para a cama. Immacolata ajoelhou em frente dos altares ao marido e filho e murmurou uma orao inaudvel. Depois de fazer vigorosamente 
o sinal da cruz, deu-lhes as boas noites. Depois, agarrou na mo de Thomas e agradeceu-lhe por ter regressado.
- Vai levar a minha Valentina para um lugar melhor - disse ela solenemente, dando-lhe umas palmadinhas com os dedos sapudos. - Amanh, vo encontrar-se com o padre 
Dino. Quanto mais depressa casarem, melhor.
Valentina beijou o noivo recatadamente na face, mas Thomas soube pelo brilho do seu olhar que estava desejosa de lev-lo para a cama.
- At amanh, meu amor - sussurrou, desaparecendo depois nas sombras. Pareceu-lhe ouvir Lattarullo chegar no carro que parecia partilhar com o resto da cidade e 
foi at  janela. Atrs dele, Falco fumava sozinho no terrao, tendo apenas por companhia os animais nocturnos e os grilos. Parecia perturbado quando se sentou, 
debruado sobre a mesa, onde um resto de cera mantinha acesa a chama numa das lanternas. Beata regressara a casa, percorrendo o caminho atravs do olival, curto 
e bem iluminado pela Lua. Thomas perguntou a si mesmo por que razo Falco no acompanhara a mulher e o filho.
De Lattarullo, nem sinal. O que ele ouvira devia ser o bramido do mar  distncia ou o eco das bombas largadas h meses, que continuavam presentes nos seus ouvidos 
e sonhos. Saiu da janela. No querendo juntar-se a Falco, sentou-se s escuras e acendeu um cigarro. Ficou a ver as chamas bruxuleantes das velas que iluminavam 
os altares que Immacolata fizera para o marido e para o filho, fazendo com que a folha de ouro das imagens brilhasse. No passou muito tempo at comear a ouvir 
vozes vindas do terrao. Eram abafadas, mas em staccato. Era bvio que estava a travar-se uma grande discusso. Reconheceu a voz de Valentina. Escondido nas sombras, 
olhou para o terrao, onde ela estava de p, frente ao irmo, as mos levantadas em protesto e a voz transformada num silvo irado. Falavam to depressa e to baixo 
que Thomas no conseguiu compreender uma nica palavra. Apurou os ouvidos at lhe doerem, mas mesmo assim no conseguia perceber nada. De repente, Falco ps-se em 
p de um salto, inclinou-se sobre a mesa e disparou uma frase, furioso, com as mos em cima da mesa como duas grandes patas de leo. Ela retaliou como um demnio, 
de queixo levantado e rosto orgulhoso, os olhos vivos e brilhantes. Thomas voltou a lembrar-se dela a danar na rua, na noite da. festa. Nessa altura, os seus olhos 
tambm se tinham incendiado assim.
A normalmente recatada Valentina possua um carcter apaixonado que raramente revelava. Ficava ainda mais bonita enraivecida e Thomas sentiu o sangue aquecer-lhe 
nas veias ao v-la de olhos coruscantes e sorriso altaneiro, realados agora pela luz fantasmagrica da vela quase extinta. Susteve a respirao, enquanto era novamente 
invadido pela sensao de se estar a apaixonar. Perguntou a si prprio se estariam a discutir por causa dele. Talvez Falco estivesse zangado com ela por se ter apaixonado 
por um forasteiro. Thomas foi suficientemente sensato para continuar escondido e, de qualquer forma, no faltaria muito para ela estar longe de Incantellaria e do 
seu irmo mal-humorado e ressentido.
Por fim, o barulho do carro de Lattarullo alertou-o da chegada do carabiniere. Ps-se de p de um salto e apressou-se a sair sem fazer barulho. No queria que Falco 
e Valentina soubessem que ele testemunhara a sua discusso.
No carro, Lattarullo sentiu um enorme prazer em contar-lhe tudo sobre o seu prprio casamento.
- Embora, tristemente, a minha mulher me tenha deixado - disse, sem que a voz ficasse triste. - Uma tragdia pessoal sem consequncias para ningum, a no ser para 
mim. - Thomas nem o ouvia. - A guerra ensinou-me que h coisas muito mais importantes e significativas do que as mulheres.
De volta  trattoria, Thomas despiu-se para ir para a cama. Immacolata colocara um grande jarro de gua ao lado de uma bacia. Agarrou na pequena barra de sabo e 
lembrou-se do banho que tomara no rio com Jack. Pensou em Valentina como a vira pela primeira vez, com aquele vestido branco virginal que se ajustava to bem ao 
seu corpo jovem e esguio. Lembrou-se da forma como o sol brilhara por trs dela, projectando a silhueta das suas pernas.
Ficou acordado, a olhar para o tecto, reflectindo sobre a cena que acabara de presenciar e sobre as suas implicaes. L fora, a brisa danava entre os ciprestes, 
sussurrando divertida  sua janela com um hlito suavemente salgado. Atormentado pela ansiedade, sentia-se quente e desconfortvel e profundamente desejoso de proteger 
Valentina e a filha deles. Ningum me vai impedir de as levar a ambas para Inglaterra, pensou furioso. Nem que eu tenha de me esgueirar a meio da noite, como um 
criminoso.


CAPTULO DEZASSEIS

O padre Dino tinha a voz profunda e gutural de um urso. Vinha l do fundo da sua barriga redonda e cavernosa. O rosto estava quase todo coberto pela barba cerrada 
e grisalha, que lhe caa do queixo e faces at ao peito, terminando em pontas emaranhadas que pareciam garras minsculas. Quando falava, a barba contorcia-se como 
se fosse um animal sarnento, e no algo que ele tivesse deixado crescer por iniciativa prpria. No parecia limpa e Thomas teve a ntida sensao de que se tivesse 
a infelicidade de se aproximar demasiado, seria assaltado por um odor extremamente desagradvel. Surpreendentemente, por cima da barba, os olhos do padre eram rasgados 
e arrebatadores, de um belo tom de verde: [ claro e iridescente, como uma lagoa musgosa inundada pelo sol. O padre chegara de bicicleta. Era um prodgio que a sua 
longa batina preta no fosse apanhada entre os raios, provocando um acidente terrvel. Veio at ao terrao, esbaforido, depois do esforo de ter subido a colina 
a pedalar. No entanto, quando Immacolata lhe ofereceu vinho, a sua expresso iluminou-se e o pouco que se conseguia ver das suas faces ficou da cor das ameixas.
- Abenoada seja a Virgem e todos os santos - disse ele, fazendo o sinal da cruz no ar,  sua frente.
Thomas olhou para Valentina, mas a sua expresso era de reverncia solene.
Thomas olhou de relance para Falco, recordando a sua discusso furiosa com a irm, na noite anterior. Na presena do padre Dino, estava taciturno e aquiescente, 
embora continuasse de semblante carregado. Beata levantou-se com Toto; Thomas imaginou que ele estivesse secretamente divertido com a barba do ancio. As crianas 
eram rpidas a captar o grotesco e a rir-se dele. Fazer pouco das pessoas era aquilo de que mais gostavam, antes de os pais lhes ensinarem que era m educao apontar 
e olhar fixamente. Paolo e Ludovico estavam srios, o que nem parecia deles. A chegada do padre Dino mudara-os a todos. De repente Thomas sentiu-se culpado pelos 
seus pensamentos irreverentes. No fim de contas, era ele que ia realizar a cerimnia do seu casamento.
- Lembro-me de si na festa di Santa Benedetta - disse o padre Dino a Thomas, estendendo-lhe a mo.
- Foi um evento extraordinrio - replicou Thomas, tentando responder no tom apropriado. - Senti-me muito honrado por ter podido participar.
- No foi nada menos do que um milagre - disse o padre Dino
- e, atravs dos milagres, Deus recorda-nos a sua omnipotncia. Em alturas de conflito humano,  importante recordar que Deus  mais poderoso do que ns, por mais 
eficientes que sejam as nossas armas e por mais fortes que sejam os nossos exrcitos. Deus mostrou-Se no sangue das lgrimas de Cristo e voltar a faz-lo quando 
comemorarmos, como fazemos todos os anos, este sacrossanto milagre.
- Est outra vez na altura? - perguntou Thomas, virando-se para Valentina.
Mas o padre Dino respondeu por ela, como continuaria a fazer em relao a todos os assuntos que dissessem respeito ao Senhor.
- Na prxima tera-feira. Talvez Deus entenda abenoar o vosso casamento e o vosso futuro juntos - disse ele solenemente. Depois, o semblante ensombrou-se-lhe por 
um momento - Vocs puseram uma criana no mundo...
- Todas as crianas so bnos, padre Dino - interps Immacolata, levantando o queixo. Devido  linhagem de Immacolata, ao seu parentesco directo com Santa Benedetta, 
a primeira a testemunhar o milagre, 254 anos antes, o padre Dino tinha uma grande considerao por ela.
- Na verdade, todas as crianas so bnos. No entanto - voltou a franzir o sobrolho e olhou directamente para Thomas. - Deus tem de abenoar a vossa unio para 
que a vossa filha seja o produto do sagrado matrimnio, e no de um descuido pecaminoso. Mas Deus perdoa, no  verdade? Em tempo de guerra, s vezes  impossvel 
seguir o caminho de Deus nesse aspecto. - Depois, riu-se e o ar vibrou  sua volta. O caminho de Deus nem sempre  fcil de seguir. - Se fosse, amos todos para 
o Cu e eu ficava sem trabalho.
- O Tommasino  um jovem honrado, soube disso desde o primeiro momento em que o vi. J no pensei o mesmo do amigo...
- Aquele que tinha o esquilo? - perguntou Valentina com uma risada.
O padre Dino parecia estar perplexo.
- Esse mesmo - disse Immacolata. - Vamos comer e beber para celebrar o seu futuro e agradecer ao Senhor por ela no se ter apaixonado por ele.
Depois do padre Dino ter dado umas graas desnecessariamente longas, Thomas sentou-se ao lado da noiva, do lado contrrio ao padre. Pensou em Jack e esperou que 
ele se tivesse lembrado de enviar a carta que ele escrevera aos pais, a inform-los do seu regresso a Itlia e dos planos de levar a noiva e a filha para Beechfield 
Park assim que casassem. No estava nada preocupado com o facto de os pais poderem no aprovar a sua escolha. Ter sobrevivido  guerra seria certamente o suficiente 
para o desculpar pela escolha de uma noiva menos apropriada.
Thomas pegou na mo de Valentina. A princpio, ela tentou retir-la, dividida entre o respeito pelo padre e o desejo de ser conivente com Thomas. Passado algum tempo, 
desistiu e Thomas agarrou-a firmemente debaixo da mesa, onde ningum podia ver.
De repente, ouviu-se um rudo surdo e prolongado vindo dos intestinos do padre. Este continuou, imperturbvel. Mas o rosto de Immacolata suavizou-se, enquanto tentava 
conter o divertimento. E l veio outra vez aquela espcie de ganido: comeou baixo, elevou-se a meio, depois voltou a diminuir, antes de se dissolver num borbulhar. 
O padre mexeu-se desconfortavelmente na cadeira. Immacolata ofereceu-lhe mais vinho. Normalmente, teria recusado. O dia estava quente, o sol abrasador, a moleza 
da tarde comeava a penetrar a sua mente e a faz-lo perder a concentrao. Mas segurou o copo enquanto Immacolata o enchia. Quando o ganido se tornou mais forte, 
no s em termos de frequncia, mas tambm de volume, o pobre padre emborcou o copo de um trago. Gotas de suor perlavam-lhe a testa e o nariz, brilhando sob a luz 
do sol. O tom da sua voz subiu e a barba comeou a tremer nervosamente, com as pequenas garras a arranharem a sotaina,  medida que ele mexia a cabea de um lado 
para o outro. A conversa passou da poderosa fora divina para coisas mais prosaicas, como presunto e ameixas. O ganido voltou a fazer-se ouvir vezes sem conta at 
que, por fim, a vozinha inocente de Toto perguntou aquilo que todos estavam desejosos de dizer:
- Padre Dino! - chamou ele com um sorriso maroto.
- Sim, meu filho? - respondeu o padre entre dentes.
- Engoliu algum co?
Thomas ficou surpreendido quando Falco desatou a rir.
O padre Dino murmurou uma desculpa e desapareceu no interior da casa, onde ficou por muito tempo.
Immacolata soltou um grande suspiro.
- Pobre padre Dino - disse. - Trabalha demais.
- E come demais - acrescentou Ludovico.
- No  boa ideia comer co - acrescentou Paolo. -  indigesto!
Os irmos comearam a rir. Falco despejou o copo de vinho com um sonoro trago e depois limpou a boca s costas da mo.
- Tenho pena da pobre alma que usar a casa de banho depois dele - disse, e os irmos desataram novamente a rir.
- J chega! - pediu Immacolata e o tom da sua voz evocava agora o da mulher veemente que Thomas conhecera na Trattoria Fiorelli, um ano antes. - Ele  um homem de 
Deus. Tenham respeito!
Mas, agora que tinham comeado, nada conseguia faz-los parar de rir...
Depois do almoo, o padre Dino partiu na sua bicicleta, embora Immacolata, muito diplomaticamente, lhe tivesse oferecido um lugar  sombra, onde ele podia passar 
a tarde em serena contemplao, a olhar o mar. Desapareceu em equilbrio instvel no caminho poeirento. Thomas e Valentina s esperavam que ele chegasse  vila em 
segurana, para os poder casar na semana seguinte, a seguir  festa di Santa Benedetta.
Mais tarde, enquanto Valentina amamentava Alba, Thomas tirou para fora o seu papel e os lpis de pastel e desenhou-as. O calor da tarde j no era to intenso e 
a luz era suave e delicada,  medida que o dia ia morrendo lentamente, dando lugar  noite. Soprava uma pequena brisa vinda do mar, trazendo com ela os cheiros das 
colinas e a promessa de um futuro distante noutro pas. Alba, com um vestidinho branco e fino, estava deitada contra a barriga da me, sugando o leite do peito intumescido. 
Valentina segurava-a bem juntinha a si e, de vez em quando, inclinava a cabea para observar a sua amada filha. Tinha uma expresso suave e cheia de amor pelo minsculo 
ser que trouxera ao mundo. Os olhos transbordavam de orgulho e a tristeza que Thomas captara no ltimo retrato j no estava presente. com o esprito cheio de optimismo, 
a sua beleza era ainda mais sublime e ela ainda mais distante; o pedestal em que a pusera era to alto que a sua cabea desaparecia nas nuvens.
Thomas falou sobre o futuro de ambos. Descreveu a casa onde ela ia viver e a povoao a que iria presidir.
- Vo adorar-te em Beechfield - disse ele, imaginando os olhares de admirao e inveja quando ele a apresentasse aos amigos e famlia. - No creio que a gente de 
Beechfield alguma vez tenha visto uma italiana a srio. Vo pensar que so todas to bonitas como tu. Mas esto enganados. Tu s nica.
- Oh, estou desejosa de me ver longe daqui - respondeu ela com um suspiro. - Isto tornou-se demasiado pequeno para mim. J mal consigo esticar as pernas.
- No vais ter saudades da tua famlia? - perguntou Thomas, desenhando a linha do seu queixo, que era surpreendentemente forte e angulosa para um rosto to suave.
- No vou ter saudades do Falco! - riu ela alegremente. - Do tonto do Falco! Pergunto a mim mesma o que ir ele fazer. No me parece que v conseguir adaptar-se 
 vida depois da guerra. Creio que era mais feliz a combater os seus compatriotas e a esconder-se no mato do que a comer com a famlia em tempo de paz.
- Est perturbado. Talvez devesses tentar compreend-lo - sugeriu ele diplomaticamente, fazendo a sombra do queixo no seu pescoo.
- Porqu? - replicou com petulncia. - Ele no tenta compreender-me.
A sua expresso ficou de sbito ensombrada. Thomas imaginou que tivesse alguma coisa a ver com a discusso com Falco na noite anterior.
- Ele combateu corajosamente. Combateu pelas coisas certas. No  vergonha nenhuma combater contra os compatriotas, se isso for a bem da paz.
- Ele pensa que  melhor do que toda a gente. Pensa que tem o direito de interferir na minha vida. Bem, ele j no sabe nada sobre mim. A guerra muda as pessoas 
e tambm me mudou a mim. L porque no estive na linha da frente, isso no quer dizer que me passasse ao lado. A minha maneira, tambm lutei para sobreviver. No 
me orgulho do que fiz, mas sobrevivi e tomei conta da mezinha o melhor que pude. No, ele no sabe nada sobre o que passei. - A sua testa enrugou-se quando ergueu 
as sobrancelhas. - Tem estado longe, escondido no mato. Como  que pode esperar voltar e assumir o lugar do nosso pai como chefe da famlia? No estava aqui quando 
precismos dele.
Thomas no percebia de que  que ela estava a falar. Tinha a sensao de ter chegado a meio de uma conversa e de ter perdido a parte mais importante.
- No te preocupes - disse, concentrando-se agora na linda cabea de Alba. - Em breve, estars longe e j ningum te dir o que fazer.
- Nem mesmo tu? - perguntou ela com um sorriso.
- No me atreveria! - disse ele a rir e ficou contente ao ver que o rosto dela j no estava sombrio e ansioso.
Quando terminou o desenho, segurou-o para ela ver. Por baixo do retrato, escrevera Valentina e Alba 1945. Thomas Arbuckk. Agora, o meu amor  a dobrar. A expresso 
de Valentina abriu-se como um girassol que acabara de ver o sol e ela passou as pontas dos dedos no desenho dos seus lbios, maravilhada.
- Est lindo! - suspirou. - s to talentoso, Tommy!
- No, tu  que s a inspirao, Valentina. Tu e a Alba. Acho que nunca consegui desenhar o Jack to bem, nem o Brendan!
- Est perfeito. vou guard-lo para sempre. O pastel no perde a cor, pois no?
- Espero que no.
- Quero que a Alba o veja um dia.  importante que ela saiba como  amada.
Valentina colocou Alba contra o ombro e bateu-lhe suavemente nas costas. Thomas dobrou-se para a beijar e ela levantou o queixo para lhe oferecer os lbios. Ele 
pousou a boca na dela durante um longo momento, desejando que pudessem passar o resto da noite na cama, entrelaados um no outro. Afastou-se com um suspiro.
- Em breve, vamos estar casados - disse ela, lendo-lhe os pensamentos. - Nessa altura, teremos o resto das nossas vidas para nos deitarmos juntos.
- Se Deus quiser - acrescentou Thomas, no querendo desafiar o destino.
- Deus vai dar-nos a sua bno, vais ver! Vai chorar lgrimas de sangue na festa di Santa Benedetta e, depois, vamos comear o resto da nossa vida longe daqui. 
- Olhou em redor da sua casa e acrescentou - no vou ter saudades dela, mas talvez ela v ter saudades minhas...

S conseguiram deitar-se juntos, com os corpos nus, uma nica vez, no pomar de limoeiros, ao amanhecer, enquanto a vila dormia l em baixo. A,  luz plida do sol 
nascente, Thomas desenhou-a uma terceira e ltima vez. E aquele retrato era to ntimo que ele sabia que nunca o iria mostrar a ningum. Quando lho deu, ela corou, 
mas ele viu pelo brilho do seu olhar que gostara.
- Esta  a minha Valentina - disse orgulhosamente. - A minha Valentina secreta.
E Valentina enrolou-o, para que continuasse a ser assim, secreta.
Thomas passava todo o tempo que podia com Valentina e a filha de ambos. No entanto, havia horas livres que ele tinha de preencher sozinho, enquanto Valentina fazia 
o vestido de casamento com a me e a Signora Ciprezzo. Durante essas horas longas e quentes, sentava-se do lado de fora da trattora e via as crianas a brincar 
no cais, os pescadores a remendarem as redes ou a partirem para o mar para as lanarem. Regressavam carregados de peixe, que vendiam na loja local ou mais para o 
interior, onde continuava a haver muita fome. As crianas juntavam-se ali  volta e ficavam a v-los descarregar e, por uma ou duas vezes, havia um peixito que resvalava 
por engano e elas agarravam-no e fugiam para brincar, antes que os pescadores dessem por isso e as impedissem. Ele tomava um copo com Lattarullo ou com Il sindacco, 
que cruzava as pernas, para mostrar os sapatos pretos engraxados e as calas impecavelmente engomadas.
Quando estava sozinho, Thomas via a mar vir e ir, numa suave dana por entre os seixos. Imaginava a mesma praia h milhares de anos. Pela primeira vez, tinha conscincia 
da mutabilidade permanente da natureza humana e da sua prpria mortalidade. Um dia, pensou, no passarei de areia numa praia e, contudo, os anos continuaro a passar, 
as mars continuaro a vir e a ir e haver outras pessoas para as observar.
Finalmente, chegou o dia da festa di Santa Benedetta. A manh estava encantadora. O cu tinha o azul mais intenso que Thomas alguma vez vira e parecia estar cheio 
de minsculas partculas de p de fadas, que brilhavam ao sol. Ele ficou especado, maravilhado com tal magnificncia, certo de que, se havia um Deus, Ele estava 
ali. O ar estava fresco e adocicado e a brisa trazia um cheiro forte a cravos vindo do mar. Quando olhou para a frente martima, viu algo de extraordinrio. A mar 
estava bem vazia, deixando a praia de seixos  mostra. Por algum estranho milagre, esta estava coberta por uma capa cintilante de cravos cor-de-rosa. As flores resplandeciam 
e emitiam reflexos  medida que o vento lhes batia nas ptalas, fazendo-as flutuar como asas minsculas. Os barcos que tinham estado ancorados ao largo estavam agora 
encalhados no meio daquele delicioso e perfumado campo de flores.
Thomas vestiu-se  pressa e, tal como o resto da cidade, ficou petrificado diante daquele esplendor do outro mundo. Ningum falou, todos receavam faz-lo, no fosse 
o reconhecimento verbal da magia fazer com que ela desaparecesse. Ningum sabia como  que as flores tinham ido ali parar. Quando a mar enchesse, as flores seriam 
levadas, deixando toda a gente a perguntar-se se teria acontecido realmente ou se teriam estado todos envolvidos em alguma espcie de alucinao.
Thomas ps as mos atrs da cabea e rasgou um sorriso. Se ests a ver isto, Freddie, espero que te esteja a encher de tanta alegria como a mim, pensou. Hoje  a 
festa di Santa Benedetta. De certeza que isto  um sinal de Deus. Amanh, casamos. Depois da barbrie da guerra, podemos agora construir uma paz duradoura. O nosso 
futuro est escrito em flores.
Mas o velho Lorenzo coou o queixo e abanou a cabea.
- O cravo  um smbolo da morte - disse lugubremente, de modo a que s Thomas ouvisse. - Se cada flor simbolizar uma pessoa, vamos todos morrer juntos.
Thomas ignorou a profecia arrepiante do ancio, preferindo ficar com a sua. No demorou muito a espalhar-se a notcia do mais recente miracolo. O padre Dino chegou 
para testemunh-lo e categoriz-lo juntamente com os outros pequenos milagres que tinham acontecido em Incantellaria. Lattarullo coou a virilha, desnorteado, enquanto 
Il sindacco considerou a hiptese de levar algumas flores para casa, para a mulher. Immacolata e a sua famlia desceram a colina, mal receberam a notcia. Valentina 
deu a mo a Tomas enquanto contemplavam a viso do seu futuro, com o corao a transbordar de alegria. Depois, a ateno de Thomas foi desviada por um sbito claro, 
vindo do cimo da colina, de muito longe. Pensou nisso por um momento, antes de perceber que era o Marchese a observ-los do seu terrao, atravs do telescpio. Estaria 
a observ-los agora a eles ou simplesmente a maravilhar-se com a incrvel mostra de cravos, tal como toda a gente?
Naquela noite, Thomas teve uma forte sensao de dj vu, ao sentar-se com Valentina na capelinha de San Pasquale. Juntamente com o resto da famlia dela, esperaram 
que o sangue corresse dos olhos de Cristo. Imacolata, vestida de preto, cor que usava desde a morte do marido, mantinha a atitude orgulhosa e solene, mas isolada 
do resto da vila. Parecia mirrada, como se o peso de tanta esperana fizesse o corpo vergar-se. Thomas sentiu uma onda de compaixo por aquela mulher, que tinha 
perdido o marido e um filho e estava preparada para perder a sua nica filha e tambm a neta. Ela parecera-lhe to forte antes, to formidvel, mas, de repente, 
sozinha na nave daquela capela, com as outras duas parenti obedientemente atrs dela, parecia vulnervel e completamente s.
Thomas no se importava com o facto de Cristo verter, ou no, lgrimas de sangue. Estava convencido de que aquilo era um truque preparado pelo padre Dino ou por 
um dos seus amigos. S se importava por causa de Valentina e da me, que davam demasiada importncia quilo, como se tivesse o poder para decidir o futuro. Elas 
no percebem, pensou para consigo, que tm o futuro nas prprias mos. O milagre no tem nada a ver com isso. Mas  claro que no lhes podia dizer uma coisa dessas. 
Tudo o que podia fazer era esperar que o sangue fosse to espesso e carmesim como xarope de cereja. Esperaram e quanto mais esperavam, mais quente ficava a capela 
e mais inebriante o cheiro a incenso. O silncio tornou-se ensurdecedor, como se fosse o silvo de um apito silencioso para ces, que eles no conseguiam ouvir, mas 
que entrava nos seus crebros, provocando-lhes dor. A mo de Valentina comeou a ficar hmida na sua. Apertou-lha para a tranquilizar, mas ela no retribuiu. Limitava-se 
a fixar a esttua de Cristo, desejando com todas as suas foras que ela vertesse lgrimas. Ao v-la to preocupada, Thomas tambm comeou a ficar preocupado. com 
certeza que as flores na praia tinham sido um sinal positivo, pensou esperanado. Mas nem mesmo a vontade de toda a populao de Incantellaria podia forar aqueles 
olhos a chorar. O relgio bateu uma hora e Immacolata caiu de joelhos.
Enquanto saam desapontados, Valentina sorriu para Thomas:
- No te preocupes, meu amor - disse ela. - Vamos casar amanh e, nessa altura, deixaremos todo o azar para trs.
- Ento a praia cheia de cravos no simboliza a nossa boa sorte? - perguntou num sussurro.
- Sim,  verdade. Mas precisamos da bno de Cristo. Eu sei como obt-la. vou tratar de tudo, vais ver.
Thomas achou as suas supersties camponesas encantadoras e incuas. Mas, mais tarde, havia de lamentar do fundo do corao o facto de a conhecer to mal.


CAPTULO DEZASSETE

Londres, 1971

Alba fez a mala. No sabia o que havia de levar e tambm no tinha a certeza sobre a forma de l chegar. No falava com Fitz desde que ele deixara o seu barco-casa, 
h mais de um ms. Quando ele no lhe telefonara, ela remetera-se  esperana de poder cruzar-se com ele no ponto. Mas nem de relance o vira. Nada. Agora, o seu 
quarto fazia eco de uma solido inconsolvel. Apesar de Rupert, Tim, James e Reed do Rio, o cheiro de Fitz pairava no ar e, s vezes, quando a apanhava desprevenida, 
os seus olhos enchiam-se de lgrimas. Tambm tinha saudades do tonto do co. Houvera qualquer coisa de muito doce na amizade deles. Porque  que ele no a tinha 
querido acompanhar na sua aventura? Se a amasse, teria ido sem questionar. Talvez ela exigisse demasiado. Era essa a sua natureza. Se ele no conseguia acompanhar 
o seu ritmo, ento, realmente, o melhor era desistir. Mesmo assim, sentia a sua falta. Agora, s havia sexo e a sua alma ansiava por aquilo que conhecera brevemente.
Naturalmente, a Viv ficara do lado dele. Alba sempre suspeitara que ela era uma mulher que gostava mais de se dar com homens. Imaginava, agora, que Viv queria ficar 
com Fitz, apesar de ser muito mais velha. Inicialmente, Alba sentira-se abandonada e sozinha. Acabara por confiar em Viv e por amar Fitz. Eles tinham-se transformado 
na famlia que ela sentia que nunca tivera. Recordava com nostalgia aquela noite em que se tinham deitado os trs sob as estrelas. Fora uma noite perfeita.
Nas ltimas semanas, Viv andava a ignor-la. Na nica ocasio em que os seus caminhos se tinham cruzado no ponto, Viv franzira os lbios e resmungara, levantando 
o queixo e passando por ela, como se a culpa fosse toda de Alba. Era bvio que Fitz faltara  verdade. Bem, se Viv era suficientemente tola para acreditar mais na 
palavra dele do que na sua, ento eles que sofressem as consequncias. Ela ia para Itlia e quando encontrasse a famlia, era muito bem capaz de decidir nunca mais 
regressar. Nessa altura, haviam de se arrepender da forma como a tinham tratado, no era? Depois de a terem afastado...
Rupert, Tim e James tinham ficado muito felizes por poderem regressar  cama de Alba, encantados com o facto de Fitz no ter aguentado a corrida. "Ele no  um corredor 
de fundo", comentara Rupert, todo contente, convencido de que ele, sim,  que o era. Reed do Rio vinha outra vez cham-la e ela deixava que a levasse at Wapping, 
escondendo-se no cho da sua lancha quando o sargento passava por eles. Ia ter com os rapazes, ao Star & Garter, bebia cerveja e participava nas suas brincadeiras, 
deliciada com as suas atenes.
Ls Pringle, da Companhia de Iates e Barcos de Chelsea, passava por l regularmente para entregar o correio e encher o reservatrio de gua. Embora fosse demasiado 
velho para a levar para a cama, sentava-se  mesa da cozinha, bebia caf e fazia mexericos sobre as pessoas estranhas que conhecia, confessando, para divertimento 
de Alba, que no havia ningum to excntrico como Vivien Armitage.
- Os escritores so gente muito estranha - dizia. - Sabe que ela nunca tem o Elsan cheio? Acho que  porque obriga os amigos homens a fazer chichi para fora do barco...
- Que grande ideia - disse Alba. - Quem me dera ter pensado nisso. Mas note bem - acrescentou, num golpe baixo. - Ela pode ser inteligente, mas j a viu sem maquilhagem? 
Eu achava o Frankenstein assustador at ter visto a Viv s duas da manh, com os rolos postos!
Como  que podia sentir-se sozinha com tantos amigos?, pensou, fechando a mala e sentando-se em cima dela para conseguir correr o fecho. Era o princpio de Junho. 
O tempo estava quente em Londres, por isso presumiu que estaria ainda mais quente em Itlia. Guardara na mala a maior parte do guarda-roupa do ltimo Vero e estava 
certa de que, numa vila costeira, pequena e provinciana, ia fazer um figuro! Qual sozinha, qual carapua!
Sentou-se no convs, fazendo cara feia aos esquilos e atirando um bocadinho de po  gua, para os patos. Olhou para o barco-casa da Viv. Era imaculado. Havia vasos 
de gernios suspensos no varandim e as suas flores trepavam sobre a amurada, como longos tentculos vermelhos. Tambm havia grandes caixas pretas com limoeiros e 
esferas perfeitas de buxo topiado. At as janelas estavam polidas e a brilhar. Alba olhou para o seu convs. Tambm tinha vasos de flores, muitos at, mas todos 
precisavam de ser podados, j para no dizer regados; no chovia h cerca de quinze dias. O convs no era varrido h meses. Os esquilos adoravam brincar por ali, 
deixando nozes e excrementos, que o vento soprava e a chuva lavava at certo ponto, mas no estava limpo como o de Viv, nem estava arrumado l dentro e ningum tinha 
reparado a goteira. Deixara isso para Fitz, mas este no regressara. Ela tambm tinha um buraco no corao, a gotejar, mas Fitz tambm no se dera ao trabalho de 
o consertar. Olhou novamente para a casa perfeita de Viv e teve uma ideia.
Viv tinha semeado relva por cima da cabina. Tinha ido ao centro de jardinagem e comprara quadrados de relva j prontos, viosos e verdes. Perfeitos. Durante um fim-de-semana, 
tivera imenso trabalho a tratar o telhado, para que a gua tivesse forma de escoar e no corroesse o tecto nem se infiltrasse no quarto; depois, tinha aplicado cuidadosamente 
a relva, de modo que a cabina, agora, parecia ter feito um corte de cabelo dispendioso. Viv sentia imenso orgulho na sua relva. Semeara margaridas e rainnculos 
e estava a experimentar papoilas. Alba olhou para o telhado de relva e sorriu ironicamente. Aposto que a Viv no faz a menor ideia de como sou boa jardineira, pensou 
maliciosamente. Acho que lhe vou mostrar como posso ser inovadora...
Alba tinha comprado uma bonita Vespa cor-de-rosa para andar pela cidade. Era mais fcil de estacionar do que o carro. O seu voo era s  noite, por isso tinha de 
matar o tempo. Almoar com Rupert em Mayfair parecia ser uma ideia agradvel. Ela tinha-lhe dito que ia para Itlia, mas no que no tencionava regressar.
Antes do almoo, ia fazer um telefonema ao seu velho amigo, Ls Pringle. Ele faria qualquer coisa por ela. E tinha quase a certeza que aquilo que lhe ia pedir nunca 
ningum lhe pedira antes.

Viv sentou-se com Fitz no pequeno caf que ele frequentava com regularidade e que ficava perto da sua casa. Era calmo, antiquado e tinha um caf extremamente bom. 
Sprout deitou-se no cimento, observando impassvel os sapatos das pessoas que por ali passavam. Viv lanava baforadas no ar e tinha os olhos tapados por grandes 
culos de sol pretos que apenas deixavam ver o pequeno nariz e o queixo. Quando ele os admirara, dizendo que eram  moda, ela retorquira zangada:
- No sou pessoa de modas, Fitzroy, devias saber disso. Sou superior a essas coisas e vou muito para alm delas... E no olhes para mim dessa maneira! Eu disse-te 
que no queria ver os teus lindos olhos castanhos cheios de lgrimas...
- Ela parte hoje  noite, no ? - perguntou ele, soltando um suspiro.
Viv expeliu o fumo pelo canto da boca.
- Sim.  pena no ser no primeiro avio.
- Eu devia ir dizer-lhe adeus.
Viv ficou chocada.
- Adeus? - vociferou. - S se for boa viagem, tipo vai e no voltes! Ela s te trouxe infelicidade...
- E duas camisas muito elegantes do Mr. Fish.
- No sejas palerma, querido! Se ela resolveu acabar contigo por causa de uma coisa to banal,  porque no te amava. Eu sempre disse que isso ia acabar em lgrimas, 
e tinha razo! No precisou de muito tempo para voltar a convidar o Rupert para a sua cama, pois no? No creio que tenha derramado uma nica lgrima.  uma galdria 
tonta! Por mais triste que seja, acho que tens de aceitar que est tudo acabado e continuar a tua vida. H montes de raparigas por a mortinhas por tomarem conta 
de ti como deve ser...
- Eu no quero mais ningum. Devia ter-me esforado mais para a compreender - disse pesarosamente, baixando os olhos.
- Oh, por amor de Deus, Fitzroy! Deixa-te disso! Ela no  propriamente a Esfinge! Na verdade,  at uma pessoa muito fcil de compreender: mimada, demasiado bonita, 
para seu bem, e demasiado disposta a partilhar o corpo com qualquer Tom, Dick ou Harry que se d ao trabalho de a elogiar.  tudo muito triste. Ela anda  procura 
de uma figura paterna. No  preciso andar na universidade para perceber isso. Talvez tu fosses demasiado parecido com o pai.
- Eu estava a representar. - objectou Fitz.
- No, no estavas - disse ela, com um sorriso entendido. - Querido, tu no s um chato nem um fssil, mas s convencional, decente, meigo, divertido e no tomas 
partido. No fazes ondas, mas tambm no incendeias o mundo de forma escandalosa. No s exibicionista. A Alba quer um homem feito de fogo-de-artifcio. Tenho a 
certeza de que vai encontr-lo em Itlia. O que l no falta so homens temperamentais para lhe apalparem o rabo...
- Ests enganada, sabes? Ns ramos muito felizes juntos. Ramo-nos imenso. ramos ptimos na cama e eu estava a comear a florescer como cone da moda.
Ele fez um sorriso agarotado e Viv apagou o cigarro. Olhou para ele durante um longo momento e o seu rosto encheu-se de ternura. Deu-lhe umas palmadinhas afectuosas 
na mo, como uma me faria.
- Isso, querido! Brinca com a situao.  capaz de ter sido bom, mas acabou-se. Deixa-a ir embora para Itlia. Se tiveres sorte, ela vai dormir com todos os homens 
temperamentais que encontrar e, no fim, vai perceber que nenhum deles a fez feliz. Se tiverem de ficar juntos, ela volta. Caso contrrio, vais ter de casar comigo.
- Podia ser pior - disse, tomando a sua mo nas dele.
- Pois podia. - Tirou os culos e mostrou os olhos vermelhos e lacrimosos, profusamente maquilhados com rmel preto. - Sabes, tem sido duro ignor-la.
- No devias tomar partido.
- Eu vou estar sempre do teu lado, Fitzroy. Mesmo que cometesses um homicdio, continuaria a estimar-te da mesma maneira.
- E no  s por eu te arranjar contratos maravilhosos?
- Isso tambm conta,  claro! Mas tu s uma pessoa excepcional. Ela  uma rapariga superficial, que no vai ver o teu valor. No quero ver-te a desperdiar a vida 
com uma mulher que s pensa nela. Por que razo te hs-de conformar com uma mulher que s te conhecer pela metade, metade essa que nem sequer  a melhor? Quanto 
mais fundo se vai no teu corao, Fitz, mais se aprecia o teu valor.
Ele riu-se tristemente.
- s muito simptica, Viv. No sei se mereo tantos elogios. Contudo, no consigo deixar de gostar dela.
- Eu tambm gosto dela, meu tonto! A Alba tem esse dom.

Fitz passou a tarde no escritrio. Fez telefonemas, ps a papelada em ordem, passou os olhos por dois manuscritos novos, mas, no final do dia, no conseguia lembrar-se 
com quem tinha falado, que cartas escrevera e se os manuscritos novos prestavam, ou no, para alguma coisa. Combinara ir jogar bridge com a Viv s sete. Nas semanas 
anteriores, tinham optado deliberadamente por jogar em casa do Wilfrid ou da Georgia, para evitar que ele vislumbrasse a Alba ou o barco dela. Mas ele tambm tinha 
estado distrado, nessa altura. Nem mesmo a autpsia do jogo, que, normalmente, tinha o poder de o arrancar aos seus pensamentos, conseguiu convenc-lo a deixar 
de sonhar acordado. O Sprout, agora, andava com ele para todo o lado, encantado por no ficar em casa, fechado na cozinha, ou na traseira do carro. Na verdade, tinha 
sido promovido e ocupava o espao em frente do lugar do passageiro e, s vezes, quando havia espao, deitava-se no banco de trs, como um imperador romano, a ver 
os topos dos edifcios a passarem a toda a velocidade pela janela. Era uma boa companhia,  claro, mas no era a mesma coisa.
Fitz tinha saudades de Alba. Sentia falta de tudo o que se relacionava com ela e era mais feliz  noite, quando podia deitar-se s escuras, a recordar os bons tempos. 
Adorara fazer amor com ela, mas havia qualquer coisa de comovente na forma como ela se deitara juntinho a ele, naquelas noites em que queria apenas estar prxima. 
Ele sabia que aquele gnero de intimidade era uma novidade para ela. Antes, Alba no sabia o que era ter um homem na cama sem fazer sexo com ele. Depois, descobrira 
que era possvel e rapidamente inventara um nome. A Alba era boa a arranjar nomes. Chamava-lhes "noites de vagem" porque se deitavam como ervilhas numa vagem, to 
prximos que quase podiam ser um s.
Sprout sentia que o seu amigo andava infeliz e abanava a cauda, como que para tentar compens-lo. Fitz punha os braos  volta do co e enterrava o rosto no seu 
pelo. No queria sucumbir s lgrimas, nem mesmo em frente do Sprout. No era digno, nem era coisa prpria de um homem. Mas, por uma ou duas vezes, depois de uns 
copos de vinho e quando o cu estava excepcionalmente bonito, ele tinha dado largas  sua emoo.
Depois de sair do escritrio, agarrou no Sprout para dar uma volta pelo Serpentine. Era demasiado cedo para ir para casa da Viv, que estava a tomar uma bebida no 
Ritz com a sua nova editora. Estava um fim de tarde maravilhoso. O cu era azul-claro, adquirindo tonalidades rosadas perto da linha do horizonte, onde o Sol se 
punha. O ar estava quente e perfumado, cheirava a relva cortada. Os esquilos corriam de um lado para o outro sobre a terra recentemente exposta, agarrando em pedaos 
de comida largados pelos turistas. Pensou em Alba, em como ela detestava aquelas pequenas criaturas, receosa que lhe entrassem no quarto e se escondessem por baixo 
dos lenis para lhe roerem os dedos dos ps. Era isso que ele gostava nela: o seu processo de pensamento era diferente do das outras pessoas. Ela vivia num mundo 
s dela. A tragdia era que, por mais que ele se tivesse esforado, no conseguira partilh-lo com ela.
Olhou para o relgio. No sabia a que horas partia o avio, mas se se apressasse, era capaz de chegar a Cheyne Walk antes dela ir para o aeroporto. Devia ter ido 
mais cedo. Pelo menos, devia ter-lhe telefonado para saber como estava. E se ela estivesse to infeliz quanto ele? E se ela estivesse s  espera que ele lhe estendesse 
o ramo de oliveira? Teria ficado demasiado magoado e furioso para conseguir ver as coisas com clareza? A Viv tinha-o aconselhado a no lhe telefonar, mas ele no 
era obrigado a aceitar o conselho. Amava Alba. Era to simples como isso.
Apressou-se em direco  estrada e fez sinal a um txi.
- Cheyne Walk - disse, fechando a porta atrs de si. - To depressa quanto possvel, por favor.
O taxista acenou com ar sorumbtico.
- Nunca ningum diz "To devagar quanto lhe aprouver", pois no, chefe?
Fitz franziu o sobrolho, irritado.
- Imagino que no.
- Eu conduzo sempre to depressa quanto a lei permite - disse, descendo Queensgate a uma velocidade moderada.
- A maioria dos taxistas que conheo adoram infringir a lei - comentou Fitz, desejando que ele acelerasse um bocadinho. A Alba era capaz de estar a deixar o barco 
naquele preciso momento.
- Talvez, mas as leis so feitas por alguma razo e eu gosto de cumpri-las.
- Ento e o dcimo primeiro mandamento? - sugeriu Fitz.
- Pensava que s havia dez.
O taxista fungou e limpou o nariz s costas da mo.
- No, h um de que as pessoas se esquecem muito. No sers apanhado!
At o taxista deu uma gargalhada.
- Est bem, amigo, farei o meu melhor - disse, e Fitz viu o conta-quilmetros a passar para os cinquenta.
Viv despediu-se da editora, contente por ela gostar da forma como o livro estava a correr. Ros Holmes era uma mulher fantstica, pensou. Directa, sensvel, franca 
e calorosa,  maneira tipicamente inglesa. Viv no suportava pessoas demasiado exuberantes. Ros no era assim, nem nunca seria, por mais brilhante que o seu trabalho 
fosse, e, na opinio de Viv, comeava a mostrar laivos de brilhantismo. Fez sinal a um txi em Piccadilly. Faltavam cinco minutos para as sete, por isso ia chegar 
um bocadinho atrasada; podiam esperar por ela no terrao e admirar o seu novo jardim e os limoeiros. Depois, pensou em Alba e sentiu-se culpada. Talvez no tivesse 
sido correcto cortar relaes com ela daquela maneira! No fim de contas, Alba passara muitas noites na sua cozinha, a abrir o seu coraozinho enquanto bebia copos 
e mais copos de vinho. Por baixo daquela conversa dura, havia uma rapariga adorvel. Viv era demasiado velha para se comportar de maneira to infantil. Alba no 
podia falar com os pais e, agora, j no tinha o Fitz. Que vergonha! Sibilou, a meia voz. J devia ter aprendido.
- Conduza um bocadinho mais depressa! - gritou sobre o rudo monocrdico do rdio. - No sou turista, por isso toca a andar, est bem?
O motorista ficou to surpreendido que ps o p no acelerador, por puro pnico.
Viv achou que era uma coincidncia incrvel quando ela e Fitz chegaram a Cheyne Walk ao mesmo tempo. Nenhum deles falou; sabiam ambos que era mais importante apanhar 
a Alba do que explicar porque  que estavam a descer apressadamente o ponto at ao Valentina. Fitz bateu  porta. O barco-casa estava com um ar desolado. S um 
bando de esquilos brincava no telhado da cabina.
- Raios partam! - praguejou Viv. - Chegmos tarde de mais?
- Parece que sim - disse Fitz.
- Tenta outra vez! - encorajou ela.
- O que achas que estou a fazer? - exclamou irritado, batendo com o punho na porta. Mas continuou a no haver resposta e os esquilos tambm continuaram a correr 
pelo telhado com as suas pequenas garras afiadas.
- Bem, ento  isso. J se foi embora.
- No posso crer. Sou c um estpido!
Viv ps-lhe a mo sobre o ombro.
- Querido, no podias saber.
- Podia ter vindo um dia qualquer durante este ltimo ms, mas no o fiz. Deixei-a sozinha quando ela precisava de mim. Nem sequer telefonei a desejar-lhe sorte.
- Ela vai voltar - disse Viv para o acalmar.
Fitz virou-se para ela com olhos zangados.

- Ser que vai mesmo?
- Bem, no vale a pena continuar aqui a bater  porta. Vamos beber qualquer coisa - disse, puxando-o do p da porta.
Foi nesse momento de total desespero que ambos viram uma cena incrvel no jardim do terrao que Viv arranjara com tanto cuidado. Viv levou a mo  boca, enquanto 
deixava escapar um suspiro abafado. O rosto de Fitz abriu-se num sorriso rasgado.
- Alba! - exclamaram os dois em unssono.
- Mas como  que diabo... - comeou Viv, mas a voz morreu-lhe nos lbios e, por uma vez, ficou sem palavras.
-  tpico! - disse Fitz, sentindo-se um bocadinho melhor.
- Bem, acho que mereo - acrescentou Viv com um suspiro, abanando a cabea.
Em cima da relva perfeitamente colocada, estava uma cabra, a mastigar os rainnculos e as margaridas e, provavelmente, tambm a desenterrar as sementes de papoila.

Alba estava no txi, a caminho de Heathrow. Pensou na cabra no barco de Viv, esperando que, por essa altura, ela j tivesse comido a relva toda. com um bocadinho 
de sorte, tinha cado no quarto e estava a comer-lhe a roupa interior. bom velho Les! Mas, apesar da brincadeira, l Por dentro sentia-se infeliz. Fitz nem se dera 
ao trabalho de telefonar a desejar-lhe boa sorte e, agora, nunca mais o faria, pois nem mesmo ela sabia para onde estava a ir. O que sabia era que tinha de apanhar 
o avio para Npoles, o comboio para Sorrento e, depois, um barco para Incantellaria. A agente de viagens tinha dito que as estradas eram muito estreitas e sinuosas 
e ela no ia arriscar a vida com um italiano ao volante. Para comear, eles andavam do lado errado da estrada... No, era muito melhor ir de barco. Era uma aventura. 
Fitz dissera que ela tinha de a viver sozinha. Estava prestes a descobrir a me e a sensao que isso lhe provocava era simultaneamente de libertao e de receio.


O SEGUNDO RETRATO


CAPTULO DEZOITO

No momento em que Alba se sentou no avio, as suas reservas de energia esgotaram-se e ela bocejou, cheia de sono. Estava cansada. Cansada da mesma velha sensao 
de vazio e cansada de esperar que Fitz a preenchesse. Ia saber bem ir embora. Deixar tudo para trs. Comear de novo, num novo local, com pessoas novas.
Tinha escolhido deliberadamente o lugar junto  janela, para s ter um estranho ao seu lado. Pelo menos, num autocarro, podia sentar-se onde queria e mudar se alguma 
pessoa indesejvel se sentasse ao seu lado. Num avio, era muito diferente. Ia ficar com quem quer que o Destino tivesse posto no 13B. O nmero treze no trazia 
bons augrios. Um italiano muito bem-parecido entrou no avio, claramente enfastiado com a lenta fila de pessoas que avanava pelo corredor, parando constante mente 
para que algum pusesse a mala nos compartimentos da bagagem, por cima dos bancos. Reparou nela e Alba no ficou surpreendida quando ele no desviou o olhar. Raramente 
o faziam. Tambm olhou fixamente para ele, com um ar confiante, at o seu descaramento fazer com que ele baixasse os olhos para o bilhete que segurava na mo. Ela 
esperava que lhe tivessem dado o nmero aziago, que no seria to aziago assim se lhe pertencesse. At ao momento, era o nico homem vagamente decente que vira naquela 
noite e seria agradvel conversar com algum, considerando o nervoso que sentia por estar a voar para o desconhecido.
Continuou a observ-lo. Era bvio que os seus olhos claros o desconcertavam. A julgar pela sua sbita timidez, no era um predador, pensou, animada. No estava com 
disposio para predadores. Ele lanou-lhe mais um olhar de relance, antes de avanar para a parte de trs do avio. Ela bufou de irritao e cruzou os braos. Antes 
que tivesse oportunidade de ver o resto dos passageiros, um homem grande e balofo, uma pirmide de banha, deixou-se cair no lugar ao lado do dela.
- Importa-se? - disse ela com arrogncia.
O homem pediu desculpa numa voz fina e aflautada e tentou, sem sucesso, encolher-se para ficar mais pequeno.
Alba irritou-se.
- Deviam fazer bancos especiais para pessoas como o senhor - disse, sem sorrir.
- Acho que sim.
Ele tirou um leno branco do bolso das calas, com alguma dificuldade, e enxugou a testa.
Ainda por cima todo suado, pensou Alba, repugnada.  a minha maldita sorte. Ele apertou o cinto e Alba achou milagroso o facto de a companhia area ter cintos de 
segurana suficientemente grandes. Mas que falta de considerao da parte dele ser assim to gordo, pensou mesquinhamente.  bvio que  um homem muito guloso. Disse 
para consigo se o belo italiano ainda estaria a pensar nela, desejando que ele tivesse tido a sorte de se sentar ao seu lado. Qualquer coisa seria melhor do que 
o Gordo... Virou o rosto para a janela, para deixar bem claro que no pretendia conversar. Quando ele abriu um livro, sentiu que era seguro ler a Vogue.
Embrenhou-se nas pginas de moda da sua revista favorita, esquecendo Fitz e Itlia por um tempo, concentrando-se antes nas fotografias de raparigas de cales e 
botas. Acendeu um cigarro, apesar do Gordo comear a arfar ao lado dela, como uma velha mquina a vapor. Quando lhes estenderam as bandejas com a comida, ficou chocada 
por ele ter agarrado numa e atacado o po sem se preocupar com os quilos que estava a acumular.
- Sabe que no devia comer tanto - disse ela, batendo-lhe ao de leve na mo. - Vai ficar ainda mais gordo e, nessa altura, os bancos dos avies sero a menor das 
suas preocupaes.
De repente, o Gordo pareceu ficar desanimado e olhou lastimosamente para o po e manteiga que tinha nos dedos, enquanto Alba regressava  sua comida e  Vogue. Ele 
pousou o po e engoliu a bola de angstia que se lhe alojara na garganta.
Por fim, aterraram em Npoles. Parecia um aeroporto pequeno, embora estivesse demasiado escuro para ver grande coisa. A agente de viagens de Alba tinha-lhe reservado 
um hotel na cidade. Na manh seguinte, apanhava o comboio para Sorrento e, depois, um barco para Incantellaria. Ficou aliviada por se levantar e esticar as pernas. 
O Gordo desviou-se para a deixar passar, mas ela estava demasiado ocupada  procura do italiano bonito para lhe agradecer.
Viu-o dentro do aeroporto, enquanto esperavam ambos pela bagagem. Depois de olharem um para o outro umas quantas vezes, ela decidiu encoraj-lo mais um bocadinho 
e sorriu-lhe, antes de baixar os olhos, simulando pudor. Ele no demorou muito a perceber a mensagem e a vir ao seu encontro, para conversar. Enquanto se aproximava, 
avaliou-o apreciativamente. Era alto, com ombros largos e cabelo castanho-claro, que lhe caa sobre o rosto largo e anguloso. Os olhos eram verde-claros e profundos. 
Quando sorria, os ps de galinha tornavam-se mais escuros e davam-lhe um ar engraado e despreocupado.
- Vejo que est sozinha - disse ele, em ingls.
Ela gostou do seu sotaque, que era maravilhosamente extico depois de uma vida inteira a ouvir as variantes inglesas.
- Sim, estou - replicou, sorrindo-lhe. - Nunca estive em Itlia antes.
- Ento, seja bem-vinda ao meu pas.
- Obrigada. - disse ela, inclinando a cabea para um lado. - Vive em Npoles?
- No, estou aqui em trabalho. Vivo em Milo. - Olhou-a da cabea aos ps, sem tentar esconder a sua admirao. - Vai ficar num hotel?
- Sim, no Miramare.
- Que coincidncia! Eu tambm.
- A srio?
- Fico sempre l.  um dos melhores hotis da cidade. Podemos partilhar um txi. Como  a sua primeira vez em Itlia, permita-me que seja seu anfitrio e a leve 
a jantar fora.
Alba mal podia acreditar na sua sorte.
- Adoraria. No fim de contas, o que  que uma rapariga sozinha pode fazer em Npoles?
- O meu nome  Alessandro Favioli - disse, estendendo a mo.
- Alba Arbuckle. No soa to bem como o seu.  bvio que os meus pais no pensaram muito sobre a forma como as palavras iam soar juntas. A minha me era italiana.
- Devia ser muito bonita...
Alba sorriu, recordando o retrato.
- E era.
- Por que razo est c? No parece uma turista.
-  claro que no! vou a Incatellaria. 
- Oh!
- No me diga que tambm vai para l!
- No - riu-se ele. - Mas j ouvi falar. Um lugar mgico, foi o que me disseram. Cheio de milagres ridculos e de estranhos fenmenos sobrenaturais.
- A srio? Tais como?
- Bem, aparentemente, um dia, logo a seguir  guerra, as gentes da vila descobriram, ao acordar, que a praia estava coberta de cravos cor-de-rosa. Depois, a mar 
veio e levou-os.
- Acredita nisso?
- Oh, acredito que aconteceu. Mas no acredito que o mar os tenha trazido. Provavelmente, havia algum brincalho a rir-se  conta disso. O mais engraado  que o 
padre local declarou tratar-se de um milagre. Para que saiba, Itlia  assim, sobretudo Npoles. Est cheia de santos que sangram. Somos uns exagerados no que respeita 
 religio.
- bom, eu no sou nada religiosa, por isso so capazes de me lanar ao mar.
Ele voltou a olh-la da cabea aos ps com o seu ar indolente.
- No me parece, Alba. O mais provvel  santificarem-na e esculpirem-na em mrmore...
Dividiram um txi at ao hotel. Alba gostou das suas boas maneiras, a abrir-lhe a porta e a ajud-la a entrar e a sair. Ela tomou duche no seu quarto e trocou a 
roupa por um simples vestido preto, antes de ir ter com ele l abaixo,  entrada. Riu-se quando ele lhe beijou a mo. Cheirava intensamente a colnia de limo e 
ainda tinha o cabelo molhado.
- Est linda - disse ele.
- Obrigada - replicou graciosamente, percebendo de repente que no tinha pensado em Fitz desde que sara de Inglaterra. Acho que vou gostar de Itlia, pensou. - 
Os italianos so todos assim to encantadores?
- No,  claro que no. Se fossem, todas as mulheres da Europa viveriam em Itlia.
- Ainda bem. Gosto de sentir que tenho qualquer coisa que  nica.
- Eu tambm, foi por isso que reparei em si no avio.
- Que pena no termos ficado sentados juntos. Vim esmagada contra a janela por um homem gordo e guloso.
- O treze no  um nmero auspicioso.
- Pois no, mas tenho tido bastante sorte desde a, no tenho?
Ela sorriu-lhe com a sua arrogncia caracterstica e ele pareceu sucumbir, como todos os outros, aos seus olhos estranhamente claros.
Jantaram num pequeno restaurante na zona do porto, que tinha vista para o mar e para o Castelo de Sant' Elmo. Ele no queria falar sobre ele. Fez-lhe perguntas sobre 
a sua vida em Inglaterra.
- O meu pai  rico e estraga-me com mimos - disse ela. - Mas tenho uma madrasta execrvel, que cria porcos e monta a cavalo. Tem um grande rabo e uma grande voz, 
que usa para dar ordens s pessoas. Os meus meios-irmos so convencionais e desportistas, o produto, segundo receio, de uma unio pouco estimulante.
Ele achou-a divertida e riu-se da maior parte das coisas que ela disse. Enquanto ele fumava, depois de uma chvena de caf, Alba reparou que usava uma aliana em 
ouro no terceiro dedo da mo esquerda. Isso no a incomodou; na verdade, at a deixou encantada. Gostava de pensar que tinha o poder de afastar um homem da sua mulher.
Optaram por fazer o caminho de regresso ao hotel a p, para que Alba pudesse ver um bocadinho de Npoles. Estava uma noite quente e pegajosa. O ar estava parado 
e carregado. Alba admirou as ruas estreitas, as bonitas casas em tons claros, com varandas em ferro forjado e portadas, as molduras ornamentadas que lhes davam personalidade 
e encanto. A cidade tinha ganho vida com msica, risos, carros, buzinas e o aroma da boa comida italiana. A voz aguda e em staccato de uma me a repreender o filho 
elevou-se acima do pra-arranca dos motores, como o grito de um pssaro contra o bramido do mar. Havia homens de pele morena a conversarem nas vielas, com os olhos 
postos nas mulheres que por ali passavam. Embora no assobiassem  sua passagem, conseguia sentir os seus olhos a despi-la, a deix-la nua, camada por camada. Ela 
sabia que estava protegida por Alessandro e sentia-se agradecida por no ter de andar pela cidade sozinha. Deambulava por Londres como um pnei dcil; mas Npoles 
era como um cavalo de rodeo incontrolvel e enervava-a.
Chegaram ao hotel e Alessandro no esperou que Alba o convidasse para o seu quarto. Seguiu-a at ao elevador e ao longo do corredor.
- Est muito seguro de si mesmo - observou ela, mas o seu sorriso dizia-lhe que tinha razes para isso.
- Quero fazer amor contigo - murmurou. - No fim de contas sou s um homem.
- Suponho que sejas - suspirou com simpatia e rodou a chave na fechadura.
Antes que tivesse tido tempo de abrir a luz, j ele a fizera rodar e lhe beijava ardentemente a boca surpreendida. Pela primeira vez desde que tinham rompido, estava 
suficientemente distrada para no fazer comparaes com Fitz. Alis, nem pensou nele. Alessandro, consumido pelo desejo, empurrou-a contra a parede e enterrou o 
rosto no seu pescoo. Ela cheirou a sua colnia de limo, que se tinha misturado agora com a fragrncia natural da sua pele, e sentiu os plos rijos da sua barba 
contra a carne.
Ele passou-lhe as mos pelas pernas acima, at s ancas. O seu toque era forte e dominador, tirando-lhe a respirao com cada carcia. Ps-se de joelhos e levantou-lhe 
o vestido at  cintura, para lhe poder beijar e lamber a barriga nua com a lngua. No lhe permitia controlar nada; sempre que ela tentava reclamar um bocadinho 
do territrio perdido, ele tirava-lhe as mos e enterrava a cabea mais ainda na sua carne, provocando-lhe tais arrepios de prazer que no tardou a desistir da batalha 
e a sucumbir.
Fizeram amor cinco vezes, acabando completamente exaustos em cima da cama. Dormiram enrolados um no outro, mas a intimidade tinha desaparecido. A excitao da caa 
tinha terminado e Alba soube, mesmo enquanto dormia, que teria de o dispensar friamente na manh seguinte.

No sonhou com Fitz. No sonhou com nada. Mas, quando acordou, teve a certeza de que ainda estava no reino da fantasia, pois no reconheceu o quarto. Raios de luz 
entravam atravs das ranhuras das portadas. O som da cidade l fora penetrava no silncio sonolento do quarto, embora parecesse muito distante. Pestanejou e tentou 
situar-se. Tal como de costume, tinha bebido demais. Doa-lhe a cabea e a sensao que tinha nos braos e nas pernas era a mesma do que depois de submet-los a 
um exerccio intenso. Depois, lembrou-se de Alessandro e sorriu interiormente ao evocar o italiano endiabrado que conhecera no aeroporto. Virou-se,  espera de o 
ver na cama, mas esta estava vazia. Escutou se havia algum barulho na casa de banho, mas a porta estava aberta e a luz apagada. Tinha ido embora. Tanto melhor, pensou. 
Detestava quando eles impunham a sua presena mais tempo do que ela queria. Fisicamente, estava feita num caco. A ltima coisa que precisava era de fazer amor outra 
vez.
Olhou para o relgio, ao lado da cama. Ainda era cedo. S precisava de estar na estao s dez. Tinha tempo para um duche e para tomar o pequeno-almoo. Pensando 
melhor, resolveu pedi-lo ao servio de quartos. No queria encontr-lo na sala de jantar.
Depois do duche, durante o qual tirou o cheiro a limo, vestiu-se e ps as coisas na mala. Ao olhar o seu reflexo no espelho, recordou a excitao da noite anterior. 
Alessandro fizera-lhe bem. Pelo menos, tinha posto massa no seu corao partido e feito um remendo temporrio. Fizera com que deixasse de pensar em Fitz e passasse 
para um mundo de aventura mais extico, onde era livre de estar com quem quisesse, num lugar onde ningum a conhecia. Num momento de entusiasmo, decidiu que ia telefonar 
para o quarto de Alessandro para lhe agradecer. No fim de contas, ele tinha-lhe proporcionado um prazer enorme. Talvez pudessem tomar o pequeno-almoo juntos; assim, 
pelo menos, no teria de comer sozinha.
Telefonou para a recepo.
- Gostava que me ligasse a Alessandro Favioli - pediu, com voz arrogante. Houve uma pausa, enquanto a recepcionista procurava no livro. - Alessandro Favioli - repetiu 
Alba. - Meu Deus, nem sequer percebem a sua prpria lngua, pensou irritada.
- Receio que no haja ningum com o nome Favioli neste hotel.
-  claro que h. Jantei com ele ontem  noite.
- No h nenhum Signore Favioli.
- Veja outra vez. Chegmos juntos ontem  noite e, depois, regressmos juntos, a seguir ao jantar. com certeza que o viu!
- Eu no estava de servio ontem  noite - informou a recepcionista friamente.
- Ento, pergunte  sua colega. Eu no o inventei...
- Sabe qual  o quarto em que ele est? - perguntou ela, comeando a ficar impaciente.
-  claro que no, por isso  que estou a telefonar para a! - retorquiu Alba. - Talvez j se tenha ido embora.
A mulher repetiu-se com uma delicadeza forada:
- No esteve ningum com o nome de Favioli neste hotel. Lamento
De repente, Alba sentiu-se maldisposta. Pensando bem, era demasiada coincidncia ele ter reserva para o mesmo hotel. Alm disso, tambm no a tinha convidado para 
ir ao seu quarto. Na altura, no tinha achado estranho, mas agora parecia um bocadinho esquisito. com o corao suspenso, abriu a malinha de mo e remexeu l dentro, 
 procura da carteira. Isto deve ser uma brincadeira, pensou, sentindo-se como se estivesse a nadar contra uma corrente forte. A carteira no estava l dentro. Engoliu 
em seco, virando desesperadamente a mala de pernas para o ar, para que todo o seu contedo casse em cima da cama. Ficou aliviada ao ver que ainda tinha o passaporte, 
mas o dinheiro desaparecera. Ele tinha-lhe tirado a carteira, que continha todos os seus traveller's cheques e liras. Como raio ia pagar agora a conta do hotel, 
o comboio, isto j para no falar no barqueiro para a levar para Incantellaria?
Deixou-se cair na cama. Filho-da-me. Usou-me e, depois, roubou-me. Tinha tudo planeado, o estupor. E eu ca como um patinho. Sentia-se demasiado zangada para chorar 
e demasiado envergonhada para telefonar fosse a quem fosse, em Inglaterra, a admitir a sua estupidez. Ia ter de se safar sozinha.
Como no tencionava pagar a conta, pensou que, pelo menos, ia tomar um bom pequeno-almoo. Alm disso, precisava de comer o mais que pudesse, pois no tinha dinheiro 
para comer depois. Ia tirar uns quantos pezinhos do bufete.
L em baixo, cumprimentou a recepcionista com o tom mais cordial que conseguiu e dirigiu-se de forma confiante para a sala de jantar. Sentou-se numa mesinha no meio 
da sala e pediu caf, sumo de laranja, croissants, torradas e salada de frutas. Enquanto observava os outros hspedes, comeou a sentir-se cada vez mais sozinha. 
No tinha amigos em Itlia. Ningum. E se a famlia se tivesse ido embora de Incantellaria? E se ela andasse atrs de uma iluso? No tinha dinheiro. Ia levar alguns 
dias at que fosse transferido para um banco, em Incantellaria. No estava preparada para ficar em Npoles, no fosse dar-se o caso de dar outra vez com Alessandro. 
Lembrou-se dos homens de ar sinistro que lhe tinham lanado olhares lbricos nas vielas escuras por onde andara na noite anterior e, de repente, sentiu-se exposta 
e vulnervel. Era como se ele tambm lhe tivesse roubado as roupas, de to nua e perdida que se sentia.
Subitamente, para seu grande alvio, viu o Gordo sentado sozinho na outra ponta da sala de jantar.
com uma onda de afecto pela pessoa que anteriormente desprezara, foi at  sua mesa. Ela no reparou na expresso horrorizada do seu rosto quando a viu. Baixou os 
olhos para o seu po, j barrado com manteiga e a escorrer geleia de morango, e tentou escond-lo debaixo da mo sapuda. Ela sentou-se e ps os cotovelos sobre a 
mesa.
- Espero que no se importe que lhe faa companhia - disse ela na voz mais doce que conseguiu. Olhou para ele com olhos grandes e inocentes. - Fui roubada. Um italiano 
roubou-me tudo: o dinheiro, as roupas, o passaporte, o bilhete de regresso, tudo. O senhor  a nica pessoa que conheo em toda a Itlia. Alis, em toda a Europa! 
Permita-me o atrevimento de lhe pedir um enorme favor. Ser que me pode emprestar algum dinheiro? Apenas o suficiente para chegar a Incantellaria? Eu fico com a 
sua morada e depois pago-lhe com juros. Ficava-lhe to agradecida. - Sorriu-lhe e acrescentou: - No pare de comer por minha causa...
O Gordo reflectiu longamente na atitude a tomar. Depois, de repente, num gesto violento que fez Alba encolher-se de horror, enfiou o po inteiro dentro da boca. 
Ela tentou disfarar a repulsa, enquanto ele o mastigava lenta e deliberadamente, com a manteiga a sair por entre os lbios e a escorrer sobre a srie de queixos 
sucessivos que lhe desciam da boca. Por fim, limpou a boca com um guardanapo.
- Delicioso! - exclamou. - Tenho de pedir mais!
Alba comeou a perder a esperana. Lembrou-se envergonhada que, para alm de ter sido mal-educada com ele no avio, tambm fora imperdoavelmente insultuosa. Por 
que motivo havia ele de fazer alguma coisa por ela?
- No faz mal - balbuciou. - Desculpe t-lo incomodado.
- No devia dar conversa a estranhos nos aeroportos - disse ele, ganhando confiana. - Ser roubada  a menor das suas preocupaes...
Alba ficou de boca aberta.
- Desculpe?
- Ouviu-me bem. De que  que est  espera? Ser que no tem nenhum sentido de decoro ou  assim to fcil com todos os homens que se oferecem para lhe pagar o jantar? 
Na verdade - disse ele, com evidente prazer em humilh-la - se me chupar o dito, pago-lhe a viagem de regresso!
Alba esboou um movimento de recuo, levantou-se e saiu da sala de jantar o mais depressa que as suas pernas trmulas lhe permitiram.
De volta ao quarto, explodiu em fria, pontapeando a cama e o guarda-roupa e tudo o mais que conseguia atacar com o p. Que grosseiro! Que canalha! Como  que se 
atrevera?
Mas a autocomiserao no condizia com ela. Recomps-se e endireitou as roupas. Fria e vingana eram, como sempre, as suas melhores opes. No podia pagar a conta 
e no tinha ningum que o fizesse por ela. S havia uma coisa a fazer. Em caso de dvida, o melhor era fugir.

Arrastou a mala pelo corredor, entrou no elevador e foi at ao primeiro andar. Depois, procurou uma janela adequada. Encontrando uma num recanto escuro, onde a lmpada 
estava fundida, atirou a mala para a rua das traseiras e, a seguir, saltou atrs dela. No parou de correr at chegar  estao. '



CAPTULO DEZANOVE

Alba chegou  estao sem flego, mas inesperadamente triunfante. Sentia-se como se tivesse cometido um homicdio e se tivesse safado sem punio. Pensou no que 
faria o gerente do hotel quando descobrisse a conta por pagar e o quarto destrudo. Na altura em que conseguisse descobrir-lhe o rasto, j ela estaria a quilmetros 
de distncia. Um rosto annimo entre milhares. Olhou  sua volta. As mulheres italianas tinham todas pele cor de azeitona e cabelo castanho, como ela. No se via 
uma nica loira. Ela integrava-se perfeitamente no conjunto. Ningum a olhava fixamente, como se fosse estrangeira. Para falar a verdade, ningum olhava para ela. 
O receio que tivera dos homens predadores, escondidos nas vielas e a rondarem s portas dos bares, desapareceu. Houve um ou dois que lhe sorriram calorosamente e 
os seus olhos percorreram admirativamente as suas pernas morenas e o vestido amarelo, sem mangas. Mas no eram ameaadores, apenas apreciativos. Ela estava habituada 
a esse tipo de interesse benigno e gostava dele. No entanto, tinha um enorme problema prtico para resolver. Pretendia apanhar o comboio para Sorrento e, depois, 
um barco para Incantellaria, mas no tinha dinheiro. Estava prestes a retribuir um dos sorrisos, na esperana de conseguir que um daqueles homens simpticos lhe 
emprestasse o dinheiro, mas as palavras duras do Gordo estavam agora gravadas na sua alma: "Se me chupar o dito, pago-lhe a viagem de regresso!" Corou de vergonha 
e desviou o olhar, estugando o passo.

O prximo comboio para Sorrento partia dentro de catorze minutos. Encontrou a plataforma e, depois, vigiou a porta de acesso como um ladro de comboios. O funcionrio 
que verificava os bilhetes era um jovem baixo e escanzelado, com um tique nervoso. De poucos em poucos segundos, todo o seu rosto desaparecia num monumental piscar 
de olhos. De repente, Alba sentiu uma onda de compaixo. Pouco habituada quela emoo, todo o seu corpo se eriou, como se estivesse a experimentar uma nova pele. 
Tal como o Gordo, aquele jovem funcionrio era demasiado fcil de intimidar. Ela gostava que ele fosse alto, forte e competente, pois pelo menos assim no se sentiria 
to mal por estar a engan-lo. Os passageiros iam ter com ele, a conversarem uns com os outros, enquanto ele picava os seus bilhetes. Recuavam horrorizados com o 
seu tique nervoso ou riam  socapa, com a mo  frente da boca. No se davam ao trabalho de retribuir a sua educada saudao. Alguns nem sequer murmuravam um obrigado. 
Alba acendeu um cigarro e sentou-se em cima da mala. Sabia o que ia fazer. Normalmente, este tipo de charada t-la-ia divertido. Mas no hoje. Vinha-lhe  ideia 
o rosto trocista de Alessandro Favioli e a sugesto obscena do Gordo ecoava nas paredes fragilizadas da sua conscincia. O seu esprito foi inundado por uma profunda 
averso por si mesma.
Muito bem, agora  o teu momento, Alba! Aproveita essas lgrimas e usa-as bem. Apagou a ponta do cigarro e dirigiu-se ao funcionrio com tiques.
Quando Alba se aproximou, o rosto do jovem contorceu-se de forma descontrolada. No foi tanto a sua beleza que o impressionou, mas mais a dimenso da sua dor. Ela 
estava inconsolvel. O seu lindo rosto estava vermelho e manchado, os ombros descados estremeciam a cada soluo.

- Peo desculpa - fungou ela, passando um leno de papel hmido pelas faces. Depois, levantou os olhos e ele deu um passo para trs. Eram de um cinzento clarssimo, 
como cristais raros e sedutores, e to intensos que ele ficou desorientado. - O meu namorado deixou-me disse num gemido. O funcionrio pareceu ficar espantado e, 
subitamente, o seu rosto deixou de se contorcer. - Ele j no me ama, por isso vou-me embora de Npoles. No posso viver nesta cidade, sabendo que a pessoa que me 
destroou o corao tambm vive aqui, respira o mesmo ar, percorre os mesmos passeios... Compreende, no  verdade? perguntou, ao mesmo tempo que se esticava e lhe 
punha uma mo no brao. O seu estratagema estava a funcionar maravilhosamente. O rosto do rapaz exibia uma expresso de profunda compaixo e, por um momento, ela 
esqueceu-se de si. Parou de chorar e sorriu-lhe. - Tem um rosto muito bonito - disse com sinceridade, pois agora, que o conseguia ver convenientemente, percebia 
que ele ainda era um rapazito e, de facto, bem-parecido. Ele corou, mas no desviou o olhar.
- Grazie, signora - respondeu, por fim, numa voz suave e tmida. Ela agarrou-lhe o brao com os dedos.
- Eu  que agradeo - disse Alba de forma eloquente, antes de descer apressadamente a plataforma, de corao leve por saber que se tinha safado sem ter de mostrar 
um bilhete, mas tambm pelo facto de o seu esquema no o ter humilhado. Ela tinha-o feito feliz. O mais estranho era que a bvia alegria que ele sentira tambm a 
contagiara de felicidade.
Alba aprendera uma lio valiosa: as pessoas usavam os seus corpos como casacos. Quer fossem feias ou bonitas, gordas ou magras, calmas ou com tiques, por baixo 
todas eram seres humanos vulnerveis, merecedores de respeito. Depois, lembrou-se de algo que Fitz uma vez lhe dissera: "Se olhares com persistncia suficiente, 
vais encontrar beleza e luz nos lugares mais feios e tenebrosos." Alba percebeu que raramente o fazia.
Ps a mala na prateleira destinada  bagagem, ao fundo da carruagem, e depois encontrou um lugar junto  janela. Quando o revisor aparecesse, explicaria simplesmente 
que devia ter deixado cair o bilhete na plataforma. Se no tivesse bilhete, era bvio que no a teriam deixado passar na porta de acesso...
Dois homens jovens e atraentes ocuparam os lugares frente ao seu e colocaram sanduches e bebidas na mesa que os separava. Quem lhe dera ter trazido um livro... 
A ltima vez que lera um livro inteiro tinha sido na escola: Emma, de Jane Austen, e tinha sido uma luta to grande que ainda se lembrava uma dcada depois. Tirou 
relutantemente para fora a Vogue j muito manuseada que lera no avio e folheou-a displicentemente.
No passou muito tempo at que os jovens tentassem meter conversa. Normalmente, teria ficado contente por falar com eles, mas hoje a sua ateno ofendia-a. Teria 
um ar assim to receptivo? To fcil?
- Quer uma bolacha? - perguntou o primeiro.
- No, obrigada - respondeu, sem sorrir.
O primeiro olhou para o segundo,  procura de apoio. Este fez um aceno de cabea.
- Qual  a sua nacionalidade? - insistiu.
Ela sabia que o sotaque a denunciava. Depois, teve uma ideia e esboou um sorriso.
- Sou inglesa, casada com um italiano - retorquiu, inclinando-se para a frente e lanando-lhes um olhar tmido, a coberto das suas pestanas. -  to agradvel conversar 
com dois jovens to bem-parecidos Sabem,  que o meu marido j  velho. Oh, ele  rico e poderoso e d-me tudo o que eu quero. Vivo num grande Palazzo. Tenho casas 
em todo o mundo, criadagem suficiente para afundar um paquete e inmeras peas de joalharia. Mas no que toca ao amor, bem, como j disse, ele  velho...
O mais atrevido fez sinal ao outro com o cotovelo, todo excitado. Ambos se remexeram nos seus lugares, mal conseguindo conter o seu desejo, enquanto contemplavam 
aquela jovem atiradia cujo marido era demasiado velho para fazer amor com ela.
Depois, lembrando-se que estava numa carruagem de segunda classe, Alba acrescentou:
- s vezes, gosto de viajar annima. Gosto de andar com pessoas normais. Por isso, deixo o carro e o motorista na estao e apanho o comboio. Encontram-se pessoas 
fascinantes nos comboios e,  claro, desta forma fico fora do alcance do meu marido.
- O que precisa  de dois jovens que lhe dem aquilo que o seu marido no pode - disse o primeiro, mais arrojado agora, mas falando a meia voz, com um olhar carregado 
de inteno.
Ela avaliou-os lentamente com os olhos semicerrados, tirou um cigarro do mao, colocou-o entre os lbios e acendeu-o. Quando expeliu o fumo, voltou a inclinar-se 
para a frente, colocando os cotovelos sobre a mesa.
- Hoje em dia tenho mais cuidado - disse ela em tom casual. O ltimo amante que tive ficou sem tomates. - Os dois homens ficaram lvidos. - Tal como disse, o meu 
marido  poderoso, muito poderoso, e alm disso  muito possessivo. Gosta de guardar tudo o que tem s para si. Mas eu gosto de correr riscos, gosto do desafio, 
d-me prazer. Percebem?
Fizeram que sim com a cabea, de boca aberta. Alba ficou aliviada quando eles saram na paragem seguinte, com a garganta demasiado seca para lhe dizerem adeus.
Quando o revisor apareceu, usou todo o seu encanto.
- Tenho de confessar que perdi o bilhete - disse, sorrindo com ar envergonhado. - Lamento imenso, sinto-me to intil, mas aquele rapaz com o tique - o revisor acenou 
em sinal de reconhecimento quando ela imitou a forma como ele piscava os olhos - estava to distrada a falar com ele, ele era to simptico e eu estava com tanta 
pena dele, que, quando me devolveu o bilhete, devo t-lo deixado cair na plataforma.  claro que no me importo nada de comprar outro. - Comeou a remexer a mala, 
na esperana de que ele a mandasse parar, antes de ter de inventar outra histria sobre ter perdido a carteira, o que era capaz de ultrapassar os limites da sua 
simpatia.
- Por favor, signora - disse ele amavelmente. - O Michele  um bom rapaz, mas um pouco simplrio. Provavelmente, esqueceu-se de lho devolver. - Depois,  maneira 
da maior parte dos homens que encontrava, esforou-se por levar a sua generosidade um bocadinho mais longe. - Se a sua mala estiver pesada, por favor, permita-me 
que a ajude a lev-la para fora do comboio.
- Obrigada - replicou, sabendo que, se recusasse a oferta, iria ferir o seu orgulho. -  muita amabilidade da sua parte. Por acaso, tenho uma mala pesada e, como 
pode ver, no sou assim muito forte.
Depois de se deixar ficar mais tempo do que o necessrio, o revisor continuou o seu caminho, assegurando a Alba que voltaria no final da viagem para a ajudar a descer. 
Quando ele se foi embora, olhou l para fora, pela janela.
Pensou em Fitz. Corou ao recordar o seu beijo, a intimidade do seu beijo. Tinha sido como danar um slow depois de um twist frentico. Quase fora uma coisa excessiva, 
excruciantemente lenta e terna. Retesara todos os nervos do seu corpo e forara-a a sentir. A sentir realmente, e no a fingir. Para ele, tinha sido to natural 
essa coisa de sentir; para ela, fora embaraoso, depois divertido e, por fim, quase doloroso.
O campo cintilava por entre a neblina que o sol quente do final da manh provocava. Os ciprestes altos erguiam-se com o calor e casas cor de areia abrigavam-se  
sombra dos pinheiros e cedros. Alba queria pr a cabea de fora da janela para cheirar o ar, como Sprout fazia na parte de trs do Volvo de Fitz. Ela tinha imaginado 
aquelas fragrncias durante toda a vida. Tinha visto a Itlia em filmes, mas nada a podia ter preparado para a beleza dolorida do pas. Era apropriado que a me 
tivesse vindo daquele paraso terrestre, pois na ideia de Alba ela personificava todas aquelas qualidades; o seu esprito movia-se entre as abundantes buganvlias, 
olivais e pesadas videiras.
O comboio chiou nos carris at parar em Sorrento. Tal como prometera, o revisor voltou para ajudar Alba com a sua mala. Desejoso de agradar, puxou a mala ao longo 
da plataforma at  rua e depois despediu-se.
A cidade estava agitada. As pessoas passavam, embrenhadas nos seus pensamentos, indiferentes  jovem que ali estava, desorientada e com o estmago contrado de fome. 
Os edifcios eram brancos, amarelos e vermelhos, com as portadas fechadas para manter as casas frescas, as janelas do rs-do-cho protegidas por grades de ferro 
e as portas grandes, fechadas e pouco hospitaleiras. Embora bonito, havia qualquer coisa de desagradvel naquele lugar.
Por fim, a rua abria-se sobre a beira-mar. Os barcos andavam na gua, de um lado para o outro, ou tinham sido arrastados at  praia. A areia molhada era castanha, 
como gravilha, e as pessoas andavam tranquilamente pelo cais, a desfrutar o sol. Alguns restaurantes e lojas cujo contedo se estendia pelos passeios e o cheiro 
a tomates e cebolas assados transportado pela brisa. Ela sentiu o estmago a roncar e a boca a salivar. Apetecia-lhe um copo de gua. Na sua fria, no tinha pensado 
em roubar alguns mantimentos do minibar do hotel. Quanto mais pensava em comida e bebida, mais esfomeada e sequiosa ficava.
No se entregou  autocomiserao, como teria tido a tentao de fazer, se a sua vontade estivesse debilitada. A autocomiserao nunca levava ningum a lado nenhum 
e ela desprezava as mulheres que apareciam nos filmes mergulhadas em pranto. J tinha chegado at ali; com um bocadinho de charme, era capaz de conseguir chegar 
a Incantellaria. Deixando a mala no cais, reuniu coragem e foi ter com um velho pescador mirrado que andava de um lado para o outro no seu barco. Quando se aproximou, 
o cheiro a peixe invadiu-lhe as narinas e foi tomada por uma onda de nusea.
- Desculpe - disse, sorrindo docemente. O velhote olhou para cima, mas no sorriu. Na verdade, parecia bastante irritado por ter sido perturbado. - Preciso de chegar 
a Incantellaria - declarou Alba, e ele olhou-a de forma inexpressiva.
- No posso lev-la - replicou, abanando a cabea, como se ela fosse uma mosca inoportuna de que ele se queria ver livre.
- Conhece algum que possa faz-lo?
Ele encolheu os ombros, sem nada adiantar, levantando as palmas das mos para o cu.
- O Nanni Baroni leva-a - disse, aps um momento de reflexo.
- Onde  que o posso encontrar?
- Ele s volta ao pr do Sol.
- Ento, mas no  aqui perto da baa? No h barcos a ir para l a toda a hora?
- Por que razo algum havia de querer ir para Incantellaria?
Alba ficou confusa.
- No  uma cidade grande, como esta?
Ele riu-se cinicamente.
-  um pequeno lugar esquecido. Est como que adormecido e sempre esteve. Por que razo algum havia de querer ir para Incantellaria? - repetiu.
A agente de viagens de Alba tinha dito especificamente que ela devia apanhar um barco e deixara implcito que havia barcos para l a toda a hora, como os comboios 
de Basingstoke para Londres. Resmungou, irritada, a meia voz. Por um segundo, ficou desorientada. Tinha a certeza que deixara a mala ao lado do poste. Perplexa, 
olhou  sua volta. No estava em lado nenhum. Uma vez mais, no curto espao de vinte e quatro horas, sentiu o afluxo revoltante do sangue  cabea, as fortes palpitaes 
nos ouvidos, a sensao vertiginosa no estmago e a angstia, ao perceber, incrdula e horrorizada, que tinha sido novamente roubada. Agora, no tinha nada, a no 
ser a mala de mo com o batom, o dirio, uma Vogue algo amarfanhada e, graas a Deus, o seu passaporte.
- Merda! Algum me roubou! - exclamou em ingls, gritando as palavras no ar pesado da tarde. Bateu com os ps e agitou os braos junto  cabea. - Arrrrrrgh! Odeio 
este pas de merda! Odeio a merda dos italianos! Isto no  uma nacionalidade,  uma profisso. Ladres! Todos vocs! Mas porque  que eu vim? Esta merda tem sido 
um desastre, uma perda de tempo! Arrrrrrgh!
De repente, ouviu a voz amvel e paciente de um homem e sentiu uma mo calorosa sobre o ombro.
- Ainda bem que est a praguejar em ingls! - disse ele com um sorriso. - Caso contrrio, ainda passava a tarde na priso!
Ela lanou-lhe um olhar furioso.
- Acabei de ser roubada! - exclamou irritada, lutando contra as lgrimas. - Algum me levou a mala. Roubaram-me o dinheiro em Npoles e agora a mala neste maldito 
fim de mundo!
-  bvio que nunca c tinha estado - disse ele com simpatia agora srio para no a ofender. - Tem de guardar as suas coisas com a prpria vida.  inglesa?
- Sim. Em Londres, podemos deixar as Jias da Coroa no meio de Piccadilly Circus, ir almoar, fazer compras em Bond Street, passear no Hyde Park, tomar ch no Ritz, 
uma bebida no Connaught, que, s seis da tarde, elas ainda l estaro no mesmo stio. - No era rigorosamente verdade, mas soava bem. - Agora, no tenho nem dinheiro, 
nem roupas! - disse, sentindo-se ainda mais infeliz ao pensar nas maravilhosas roupas que perdera. - Preciso de ir para Incantellaria e no consigo encontrar uma 
nica pessoa que me leve. O Nanni Baroni est em casa a dar uma queca com a "patroa", ou coisa assim, e s volta l para as seis, raios o partam! O que  que eu 
hei-de fazer at s seis, hum? Nem sequer posso comprar a porcaria de uma sanduche!
- Mas por que diabo quer ir para Incantellaria?
Ela lanou-lhe um olhar furioso e os seus olhos cinzento-claros transformaram-se em pedra.
- Se mais alguma pessoa me fizer essa pergunta, dou cabo dela!
- Olhe - sugeriu ele, com um sorriso. - Porque  que no me deixa oferecer-lhe o almoo e, depois, eu mesmo a levarei a Incantellaria? Eu tenho um barco.
- E por que razo hei-de confiar em si?
- Porque j no tem mais nada a perder - replicou, encolhendo os ombros, pondo-lhe a mo nas costas e guiando-a para o restaurante.
Enquanto bebiam um copo de rose, Gabriele Ricci explicou que vivia em Npoles, mas passava o Vero na costa, com a famlia, que tinha uma casa ali.
- Passo aqui as frias desde mido, mas nunca tinha encontrado uma mulher assim to encantadora...
Alba revirou os olhos.
-No quero que me digam que sou bonita ou encantadora. Estou com os italianos at aqui! - disse, pondo a mo no pescoo.
- Os ingleses no apreciam mulheres?
-  claro que sim, mas em silncio.
- Ou ser que aqueles colgios internos para onde mandam os filhos os encorajam a gostar de homens?
-  claro que no. Os homens ingleses so lindos e atenciosos.
Pensou em Fitz. Nunca se teria metido naquela trapalhada se ele tivesse tido a decncia de a acompanhar.
- Ainda mal acabou de pr os ps no meu pas e, contudo, j est a ser cnica. ,'
- Fui roubada por um italiano bem-parecido, igual a si. Para onde quer que v, os homens tentam fazer-se a mim. Estou farta de ser tratada como um objecto sexual. 
Estou farta de ser roubada!
- Pelo menos, est inteira! - disse ele tranquilizadoramente.
- No sabe da missa a metade.
- Ento, como  que conseguiu chegar aqui sem dinheiro?
-  uma longa histria.
- Temos a tarde toda.
- Bem, se me der outro copo de vinho, parar de dizer que sou bonita e prometer que no vai tentar engatar-me, roubar-me ou matar-me a caminho de Incantellaria, eu 
conto-lhe.
Ele esfregou o queixo, a brincar, reflectindo sobre as suas condies.
- No posso negar que  linda, mas  muito mal-educada. E tambm diz palavres a mais para uma senhora. No vou roub-la porque j no tem nada para roubar. No 
sou um assassino. No entanto, no posso prometer que no v tentar engat-la, sou italiano!
- Oh, meu Deus! - suspirou Alba com ar melodramtico. - Fazei com que recupere todas as minhas foras, para poder recusar com energia...
Em condies normais, Alba teria reparado nas atraentes rugas que se formavam  volta da boca quando ele se ria e nos olhos verde-claros que brilhavam de malcia 
e afabilidade, mas agora estava mergulhada numa espcie de torpor.
Partilharam uma refeio simples, ao sol, e o vinho suavizou a sua fria e deu-lhe uma falsa sensao de optimismo. Contou a sua aventura, omitindo o Gordo e a sua 
sugesto indecente, assim como a noite de paixo com o estranho que conhecera no aeroporto, de que agora se sentia profundamente envergonhada. O bvio divertimento 
de Gabriele encorajou-a a elaborar ainda mais as coisas, at a sua histria se transformar numa obra de fico, de que Vivien Armitage se teria orgulhado.
Por fim, enquanto bebericavam limoncello, ele perguntou-lhe outra vez por que razo ia para Incantellaria.
- Porque a minha me viveu e morreu ali - replicou. - Nunca a conheci, pois ela morreu pouco depois de eu nascer. Quero encontrar a famlia dela.
- No me parece que v ter grande dificuldade, se eles ainda l morarem.  um lugar pequeno. Suspeito que no tenha mais de duas mil pessoas.
- Porque  que ningum vai l?
- Porque no h nada para fazer.  um lugar muito pacato, um recanto esquecido de Itlia. Mas  muito bonito e muito diferente do resto da costa. Dizem que  encantado.
- Cravos - disse ela com um sorriso. - J me contaram.
- E esttuas que choram. J l estive muitas vezes. Quando quero estar sozinho, vou para l. Faz bem  alma. Se quisesse desaparecer, tambm ia para l - acrescentou, 
com um sorriso forado. - Espero que no desaparea...
- Lembre-se da sua promessa - disse ela friamente.
- Olhe, se quando l chegar descobrir que precisa de dinheiro para vencer alguma dificuldade, eu empresto-lhe o que precisar. At lho dava, mas sei que no iria 
aceitar. Considere-me um amigo num lugar estranho. Prometo que pode confiar em mim - disse ele, tocando-lhe no brao nu. A sua mo era quente e inesperadamente tranquilizadora.
- Leve-me s para Incantellaria - disse, pondo-se de p. A mo dele caiu sobre a mesa. Depois, Alba virou-se para ele e o seu rosto enterneceu-se. - Amigo.


CAPTULO VINTE

Sabia bem estar ao leme de uma lancha rpida. O vento passava-lhe atravs do cabelo, com dedos frescos e enrgicos, levando consigo o seu desespero. O barco saltava 
ao cortar as ondas e Alba teve de se agarrar para no saltar borda fora. Ali, com o sol a bater-lhe no rosto e uma sensao irreprimvel de optimismo a encher-lhe 
o peito, no havia no mundo nada que a preocupasse.
Gabriele sorriu-lhe, comprazendo-se com aquela estrangeira encantadora, que perdera tudo no seu pas. Apontou para os rochedos que se erguiam no mar, como as muralhas 
de uma fortaleza impenetrvel, e explicou que Incantellaria era um lugar completamente isolado, como se Deus tivesse tirado uma pequena fatia de paraso e a tivesse 
colocado no meio daquele terreno implacvel. "A sua beleza  bastante inesperada", dissera, quando o barco passava por enseadas sucessivas de dura rocha cinzenta.
Era mais longe do que Alba imaginara. Pensava que ficava mesmo ao p de Sorrento.
- Se as coisas correrem mal - gritou Gabriele, para se fazer ouvir com o rugido do vento, e como que lendo os seus pensamentos - venho c busc-la. S tem de telefonar.
- Obrigada - respondeu com gratido.
Comeava a sentir novamente alguma inquietao. Era bvio que Incantellaria ficava isolada de Itlia, mas tambm do resto do mundo. O sol escondeu-se atrs de uma 
nuvem solitria e o mar escureceu ameaadoramente, reflectindo os seus medos mais ntimos. E se a famlia tivesse morrido toda ou mudado de lugar? Estaria a perseguir 
uma iluso? No conseguia suportar a ideia de voltar para casa sem ter resolvido nada.
Quando Gabriele ps uma mo tranquilizadora sobre a dela, a nuvem deslocou-se e o sol voltou a brilhar. O barco contornou uma grande parede de rocha negra, por detrs 
da qual a costa se abria inesperadamente, como a tampa de um tosco ba do tesouro, para revelar uma baa esplendorosa e verdejante.
Para Alba, foi amor  primeira vista. A terra assimilou-a e encheu-lhe a alma. A prpria forma da linha da costa era to harmoniosa como a curva suave de um violoncelo. 
As casas brancas reluziam sob a luz ofuscante e as suas varandas em ferro forjado estavam cheias de gernios vermelhos e rosa. A cpula da capela erguia-se sobre 
os telhados cinzentos, onde as pombas pousavam para ver a azfama dos pescadores. O corpo de Alba tremeu de excitao. Certamente tinha sido ali, naquela pequena 
capela, que os pais tinham casado. Sem sequer ter ainda posto os ps em terra, sentiu que a histria do seu amor era finalmente tangvel.
Levantou os olhos para as colinas cor de esmeralda que ficavam l ao fundo, onde os pinheiros contorciam os seus dedos verdes e pontiagudos e as runas de uma velha 
torre de vigia continuavam a perfilar-se, orgulhosas e dignas, aps sculos de abandono. Inspirou os delicados aromas a alecrim e a tomilho trazidos pelo vento, 
juntamente com a lufada de mistrio e aventura.
-  lindo, no ? - disse Gabriele, abrandando o barco para o deixar entrar suavemente no porto.
- Tem razo.  completamente diferente do resto da costa.  to verde, to vibrante!
- S quando se v o lugar  que se percebe que, provavelmente, os seus habitantes no estranharam o milagre dos cravos. Seria inslito em qualquer outra parte do 
mundo, mas aqui, imagina-se que essas coisas estejam sempre a acontecer...
- J sinto que  a minha casa - disse Alba, numa voz serena. - Sinto aqui - acrescentou, pondo uma mo sobre o corao.
- At admira no se ter transformado numa atraco turstica, com restaurantes, bares e clubes. H alguns,  claro, mas no  exactamente Saint-Tropez.
- Ainda bem que no  Saint-Tropez, porque vai ser o meu lugar secreto.
Os seus olhos encheram-se de lgrimas. No admirava que o pai e o Bfalo nunca a tivessem levado at ali; sabiam que a iriam perder para sempre.
Gabriele rumou ao porto. Quando acostava s paredes do cais, um rapazinho veio a correr para amarrar a corda ao molhe, com o rosto redondo a brilhar de excitao. 
Gabriele atirou-lhe a corda, que ele apanhou com um guincho triunfante, gritando para os amigos virem juntara-se  diverso.
-  bvio que no recebem muitos visitantes - comentou Gabriele. - Acho que vamos provocar alguma agitao.
Alba desembarcou e ficou de p, de mos nas ancas, a olhar com prazer  sua volta. De perto era ainda mais encantador, como recuar no tempo at uma era mais lenta 
e pitoresca. Os pescadores estavam sentados nos barcos, a conversar uns com os outros, enquanto remendavam as redes e esvaziavam o arrasto do dia em barricas. Lanaram 
olhares circunspectos na sua direco, por baixo das sobrancelhas hirsutas. Um grupo de rapazinhos tinha-se agora reunido  volta dela, arrastando os ps, acotovelando-se 
uns aos outros e rindo por detrs de mos imundas. Havia mulheres a tagarelar  porta das lojas e viam-se algumas pessoas a beber caf, por baixo dos toldos s riscas 
que protegiam do sol os bares e restaurantes. Todos olhavam com curiosidade para o jovem casal.
Gabriele saltou para o cais e ps-lhe a mo nas costas.
- Vamos tomar qualquer coisa. Depois, vamos encontrar um stio onde ficar. No posso deix-la aqui a dormir na praia.
- Deve haver um hotel, com certeza - disse ela, olhando  sua volta.
- Uma pequena pensione.  tudo. )
Um por um, os rostos dos pescadores ficaram paralisados ao verem a beleza arrepiantemente familiar da jovem que ali desembarcara. Como velhas tartarugas, esticaram 
o pescoo e deixaram cair o queixo, boquiabertos de espanto, revelando as suas bocas desdentadas. Alba no levou muito tempo a dar por isso. At Gabriele se sentiu 
inquieto. Um murmrio silencioso parecia reverberar na povoao.
De repente, um velhote, atarracado e gordo como um sapo, saiu do interior escuro da Trattoria Fiorelli e ficou  porta, a coar a virilha. Sob as pesadas plpebras, 
os seus olhos pousaram em Alba e a parede baa das cataratas ganhou um brilho invulgar. Soltou um suspiro abafado, que vinha mesmo l do fundo do peito, e parou 
de se coar. Alba, agora assustada com o estranho silncio que tomara conta da vila, agarrou na mo de Gabriele.
- Valentina! - exclamou o homem, esforando-se por respirar.
Alba virou-se e ficou a olhar para ele, como se acabasse de ter dado vida a um fantasma. Depois, um homem de uns sessenta anos, de aspecto melanclico e fsico formidvel, 
saiu de trs dele. Veio at onde Alba ficara especada, com as pernas a tremer. Coxeava ligeiramente, mas isso no lhe abrandou o passo. A sua expresso era sombria, 
como se o sol tivesse sido tapado por uma nuvem.
Quando chegou ao p dela, pareceu no saber o que dizer e foi Gabriele quem falou primeiro.
- Onde  que podemos arranjar uma bebida, por aqui? - perguntou.
Os seus olhos desviaram-se do homem para os pescadores, que tinham todos saltado dos barcos e formavam agora um crculo  sua volta.
- O meu nome  Falco Fiorelli - disse Falco, em voz baixa. - Voc... voc... - no sabia como dizer aquilo, parecia absurdo. - Uma bebida,  claro - rematou, abanando 
a cabea, esperando esconjurar o fantasma que estava apenas a brincar com a sua mente, e no diante dele, como esperara.
- O meu nome  Alba - disse ela, com o rosto branco como as pombas pousadas nos telhados cinzentos. - Alba Arbuckle. A minha me era a Valentina.
As faces curtidas de Falco brilharam e ele soltou um suspiro quase doloroso de alvio e alegria.
- Ento, eu sou teu tio - disse ele. - Pensvamos que te tnhamos perdido.
- E eu pensava que nunca vos ia encontrar - replicou Alba.
Correu um murmrio por entre o bando de pescadores.
- Eles pensaram que eras o fantasma da tua me - explicou Falco. - Uma bebida para toda a gente - gritou cordialmente, erguendo a mo para um viva da multido. - 
A Alba voltou para casa!
Ignorando Gabriele, Falco agarrou orgulhosamente na mo da sobrinha e f-la subir os degraus para o restaurante.
- Vem, tens de conhecer a tua av.
 Alba estava impressionada. O tio era como um leo poderoso, tinha a mo to grande que a dela desaparecera l dentro. Gabriele encolheu os ombros, impotente, e 
foi atrs deles.
Immacolata Fiorelli era agora muito velha. Tinha comeado a ficar baralhada com os nmeros por volta dos noventa. Noventa e um? Noventa e dois? No fazia a mnima 
ideia. Tanto quanto sabia, at podia ter cem anos. No que isso lhe importasse. O seu corao morrera depois de perder a sua preciosa Valentina. Sem corao para 
a manter jovem, tinha definhado lentamente, ficando ressequida. Mas ainda no tinha morrido, embora rezasse por isso, para se poder juntar  filha.
Apareceu com a ajuda de uma bengala, como um pequeno morcego, pouco acostumado  luz. Tinha o cabelo grisalho preso no alto da cabea e o seu rosto espreitava atravs 
de um vu negro de fumo.
Alba perfilava-se diante dela, como a imagem de Valentina,  excepo dos olhos invulgarmente claros, que revelavam o que havia de estrangeiro na insuportvel semelhana. 
Os olhos de Immacolata encheram-se de lgrimas e levantou a mo, trmula devido  idade e  emoo, para tocar na pele suave e morena da jovem. Sem palavras, os 
seus dedos tocaram na parte viva da sua filha, a parte que ela deixara para trs. A neta que fora levada atravs dos mares, perdida, como se tivesse morrido. Thomas 
nunca a trouxera de volta, como prometera. Eles tinham alimentado essa esperana. E quase tinham morrido com ela.
Ao ver as lgrimas da velha senhora, os olhos de Alba toldaram-se. O amor no rosto da av era to intenso, to doloroso, que ela queria abra-la, mas Immacolata 
era demasiado frgil e pequena.
- Deus abenoou este dia - disse ela numa voz suave e infantil. - A Valentina regressou na forma da filha. J no estou sozinha e o meu corao palpita de vida. 
Quando morrer, Deus ir receber uma alma feliz e grata e o Cu ser um lugar melhor para a acolher.
- Vamos l para dentro, que est mais fresco - sugeriu Falco. Recordando o companheiro de Alba, virou-se e fez-lhe sinal com a cabea, acrescentando - Perdoe-nos.
- Gabriele Ricci - disse. - A Alba fez uma longa viagem para vos encontrar. Eu no vou ficar. D-lhe apenas isto - pediu, tirando um carto branco do bolso e passando-o 
a Falco. - Ela pode telefonar-me, se precisar de alguma coisa, mas no creio que v precisar.
Embora curioso, Gabriele sabia que estaria deslocado naquela reunio de famlia. Retirou-se sem alarido, desejando dar-lhe um beijo de despedida e incit-la a entrar 
em contacto com ele, para que pudessem voltar a ver-se. Virou-se, na esperana de que ela viesse c fora agradecer-lhe, mas o restaurante estava cheio de gente e 
ele ficou sozinho no cais. S o rapazinho veio ter com ele, para o ajudar com a corda.
Dentro do restaurante, serviam-se bebidas e seguiram-se as comemoraes. Lattarullo sentou-se junto de Immacolata, como uma imitao burlesca de uma dama de honor, 
contente por ter sido ele, e no Il sindacco, a estar ali para dar as boas-vindas a Alba. Il indacco no demorou muito a chegar. No parecia ter mais de cinquenta 
anos. Tinha o cabelo muito bem apartado e penteado, ainda preto azeviche, com uns quantos cabelos grisalhos nas tmporas. Estava todo elegante, com umas calas verde-azeitona, 
de cintura subida, e uma camisa azul-beb impecavelmente engomada. Quando entrou no restaurante, o seu perfume encheu o ar, de forma que toda a gente soube que tinha 
chegado o homem mais importante da vila e afastaram-se para o deixar passar.
Quando viu Alba sentada junto de Immacolata, Lattarullo e Falco, deixou descair o maxilar bem barbeado e foi audvel o seu arfar.
- Madonna! - exclamou. - Os mortos levantam-se mesmo!
Para uma vila habituada a milagres, a ressurreio de Valentina no estava excluda do reino das possibilidades. Puxou uma cadeira e Falco apresentou-os.
- Isto foi coincidncia? - perguntou. - Foi por acaso que veio at Incantellaria?
- Foi Deus que a trouxe at mim - disse Immacolata.
- Ela veio  nossa procura - interps Falco.
- Desde pequena que ansiava por encontr-los - disse Alba, encantada com toda aquela ateno.
J tinha esquecido a humilhao que sofrera em Npoles e a mala roubada, at mesmo Gabriele.
- Esto a ver? - disse Immacolata, numa voz to doce e feliz quanto a da filha quando Tommy regressara no final da guerra. - Ela no nos esqueceu. At falas italiano! 
Ests a ver? - disse, virando-se para o filho. - A Itlia est-lhe no sangue.
- Ficas connosco - ordenou Falco na sua voz profunda e spera.
Ele tinha-se mudado para casa da me, com a mulher e o filho, depois da morte de Valentina. Agora, Toto tambm l vivia com a filha de seis anos, Cosima; tinham 
ido para l quando a me de Cosima fugira com um danarino de tango argentino.
- Ela pode ficar no antigo quarto de Valentina - afirmou Immacolata gravemente e o ar pareceu faltar ao pequeno grupo. Toda a gente sabia que Immacolata mantinha 
o quarto de Valentina como um relicrio. H vinte e seis anos que o limpava e cuidava dele, mas ningum tinha autorizao para o usar. Nunca. Nem mesmo Cosima.
Alba sentiu a importncia do gesto e agradeceu  av.
- Sentir-me-ei muito honrada em ficar no quarto que era da minha me - disse com sinceridade. - Sinto que comeo a conhec-la atravs de vocs. Foi o que sempre 
quis toda a minha vida.
Immacolata, exausta com a excitao, ordenou a Lattarullo que a levasse a casa.
- Comemorei em pblico com as gentes de Incantellaria; agora quero comemorar sozinha com a minha famlia.
Alba ficou entusiasmada por ir para a casa onde a me vivera e por ir dormir na cama onde ela dormira. Se soubesse que ia ser uma ocasio to mgica, teria vindo 
h anos...
- Onde est a tua mala? - perguntou-lhe Falco, enquanto saam para o sol da tarde.
- Perdi-a - disse em tom descontrado. - Ou melhor, foi roubada, mas no importa.
- Roubada?
- Santo Deus! Onde est o Gabriele? - perguntou, virando-se para o procurar, envergonhada por se ter esquecido dele.
- Oh, foi-se embora!
- Embora? Mas nem cheguei a agradecer-lhe! - exclamou, desapontada. - Ele nem sequer se despediu.
Virou-se para o porto, na remota esperana de ele ainda l estar  espera, junto ao barco.
- Ele deu-me isto - disse Falco, entregando-lhe o cartozinho branco. Tinha gravado o nome de Gabriele e o nmero de telefone.
- Que inteligente! - redarguiu, metendo-o dentro da mala.
- Ento no tens nada? -- disse Falco, incrdulo.
- Nada. Se no tivesse sido a generosidade do Gabriele, ah, e a generosidade involuntria dos funcionrios do caminho-de-ferro italiano, no teria conseguido chegar 
aqui!
Subiu para o banco traseiro do carro e encostou-se ao cabedal quente, aquecido pelo sol. Falco entrou para o p dela. Immacolata sentou-se  frente, desejosa de 
regressar ao calmo santurio da sua casa e s relquias dos falecidos. Lattarullo ia a guiar.
O trajecto pela colina acima estava cheio de buracos, a estrada pouco mais era do que um caminho poeirento.
- Tentaram alcatro-la h cerca de dez anos, mas ficaram sem dinheiro, por isso  boa durante uns oitocentos metros,  sada da vila, e depois  isto! - explicou 
Falco.
- Eu acho-a encantadora - respondeu Alba. Para ela, tudo o que tinha a ver com Incantellaria era encantador.
- No ias achar o mesmo se tivesses de fazer isto todos os dias de carro!
Alba tinha aberto o vidro da janela, para poder dizer adeus aos habitantes da vila que comemoravam o seu regresso a casa, e agora, ao aproximarem-se da casa, ps 
o nariz de fora para inspirar as fragrncias silvestres do campo. Dali, do cimo da colina, conseguia ver o mar, de um azul-brilhante  luz suave do entardecer. Perguntou 
a si mesma quantas vezes a me teria olhado para aquela mesma vista. Talvez tivesse visto o pai a entrar na baa, no seu MTB.
Saram do carro e desceram o caminho relvado at  casa. Este tinha sido aumentado nos ltimos anos, por isso agora chegava quase  porta principal. De repente, 
Alba sentiu um cheiro doce e suculento.
- O que  isto? - perguntou, cheirando o ar, como Sprout. -  divino!
Lattarullo olhou para ela.
- O seu pai perguntou-me precisamente a mesma coisa quando chegou aqui pela primeira vez.
- A srio? - perguntou com ar animado.
- Figos - disse Immacolata, muito sria. - Embora te desafie a encontrares aqui uma figueira!
Alba olhou com ar interrogativo para Falco e este encolheu os ombros.
- Ela tem razo. Sempre cheirou a figos.
-  um cheiro inebriante - disse Alba, soltando um suspiro. Mgico!
Seguiu-os at  casa cor de areia, quase toda tapada por grandes macios de glicnias. A av seguia  frente, atravs do corredor revestido a azulejo, at  sala. 
A, a um canto, havia trs altares com velas acesas: um para o marido de Immacolata, um para o filho que perdera e o terceiro, que parecia ter uma chama mais brilhante 
do que os outros, para Valentina. Quando Alba se aproximou, viu a fotografia a preto-e-branco do av, de uniforme, orgulhoso e erecto. Os seus olhos estavam cheios 
de entusiasmo pela causa que ele considerava ser justa e a boca rasgada num esgar determinado, no muito diferente do de Falco. A fotografia do filho, tio de Alba, 
tambm era a preto-e-branco e mostrava-o de uniforme. Bem-parecido, com o rosto atrevido de uma pessoa brincalhona, sorria sob o chapu. Quando os seus olhos pousaram 
no altar da sua me, susteve a respirao. No havia fotografia, s um retrato, feito com os mesmos lpis de pastel que o retrato que encontrara por baixo da cama, 
no seu barco. Valentina e Alba 1945. Thomas Arbuckle. Agora, o meu amor  a dobrar.
Agarrou nele e foi at  janela, para poder ver melhor  luz. Este era ainda mais extraordinrio do que o primeiro, pois representava a me a olhar extremosamente 
para o beb que amamentava. E esse beb era ela prpria, Alba, com poucos meses de vida. A expresso de Valentina era suave e terna e irradiava um amor feroz e protector 
que parecia estender-se para l do papel e chegar-lhe agora, ali, onde estava sentada sozinha junto  janela, vinte e seis anos mais tarde.
- Ela amava-te intensamente - disse Immacolata, coxeando para se ir sentar ao p dela. - Tu simbolizavas um novo comeo. A guerra tinha acabado. Ela queria comear 
de novo, ser outra pessoa. Tu eras a ncora de que ela precisava, Alba.
Alba no compreendeu, mas soava-lhe bem.
- Sempre me perguntei sobre o tipo de me que ela seria - disse calmamente.
- Era uma boa me. Deus deu-lhe uma filha para lhe ensinar a compaixo, o altrusmo e o orgulho. Ela ps-te em primeiro lugar, acima de qualquer outra coisa, at 
mesmo dela. Talvez tenha sido por isso que Ele a levou; porque ela j tinha aprendido a lio que c veio aprender...
-  um retrato maravilhoso.
- Eu peo ao Falco para fazer uma cpia.  espantoso o que eles conseguem fazer hoje em dia!
- Eu ia adorar. O meu pai  que tem o outro. Eu no tenho nada.
Immacolata pegou-lhe na mo.
- Agora tens-nos a ns, Alba, e eu vou partilhar as minhas memrias contigo. Sei que era o que Valentina ia querer que eu fizesse. s to parecida com ela, to parecida... 
- disse, com a voz reduzida a um sussurro.
- No, no sou! - redarguiu Alba, recordando amargamente a sua vida promscua e vazia. - No sou nada parecida com ela. Mas posso ser e vou ser. vou mudar e tornar-me 
uma pessoa boa. vou ser tudo aquilo que ela quereria que eu fosse.
- Alba, minha filha, tu j s tudo o que ela quereria que tu fosses.
De repente, o cheiro a figos entrou atravs da janela aberta, ainda mais forte do que antes. Immacolata agarrou no retrato e voltou a coloc-lo cuidadosamente por 
detrs da chama bruxuleante, para que o rosto de Valentina ficasse iluminado.
- Vem - disse ela. - Deixa-me mostrar-te o teu quarto.


CAPTULO VINTE E UM

Immacolata guiou Alba pela estreita escada de pedra. A casa era velha, muito mais velha do que a prpria Immacolata. Cheirava a velha, a tempo entranhado na prpria 
estrutura do edifcio. Immacolata subia lentamente e Alba teve de refrear a sua impacincia, pois cada degrau a levava para mais perto da me.
Por fim, atravessaram o patamar at uma porta em madeira de carvalho claro. Immacolata ps a mo debaixo do xaile que usava e tirou para fora uma argola de chaves 
pesadas; chocalharam numa corrente que pendia do corpo, onde devia ter havido em tempos uma cintura, como se fosse um carcereiro medieval.
- C estamos - disse ela suavemente.
O quarto era pequeno, com paredes brancas e as portadas estavam fechadas. Atravs das frestas entre as tbuas de madeira, entravam suaves raios de uma luz mbar, 
dando ao quarto uma atmosfera misteriosa. O ar vibrava de vida, como se o esprito de Valentina continuasse a pairar por ali, agarrando-se possessivamente ao seu 
mundo perdido. Immacolata acendeu a vela sobre a mesinha de toucador em pinho. Iluminava o pano de linho bordado sobre o qual a escova e o pente de Valentina, os 
seus frascos de perfume, os frascos com loes cremosas e o pote de cristal com p-de-arroz estavam colocados muito arrumados, em frente de um grande espelho Queen 
Anne. Alba viu que ainda havia cabelo da me entre as cerdas da escova. Immacolata foi at ao guarda-vestidos, que era em madeira clara, entalhada com cachos de 
uvas, e abriu as portas para mostrar uma srie de vestidos.
- A Valentina era uma pessoa de gostos simples - disse a sua me, com orgulho. - No tnhamos grande coisa. Era tempo de guerra...
Tirou para fora um vestido branco e segurou-o para a neta ver.
- Era este que ela tinha vestido quando viu o teu pai pela primeira vez.
Alba esticou o brao e passou os dedos pelo algodo macio.
- O teu pai apaixonou-se por ela quando a viu assim. Parecia um anjo. To bonita, to inocente. Disse-lhe para o levar at ao rio, para tomar banho. No precisavam 
que os encorajassem. Sabia que no teriam muito tempo para se conhecerem. Percebi que queriam estar sozinhos. Que Deus me perdoe! - disse, fazendo o sinal da cruz.
-  to pequeno. Sempre imaginei que ela fosse alta.
Immacolata abanou a cabea.
- Ela era italiana!  claro que no era alta.
As suas mos artrticas remexeram nos outros vestidos at tirar um preto, bordado com flores brancas.
- Ah! - suspirou melancolicamente. - Este usou-o na festa di Santa Benedetta. O teu pai acompanhou-a. Ajudei a pr-lhe margaridas no cabelo e a esfregar-lhe a pele 
com leo. Estava radiosa. Estava apaixonada. Como  que podia saber a forma como tudo iria acabar? O seu futuro era to promissor...
- O que  a festa di Santa Benedetta? - perguntou Alba, vendo Immacolata voltar a colocar o vestido cuidadosamente no armrio.
- Tu descendes da Santa Benedetta, uma camponesa simples, que foi testemunha de um milagre. A esttua de Cristo, em mrmore, que est na capelinha de San Pasquale 
derramou lgrimas de sangue. Foi um milagre, a forma de Deus mostrar s pessoas de Incantellaria que o Seu poder era total. Todos os anos, a esttua chorava. s 
vezes, o sangue era uma mera gota; nesse caso, os pescadores apanhavam pouco peixe, ou a gua ficava cida, ou a vendemmia das uvas era fraca. Se o sangue vertesse 
em abundncia, o ano seguinte era de ouro. Incantellaria produzia uvas sumarentas e barris cheios de azeitona. Os limes eram pesados e suculentos; as flores desabrochavam 
mais radiosas do que nunca. Foram anos muito bons. Depois, houve um ano em que Ele no derramou uma nica lgrima. Espermos, observmos, mas Ele j tinha escrito 
o que havia de acontecer e castigou-nos, tirando-nos a nossa preciosa Valentina. - Voltou a fazer o sinal da cruz. - No verte uma lgrima h vinte e seis anos.
Alba estava um pouco assustada com a devoo da av. Ela raramente falava em Deus, excepto quando praguejava, por isso as crenas de uma camponesa simples como Immacolata 
pareciam-lhe absurdas. Os seus olhos desviaram-se para os ps da cama, onde se via uma alcofa num suporte. Sentou-se em cima da cama e espreitou l para dentro, 
para o lenol branco e para o cobertor de l, feito em croch.
- Isto era meu? - perguntou maravilhada, pegando no cobertor e levando-o ao nariz para o poder cheirar.
Immacolata fez que sim com a cabea.
- Guardei tudo! Precisava de me agarrar a alguma coisa depois dela ter partido... - As duas mulheres entreolharam-se. - Fizeste-me muito feliz. Minha pequena Alba! 
- disse ela, acariciando a face da neta com o polegar. - vou mostrar-te onde podes tomar um banho. Esta noite, podes ficar com a camisa da Valentina. Amanh, vamos 
comprar algumas roupas, va bene? - Alba assentiu. - Vem. Vamos comer.
Enquanto se dirigiam para o terrao, ouviram a voz estridente de uma criana, acompanhada por um coro de grilos.
- Ah,  a Cosima - disse Immacolata e a sua expresso suavizou-se como neve apanhada por um raio de sol.
Uma menina saltou de trs de um macio de arbustos, seguida por um pequeno co de pelagem ruiva. Viu a bisav e apressou-se a ir ter com ela, ofegante de tanto rir, 
com os caracis cor de mel a balouar  volta do rosto redondo e rosado e o vestido azul-beb e branco a esvoaar em torno dos joelhos.
- Nonma! Nonnina!
Instintivamente, parou antes de cair nos braos da velha senhora, sabendo que o seu entusiasmo a desequilibraria. Immacolata colocou a mo na cabea da criana e 
inclinou-se para a beijar. Virou-se para Alba.
- Deus levou-me a Valentina, mas abenoou-me com Cosima.
A menina ficou a olhar para Alba.
- Cosima, esta  a Alba. Ela  tua... - Immacolata fez uma pausa, incapaz de chegar logo ao parentesco. - Prima. A Alba  tua prima.
Alba nunca gostara de crianas. Elas tambm no pareciam gostar muito dela. Mas a expresso vulnervel nos olhos de Cosima, o desejo de ser amada, como um cachorrinho 
ou um vitelinho, apanhou-a de surpresa. Tinha um rosto malicioso, com lbios muito bem desenhados. O lbio superior era mais cheio do que o inferior e o nariz era 
ligeiramente arrebitado. Tal como Alba, tinha charme, mas, ao contrrio de Alba, no tinha conscincia disso. Cosima, sentindo-se observada, sorriu timidamente e 
corou.
- Quem  este? - perguntou Alba, inclinando-se e fazendo festas ao co.
- Cucciolo - replicou a criana, aproximando-se da bisav. -  um drago!
- Tem um ar muito assustador - disse Alba, entrando na brincadeira.
Cosima riu-se e olhou para ela, sob as suas fartas pestanas pretas.
- No te assustes, ele no te faz mal.  um drago amigo.
- Ainda bem. Estava a ficar nervosa. No fim de contas, nunca tinha visto um drago a srio.
- Ele assusta as galinhas e o Bruno.
- Quem  o Bruno'?
- O burro.
- Tens imensos animais.
- Adoro animais - disse a menina, com o rostinho inundado de prazer.
Quando ela se dirigiu ao burro, que estava amarrado, Alba reparou que andava em bicos de ps; o andar exuberante de uma criana sem preocupaes.
Passado pouco tempo, Falco apareceu com Beata e o filho de ambos, Toto, cuja mulher fugira com o danarino de tango argentino. Era um jovem bonito, cinco anos mais 
velho do que Alba, com cabelo castanho encaracolado e um rosto largo e aberto, como a filha. Ao ver o pai, Cosima ps-lhe os braos  volta da cintura.
- A Alba tem medo do drago! - guinchou ela, aninhando excitadamente o rosto no estmago de Toto, de forma que as suas risadas saam abafadas contra a camisa. Ele 
tomou-a nos braos e pegou-lhe ao colo.
- Bem,  melhor dizeres-lhe para ele se portar bem, seno ela  capaz de fugir.
- A Alba no vai a lado nenhum - disse Immacolata, sentando-se  cabeceira da mesa, onde se sentara a maior parte dos seus noventa e tal anos. - Ela agora est em 
casa.
Toto apertou-lhe a mo e sorriu calorosamente.
- Daquilo que me lembro da tua me, s muito parecida com ela - disse.
Alba ficou surpreendida pelo facto de a voz dele no revelar a mesma infelicidade que a do pai e da av, quando falavam de Valentina.
- Obrigada.
- Tambm me lembro do teu pai, por causa do uniforme. Era o homem mais fascinante que alguma vez vira. No conseguia parar de olhar para ele. Tambm me lembro do 
seu sentido de humor, pois foi o nico que sorriu quando o velho padre Dino se peidou durante um almoo inteiro!
- Francamente, Toto! - protestou Beata.
Mas Alba estava encantada com o primo. A sua presena terra-a-terra desanuviou a atmosfera pesada que o fantasma de Valentina imprimira  casa.
Immacolata estava desejosa de falar sobre a filha. De repente, tinha [desculpa para contar histrias e reminiscncias. As feridas ainda doam,  meno do seu nome, 
era como atirar gua salgada para cima de cortes no sarados. Mas Alba forou-a a revelar o passado e Immacolata sucumbiu de boa vontade. Enquanto contava histrias 
que ilustravam a virtude da filha, a sua sensatez, a sua bondade inigualvel, o rosto de Falco foi-se ensombrando e a sua boca foi-se crispando.
Quando as mulheres se retiraram para ir para a cama, Falco continuou  mesa, curvado sobre um copo de limoncello, a fumar um cigarro e olhando vagamente para a chama 
quase extinta das lanternas. O regresso de Alba tinha sido uma bno inesperada. Ela trouxera consigo uma alegria que no podia compreender. No entanto, tambm 
era uma recordao lancinante de uma parte da sua vida demasiado terrvel para que quisesse pensar nela.
Alba tomou banho, lavando as emoes do que lhe parecia ser o dia mais longo da sua vida. Tinha sido arrebatador, fascinante e tambm terrvel, de alguma forma. 
Se ela tinha pensado que o fantasma da me assombrava o seu pequeno barco, a verdade  que assombrava muito mais aquela casa...
Immacolata tinha-lhe dado fsforos, para ela poder acender a vela na mesa do toucador e a outra ao lado da cama, explicando-lhe que no tinham tido electricidade 
durante a guerra, por isso no a mandara instalar no quarto de Valentina quando renovara o resto da casa. Tinha querido mant-lo exactamente como era. Por isso, 
quando Alba se sentou em frente do espelho, com a camisa de noite da me, o cabelo cado sobre os ombros e o rosto plido  luz bruxuleante da vela, ficou quase 
to assustada com o prprio reflexo como pela sensao de morte que invadia o pequeno quarto.
Agarrou na escova. Era de prata e pesada. Comeou a escovar o cabelo com gestos lentos e deliberados, observando-se no espelho manchado. Sabia que estava a olhar 
para a rplica mais fiel da me, a quem nunca veria. Talvez ainda mais surpreendente que os retratos, pois estava viva e respirava. Enquanto a olhava, os seus olhos 
encheram-se de mgoa, pois tinha conscincia de que a me possua uma virtude que ela nunca viria a possuir. Se estivesse viva, Alba tinha poucas dvidas de que 
a deixaria desapontada. Valentina tinha deixado a sua marca em toda a gente, com uma graa sobrenatural e sem esforo. Se Alba morresse de repente, como  que as 
pessoas a recordariam?
Naquela noite, dormiu sobressaltada. No imaginara que a sua expedio para encontrar a me a levasse a sondar as suas prprias profundezas. Esperara ser capaz de 
seguir para a frente, mas o fantasma de Valentina perseguia-a agora de uma forma como nunca antes acontecera.
Quando finalmente adormeceu, os seus sonhos foram estranhos, incompreensveis e perturbadores. Quando despertou, ficou aliviada por j ser dia, pelo facto de o cu 
estar limpo e azul e o sol a brilhar, iluminando os recantos mais sombrios do quarto.
Quando Alba saiu para o terrao, com o vestido amarelo sem mangas que usara no dia anterior, s Toto e Cosima  que j estavam a p, a tomar o pequeno-almoo. O 
rosto da menina abriu-se num enorme sorriso e a sua linda boquinha deixou ver os dentes cor de prola.
- Alba! - exclamou ela, descendo da cadeira para a abraar. - No sonhaste com drages, pois no? - perguntou, pondo os braos  volta da cintura de Alba, como fizera 
com o pai na noite anterior.
- No, no sonhei.
- Pareces cansada, Alba - disse Toto, mastigando um pedao de brioche.
- No dormi muito bem. Acho que estava demasiado cansada para dormir.
- Bem, come alguma coisa e, depois, se quiseres, eu e Cosima levamos-te  vila. Percebi que te roubaram a mala.
- Preciso de ir ao banco - disse, sentando-se ao lado de Cosima, que tinha puxado uma cadeira para ela.
- Claro. Podes comprar agora e pagar quando o dinheiro chegar. O teu crdito aqui  bom.
Era bom estar l fora, com a brisa perfumada de eucalipto a soprar do mar.
- Isto  lindo - disse Alba. - Toca-nos na alma, no ?
- Nunca seria capaz de viver noutro lugar.  uma vida calma, mas no desejo mais nada. - Sorriu para a filha. -  um bom lugar para uma criana crescer. Tens muitos 
amigos, no tens, Cosima?
- A Costanza  a minha melhor amiga - disse ela com voz sria. - A Eugenia quer ser a minha melhor amiga, mas disse-lhe que no podia ser porque a Costanza  que 
. - Suspirou profundamente. A Costanza no gosta da Eugenia.
Franziu o nariz e, depois, esqueceu os seus pensamentos quando Cucciolo saiu de casa com Falco. Falco sorriu, mas os seus olhos continuaram to duros como pedra; 
havia qualquer coisa neles que fazia Alba lembrar-se do pai.
- vou at  vila, com a Cosima e o Toto - disse, enquanto o tio se sentava e enchia uma chvena com caf.
- Talvez me possam mostrar a capela de San Pasquale. Seria bom ver o stio onde os meus pais se casaram.
Falco pousou a cafeteira e olhou-a como se ela o tivesse atingido no rosto
- Immacolata contou-me sobre a festa di Santa Benedetta. Aconteceu tudo na capela, no foi? - prosseguiu Alba, sem fazer caso.
- Esse milagre deixou de acontecer h anos - disse Toto, com um sorriso escarninho. Era bvio que tambm no tinha o ritual medieval em grande conta.
- A minha me est l sepultada? - perguntou, dirigindo-se a Falco, que tinha ficado plido.
- No - respondeu em voz inexpressiva. - Est sepultada na colina sobre o mar.  um local isolado, onde pode descansar em paz. No tem lpide.
- No?
- No queramos que a perturbassem. Eu levo-te l esta tarde.
Quando Toto levou a filha e Alba de carro pela viela sinuosa at  vila, ela no pde deixar de reflectir no mistrio que rodeava a morte da me. Queria inquirir 
Toto sobre o assunto, mas sentia que no era prprio falar dessas coisas em frente de Cosima. Em vez disso, fez perguntas  menina sobre os seus animais, tanto reais 
como imaginrios.
Cosima inclinou-se por entre o intervalo dos bancos e chilreou com o entusiasmo de um pssaro ao amanhecer.
Na vila, Toto levou Alba ao banco e ajudou-a a abrir uma conta junto do gerente, que ele conhecia desde os tempos de escola. Tinham todo o prazer em lhe conceder 
crdito, tendo contactado com o gerente dela em Londres. Cosima ficou toda entusiasmada com o facto de a acompanhar  boutique para comprar roupas. No tendo me, 
no estava acostumada a ver uma mulher experimentar vestidos e sapatos; a bisav s usava preto. Inspirada pelo entusiasmo da menina, Alba experimentava tudo, pedindo-lhe 
para dar a sua opinio sobre cada pea, classificando-a entre um e dez. Cosima guinchou de prazer, rindo com os que ficavam horrveis e gritando "zero" com exuberncia.
Toto deixou-as sozinhas, enquanto tomava caf na trattoria. Toda a gente conhecia Cosima e quase no havia ningum que no soubesse da chegada dramtica de Alba 
no dia anterior. Percorreram o passeio juntas, de mo dada, parando em todas as lojas, rindo dos seus reflexos no vidro. No escapara a Alba o facto de que Cosima 
podia ser sua filha. Eram muito parecidas.
- Agora, vou apresentar-te aos anes - anunciou Cosima alegremente.
- Aos anes? - repetiu Alba, sem saber se tinha percebido bem.
- Si, i nani - disse Cosima, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Levou a prima para o interior escuro de uma loja enorme, que parecia ter tudo e mais alguma coisa, desde esfregonas e comida a roupas e brinquedos. A mulher que 
estava por detrs do balco sorriu afectuosamente para Cosima. No parecia nada ser an. S quando de l saiu  que Alba percebeu que ela estava em cima de uma caixa 
construda especialmente para ela, para parecer mais alta. Sem o seu pedestal, no tinha mais de um metro e vinte.
- Eu sou a Maria. E a menina  a filha da Valentina - disse a mulher, entusiasmada. - Dizem que  igual a ela.
Antes que Alba pudesse responder, apareceu o resto da famlia de Maria, como ratos sados de portas escondidas entre as mercadorias. Deviam ser uns seis, todos com 
um metro e vinte, com rostos vermelhos e reluzentes e sorrisos alegres. Alba pensou que ficariam muito bem num jardim, com canas de pesca e barretes engraados; 
depois, refreou o pensamento perverso, lembrando-se de que estava a tentar ser uma pessoa melhor.
- Vendem roupas para criana? - perguntou.
- Oooh! Vendem, pois! - exclamou Cosima, desaparecendo num dos corredores, com os caracis lustrosos a balouar  volta da cabea, como molas.
Alba, seguida por uma autntica comitiva de anes, foi atrs dela. A criana estava a tirar para fora lindos vestidos e a segur-los para Alba ver. Os seus olhos 
castanhos brilhavam de esperana.
- Muito bem, Cosima, de um a dez. Quais so os que tu gostas? - disse Alba, cruzando os braos e pondo uma cara sria.
A princpio, Cosima no sabia o que fazer. Nunca lhe tinham oferecido mais do que um vestido de cada vez. Numa excitao febril, arrancou o prprio vestido e ficou 
com as suas cuequinhas brancas, a segurar em trs ao mesmo tempo, sem saber qual experimentar primeiro. Ajudada por Maria e pelas filhas, a criana desfilou os vestidos, 
como uma princesa, andando para trs e para a frente no corredor, rodopiando para que as saias se levantassem como lindas flores. Nenhum obteve zero. Cosima estava 
to enervada com a presso da escolha, que no era capaz de decidir.
- No sei - gemeu, em lgrimas, com o peito dilatado devido  respirao cada vez mais acelerada. - No sei qual deles hei-de escolher!
- Ento vamos ter de compr-los a todos - redarguiu Alba descontraidamente.
A criana olhou para ela com os olhos arregalados como luas. Depois, rompeu em lgrimas. Maria ps os braos  volta dela, mas Cosima soltou-se e foi soluar encostada 
a Alba.
- O que  que se passa? - perguntou Alba, afagando-lhe o cabelo.
- Nunca ningum me tinha comprado tantos vestidos - disse, engolindo em seco.
Alba pensou na me de Cosima, que tinha abandonado a filha por causa de um danarino de tango, e sentiu o corao apertado.
- Espera at o teu pai te ver com eles. Podemos fazer uma passagem de modelos esta noite. No lhe dizemos nada agora e fazemos-lhe uma surpresa.
Cosima enxugou os olhos com as costas da mo.
- Oh, sim, podemos?
- Ele vai pensar que te transformaste numa princesa.
- Ah, pois vai!
- Agora olha, podes fazer-me um favor?
- Sim.
- Quero que me deixes desenhar-te.
Alba no desenhava desde a infncia. Nem sequer sabia se ainda conseguia desenhar.
- Vamos comprar papel e lpis e tu posas para mim. Fazes isso?
A criana anuiu entusiasticamente.
- Podes levar-me a um stio bonito. Preparamos um piquenique e podes contar-me tudo sobre a Costanza e a Eugenia e todos os teus outros amigos da escola.
Quando chegaram  trattoria com os braos cheios de sacos, Toto ficou de boca aberta.
- Provavelmente, as lojas fizeram mais dinheiro hoje do que costumam fazer num ms inteiro - disse.
Cosima sorriu e ficou inchada de orgulho. O pai franziu os olhos.
- Para que  essa cara? - perguntou-lhe, fazendo-a sentar-se em cima do seu joelho.
- Uma surpresa - disse ela com uma risada. Ele olhou para Alba e, depois, para os sacos.
- Ah, estou a ver!
- Perdi um guarda-roupa inteiro! Uma rapariga precisa de ter roupas - explicou Alba.
- Precisa mesmo - concordou Cosima, e o seu rosto de querubim brilhou de felicidade.
Antes de regressarem a casa para almoar, Toto e Cosima levaram Alba  capela de San Pasquale. Ficava no centro da vila, ao cimo de uma rua estreita que dava para 
um pequeno ptio. Pintada de azul e branco, a sua simetria e fora davam-lhe um encanto peculiar. A cpula em mosaico elevava-se no ar fresco do mar, um sereno ponto 
de vigia para pombas e gaivotas. Alba passou pela pesada porta de madeira onde a me estivera h quase trs dcadas, vestida de renda branca e margaridas, para casar 
com o pai. Parou por um momento e saboreou a vista da nave, imaginando-a engalanada com flores, as imagens dos santos e os frescos que decoravam as paredes, os candelabros 
de ouro cintilante que captavam a luz e tremeluziam. O altar ficava na base de um elaborado retbulo, que mostrava cenas da crucificao, e a sua toalha branca engomada 
estava muito bem-posta, com castiais de ouro e os adereos ornamentados da cerimnia. Depois da simplicidade da vila, a opulncia da capela era notvel. No entanto, 
aquilo que lhe chamou a ateno foi a esttua de Jesus, em mrmore branco, que em tempos chorara lgrimas de sangue. Foi at junto dela, com as alpercatas mal tocando 
a laje.
Era mais pequena do que imaginara, sem sinal de lgrimas, sangue, ou de outra coisa qualquer. Esticou o pescoo para a ver por trs,  procura de alguma explicao, 
de alguma prova de embuste.
- No h nada a - disse Toto, aparecendo ao seu lado, enquanto Cosima se sentava l atrs, a guardar os sacos das compras com a prpria vida.
- Aconteceu mesmo? - perguntou Alba.
- Oh, no duvido que tenha acontecido alguma coisa, o que duvido  que tivesse sido inspirado por Deus.
- Mas j no acontece h anos, no ?
- Desde a morte de Valentina - disse, e o seu tom era de simples constatao. - Immacolata diz que foi por causa dela que o milagre deixou de acontecer.
Alba passou os dedos sobre o rosto de pedra, frio e sem vida, de Cristo.
- Immacolata  uma mulher profundamente religiosa. Perdeu o marido, um filho e, depois, a filha. No  de estranhar que tente explicar isso tudo nesses termos. Para 
ela, Valentina  uma santa, mas ela era um ser humano, um ser humano falvel, como toda a gente.
- No fazia ideia de que ela tivesse afectado Incantellaria desta forma.
- Era linda, misteriosa e morreu jovem. Isto  uma vila pequena e supersticiosa. A sua histria foi romntica e trgica. No h nada como a combinao do romance 
e da tragdia para tocar as pessoas.  s pensar em Romeu e Julieta. Depois, o teu pai levou a filha de Valentina para o estrangeiro. Os romances so feitos destas 
coisas...
Alba pensou em Viv a deitar mos  obra e a imortalizar a histria em palavras.
- E vinte e seis anos mais tarde, ela volta - acrescentou Alba.
Toto assentiu.
- E volta-se a reviver tudo isso... 
- O teu pai est muito triste, no est? - perguntou Alba.
- Ele nunca conseguiu superar a morte dela. Nem Immacolata. Mas a dor dela  a dor natural de uma me que perde a filha. com o meu pai  como que um tormento...
- Porqu? - indagou, recordando com uma estranha sensao de dj vu a expresso inconsolvel do rosto do prprio pai na noite em que lhe dera o retrato.
- No sei - disse ele, encolhendo os ombros.


CAPTULO VINTE E DOIS

Havia uma grande excitao enquanto Alba ajudava Cosima a vestir o primeiro dos seus trs vestidos novos. Immacolata sentou-se  cabeceira da mesa, com o resto da 
famlia, especulando sobre a natureza da surpresa.
- Vo ficar espantados - disse Alba, atando-lhe muito bem o lao [nas costas. - Pareces um anjo!
Sentiu o impulso de falar na me da menina. Desde que chegara, [ningum pronunciara o seu nome. Cosima agia como se ela no existisse, mas Alba sabia a verdade, 
porque se reconhecia a si mesma no silncio da criana. Havia perguntas a fervilhar l dentro que, um dia, acabariam por transbordar e provocar dor a toda a gente, 
a no ser que obtivessem resposta agora, dada com honestidade e sensibilidade.
- Agora vai e mostra a todos como ests bonita!
Cosima saiu para a luz do sol, danando com os ps levezinhos de uma fada dos jardins. A sua entrada foi recebida com aplausos exuberantes e gritos de Cosima a dizer 
"Ainda h mais...", enquanto voltava a entrar em casa para se enfiar no prximo vestido.
Alba partilhava a felicidade de Cosima. Observou as expresses da famlia da menina e nenhuma era mais indulgente e satisfeita do que a do pai. Alba suspirou profundamente 
e os seus pensamentos recuaram at ao seu prprio pai. Ela no remexia muitas vezes nas suas memrias, pois o presente era mais agradvel. No entanto, recordava 
com alguma surpresa o tempo em que o pai a levara at aos bosques que ficavam por trs da casa, em Beechfield, para caar coelhos. Tinham subido a colina de mos 
dadas, com a espingarda  tiracolo, avanando com passadas longas e determinadas. Depois, tinham-se deitado de barriga para baixo, com a erva hmida a fazer-lhes 
ccegas no queixo. O cheiro dos milheirais logo aps a colheita chegava-lhe agora do passado distante e fazia-lhe a cabea andar  roda, com nostalgia. O pai tinha 
morto um coelho, esfolara-o, tirara-lhe as tripas e tinham feito uma fogueira para o cozinharem, enquanto o sol inundava o campo e o deixava cor-de-rosa. S os dois. 
Lembrava-se disso agora.
Cosima voltou a entrar para mudar de roupa pela terceira vez e Alba foi arrancada aos seus pensamentos. Ajudou-a a enfiar o ltimo vestido e deu por si a apanhar 
as roupas que a criana deixara num monte pelo cho e a dobr-las muito bem sobre as costas de uma cadeira. Reparou na sua arrumao pouco habitual, na preocupao 
quase maternal, e ficou surpreendida por se sentir to normal. No final da passagem, saiu l de dentro e juntou-se aos aplausos. Toto agradeceu-lhe e ela soube o 
que as pausas entre as suas palavras continham; ele sentia a ausncia da mulher de uma forma ainda mais intensa, agora que ela ali estava.
Depois do almoo, Immacolata desapareceu l dentro para fazer uma sesta. Falco ofereceu-se para levar Alba  sepultura de Valentina. Cosima saltou da cadeira, pois 
tambm queria ir. Olhou para Alba com um ar desolado. Mas Alba queria falar a ss com Falco, por isso sugeriu a Cosima que fossem antes as duas sozinhas, mais tarde, 
fazer um piquenique num local agradvel. Isto satisfez a criana, que ficou a v-los ir pelo olival e, depois, deu meia volta para brincar com o burro.
- Ela  adorvel - comentou Alba, esperando distra-lo dos pensamentos sobre a falecida irm.
Falco fez um gesto de assentimento.
-  deliciosa. O meu filho  um bom pai. No tem sido fcil.
-  um pai extraordinrio. D-lhe tudo o que ela precisa.
- No lhe pode dar tudo - disse ele bruscamente. - Tem de voltar a casar e dar uma me  filha.
- Ningum pode substituir a me de Cosima - disse Alba com demasiada rapidez, pensando em si mesma.
- No,  claro que no - replicou, olhando-a insistentemente por um momento. - Mas v s como desabrochou desde que chegaste...
- S lhe comprei uns vestidos - disse Alba, encolhendo os ombros.
- Foi mais do que isso. Tu s jovem e ela precisa de uma mulher jovem para olhar por ela, para lhe servir de exemplo.
- Ela tem a Beata, a nonna - sugeriu Alba, embora soubesse que a presena calma daquela mulher pela casa no era suficiente.
- Quero que saibas que podes convidar o teu amigo, o Gabriele, sempre que quiseres - disse ele, e Alba sorriu. Sabia que todos esperavam que ficasse.
- Obrigada. Sou capaz de fazer isso - redarguiu, recordando o bonito rosto de Gabriele.
Desceram a colina por um caminho de terra batida que atravessava a floresta. O cantar dos grilos ecoava no ar parado da tarde, que cheirava agradavelmente a alecrim 
e a pinheiro. Alba sentia-se pouco  vontade com Falco. No que ele fosse desagradvel, apesar das maneiras bruscas, mas havia nele qualquer coisa de sombrio e deprimente, 
como se caminhasse por entre sombras. Ao andar ao seu lado, Alba sentia-se igualmente envolta na sombra; sentia o peso da fatalidade e tinha dificuldade em manter 
uma conversa com ele. A princpio, ficara contente por v-la, um contentamento indizvel. A sua alegria transbordara em lgrimas, que se haviam transformado num 
riso roufenho. Ele conseguia chorar num momento e rir a bom rir no momento seguinte: era totalmente imprevisvel. Agora, era como se a sua simples presena lhe recordasse 
demasiado Valentina. Ela no era a Valentina e a sua presena no podia traz-la de volta. No era como ela... Talvez isso tivesse sido uma desiluso. Talvez que, 
para alm da semelhana fsica, ele esperasse uma semelhana de carcter. A julgar pelas histrias que Immacolata contara sobre Valentina, Alba era um plido reflexo. 
Ainda bem que eles no sabiam nada sobre ela...
Falco tinha a mesma idade do seu pai, cinquenta e muitos anos, mais ou menos, e, contudo, ambos pareciam muito mais velhos do que eram. Andavam os dois curvados 
da mesma maneira, vergados por uma fora invisvel que lhes pesava sobre os ombros. Ambos sorriam, mas os seus olhos continham uma inquietao insofismvel.
O caminho deixou a floresta para trs e abriu-se num pomar de limoeiros. L em cima,  esquerda, onde a colina subia abruptamente, perfilava-se a velha torre de 
vigia esboroada que ela vira do mar, desafiando os elementos.
- Ela adorava este stio - disse Falco, enfiando as mos nos bolsos. - Adorava o cheiro dos limes e,  claro, a vista do mar  realmente magnfica...
Guiou-a atravs do pomar at  ponta, junto ao penhasco, onde se via uma oliveira solitria, rugosa e retorcida, batida pelo sol.
- Foi aqui que a sepultmos.
Por baixo da rvore, havia uma simples cruz de madeira com o seu nome. Ele olhou para o oceano calmo e brilhante como um espelho e prosseguiu:
- Ela viu o barco do teu pai chegar muito antes de qualquer outra pessoa e correu para o porto. Se cortares caminho pelas rochas, chegas l surpreendentemente depressa. 
Quando Valentina queria alguma coisa no deixava que nada se lhe atravessasse no caminho.
- Tenho a certeza de que  feliz aqui.  um lugar muito tranquilo.
- O ponto de vigia tambm era um dos seus stios favoritos. Passava muitas horas a,  espera que o teu pai regressasse, no final da guerra.
-  muito romntico. - Alba queria sentir a presena da me ali,  sombra daquela rvore, mas s conseguia sentir a pesada nuvem que envolvia Falco. - Pode mostrar-me 
a torre? - pediu, virando-se para subir a colina.
Falco seguiu-a sem dizer uma palavra.
- Uau! Consegue ver-se tudo num raio de quilmetros! - exclamou exuberantemente, enchendo os pulmes com o ar puro do mar.
Olhou para as feies angustiadas de Falco.
- Fao-o lembrar-se dela? - perguntou corajosamente, com a cabea inclinada para um lado e de testa franzida. Ele olhou-a, surpreendido. - V-a cada vez que olha 
para mim?  por isso que est to perturbado?
Falco abanou a cabea e encolheu os ombros, levantando as palmas da mo para o cu.
-  claro que te pareces com a Valentina, s filha dela!
- Mas isso magoa-o, Falco? Ser que a minha presena aqui o faz reviver tudo isso?
A pergunta apanhou-o desprevenido.
- Suponho que sim - respondeu calmamente.
Ela sentiu uma sbita compaixo por aquele homenzarro e quis dar-lhe umas palavras de conforto.
- Ela agora est com Deus - disse com pouca convico.
- Pois est, mas ns ficmos no Inferno!
A violncia das suas palavras impressionou-a e ela retraiu-se e vacilou, confusa. Havia qualquer coisa que ele no lhe estava a contar. Talvez tivessem discutido 
no dia em que ela morrera. Talvez ela tivesse morrido antes de ele lhe poder pedir desculpa. Parece que isso costumava ser um problema para quem ficava. Virou-se 
e olhou  sua volta. Por cima deles, ocultos por detrs da densa floresta, estavam as torres e torrees distantes de um palcio.
- Quem  que vive ali? - perguntou, mudando de assunto.
- Ningum. Est em runas.
- Noutros tempos, devia ser impressionante!
- E era, mas a famlia foi dividida por uma rixa e o Palazzo acabou por ficar ao abandono - disse, num tom inexpressivo.
- Ento, no h l nenhum tesouro escondido?
- Nem sequer l conseguirias ir, se quisesses - acrescentou. - A floresta tomou conta do lugar.
- Que tristeza! 
Falco abanou a cabea.
- Vem. A Cosima est  tua espera.
- Obrigada por me ter trazido aqui - disse ela, sorrindo-lhe. - Compreendo como tudo isto deve ser difcil para si. Amar algum e depois perd-lo  uma dor que nunca 
desaparece, no ?
Ele acenou bruscamente com a cabea e fez o caminho de volta, pela colina abaixo.
Como Falco dissera, Cosima estava  espera dela no olival, com um cesto de comida na mo. Alba sentiu-se mais bem-disposta ao ver aquela figurinha, ao longe, pacientemente 
 sua espera, de p e ao sol. Mal a criana a viu, disse-lhe adeus muito excitada e Alba retribuiu e estugou o passo, feliz por deixar o melanclico Falco sozinho 
com as suas sombras.
Alba sugeriu que voltassem ao ponto de vigia. No s porque era extraordinariamente bonito, mas tambm porque queria estar perto da oliveira retorcida onde a me 
estava sepultada. Cosima esperou que Alba fosse a casa buscar o papel e os lpis. Quando regressou, deu-lhe a mo.
- O que  que tens no cesto? - perguntou Alba, espreitando l para dentro.
- Mas, panini com mozzarella e tomate e bolachas.
- Delicioso. Que banquete!
- No comes assim to bem em Inglaterra? - perguntou Cosima inocentemente.
-  claro que no. Itlia  to famosa pela sua comida como pela beleza do campo, da arquitectura e da lngua.
- A srio? - disse, franzindo o nariz. - Da lngua?
- Absolutamente! Devias ouvir algumas das outras lnguas. So horrveis, como acordes dissonantes. O italiano  como uma msica magnificamente tocada
- Eu no gosto nada de ouvir a Eugenia a tocar flauta... Fere-me os ouvidos.
- Ento agradece o facto de ela falar italiano quando no est a tocar!
Instalaram-se ao lado do ponto de vigia e Cosima comeou a comer uma ma. Alba abriu o bloco de papel e ps um lpis entre o polegar e os outros dedos. No sabia 
por onde comear: cabea, cabelo ou olhos. Sentou-se e observou a criana durante um longo momento. No eram tanto as suas feies que sentia a necessidade de captar, 
mas sim a expresso que elas continham. A expresso de Cosima era angelical e maliciosa, assim como ligeiramente imperiosa. No entanto, com a boca cheia de ma, 
tinha as bochechas inchadas como as de um esquilo.
- s boa a fazer isso? - perguntou a menina, em voz abafada, mastigando alegremente.
- No sei. Nunca desenhei antes, pelo menos como deve ser.
- Se ficar bem, posso ficar com ele?
- S se ficar bem. Se ficar mal, vai parar ao fundo do mar.
- Como este caroo de ma - disse Cosima, atirando-o o mais longe que conseguiu, mas este acabou por cair sobre a rocha.
- Boa tentativa.
- No gosto de me chegar  beirinha. Posso cair.
- Isso seria uma pena.
- Porque  que falas italiano? - perguntou Cosima, tirando um panino do cesto.
- Porque a minha me era italiana.
- A tua me era minha tia-av. Foi o pap que me disse.
- Sim, era.
- Morreu.
- Sim, infelizmente, morreu antes de eu a poder conhecer. O meu pai voltou a casar-se.
- Gostas da tua nova me?
- Nem por isso. Ningum consegue ser como a nossa me verdadeira. Ela sempre foi boa comigo, mas acho que gostava mais de ter o meu pai s para mim.
- Eu tenho o meu pai s para mim - disse Cosima cheia de orgulho, alisando o seu novo vestido cor-de-rosa.
- Tens muita sorte. O teu pai  um homem bom e gosta muito de ti. - Enquanto falavam, a mo de Alba comeou a desenhar. No se concentrou, limitou-se a deixar o 
lpis vaguear pelo papel. - Deves ter saudades da tua me - disse, e o rosto de Cosima ficou srio, de repente.
- No me parece que volte - disse ela com um suspiro e, depois, acrescentou com vivacidade - Tambm no importa, pois no?
- Sabes, quando eu era criana, nunca ningum falava sobre a minha me. Isso deixava-me muito triste porque no permitiam que me recordasse dela. Muitas vezes, o 
mundo dos adultos pode parecer confuso. Pelo menos, para mim, era confuso. Queria ter a certeza de que ela me amava e que a sua morte no tinha nada a ver comigo. 
No queria sentir que ela me tinha deixado. A tua me teve boas razes para se ir embora, mas no porque quisesse deixar-te a ti. Imagino que soubesse que no te 
podia levar com ela. Era melhor para ti ficares aqui, com a tua famlia. Deve sentir muito a tua falta.
Cosima pensou sobre isso, com uma expresso solene, que no era boa para o retrato.
Alba parou de desenhar.
- Como  que  a tua me?
O rosto da menina iluminou-se novamente e Alba voltou a pousar o lpis no papel.
-  muito bonita. Gosta de usar o cabelo apanhado em cima. Tem o cabelo comprido e brilhante. Eu tambm gosto de usar o meu apanhado em cima. Acho que sou parecida 
com ela. Pelo menos,  o que toda a gente diz. Costumava contar-me histrias antes de eu ir para a cama, para eu no ficar assustada. No gostava quando ela gritava 
com o pap. E ele tambm no. Mas, comigo, nunca gritou!
-  claro que no. Os adultos gritam uns com os outros pelas razes mais ridculas, sobretudo os italianos - disse Alba, desenhando-lhe os olhos. Cosima tinha olhos 
rasgados, como os de Toto. Eram de um castanho cor de mel, muito suave.
-  boa cozinheira - prosseguiu Cosima e, depois, riu-se. - O pap dizia que ela cozinhava o melhor risotto de cogumelos de toda a Itlia. - Fez uma pausa e, a seguir, 
acrescentou com ligeireza - Nunca me comprou trs vestidos.
Alba levantou os olhos do desenho.
- Ia ficar muito impressionada com esses, no achas?
- Havia de me escovar o cabelo e lavar-me a cara.
- Sim, no vale a pena usar coisas bonitas se a cara e o cabelo no estiverem arranjados.
- Tens filhos?
Alba sorriu e abanou a cabea.
- No sou casada, Cosima.
- Mas podias casar com o Gabriele - disse Cosima, rindo-se maliciosamente.
Alba foi apanhada de surpresa.
- Quem  que te contou sobre o Gabriele?
- Ouvi o av a falar com o pap.
- Eu no conheo bem o Gabriele - disse. - Encontrei-o em Sorrento e ele trouxe-me para aqui no barco dele.
- O pap disse que podias telefonar-lhe e convid-lo para vir c.
- Ah, sim?
-  bonito?
- Muito.
- Ama-lo?
Alba riu-se com as suas perguntas inocentes.
- No, no o amo. - Cosima pareceu ficar desapontada. - Amo um homem chamado Fitz. Mas ele no me ama.
- Ento, eu c esquecia esse Fitz. Aposto que o Gabriele te ama.
- O amor  uma coisa que vai crescendo, Cosima. Ele mal me conhece - disse, sombreando os cabelos com o lpis.
- Se quiseres, ele pode vir connosco num dos nossos piqueniques. Depois, j podes casar com ele.
- Quem me dera que a vida fosse assim to simples - disse Alba com um suspiro, sentindo a falta de Fitz.
- Sabes? Estou quase a fazer sete anos - chilreou Cosima, comeando a estar cansada de posar para o retrato.
- Ests muito crescida!
- vou usar um dos meus vestidos novos - disse alegremente. E vou puxar o cabelo para cima, como a mam.
Quando Alba terminou, segurou o bloco  sua frente, para estudar o desenho  distncia. Estava bastante bom. Isso surpreendeu-a, pois Alba nunca tinha sido boa em 
nada, a no ser a fazer compras. Cosima foi por trs dela e respirou pesadamente sobre o seu ombro.
- Est genial! - exclamou.
- Est genial, no est?
- No vais deit-lo ao mar, pois no?
- No me parece.
- Posso ficar com ele?
Alba sentia alguma relutncia em separar-se dele.
- bom, est bem - concedeu. - Se me deres um panino...
Desceram a colina at  oliveira.
-  aqui que a minha me est sepultada - disse para Cosima. Era estranho pensar que ela estava debaixo dos seus ps, o mais prximo que tinham estado desde h vinte 
e seis anos.
- Ela no est a! - exclamou Cosima. - Est no Cu!
- Tambm gosto de pensar que ela l est! - disse, mas, secretamente, pensou que o esprito de Valentina pairava na casa, entre as velas e altares e o memorial em 
que Immacolata transformara o seu quarto.
Enquanto Alba descia o caminho em direco  vila, tendo deixado Cosima em casa, com os seus animais e o retrato para mostrar  famlia, deu consigo a pensar novamente 
em Fitz. Ainda ps a hiptese de lhe telefonar. Estava muito animada, depois do piquenique com Cosima, a quem se comeava a sentir extraordinariamente apegada. A 
beleza que a rodeava era de cortar a respirao. A luz da tarde era rosada e nostlgica e o seu corao ansiava por amar. Quem lhe dera que ele estivesse ali, para 
pr os braos  volta dela e beij-la daquela forma to ntima. Achava que agora no se iria sentir to embaraada. Talvez lhe telefonasse naquela noite; no fim 
de contas, qual era a pior coisa que podia acontecer?
Quando chegou  trattoria, foi cumprimentada por Lattarullo, que estava sentado sozinho, a beber uma chvena de caf forte. Tinha a camisa com ndoas de gordura 
e o cabelo despenteado, levantado em tufos grisalhos. Convidou-a a sentar-se ao p dele.
- Deixe-me pagar-lhe uma bebida para lhe dar as boas-vindas a Incantellaria. - disse, fazendo sinal ao empregado. - O que  que vai tomar?
Embora Alba quisesse estar sozinha para vaguear pela vila onde a me crescera, no teve outro remdio seno aceitar a oferta.
- Pode ser um ch - disse, sentando-se.
- Muito britnico - riu-se ele, fungando e passando as costas da mo pelo nariz.
- Bem, no fim de contas, eu sou inglesa - replicou friamente.
- No parece nada inglesa, a no ser nos olhos. So muito estranhos.
Ela no sabia se havia de tomar aquilo como um elogio. Mas Lattarullo, que gostava de ouvir o som da prpria voz, prosseguiu:
- So muito claros. Uma estranha tonalidade de cinzento,  quase azul. - Inclinou-se para ela e o seu hlito a cheirar a caf envolveu-a numa nuvem malcheirosa. 
- Diria que so violeta. A sua me tinha olhos castanhos.  igualzinha  sua me.
- Conhecia-a bem? - perguntou Alba, decidindo que, j que tinha de suportar aquele hlito e as observaes inoportunas, ao menos podia ser que conseguisse alguma 
coisa em troca.
- Conhecia-a desde pequena - disse orgulhosamente.
- Ento como  que ela era?
- Um pequeno raio de sol.
No ajuda muito, pensou Alba. Ele e Immacolata tinham o hbito de falar sobre Valentina por meio de clichs.
- Como  que foi o casamento dela? - perguntou.
Esta, pelo menos, era uma pergunta que ainda no fizera. Lattarullo franziu o sobrolho.
- Casamento? - repetiu, olhando-a desconcertado.
- Sim, o casamento dela. - Por um momento, pensou que era capaz de se ter enganado na palavra. - Sim, a altura em que se casou com o meu pai...
- No houve casamento - disse ele num sussurro.
O corao de Alba parou.
- No houve casamento? Porqu?
Ele olhou-a longamente e o seu rosto fazia lembrar os peixes embalsamados pendurados nas paredes dos pubs ingleses.
- Porque ela morreu.
O rosto de Alba ficou lvido. Valentina no chegara a casar-se com o pai?
- O acidente de carro aconteceu antes do casamento? - perguntou ela lentamente. No admirava que o pai no quisesse que ela fosse a Itlia.
- No houve nenhum acidente de carro, Alba. A Valentina foi (assassinada...


CAPTULO VINTE E TRS

BeechfieldPark, 1971

Depois do assassnio de Valentina, Thomas jurou a si mesmo que ia pr as memrias daquele tempo terrvel num ba, fech-lo  chave e atir-lo para o fundo do mar, 
como o afundamento de uma embarcao que contm os corpos dos mortos. Durante anos, resistira  macabra tentao de o encontrar, abrir o cadeado e remexer nos restos 
ferrugentos. Margo salvara-o das sombras negras que habitava e trouxera-o, a piscar os olhos, meio desnorteado, para um mundo de luz e amor, embora fosse um tipo 
de amor diferente. Ele nunca esquecera o ba fechado, mas a sua memria s o atormentava em sonhos. Nessa altura, Margo estava l para lhe passar a mo tranquilizadora 
pela testa e o ba foi intencionalmente abandonado no lodo crescente do fundo do oceano. Ele tinha tido a esperana de que, quando morresse, o ba se afundasse no 
lodo e nunca mais ningum o visse.
No contara com a determinao de Alba em mergulhar nessas guas. Durante anos, esforara-se por mant-la em terra firme. Mas ela encontrara o retrato, a chave para 
o ba, e sabia que havia algures um cadeado onde ela encaixava na perfeio. Tinha orgulho na sua inteligncia e uma parte dele admirava a sua determinao; era 
a primeira vez em toda a sua vida que demonstrara fora de vontade. Mas ele temia por ela. Alba no fazia a mais pequena ideia do que estava naquele ba e que, uma 
vez aberto, nunca mais podia ser fechado. Iria saber a verdade e teria de viver com ela, at talvez tivesse de reescrever o seu prprio passado.
Agora, Thomas no tinha alternativa seno tirar o ba do mar, limpar o lodo e o coral que crescera  sua volta e voltar a abri-lo. S de pensar nisso sentia a pele 
arrepiar-se e ficar fria. Acendeu um cigarro e serviu-se de um brandy. Perguntou a si mesmo se Alba teria encontrado Immacolata. Se ela ainda estaria viva. Talvez 
Lattarullo tambm l estivesse, quem sabe reformado, a tagarelar como sempre, sem se importar em saber se algum o estaria a ouvir. Pensou em Falco e Beata. O Toto 
j era um adulto agora, talvez at j tivesse filhos. Depois da morte de Valentina, eram capazes de ter decidido que viver naquele lugar s lhes traria infelicidade... 
Alba era capaz de nunca os encontrar. Esperava, para bem dela, que regressasse com a imaginao pura e inocente, pois, embora nunca lhe tivesse mentido, tambm nunca 
corrigira a sua prpria verso pueril da verdade. No lhe contara que no tinha chegado a casar com a me dela, nem que esta tinha sido assassinada na noite anterior 
ao casamento. No fim de contas, ele tinha feito isso por ela. Estava a proteger o mundo seguro que construra para ela viver. Se descobrisse a verdade, ser que 
ia compreender? Alguma vez lhe perdoaria?
Expelindo baforadas de fumo, recostou-se na cadeira de pele. Margo andava l fora com os cavalos e ele estava sozinho, com o ba aos ps e a chave na mo. S tinha 
de abrir a fechadura e levantar a tampa. No precisava de olhar para o retrato, pois o rosto dela era agora to ntido como se estivesse ali  sua frente. Mais uma 
vez, sentiu o cheiro quente dos figos envolv-lo, transportando-o de volta a Incantellaria. Era noite. Ele casava-se na manh seguinte. Tinha o corao a rebentar 
de felicidade. J se tinha esquecido da festa di Santa Benedetta e do momento desastroso em que Cristo se recusara a sangrar e tinha ignorado as estranhas palavras 
de Valentina. Agora, ps a chave no cadeado, levantou a tampa e recordou-as, reflectindo no seu significado.
Precisamos da bno de Cristo. Eu sei como obt-la. vou tratar de tudo, vais ver.

Itlia 1945

Naquela noite, Thomas sentiu-se muito agitado. No conseguia dormir na trattoria, pois o ar estava quente e pegajoso, apesar da brisa que soprava, vinda do mar. 
Vestiu umas calas e uma camisa e andou de um lado para o outro na praia, de mos nos bolsos, a pensar no futuro. A vila estava silenciosa. S o gato desgarrado 
rastejava suavemente atravs das sombras,  procura de ratos, de barriga junto ao cho. Os barcos azuis que haviam sido arrastados para a areia tinham agora uma 
cor carregada, na semiobscuridade. Era noite de lua cheia, o cu estava escuro e pejado de estrelas cintilantes que se reflectiam nas ondas como pedras preciosas. 
Lembrou-se das suas aventuras durante a guerra, que pareciam agora to distantes, e sentiu um momento de culpa pelo facto de a sua famlia ter sido excluda do casamento. 
Mas ele ia levar Valentina e Alba para casa e surpreender toda a gente. Tinha a certeza de que iam ador-las, como ele.
com um sorriso, pensou em Valentina. Iria exibi-la na povoao. Havia de lev-la  igreja ao domingo, como era tradio, com a pequena Alba nos braos, e toda a 
gente admiraria a sua beleza e porte. V-la-iam deslizar pela nave com aquele seu andar nico, como se tivesse todo o tempo do mundo. Convidaria o Jack para l passar 
o fim-de-semana e partilhariam um charuto e um copo de whisky depois do jantar, no escritrio. Haviam de rir sobre a guerra e sobre as aventuras que tinham vivido. 
E haveriam de se lembrar do dia em que o destino os levara at  costa de Incantellaria. Recordariam a interpretao que Rigs fizera de Pagliacci, as mulheres promscuas 
da noite e Valentina, como ela era na altura,  porta da casa de Immacolata com o seu vestido branco e semitransparente  luz do sol. Jack sentiria inveja e admirao 
por ele. Oh, Jack, pensou, enquanto vagueava pela praia, Oh, quem me dera que estivesses aqui para partilhar isto comigo.
Thomas tinha deixado os planos e a preparao do casamento para Immacolata e Valentina. Sabia que a capelinha de San Pasquale estaria adornada com jarros, as flores 
favoritas de Valentina. Sabia que o seu vestido seria requintadamente confeccionado pela idosa, mas infame Signora Ciprazzo, cujas unhas eram longas e amareladas, 
como queijo velho. Depois, haveria dana na trattoria. Imaginava que toda a vila fosse convidada. Lorenzo ia tocar concertina, as crianas beberiam golinhos de vinho 
e haveria muito riso, a guerra seria esquecida e toda a gente teria um futuro brilhante e optimista pela frente. Immacolata, Beata e Valentina andavam a cozinhar 
h dias: a marinar, a assar, a guarnecer. Os preparativos pareciam no ter fim. Era de tal forma que Thomas mal via a noiva. Ela deixava-o a tomar conta de Alba 
enquanto ia  vila fazer um recado ou comprar um enfeite para o vestido, saltando alegremente pelas rochas, dizendo-lhe adeus enquanto ia, gritando instrues em 
relao a Alba, que era difcil de contentar e mimada.
Estava desejoso de passar a noite sozinho com a mulher, para poder voltar a sentir o prazer salgado da sua pele; para poder beijar-lhe a boca, sabendo que no havia 
pressa, que no seria interrompido. Estava desejoso de fazer amor com ela; de a segurar nos braos como sua mulher. Estava desejoso que pertencessem um ao outro 
pela lei, tendo Deus por sua testemunha.
Se o Freddie estivesse vivo, o que  que ele acharia dela? Conhecendo Freddie, iria desconfiar da sua beleza e do seu sorriso. O Freddie no era uma pessoa romntica. 
Era realista. S teria casado com uma mulher que conhecesse desde sempre. Uma mulher alegre e terra-a-terra, que desse uma boa esposa e me. Ele no acreditava no 
tipo de amor que Thomas e Valentina partilhavam. Achava que aquele amor feroz e ardente era uma coisa perigosa. Agora, quando Thomas pensava em Freddie, no se retraa 
com a dor. Tinha conseguido aceitar a morte do irmo e, embora ningum o pudesse substituir, o amor de Thomas por Valentina tinha preenchido o seu corao, antes 
desolado. Mas acreditava que Freddie teria acabado por gostar dela. Era impossvel no gostar. Teria dado umas palmadinhas nas costas do irmo e admitido que ele 
era verdadeiramente abenoado, muito para alm das expectativas de um homem vulgar.
Eram trs da manh. No queria estar cansado no dia do seu casamento. Em Itlia, as festas de casamento duravam dias, por isso precisava de todas as suas foras. 
Subiu pela praia em direco  fila de edifcios que davam para o mar. No tardaria a amanhecer e as portadas azuis seriam abertas para deixar o sol entrar. Os vasos 
de gernios que adornavam as varandas seriam regados e podados e os gatos voltariam da sua caa nocturna para dormirem ali, no quentinho.
Enquanto regressava  trattoria, ouviu a msica distante, mas inconfundvel, da concertina. A voz baixa e triste de Lorenzo ergueu-se no ar abafado, entoando palavras 
de pesar e luto. As suas palavras de morte perderam-se no eco e Thomas no as percebeu.
Hoje durmo como solteiro pela ltima vez pensou alegremente. Amanh estarei casado. Ps a cabea na almofada e mergulhou num sono sereno e satisfeito.
Despertou algumas horas mais tarde com pancadas frenticas na porta.
- Tommy, Tommy!
Era a voz de Lattarullo. Sentou-se na cama, tomado por um medo glido. Abriu a porta e viu o rosto plido e desolado do carabiniere.
-  a Valentina - arfou. - Morreu.
Thomas fitou-o longamente enquanto tentava perceber o que acabara de ouvir. Talvez estivesse no meio de um pesadelo ou no estivesse convenientemente desperto. Franziu 
os olhos e abanou a cabea.
- O qu?
Lattarullo repetiu o que acabara de dizer e, depois, acrescentou:
- Tem de vir comigo.
- Morreu? A Valentina morreu? - Thomas sentiu o mundo desabar  sua volta enquanto o seu corao comeava a bater, primeiro lentamente e, depois, com uma velocidade 
assustadora. Segurou-se  ombreira da porta para se equilibrar. - Ela no pode estar morta!
- Est dentro de um carro na estrada que vem de Npoles. Temos de ir agora, antes... antes...
- Antes de qu?
- Antes do circo - disse Lattarullo.
- De que  que est a falar?
- Venha comigo. Depois vai perceber - replicou, e a sua voz era uma splica.
Thomas vestiu apressadamente as calas e a camisa que usara na noite anterior, calou os sapatos e seguiu Lattarullo at  rua, onde Falco aguardava dentro do carro. 
O rosto de Falco estava lvido e desolado. Sombras negras circundavam-lhe os olhos e estendiam-se at s faces encovadas. Os seus olhos eram frios e esquivos. Thomas 
no confiava nele. Os dois homens trocaram olhares, mas nenhum deles falou. Falco foi o primeiro a desviar o olhar, como se no conseguisse suportar o peso da suspeita 
no olhar de Thomas. Este subiu para o banco de trs e Lattarullo ps o motor a trabalhar. O carro tossiu e arquejou e, por fim, atingiu rotaes suficientes para 
arrancar. Estava a amanhecer. O sol era plido e inocente, como se no soubesse nada do assassnio brutal que trazia agora  luz do dia.
Thomas tinha imensas perguntas para fazer, mas sabia que tinha de esperar. Sentia a cabea a latejar, como se estivesse presa numa estrutura fria de metal. Queria 
ceder s lgrimas, como fizera quando soubera da morte do irmo, mas no era capaz de soltar as emoes na companhia de Lattarullo e Falco. Em vez disso, cerrou 
o maxilar e tentou respirar calmamente. O que estaria Valentina a fazer a meio da noite na estrada que vinha de Npoles? E logo na noite antes do casamento... Lembrou-se 
das suas palavras: Precisamos da bno de Cristo. Eu sei como obt-la. vou tratar de tudo, vais ver. O que queria ela dizer com aquilo? Onde  que tinha ido? Sentiu 
um n de arrependimento no estmago. Ele devia ter-lhe perguntado. Devia ter prestado mais ateno. Por fim, no conseguiu aguentar mais o suspense:
- Como  que isto aconteceu?
Falco resmungou e esfregou a testa.
- No sei.
Thomas ficou irritado.
- Por amor de Deus,  da minha noiva que estamos a falar - gritou. - Devem saber alguma coisa! O carro saiu da estrada? No h barreiras para evitar um acidente...
- No foi um acidente - acabou por dizer Falco em voz baixa. - Foi homicdio.
Quando chegaram ao local, a primeira coisa em que Thomas reparou foi no carro. Era um Alfa Romeo descapotvel cor de vinho, com os interiores em pele e nogueira. 
Estava muito bem estacionado num desvio, que dava para o mar. Quando viu a mulher que jazia no lugar do passageiro, o seu corao encheu-se momentaneamente de alegria. 
No era Valentina.  claro que no era ela. Aquela mulher tinha o cabelo apanhado no alto da cabea, diamantes a brilhar nos pulsos, dedos e orelhas e o rosto pintado 
como uma prostituta, com lpis preto nos olhos e batom carmesim. O seu pescoo tinha sido cortado com uma faca e o sangue manchara a frente do seu vestido de noite 
com lantejoulas e a estola de pele branca que lhe envolvia os ombros, como um animal abatido. As faces estavam to brancas como a estola. Ao seu lado, estava um 
homem que ele no reconheceu, elegante, com cabelo grisalho e um fino bigode igualmente grisalho. O sangue escorria-lhe pela boca e at j tinha secado no leno 
de seda cor de marfim que trazia  volta do pescoo. Thomas olhou para Falco e franziu a testa.
- No  a Valentina - comeou ele, mas, de sbito, sentiu que lhe arrancavam o corao do peito. Falco limitou-se a olh-lo fixamente.
Thomas voltou a olhar para o carro. Estava enganado. Era mesmo a Valentina, mas no a Valentina que ele conhecia.
A minha pedra favorita  o diamante. Gostava de usar um colar de diamantes para poder brilhar durante uma noite e ficar a saber como  ser-se uma senhora.
Foi nessa altura que abriu a porta do carro e caiu sobre o corpo dela a chorar, desesperado e incrdulo, sofrendo pela mulher que ele conhecia e por si prprio, 
to cruelmente trado. Agarrou-se a ela, ainda quente e macia e a cheirar fortemente a um perfume que no reconheceu. Como  que a Valentina se podia vestir assim? 
O que  que ela estava a fazer naquele carro, com aquele estranho? E logo na noite antes do casamento... Nada fazia sentido. Abanou-a, como se a pudesse despertar. 
O amor dele no era o suficiente?
Sentiu mos calosas a pux-lo de cima dela e a lev-lo dali. De repente, o carro ficou rodeado de homens que envergavam uniformes azuis e chapu. Havia carros da 
polcia parados, com as sirenes a tocar. Tambm tinha vindo a imprensa de Npoles e havia cmaras, flashes, vozes altas. No meio de todo aquele caos, comeou a chover 
e os detectives apressaram-se a cobrir a cena do crime, antes que o dilvio destrusse as provas.
Thomas foi posto de lado, como um figurante num filme. Observou, confuso, enquanto a polcia rondava o homem morto. Ningum parecia reparar em Valentina. Depois, 
viu uns homens a gesticular rudemente ao p dela, antes de romperem numa gargalhada roufenha. Percebeu que enquanto ele estava a viver um inferno de fogo e dor, 
todas as outras pessoas  sua volta estavam a comemorar. Havia sorrisos, palmadinhas nas costas, piadas. Um detective gordo, de casaco comprido, esfregou as mos, 
antes de acender um cigarro a coberto do chapu, como que a dizer Muito bem, aqui j fizemos tudo, caso resolvido.
Thomas foi ter com ele, a cambalear.
- Faa alguma coisa! - gritou, com os olhos a saltar de fria.
- E o senhor ...? - replicou o detective, estudando-o com olhos franzidos e inteligentes.
- A Valentina  minha noiva! - gaguejou.
- Era sua noiva. Aquela mulher no est em situao de casar seja com quem for.
A boca de Thomas abriu-se e fechou-se como a de um homem que se est a afogar, mas no lhe saiu nada.
- No  daqui, pois no, signore? - continuou ele. - A mulher no tem importncia para ns.
- Porqu? Ela foi assassinada, por amor de Deus!
O detective encolheu os ombros.
- Ela estava simplesmente no local errado  hora errada! - disse.
- Bonita rapariga. Cbe peccato!
Enquanto a chuva caa, ensopando-lhe o cabelo e escorrendo-lhe para os olhos, Thomas foi aos tropees at Falco e agarrou-o pelo colarinho da camisa.
- Tu sabes quem fez isto! - sibilou.
Os grandes ombros de Falco comearam a tremer. A estrutura frrea que o segurava comeou a amolecer e ele dobrou-se para a frente, abraando-se a si mesmo. Thomas 
ficou espantado ao ver um homem daqueles, com um fsico to poderoso, a chorar daquela forma e sentiu-se surpreendentemente aliviado, comeando tambm ele a soluar 
como uma criana. Agarraram-se um ao outro, ali  chuva.
- Eu tentei dizer-lhe para no ir! - gemeu Falco. - Mas ela no me deu ouvidos.
Thomas no conseguiu falar. A desolao deixara-o sem flego. A mulher com quem ia casar tinha amado outro o tempo todo e pagara por isso com a vida. Libertou-se 
do abrao de Falco e vomitou para o cho. Algum cortara a garganta suave e delicada de Valentina com uma faca. A brutalidade do homicdio, a sangue frio, deixava-o 
enlouquecido de angstia. Quem quer que tivesse roubado o futuro de Valentina, tambm o tinha privado do seu.
Tentou imaginar o seu rosto doce, mas s conseguia ver a mscara que jazia no banco da frente do Alfa Romeo. A mscara da estranha que vivera uma vida paralela, 
sobre a qual ele nada sabia. Enquanto continuava debruado sobre o cho, a nvoa comeou a dissipar-se:
A guerra reduz os homens a animais e transforma as mulheres em criaturas indignas... No quero que cometa os erros que eu cometi na minha vida... Tu no me conheces, 
Tommy.
Ela estava desesperada para que a levassem de Incantellaria. Era s isso que ele era para ela? Um bilhete para uma nova vida, onde pudesse comear de novo e deixar 
os seus comportamentos srdidos e indignos para trs?
Sentiu uma mo nas costas e virou-se para ver Lattarullo de p ao seu lado,  chuva.
- Eu nunca cheguei a conhec-la, pois no? - disse, olhando desolado para o carabiniere.
Lattarullo encolheu os ombros.
- No  o nico, Signor Arbuckle. Nenhum de ns a conhecia.
- Por que razo se comportam como se ela no tivesse importncia? - perguntou, pois a polcia continuava atarefada em redor do morto, como vespas  volta de um pote 
de mel.
- No sabe quem ele , pois no?
- Quem  ele? - Thomas pestanejou inocentemente. - Quem diabo  ele?
- Ele, meu amigo,  o diabo. Lupo Bianco.
Mais tarde, quando Thomas regressou  trattoria como um sonmbulo, reuniu os retratos que desenhara de Valentina. O primeiro era uma ilustrao da sua virtude e 
mistrio, desenhado na manh seguinte  festa di Santa Benedetta, nos penhascos junto ao ponto de vigia, mais bonita do que a madrugada, mas, como reflectia agora, 
igualmente efmera. O segundo era uma ilustrao da maternidade. Captara na perfeio a ternura da sua expresso, enquanto observava o seu beb a mamar. O amor pela 
filha era genuno e puro. Talvez at a tivesse surpreendido a ela, pela sua intensidade. Remexeu as coisas  procura do terceiro, mas depois lembrou-se que Valentina 
o levara para sua casa.
A casa de Immacolata estava to imvel e silenciosa como um tmulo. A velha viva estava sentada no meio das sombras, erguendo um altar para a filha, para acompanhar 
os dois que j fizera para o marido e filho. Tinha os olhos fixos na tarefa com uma resignao inexpressiva. Quando Thomas se acercou dela, falou numa voz suave:
- Chamam-me viva porque perdi o marido, mas o que serei agora que perdi dois filhos? No h palavra para isso porque  demasiado terrvel para articular. - Fez 
o sinal da cruz. - Esto junto de Deus.
Thomas queria perguntar-lhe se ela sabia sobre a vida dupla de Valentina, mas a velha senhora parecia to frgil ali sentada, no meio do seu inferno privado, que 
no teve coragem de lhe perguntar.
- Gostava de ver o quarto da Valentina - disse ele, em vez disso. Immacolata anuiu, muito sria.
- Ao cimo das escadas, do outro lado do patamar,  esquerda.
Ele deixou-a com as suas velas e cnticos e subiu as escadas at ao quarto que Valentina ainda ocupava na noite anterior.
Quando entrou no pequeno quarto, as portadas estavam fechadas, as cortinas corridas, a camisa de noite branca sobre a cama, preparada para a noite. Sobre o toucador, 
havia escovas e frascos usados recentemente. Sentiu um n na garganta e dificuldade em respirar quando o quarto se encheu com o aroma de figos. Deixou-se cair na 
cama e encostou a camisa de noite ao rosto, inalando a sua fragrncia.
Encontrar o retrato em falta tornou-se uma obsesso. Abriu todas as gavetas, procurou por entre as roupas no guarda-vestidos, debaixo da cama, sob os lenis e tapete, 
em todo o lado. No deixou uma nica coisa no quarto por revirar. No estava l.


CAPTULO VINTE E QUATRO

Itlia, 1971

Alba desculpou-se e deixou Lattarullo, mal tendo tocado no seu ch. O carabiniere reformado viu-a ir-se embora, espantado por ela desconhecer as terrveis circunstncias 
da morte da me. A violncia daquilo tudo continuava a afect-lo no presente. Pensava muitas vezes nisso. Valentina tinha sido a personificao da beleza e da graciosidade, 
apesar do mundo secreto que habitava. Era apenas uma questo de tempo at que um jornalista metedio vasculhasse a sua histria e a publicasse no Il Mezzogiorno. 
Lorenzo acrescentou mais alguns versos  balada que compusera, sobre premonio, homicdio e o submundo de uma mulher to bonita como um campo de violetas silvestres. 
Tinha-a cantado todas as noites; a sua voz dorida ecoara por toda a vila at toda a gente a saber de cor e Valentina transcender a memria normal das coisas para 
se transformar em lenda. As suas pegadas delicadas estavam espalhadas por toda a vila. Pouca coisa mudara desde a sua morte. Tudo o fazia lembrar-se dela e, s vezes, 
em noites de lua cheia, pensava v-la escapulir-se a uma esquina, com o tecido branco do vestido a captar o luar e a sua imaginao. Valentina fora como um arco-ris, 
que parece consistente  distncia, mas desaparece no momento em que nos aproximamos. Um silfo impossvel, um arco-ris delicado - o seu assassnio s servira para 
a tornar mais misteriosa.
Alba subiu as rochas a correr at  casa de Immacolata, com o corao disparado. O pai tinha-lhe mentido, a madrasta fora conivente, at Falco e Immacolata tinham 
escondido a verdade. Achavam que ela era alguma simplria? Tinha o direito de saber tudo sobre a sua me. Pensou em Fitz e em Viv; nem mesmo eles teriam imaginado 
uma coisa destas...
Os ps escorregaram-lhe nas rochas e esfolou o joelho, comeando a sangrar. Prauejou em voz alta, mas sacudiu-se e continuou, determinada a arrancar toda a verdade 
a Falco. Quando chegou  casa, Beata estava debaixo das rvores, a ler para Cosima. A menina estava aninhada na av, a chupar o polegar.
- Onde est o Falco? - perguntou Alba.
Beata levantou os olhos do livro. Ao ver o rosto rosado de Alba e os seus olhos vtreos, o rosto ensombrou-se-lhe e ficou tensa, como um animal que pressente o perigo. 
Cosima observou a prima com uma expresso sria.
- Est no limoal - disse, e ficou a observar enquanto Alba se apressava a descer o caminho e desaparecia por entre as rvores.
- A Alba est zangada? - perguntou Cosima. Beata deu-lhe um beijo na testa.
- Parece que sim, cosima. No te preocupes, prometo que vai voltar a sorrir.
Alba correu por entre os limoeiros at encontrar Falco. Quando ele a viu, largou o carrinho de mo e preparou-se. Receara isto desde o momento em que a vira chegar.
- Por que raio no me disse que a minha me tinha sido assassinada? - gritou ela, pondo as mos nas ancas. - Quando  que me ia contar? Ou no fazia tenes de me 
contar, tal como o meu pai?
- O teu pai s te quer proteger, Alba - disse ele bruscamente, avanando pelo pomar em direco aos penhascos.
Alba seguiu-o.
- Ento quem  que a assassinou?
-  uma longa histria.
- ptimo. Tenho o tempo que for preciso para a ouvir.
- Vamos sentar-nos num lugar mais tranquilo.
- Quero a verdade, Falco. Tenho o direito de saber.
Falco enfiou as mos nos bolsos.
- Tens realmente o direito de saber. Mas no  agradvel, vers. No se trata simplesmente de a tua me no ter vivido o tempo suficiente para casar com o teu pai, 
nem de a sua vida lhe ter sido tirada de forma to brutal. Isso  apenas a ponta do icebergue. Vem, vamos sentarnos aqui - disse, sentando-se debaixo da rvore onde 
o corpo de Valentina estava sepultado. Alba sentou-se ao lado dele, de pernas cruzadas, e virou os olhos para ele, impaciente.
- Ento, por que razo foi assassinada?
O seu tom de voz era superficial, como se estivesse a falar da personagem de um romance e no de uma pessoa de carne e osso, muito menos da sua me...
As feridas no corao de Falco, que nunca tinham chegado a sarar, voltaram a abrir e aguilhoaram-no.
- Ela foi morta com uma faca na garganta. - Traou uma linha com o dedo sobre o prprio pescoo e viu as faces coradas de Alba ficarem lvidas. - Tinha estado em 
Npoles com o amante, o abjecto chefe da mfia, Lupo Bianco.
- Lupo Bianco? Quem  ele? - interrompeu Alba. - No posso acreditar que tenha arranjado um amante na noite antes de se ir casar com o meu pai.
- Ela j era amante de Lupo Bianco h algum tempo.
- Ento, quem era ele?
- Provavelmente, o homem mais poderoso de todo o sul. Eu tinha-o conhecido quando era mido, amos  pesca juntos. J nessa altura gostava de ver sofrer. Primeiro 
peixes, mais tarde pessoas. Importava-se pouco com a vida. Era procurado pela polcia por crimes terrveis. Escorregadio como uma enguia, nunca ningum conseguiu 
imputar-lhe a culpa do que quer que fosse. Lucrou imenso com a guerra. Fez milhes atravs da extorso, do crime organizado e at do homicdio. Escondia o dinheiro 
todo em contas bancrias secretas que nunca foram descobertas. Quem quer que o tenha morto fez um favor  polcia, embora tenha desencadeado uma rixa terrvel entre 
o sucessor de Lupo, Antnio II Morocco, e a Camorra napolitana. Uma rixa por causa dos preos do atum, que ainda hoje continua.
- O meu pai sabia?
- Descobriu na manh em que ela morreu.
- Pobre paizinho! - suspirou. - Nunca percebi.
- Ela jazia morta dentro do carro de Lupo Bianco, cheia de peles e diamantes. Foi um choque terrvel para ele. Mas no me surpreendeu. Eu compreendia a Valentina 
melhor do que ningum. No era m pessoa, era fraca, s isso. Era linda e gostava de coisas bonitas. Gostava de ateno, intriga e aventura. Queria ir embora de 
Incantellaria; era demasiado inteligente para um lugar pequeno como este. Era como um pssaro que nunca tinha podido abrir completamente as asas. Aqui, sentia-se 
diminuda. Podia ter brilhado em Roma, Milo ou Paris, at na Amrica. Era demasiado excepcional para ser compreendida por esta gente simples. Mas, acima de tudo, 
gostava de amor. Era uma pessoa solitria. Parecia um pote de mel vazio, sempre  espera que os outros a enchessem. Mas era uma sobrevivente, e astuciosa como uma 
raposa. No te esqueas que era tempo de guerra. - Abanou a cabea e o cabelo forte e encaracolado caiu-lhe para os olhos. - Talvez devesse ter tentado impedi-la 
com maior determinao, mas tinha as minhas prprias batalhas para travar.
- Ento ela no amava o meu pai? - perguntou Alba num fio de voz.
Falco tocou-lhe ternamente no brao.
- Acho que s depois dele se ter ido embora  que percebeu que o amava. A seguir, descobriu que estava grvida e tu, Alba, foste a sua maior alegria. - Alba baixou 
os olhos e fixou-os na relva  sua frente. - Certificou-se que se alimentava de forma saudvel, to saudvel quanto possvel em tempo de guerra. Graas s suas ligaes 
com Lupo Bianco e outros, obtinha comida no mercado negro e um americano fornecia-lhe os medicamentos de que precisava.
- Continuou essa relao enquanto estava grvida de mim?
Ele no disse nada. Ela mordeu a pele  volta da unha, com ar pensativo.
- Nasceste em casa, assistida pela minha me e por uma parteira. A partir da, ela guardou-se para o teu pai. Tinha planos, percebes? Ia viver em Inglaterra e ter 
uma famlia. Ia ser uma pessoa respeitvel, uma senhora! O teu pai tinha-lhe contado sobre a grande casa onde iam viver. Estava toda excitada. Assim que nasceste, 
nada mais lhe interessava, a no ser tu e o teu pai. Quando ele voltou, s tinham olhos um para o outro e para ti. Sentavam-se debaixo das rvores no jardim e ficavam 
a ver-te dormir. Eras a sua obsesso. Ele desenhava-a e conversavam. Mas ela no lhe contou nada sobre os seus segredos. No queria estragar as coisas. Tentei convenc-la 
a contar-lhe a verdade. Tinha a certeza de que, se ele a amasse mesmo, ia querer lev-la daqui para um lugar seguro, onde pudesse cuidar dela.
- Ento, mas por que razo foi assassinada?
Falco fez uma pequena pausa e fixou o mar. O seu rosto tornou-se duro e, de repente, o olhar pareceu ficar sombrio e perturbado.
- Discuti muito com ela nos ltimos dias. Disse-lhe que ela tinha de lhe contar a verdade. Ela no me deu ouvidos. Quando queria, a Valentina era to teimosa como 
uma mula. Havia uma parte dela que era forte e determinada. Tinha ar de quem no fazia mal a uma mosca, mas por debaixo daquela capa anglica estava por vezes uma 
mulher dura e egosta. Foi ento que ela teve a ideia ridcula de ser sincera com o amante. Como se, pelo facto de lhe contar os seus planos, pudesse de alguma forma 
redimir-se aos olhos de Deus. Isto porque a esttua de Cristo no tinha chorado.
- A famosa festa di Santa Benedetta, j sei tudo sobre isso - disse Alba. - A minha me encarou isso como um mau pressgio?
- Era muito supersticiosa. Acreditava que isso no augurava nada de bom para o casamento e para o futuro dela. Foi a Npoles para contar a Lupo Bianco que ia sair 
de Itlia.
- Vestida com peles e diamantes?
- Digamos apenas que se vestiu para a ocasio, Alba. Ela era uma actriz - disse, com um ricto de amargura nos lbios. - J me tenho perguntado se no ter querido 
divertir-se uma ltima vez...  sua maneira, talvez tambm amasse o Lupo Bianco. Ou talvez esta ltima aventura no tivesse nada a ver com superstio...
- Ela teria arriscado tudo s por isso? - disse Alba, chocada.
- A Valentina? com certeza! Era s mais um papel que desempenhava, talvez aquele de que mais gostava. Ela no voltaria a ser aquela pessoa porque agora ia ser uma 
senhora. Talvez a tentao fosse demasiado grande para lhe conseguir resistir.
- Ento ela foi assassinada porque estava no lugar errado  hora errada?
- Foi o que a polcia disse. Foi morta porque viu quem matou Lupo Bianco. Sabia de mais.  to simples quanto isso.
Alba abanou a cabea, incrdula.
- Se ela no tivesse sado naquela noite, hoje estaria viva...
- Agora que sabes a verdade, com certeza que percebes por que razo o teu pai te escondeu tudo. No dia em que ela morreu, jurou que havia de proteger-te dos horrores 
do seu passado. E fez o que estava certo - disse, apertando-lhe a mo.
Alba sentou-se frente ao espelho, no pequeno quarto de Valentina. Olhou para o seu reflexo, a imagem da sua me. Desde que soubera a verdade, percebera que era exactamente 
como ela. No s fisicamente, como nos defeitos. E ela que acreditara que a me era um modelo de virtude, um anjo, e se considerara indigna dela. Desprezara a sua 
vida vazia e errtica e a sua imoralidade de gato vadio. Quanto mais reflectira na perfeio da me, mais imperfeita se tornara, sabendo que nunca a poderia igualar. 
Contudo, durante todo esse tempo, o pai devia ter visto a vida que ela levava e pensado como era parecida com a me. Devia ter-se sentido desesperado.
E quanto  Margo? Alba estava cheia de vergonha. A Margo sabia a verdade e tinha querido proteg-la dos pormenores srdidos do passado da me. S tinha tentado dar-lhe 
um bom lar e uma famlia slida. Alba afundou a cabea entre as mos, enquanto reflectia agora na sua falta de tacto ao entregar o retrato de Valentina ao pai, esperando 
que ele se sentasse junto  lareira e lhe contasse histrias encantadas sobre a mulher cuja vida secreta tinha tido to pouco encanto. Chorou ao pensar na dor que 
lhe provocara ao longo dos anos, ao remexer, como tantas vezes fizera, na ferida em carne viva que Valentina lhe deixara no corao.
O que  que Fitz pensaria dela agora? No era melhor do que a me tinha sido. Fitz merecia algum melhor, altrusta, no uma pessoa como ela e como a sua me. Agarrou 
numa tesoura e comeou a cortar o cabelo.
Observou, em transe, enquanto as madeixas caam sobre o toucador, primeiro de forma dispersa e, depois, em montes densos. Ela tinha muito cabelo. Depois de lhe ter 
retirado o comprimento, concentrou-se em acert-lo  volta da cabea. No lhe interessava o aspecto que tinha. J no queria ser bonita. J no queria manipular, 
seduzir, fazer dos homens seus escravos. Queria que as pessoas a julgassem por aquilo que era, e no pela sua beleza superficial e imerecida. Tal como Valentina, 
queria comear de novo. Ao contrrio de Valentina, tinha essa oportunidade.
As palavras do Gordo vieram-lhe novamente  cabea, para a aterrorizar: Se me chupar o dito, pago-lhe a viagem de regresso, e corou como se ele tivesse acabado de 
pronunci-las. Em poucos dias, toda a sua vida ficara virada do avesso. As coisas em que acreditara tinham deixado de ser verdade. Olhava para si prpria de forma 
diferente. Moveu a cabea, ao espelho, e avaliou a sua nova imagem. Tal como uma cobra, largara a sua antiga pele e sentia-se renovada e libertada. Agora, ningum 
podia dizer que se parecia com a me e tambm ningum comentaria a sua beleza. Sorriu diante do seu reflexo e limpou o rosto com uma toalha. Depois, desceu para 
ir ter com Immacolata.
Quando Cosima a viu, guinchou de espanto.
- A Alba cortou o cabelo todo, nonna!
Beata entrou em casa, vinda do jardim, e Immacolata veio do salotto.
Alba estava de p, ao fundo das escadas, com o cabelo curto, espetado e assimtrico, mas com um porte que no tinha antes.
- O que  que fizeste ao teu lindo cabelo, minha filha? - perguntou Immacolata, indo ao seu encontro.
- Eu acho que ela est linda! - disse Cosima, com um sorriso. Como um duende.
Immacolata dirigiu-se devagar ao altar de Valentina e agarrou no retrato. Sentou-se cuidadosamente e bateu com a mo no sof, para que Alba se sentasse ao p dela.
- Estiveste a falar com o Falco - disse, muito sria. - Escuta, Alba, a tua me era um monte de contradies. - Apesar de tudo, tinha um grande corao e amava-vos 
muito, a ti e ao teu pai.
- Mas ela enganou-o. Tinha um amante.
Immacolata pegou na mo da neta.
- Minha filha - disse ela suavemente. - Como  que tu podes compreender o que  viver com guerra? As coisas eram muito diferentes, nessa altura. Havia fome, morte, 
barbrie, desespero, impiedade, todo o tipo de males. Valentina era vulnervel. A sua beleza tornava-a vulnervel. Eu no podia proteg-la dos soldados, nem podia 
escond-la. Partilhar a cama de um homem importante e poderoso era a nica forma de garantir a sobrevivncia, tens de perceber isso. Pensa nela no contexto da poca 
em que viveu. Tenta!
Alba fitou o rosto que o pai desenhara to cegamente.
- O Falco disse que ela amava o meu pai.
- E amava, Alba. No a princpio. Eu encorajei-a, disse-lhe que podia fazer muito pior do que casar com um oficial ingls refinado e bem-parecido. Mas ela apaixonou-se 
por ele sozinha.
- Ento, sempre soube?
-  claro que sim. Conhecia a Valentina melhor do que a mim mesma. O amor de uma me  incondicional, Alba. A Valentina tambm te amava. Se te tivesse visto crescer, 
ter-te-ia amado, apesar dos teus defeitos. Talvez at ainda mais por causa deles. A Valentina no era nenhum anjo, nem nenhuma santa, era um ser humano falvel, 
como todos ns. O que a tornava diferente era a sua capacidade de se transformar. Mas se houve algum que se aproximou da verdadeira mulher, esse algum foi o teu 
pai, porque fez dela me e isso retirou-lhe todo o fingimento. O seu amor por ti era puro e no premeditado.
- No sou melhor do que ela era, nonna - disse Alba. - Foi por isso que cortei o cabelo. No quero ser ela, no quero ser bonita como ela. Quero ser eu!
Immacolata passou a mo trmula pela face de Alba, olhando as suas feies com os olhos marejados de lgrimas.
- Continuas bonita, Alba, porque a tua beleza vem daqui de dentro - e comprimiu o punho fechado contra o prprio peito. - A beleza da tua me tambm vinha da.
- O meu pobre pai estava apenas a tentar proteger-me.
- Estvamos todos. O teu pai teve razo em levar-te para Inglaterra. Por mais que nos custasse, fez o que estava certo. No teria sido saudvel crescer debaixo de 
uma sombra to sinistra. Toda a gente sabia do homicdio, s se falava nisso. Os jornais estavam cheios de histrias sobre o affair da Valentina. Era retratada como 
prostituta. No houve um nico artigo que mencionasse o seu corao to grande e to cheio. No houve um nico que mencionasse o que ela dava, apenas o que tirava. 
Teria sido mau para ti viveres com isso. Cresceste ignorante e livre. Agora, voltaste com idade suficiente para lidar com a verdade. Perdi os primeiros vinte e seis 
anos da tua vida, mas sacrifiquei-os de boa vontade, sabendo que estavas em segurana.
Agora, foi a vez de Alba tomar as mos da av nas dela.
- Est na altura de a deixar partir - disse, com os olhos a cintilar de emoo. - Est na altura de a libertar. Sinto que o seu esprito continua a pairar aqui nesta 
casa, lanando uma sombra negra e desditosa sobre todos ns.
Immacolata pensou por um momento.
- No posso livrar-me deste altar - protestou.
- Pode, sim senhora, e deve! Vamos apagar as velas, abrir as janelas e record-la com alegria. Sugiro um servio religioso na capelinha, como forma de celebrao. 
Vamos fazer uma festa e proporcionar-lhe uma ptima despedida.
Apesar das lgrimas, Immacolata ficou entusiasmada.
- O Falco pode partilhar as suas memrias. As boas. Ludovico e Paolo podem vir e ficar c com as suas famlias. Podemos comer no jardim, fazer um banquete.
- Vamos dar-lhe uma lpide como deve ser e plantar flores. !
- Os jarros eram as suas flores favoritas.
- E violetas tambm ficariam bem. Violetas selvagens. Muitas. Vamos fazer com que fique tudo maravilhoso!
O rosto de Immacolata desabrochou.
- s to sensata, Alba. Nunca poderia imaginar que a tua vinda nos fosse mudar tanto!
Naquela noite, a famlia reuniu-se no salotto. Cosima deu a mo a Alba, Beata deu a dela ao filho e Falco ficou sozinho com os seus pensamentos. Immacolata agarrou 
na vela de Valentina com mos trmulas. A chama estivera acesa desde a manh da sua morte, h vinte e seis anos. Mesmo quando a cera derretia toda, acendia-se outra 
na mesma chama para a substituir. Nem por uma vez, Immacolata deixara que a vela se apagasse.
Murmurou uma longa orao e fez energicamente o sinal da cruz. Passou os olhos pela sua famlia, pousando-os no filho mais velho.
- Est na altura de esquecer o passado - disse, sem tirar os olhos dele. - Est na altura de deixar a Valentina partir. - Depois, apagou a vela com um sopro.
Ficaram todos muito quietos, a olhar para o pavio fumegante. Ningum falou. Depois, uma rajada de vento fresco abriu a janela, levantando o retrato de Valentina 
da parede e levando-o pelo ar, por um momento, at o deixar cair no cho, onde ficou, virado para baixo. O ar encheu-se de um cheiro forte e inconfundvel a figos. 
As mulheres sorriram. Depois, o cheiro desapareceu, substitudo pelo odor comum da maresia.
- Ela foi para a luz! - anunciou Immacolata. - Est em paz.
Ainda nessa noite, quando Alba foi para a cama, notou de imediato que o ar no quarto j no tinha o peso do esprito perturbado de Valentina, nem o seu perfume. 
A janela estava aberta e o ar fresco da noite entrava juntamente com o rugido distante do mar. Parecia estar vazio, como qualquer outro quarto, como se as prprias 
memrias tivessem desaparecido. Sentiu-se exultante. Sentou-se na cama e revolveu a gaveta,  procura de uma folha de papel e de uma caneta. Depois, comeou uma 
carta para o pai.
Estava precisamente a assin-la, no final da pgina, quando a porta do quarto se abriu com um rangido. Era Cosima, em camisa de noite, segurando nas mos uma velha 
boneca de trapos.
- Ests bem? - perguntou-lhe, reparando no rosto ansioso da criana.
- Posso dormir contigo esta noite?
A pequena cerimnia que tinham realizado em memria de Valentina tinha-a assustado, pensou Alba. Ajudou a menina a meter-se na cama e, depois, comeou a despir-se.
- Costumava esgueirar-me para aqui para ver as roupas da Valentina - disse Cosima, animando-se com a perspectiva de no ter de dormir sozinha.
- A srio? - Alba estava espantada. No imaginava que a criana soubesse grande coisa sobre Valentina.
- Eu no devia. A nonna dizia que era sagrado. Mas eu gostava de tocar nos vestidos dela. So to bonitos, no so?
- Pois so. Devia ficar linda com eles.
- Tambm gosto da caixa de cartas, mas esto escritas em ingls, por isso no as percebo.
Alba olhou espantada para a prima.
- Que cartas? - Sentiu o corao acelerar ao pensar na possibilidade de descobrir as cartas que o pai enviara  me.
- Ali, no guarda-roupa.
Alba franziu o sobrolho. J tinha vasculhado os armrios minuciosamente.
- Mas eu j procurei l!
Cosima ficou contente por divulgar um segredo. Abriu a porta do guarda-roupa, puxou os vestidos para o lado e retirou uma das tbuas que faziam o fundo. Alba caiu 
de joelhos e viu, incrdula, enquanto Cosima tirava para fora uma pequena caixa de carto. Ansiosas, atiraram-se as duas para cima da cama para a abrirem.
- Tu s uma grande marota, Cosima! - exclamou Alba, beijando-a. - Mas adoro-te por isso.
Cosima corou de prazer.
- A nonna ia ficar muito zangada! - disse ela a rir.
-  por isso que no lhe vamos contar nada.
Alba sentiu o mesmo frmito de excitao que sentira quando encontrara o retrato debaixo da cama. Agarrou no papel. Era grosso e branco e, quando o abriu, viu o 
endereo gravado a preto no cimo da pgina. No era um endereo ingls e a caligrafia, clara e precisa, tambm no. Alba sentiu o sangue fugir-lhe do rosto.
- Ento? - insistiu Cosima.
- Est em alemo, Cosima - disse com firmeza.
- A Valentina gostava de uniformes alemes - redarguiu Cosima alegremente.
- Como  que sabes?
Ela encolheu os ombros.
- Foi o pap que disse.
Alba olhou para a carta. Era suficientemente inteligente para perceber que era uma carta de amor. A julgar pela data, tinha sido escrita mesmo antes do pai ter chegado 
a Incantellaria pela primeira vez. Virou a pgina. Estava assinada in Ewige Liebe - com amor eterno. O nome gravado no topo da pgina era Oberst Heinz Wiermann.
Valentina no tinha tido um amante, mas sim dois. Talvez mais. Quando os Aliados invadiram, os alemes tinham ido para o norte e perdido o poder. Nessa altura, o 
coronel Heinz Wiermann j no lhe servia para nada.
Alba voltou a pr as cartas na caixa. No suportava olhar para elas.
- Acho que no devemos ler a sua correspondncia privada. Alm disso, eu no falo alemo. - Cosima ficou desapontada. - Estou cansada. Vamos para a cama. Tens mais 
alguma surpresa? - perguntou-lhe.
- No - disse Cosima. - Uma vez, pintei a cara com a maquilhagem dela.  tudo!
Alba enfiou a camisa de noite e saltou para a cama, para o lado da prima. Fechou os olhos e tentou dormir, mas suspeitava que tinha apenas arranhado a superfcie 
de um mistrio muito maior. A sua me teria mesmo sido uma espectadora inocente na disputa da mfia sobre os preos do atum? Alm disso, nada seria estranho num 
lugar onde as esttuas sangravam e onde apareciam cravos na praia, como que por magia. Mas se Valentina no fora uma espectadora inocente, ento quem  que a teria 
assassinado e porqu?


CAPTULO VINTE E CINCO

Londres, 1971

O incio do Vero era a estao favorita de Fitz. As folhas nas rvores ainda estavam verdes e novas, a flor desaparecera, mas as ptalas brancas do espinheiro negro 
brilhavam  luz do sol da manh. Os canteiros de flores eram uma exploso de cor, mas ainda no tinham atingido a exuberncia mxima. Estava calor, mas no demasiado, 
e os trinados ecoavam pelo parque. O ar vibrava com vida depois do frio inerte do Inverno. Aquilo costumava encher-lhe a alma e contagiar-lhe o passo, de forma que 
parecia mais saltar do que caminhar. Mas, sem Alba, no saltou. Deambulou por Hyde Park e nem mesmo as flores e as rvores cheias de rebentos o comoveram. O Inverno 
persistia nos seus ossos e no seu corao.
Pensava muitas vezes nela entre os ciprestes e o laburno, com o rosto incendiado pelo sol poente italiano, transformando-o numa suave sombra rosa-mbar. Imaginava-a 
rodeada pela sua famlia italiana, a desfrutar de demorados banquetes de massa com tomate e mozzarella e de tardes lnguidas entre as oliveiras, passando despercebida 
com o seu cabelo negro e pele morena; s os seus olhos claros e luminescentes traam o facto de ser uma estranha no meio deles. Ele sabia que ela ia gostar de falar 
a lngua, de provar a comida, de apreciar as fragrncias dos eucaliptos e pinheiros, de ouvir o canto dos grilos e de se estender sob o quente sol mediterrnico. 
Tinha a esperana de que, passado algum tempo, o seu esprito ansiasse por regressar a casa, e at por regressar a ele.
Tentou concentrar-se no trabalho. Organizou a digresso literria de Viv em Frana e, durante os quinze dias em que ela esteve fora, sentava-se no paredo do Tamisa, 
perto do barco-casa de Alba, com Sprout, a olhar e a recordar, cheio de saudades, grato por Viv no estar em casa para fazer troa dele. Viv dizia que Alba era petulante, 
indulgente consigo mesma, promscua, egocntrica - a lista continuava indefinidamente, como se ela estivesse a exibir o seu conhecimento das palavras, como um dicionrio 
humano.
Talvez Alba fosse todas essas coisas. Fitz no era cego em relao aos seus defeitos, mas amava-a, apesar deles. O seu riso era leve e com bolhinhas, como espuma, 
o brilho dos seus olhos malicioso, como uma criana que pressiona para ver at onde  que pode ir, e a sua confiana uma concha atrs da qual se escondia. Quando 
imaginava que estava a fazer amor com ela, sentia um n no estmago, com as saudades. Lembrava-se dos tempos frenticos no Valentina, do tempo malicioso nos bosques, 
em Beechfield, do tempo terno em que ela era incapaz de se descontrair, quando a inibio a tolhera, pois Alba no tinha receio de gritar; ela tinha receio de sussurrar, 
no fosse dar-se o caso de ouvir, durante esse momento de intimidade, o eco solitrio do seu corao. Aquilo que Viv no percebia era que ele a compreendia.
Viv regressou da digresso revitalizada e com um bom humor dos diabos. Tambm parecia ter-lhe tirado anos de cima. Brilhava como uma chaleira areada, to boa como 
se fosse nova. Os seus olhos cintilavam e as faces resplandeciam, o estado da sua sade era vigoroso, chocantemente vigoroso. Fitz no a via assim to bem h anos... 
Quando comentou isso, ela limitou-se a sorrir-lhe discretamente, disse que tinha comprado um novo creme facial em Paris e, depois, desapareceu. Nada de telefonemas, 
nem noites de bridge, nem jantares com vinho francs barato; apenas um profundo silncio. S havia uma explicao: ela tinha encontrado um amante em Frana. Fitz 
ficou com cimes, no porque a quisesse para si, mas porque ela tinha encontrado o amor quando ele perdera o seu. Sentiu-se mais sozinho do que nunca.
Depois, numa noite quente do final de Agosto, estava a afogar lentamente as mgoas num pub, em Bayswater, sentado c fora num banco, por baixo de uma fonte de gernios 
vermelhos, quando uma bonita jovem o abordou:
- No se importa de dividir a mesa comigo, pois no? - perguntou ela. - Estou  espera de uma amiga e isto est completamente cheio.
-  claro que no. Faa favor - replicou, afastando o rosto do copo de cerveja
- Oh, o co  seu? - indagou, ao ver Sprout debaixo da mesa.
- Sim, . Chama-se Sprout.
Os seus olhos amendoados iluminaram-se e ficaram da cor do xerez.
- Que nome adorvel. O meu  Louise.
- Fitz - disse, apertando-lhe a mo.
Ambos se riram com aquela formalidade absurda. Louise sentou-se e colocou o copo de vinho sobre a mesa, depois inclinou-se para fazer festas a Sprout, que abanou 
alegremente a cauda, de forma que esta bateu no cho e fez levantar uma pequena nuvem de poeira.
- Oh, ele  mesmo querido! - exclamou ela, voltando a endireitar-se.
Tinha cabelo castanho comprido, preso por uma fita amarela e, quando Fitz passou os olhos pelo seu pescoo e ombros, viu que era graciosa, com seios fartos e pele 
branca e sedosa.
- Ele j  velhote - acrescentou Fitz com um sorriso terno. Fazendo a converso dos anos de co, j deve ter para a uns sessenta anos.
- bom, ele  muito bonito! - replicou ela. Sprout sabia que estavam a falar sobre ele e espetou as orelhas. - Tal como os homens, os ces envelhecem bem!
- O mesmo acontece a algumas mulheres - disse Fitz, percebendo que estava a ser atiradio. Afinal, ainda era capaz disso.
Louise corou e esboou um sorriso largo. - Olhou  sua volta, presumivelmente  procura da amiga, e depois voltou-se de novo para Fitz.
- Est sozinho?
- Bem, no completamente.
-  claro, tem o Sprout.
- Estou sozinho, este  o meu local.
Ele no queria que ela pensasse que era um daqueles bbedos tristes que se sentavam sozinhos em pubs e que voltavam a cambalear para casa, para os seus apartamentos 
sujos e desleixados e para as suas vidas fracassadas.
-  ptimo morar por aqui, perto do parque.
- Sobretudo para o Sprout...
- Eu vivo em Chelsea. Estou  espera da rapariga com quem vivo - disse, olhando para o relgio. - Est sempre atrasada. Nasceu atrasada, acho eu...
Riu-se e baixou os olhos.
Fitz reconheceu a sua timidez como um sinal de que ela se sentia atrada por ele.
- Eu tinha uma namorada, mas ela deixou-me o corao destroado - disse com um suspiro, consciente do jogo tortuoso em que se estava a meter.
O rosto dela expressava agora simpatia.
- Sinto muito.
- No vale a pena, isto h-de passar.
H algumas coisas que mulheres como Louise acham irresistveis: um homem com o corao destroado, uma criana ou um co. No caso de Fitz, tinha duas dessas trs. 
Louise deixou de olhar  sua volta  procura da amiga.
Fitz desabafou as suas mgoas, consolando-se com o facto de ela ser uma estranha e no saber nada da sua vida. Ela escutou, intrigada, e quanto mais escutava mais 
se sentia atrada por ele, como uma pessoa  beira de um vulco, que no consegue resistir  tentao de espreitar e ver a lava vermelha e dourada a borbulhar. Ele 
pediu mais bebidas e, depois, mandou vir o jantar. A amiga dela no apareceu, o que foi um alvio, pois quanto mais cerveja Fitz bebia, mais atraente Louise se tornava. 
Sentia-se melhor por ter descarregado os seus pensamentos e tambm mais leve, agora, que a Alba j no os povoava.
s dez horas, era quase noite.
- O que  que faz, Louise? - perguntou, percebendo que no tinha feito perguntas sobre ela durante toda a noite.
- Trabalho para uma agncia de publicidade.
- Que emocionante! - replicou, fingindo interesse.
- Nem por isso. Sou secretria, mas espero ser promovida em breve a gestora de contas. Eu tenho crebro e gostava de us-lo.
- E deve faz-lo. Onde  que trabalha?
- Em Oxford Street. Este pub tambm  quase o meu local!
- Quer ficar comigo esta noite? - sugeriu ele, subitamente srio. - Amanh de manh, pode vir a p para o trabalho.  muito melhor do que estar sentada num autocarro, 
presa no trnsito.
- Adorava - respondeu, e Fitz ficou admirado com a facilidade com que ela cedera. Pelos vistos, no tinha perdido o jeito...
- O Sprout vai ficar contente - disse ele com um sorriso. - H muito tempo que no estava to perto de uma rapariga bonita.
Foram a p para casa dele. O ar estava pesado e hmido; no tardaria a chover. Ele deu-lhe a mo e soube-lhe bem senti-la dentro da sua. Ela riu-se nervosamente 
e brincou com o cabelo que lhe caa sobre o ombro.
- No fao isto muitas vezes - disse. - Ir para casa de estranhos.
- Eu no sou um estranho. Agora, j nos conhecemos. Alm disso, pode sempre confiar num homem que tem um co.
- S no quero que pense que sou alguma maluca! Dormi com muito poucos homens. No sou uma dessas raparigas cheias de amantes.
Fitz pensou em Alba e voltou a sentir-se angustiado, de repente. Quando a conhecera, ela j tinha tido um exrcito de amantes. A prancha que levava  sua porta estava 
gasta com as idas e vindas dos pretendentes e, agora, as suas pegadas estavam perdidas sob as deles.
- No penso que o seja, mas tambm no ia pensar mal de si, se o fosse...
-  o que todos dizem.
- Talvez, mas eu estou a falar a srio - disse, encolhendo os ombros. - Porque  que as mulheres no ho-de dormir com uns e outros, como os homens?
- Porque ns no somos como os homens. Devemos ser modelos de virtude, assentar com um homem e dar  luz os seus filhos. Ser que algum homem vai querer casar com 
uma mulher que j teve muitos homens?
- No vejo por que razo no h-de querer. Se eu a amasse, queria l saber com quantos homens  que ela tinha dormido...
- Tem uma mente muito aberta - disse ela, olhando-o de lado, admirada. - A maior parte dos homens que eu conheo quer casar com virgens.
- Mas que egosmo da parte deles. No me parece que faam muito para que as raparigas se mantenham nesse estado, pois no?
J em casa, encheu dois copos de vinho e levou-a at  sala de estar, no andar de cima. Era pequena, masculina, decorada em bege e preto, com soalho de madeira e 
paredes brancas. Ps um disco a tocar e sentou-se ao lado dela, no sof. O caminho para voltar a casa tinha-o deixado deprimido. Quem lhe dera no a ter convidado! 
At Sprout sabia que no tinha sido boa ideia.
Mesmo assim, o melhor era continuar. Bebeu o vinho de um trago e beijou-a. Ela correspondeu, com entusiasmo. A novidade de beijar uma pessoa nova excitou-o um pouco. 
Desabotoou-lhe a blusa e f-la deslizar sobre os ombros. Os seus seios estavam contidos num grande suti branco. Depois, sentiu a mo dela abrir-lhe o fecho das 
calas e deslizar l para dentro e no tardou a ficar revigorado, esquecendo os seios demasiado grandes no prazer do seu toque.
Deitaram-se no sof, que era fundo e confortvel. Louise retirou a mo e desapareceu do seu ngulo de viso para o pr na boca. Fechou os olhos e deixou-se invadir 
pela sensao quente e vibrante da excitao, esquecendo-se de Alba uma vez mais. Louise podia no ter dormido com muitos homens, mas no havia dvida de que era 
experiente. Fitz tinha encontrado uma caixa antiga de preservativos no armrio da casa de banho, aquelas coisas horrveis que o privavam praticamente de qualquer 
sensao, mas, neste caso, sabia que era mais prudente usar um. Louise abriu a embalagem com os dentes, olhando-o com ar coquete, sob as suas pestanas castanhas, 
e depois enfiou-lho no pnis como se estivesse a calar uma meia.
Ela montou-o, levantando a saia e escarranchando-se sobre ele, com os seios nus, brancos e pesados,  luz tnue da sala de estar. Ele fechou os olhos, para no ver 
os mamilos castanhos que balouavam em frente do seu rosto, batendo-lhe de vez em quando no nariz ou lbios, e tentou concentrar-se em manter a ereco. Deve ser 
da cerveja, pensou, ao sentir o membro a murchar lentamente. Por mais que tentasse, Louise no foi capaz de o estimular. com uma tosse embaraada, deixou-o escapar-se, 
como uma minhoca.
- No faz mal - disse ela amavelmente, saindo de cima dele.
- Desculpe, deve ser da cerveja - explicou Fitz, envergonhado. Aquilo nunca lhe tinha acontecido antes.
- Claro! Eu no me importo. Beija maravilhosamente bem!
Ele forou um sorriso, vendo os enormes seios regressar ao seu suporte.
- Quer que lhe chame um txi? - perguntou, sabendo que se devia ter oferecido para a levar de carro a Chelsea.
Envergonhado, no conseguia suportar ficar com ela um momento mais do que o necessrio. Queria-a fora de sua casa, assim que possvel. Queria esquecer que a conhecera. 
Para que  que me dei a este trabalho?, pensou, infeliz, enquanto ela vestia as cuecas e se sentava para calar os sapatos. Ningum se compara com a Alba.
Quinze minutos mais tarde, o txi chegou e o motorista tocou  campainha. Aqueles quinze minutos tinham sido agonizantemente embaraosos. Louise refugiara-se nos 
comentrios aos livros nas estantes e ele nem sequer tinha tido energia para lhe dizer que os livros eram o seu trabalho. Para qu incomodar-se, se a relao morrera 
antes de ter comeado? Acompanhou-a l abaixo e inclinou-se para lhe dar um beijo na face; quando o fez, ela virou a cabea e a sua boca beijou antes a sua orelha. 
Depois, ela foi-se embora. Ele fechou a porta e trancou-a, antes de subir as escadas para apagar as luzes da sala e desligar a msica. Mas que fiasco!
Sprout estava deitado a dormir no tapete, com um ar muito querido, com os olhos fechados e com o focinho todo enrugado e quentinho. Fitz inclinou-se e encostou o 
rosto  cabea do co. Tinha um cheiro familiar e reconfortante.
- Temos saudades da Alba, no ? - sussurrou. Sprout no se mexeu. - Mas temos de seguir em frente. No h alternativa. Temos de nos esquecer dela. H-de aparecer 
outra pessoa...
O focinho de Sprout comeou a contorcer-se durante o sono, sem dvida  caa de um coelho pelo campo. Fitz deu-lhe umas palmadinhas ternas e depois foi para a cama.
Quando acordou, de manh, ficou aliviado ao ver o seu pnis alerta, orgulhoso e majestoso.
Estava no escritrio quando o telefone tocou. Tinha dificuldade em concentrar-se. O tabuleiro de entrada estava cheio de documentos que exigiam a sua ateno: contratos 
para ler, manuscritos dos seus autores e de outros com esperana de virem a ser representados, cartas para escrever, documentos para assinar e uma lista de telefonemas 
para fazer, to longa como a sua secretria. Ele via o monte a crescer cada vez mais, com a cabea a centenas de quilmetros de distncia, debaixo dos ciprestes, 
na costa de Amalfi. Pousou a caneta e agarrou no auscultador.
- Fitzroy Davenport.
- Querido,  a Viv.
A sua voz estava ensonada.
- Ol, desconhecida...
- No te zangues, Fitzroy. Desculpas uma raposa velha?
- S se te puder ver.
-  por isso que estou a telefonar. Vens jantar hoje a minha casa?
- Est bem.
- ptimo, querido. No vale a pena trazeres vinho. Ofereceram-me uma caixa de Bordeaux, do mais caro. Ontem  noite, bebi meia garrafa sozinha,  uma maravilha! 
Escrevi uma cena de sexo deliciosa sob o seu efeito,  uma coisa que nunca mais acaba. Deliciosa...
Fitz franziu o sobrolho. A Viv soava mais a "Viv" do que era normal.
- Ento at logo - disse ele, acabando com a conversa. Quando desligou o telefone, sentiu-se mais animado. A Viv estava de volta; tinha tido saudades dela. com energia 
renovada, agarrou no primeiro documento que estava no tabuleiro e colocou-o em cima da secretria,  sua frente.
Fitz e Sprout apareceram no barco-casa de Viv um pouco antes das oito horas. O seu telhado estava agora cheio de relva e flores. As papoilas, replantadas, tinham 
crescido  vontade em pinceladas de carmesim e as margaridas e os rainnculos amarelos acenavam as suas pequenas cabeas na brisa que varria o Tamisa. Recordou com 
admirao divertida a cabra a mastigar toda a relva e flores recm-plantadas. Alba tinha uma mente engenhosa, isso nem mesmo Viv poderia negar. O Valentina assemelhava-se 
agora a uma concha triste e vazia. As flores tinham morrido, o convs precisava de ser lavado, a tinta estava a comear a descascar. Parecia seco e bao, como que 
a precisar desesperadamente de uma bebida. Alba tinha ido embora e o Outono chegara cedo ao barco.
Quando Viv abriu a porta, viu-o a olhar melancolicamente para a casa de Alba.
- Oh, querido - disse ela com um suspiro, agitando o cigarro no ar. - Ainda no melhoraste?
- Como ests? - perguntou ele, desviando a pergunta porque, vindo de Viv, seria demasiado doloroso responder.
- Tenho tanta coisa para te contar. Entra!
Ele seguiu-a atravs dos aposentos, at ao convs. Deixou-se cair numa espreguiadeira e ps os braos atrs da cabea.
- bom, onde  que estiveste e que histria  essa de sexo e mais sexo?
Era bom v-la. Parecia to radiosa como um pssego fresco e escandalosamente contente consigo mesma.
- Estou apaixonada, querido. E logo eu! O meu corao foi-se! - disse, fazendo um gesto com a mo, no ar. - Estou fascinada, Fitzroy, como uma das minhas heronas.
- Eu logo vi que estavas com demasiado bom aspecto. Quem  ele? vou gostar dele?
- Vais ador-lo, querido!  francs...
- Da o vinho.
- Exactamente.
- Graas a Deus! Agora, j te posso dizer que o teu vinho era mesmo pssimo!
- Eu sei, mas era sempre demasiado mesquinha para comprar do bom. Achava que sabia tudo ao mesmo. Estava enganada,  claro. Desculpas-me por te ter feito beb-lo? 
- perguntou, enchendo-lhe um copo de Bordeaux e entregando-lho orgulhosamente. - O Pierre tem o seu prprio chteau na Provena. Eu vou para l escrever.  to tranquilo... 
Longos almoos de foiegras e brioche.
- Este  do bom, Viv - disse Fitz, surpreendido. - Sim senhora! Ele tem bom gosto em matria de vinho...
- E de mulheres - interps Viv, brincalhona.
- Naturalmente. O que  que ele faz?
- Ele  um gentleman, querido. No faz nada. No  pessoa defazer seja o que for.
- Que idade tem ele?
- A minha, o que para ti  velho. Mas tem um corao jovem, como eu, e faz amor como um rapaz com cem anos de experincia.
Fitz sorriu-lhe afectuosamente. Havia qualquer coisa de agarotado nela, que no estava l antes.
- Estou muito feliz, Fitzroy - disse ela um pouco timidamente. E tambm quero que sejas feliz.
Fitz inalou o ar quente do Vero e desviou o olhar.
- Estou a fazer por isso - disse.
- Tenho estado a pensar... Porque  que no hs-de ser impulsivo? Vai a Incantelaria e tr-la de volta.
- Mas tu eras totalmente contra isso. Disseste...
- No interessa o que eu disse, querido. Olha para ti. Ests a perder o brilho e eu detesto ver os teus olhos assim.
- Assim, como? - perguntou com um sorriso.
- Tristes, desesperadamente tristes, como os de um coelho.
- Oh, por amor de Deus!
- O que  que tens a perder?
- Nada.
- Precisamente. Nada. Deus s ajuda aqueles que se ajudam a si prprios. Como  que sabes que ela no est sentada numa praia algures, a ansiar por ti? Arrependida 
da separao que, se bem me lembro, foi por uma razo muito tola! Se fosse eu que estivesse a escrever o guio, o que posso muito bem fazer, mandava imediatamente 
o meu heri para Incantellaria. Ele havia de chegar ansioso, com o corao na boca, a rezar para que ela no tivesse casado com um prncipe italiano qualquer durante 
o Vero. Encontr-la-ia sozinha, sentada no cimo do penhasco, a olhar ansiosamente o mar, na esperana de ver o homem que ama e que nunca deixou de amar. Quando 
o v, fica demasiado feliz para ser orgulhosa. Corre para os seus braos e beija-o. Penso que vo passar muito tempo a beijar-se, porque, nesta altura, as palavras 
no so suficientes para exprimir o que lhes vai nos coraes. - Deu uma passa no cigarro. - Desesperadamente romntico, no achas?
- Quem me dera que fosse verdade.
- Pode ser.
- Vale a pena correr o risco, no ? No fim de contas, tal como disseste, o que  que tenho a perder?
Ela levantou o copo na direco dele.
- Tu sabes que eu gosto muito da Alba.  exasperante, mas no h ningum to divertido ou encantador como ela. Talvez consigas limar aquelas arestas. Ela  uma felizarda 
se ficar contigo!  que Fitz tambm s h um! Estou apaixonada, por isso sinto-me generosa. Havia de garantir que o livro tinha um final feliz!



O TERCEIRO RETRATO


CAPTULO VINTE E SEIS

Itlia, 1971

Quando o esprito de Valentina seguiu, finalmente, o seu caminho, houve uma mudana na casa. Mais extraordinria, contudo, foi a mudana em Immacolata. Os vestidos 
do seu passado saram dos roupeiros: rosas e azuis e vermelhos, estampados com flores. Embora a moda tivesse mudado desde o tempo antes da guerra, Immacolata no 
mudara. Continuava a usar os mesmos sapatos que usara quando o marido a tirara para danar, em Sorrento. Eram pretos, com uma fivela no tornozelo. A sua cintura 
podia ter alargado, mas os ps no; continuavam to pequenos e delicados como a sua figura de outrora. O ressurgimento da sua antiga aparncia suscitou a troa de 
Ludovico e Paolo, que tinham voltado do norte com as famlias, para a missa em memria de Valentina e para a colocao da lpide. E Immacolata abriu o sorriso rasgado 
de uma mulher que saboreia a alegria pela primeira vez, em muitos anos, to surpreendida quanto os outros pelo facto de a arte do sorriso, tal como o andar de bicicleta, 
uma vez aprendida, nunca se esquecer.
Alba tambm gostava da sua nova imagem, que tinha sido alvo de muitos comentrios. Cortar o cabelo fora uma expresso dramtica de repulsa por si mesma, mas transformou-se 
numa manifestao externa da sua prpria evoluo emocional. Agora, era forada a avaliar a sua vida e a sua falta de sentido. Queria fazer parte do tecido da comunidade. 
Queria ser til.
Quando as celebraes da vida de Valentina terminaram e as famlias de visita regressaram s suas casas, Alba perguntou a Falco se podia ajudar na trattoria.
- Quero trabalhar - explicou, durante o almoo, por baixo do toldo, observando as idas e vindas dos barquinhos de pesca azuis.
Falco bebericou o seu limoncello. Os seus olhos continuavam solenes.
- Dava-me jeito uma ajuda, se estiveres a falar a srio - replicou.
- Eu estou a falar a srio. Quero ficar aqui com todos vs. No quero voltar ao meu eu antigo e  minha vida antiga.
Ele olhou para ela.
- De quem andas tu a fugir, Alba?
As suas palavras apanharam-na de surpresa. Ficou tensa.
- No ando a fugir de ningum. Mas gosto da pessoa que sou aqui. Tenho um sentimento de pertena.
- No o tinhas em Inglaterra?
Alba baixou os olhos.
- No consigo encarar o paizinho agora, no depois daquilo que descobri. Muito menos consigo encarar a Margo, a quem acusei toda a minha vida de ter cimes da Valentina. 
E tambm no sou capaz de encarar o Fitz.
- Fitz?
- O homem que me ama, ou amava. Ele no merece algum como eu. No sou uma pessoa muito bonita, Falco.
- Ento j somos dois.
- Trs - corrigiu Alba. - A Valentina tambm no era. - Pensou no coronel Heinz Weirmann, mas no disse nada.
- Ela era um furaco, Alba, uma fora da natureza. Mas tu s suficientemente jovem para mudar.
- E o tio?
- Este burro  demasiado velho para aprender lnguas.
- Posso desenh-lo um dia destes? - perguntou impulsivamente.
- No.
- Porqu?
Ele pareceu pouco  vontade, como se fosse demasiado grande para a pequena cadeira.
- O teu pai era um artista, e extremamente bom!
- Eu sei. Encontrei um desenho da minha me no meu barco-casa. Ele deve t-lo escondido l h muito tempo. E tambm h aquele em que me desenhou com a minha me, 
que est com a Immacolata!
- Creio que ainda havia outro - disse Falco, olhando para o mar. - Lembro-me do teu pai procurar desesperadamente por ele no quarto da Valentina, depois da sua morte.
- No chegou a encontr-lo?
Falco abanou a cabea.
- Creio que no. Quando se foi embora contigo, deu um  minha me, para que ela tivesse alguma coisa para se recordar de ti.
- Por que razo no me trouxe c para a ver? Devia saber que ela tinha saudades da neta!
- Isso  melhor perguntares ao teu pai - disse ele, esvaziando o copo.
- Um dia, hei-de faz-lo. Mas, por agora, fico aqui convosco. Ento, sempre tenho emprego?
Falco sorriu involuntariamente. O charme de Alba era desarmante.
- Tens emprego pelo tempo que quiseres.
E assim comeou um novo captulo para Alba. De dia, trabalhava na trattoria, com Toto e Falco e, nos seus tempos livres, desenhava. Cosima, a quem se afeioara profundamente, 
ficava sempre contente por posar para ela. Sentavam-se ao entardecer no cimo dos penhascos, junto ao velho ponto de vigia, ou l em baixo, na praia de seixos, depois 
de explorarem as grutas.
 medida que os meses iam passando, Cosima comeou a olhar para Alba como uma espcie de me, dando-lhe a mo quando faziam o caminho de regresso a casa, atravs 
das rochas. De manh, subia para a cama dela e enroscava-se, aninhando a cabea encaracolada na curva suave onde o pescoo de Alba se unia ao seu ombro. Alba contava-lhe 
histrias e, depois, escrevia-as e ilustrava-as. Descobriu um talento que no sabia que tinha e tambm uma enorme capacidade de amar.
- Quero agradecer-te por gostares tanto da Cosima - disse-lhe Toto uma noite
- Eu  que tenho de te agradecer - replicou, notando que a expresso dele estava invulgarmente sria.
- Todas as crianas precisam de uma me. Ela nunca diz que sente a falta dela e nunca falmos sobre isso. Mas sei que, se sentir, ter-te por perto torna isso muito 
menos doloroso.
-  claro que sente a falta da me. Provavelmente, no quer falar sobre isso, com medo de te magoar. Ou talvez esteja demasiado ocupada a brincar para pensar muito 
nisso. Nunca se sabe. Mas talvez devesses mencion-la de vez em quando. Aquilo que me magoou por ter perdido a minha foi o facto de nunca ningum falar nela. A Cosima 
tem de ter a certeza de que a me no a rejeitou e de que a culpa no foi dela. Precisa de sentir-se amada,  tudo!
- Tens razo - disse ele com um suspiro. -  difcil saber o que  que uma criana to pequena  capaz de compreender.
- Muito mais do que possas pensar.
- Ento vais ficar por aqui durante algum tempo, no ?
Foi a vez de Alba ficar com uma expresso solene.
- No tenho inteno de me ir embora. Nunca.
Alba estava bem consigo mesma. Sentia-se feliz deitada sozinha,  noite, a ouvir o chilrear dos pssaros e o cantar dos grilos. J no tinha medo do escuro nem de 
estar sozinha. Sentia-se segura. Mas a sua mente vagueava muitas vezes at Fitz, perguntando a si mesma o que estaria ele a fazer, recordando com uma nostalgia agridoce 
os bons tempos que tinham partilhado. Mas, depois, brincava com o carto de Gabriele, passando o dedo pelo nome e pelo nmero de telefone, pensando se j estaria 
na altura de levar a sua vida para a frente e de explorar novas paisagens. Ele era bonito e atencioso. Tinha-a feito rir, apesar dos revezes que sofrera ao chegar 
a Itlia. Tinha havido uma espcie de "clique", encaixavam muito bem, como se tivessem sido recortados do mesmo pedao de madeira. Aps tanto tempo sozinha, sentia-se 
agora preparada para o amor.
Mas foi ento que o destino decidiu por ela. Era a primeira semana de Outubro e o tempo ainda estava quente,  excepo do vento ligeiramente frio que soprava do 
mar. A trattora estava cheia de gente: o turismo estava a aumentar. Tinham sido escritos artigos sobre as maravilhas secretas da vila, por isso agora os forasteiros 
paravam ali, ao descerem pela costa de Amalfi em direco a locais mais famosos, como Positano e Capri. Alba estava ocupada a anotar os pedidos e a regressar com 
bandejas de pratos fumegantes. Gostava de tagarelar com as gentes da terra e tambm gostava dos rostos novos, que ficavam sempre contentes por conversarem com aquela 
jovem adorvel, de cabelo espetado e olhos estranhamente claros. Enquanto servia as bebidas, ouviu o motor de um barco e levantou os olhos. Antes de poder identificar 
o passageiro, j o seu corao comeara a bater com mais fora. Pousou a bandeja e saiu de debaixo do toldo. com uma mo na anca e a outra a proteger os olhos do 
sol, semicerrou os olhos para ver melhor. Quando o barco abrandou no cais, esqueceu os clientes e as suas obrigaes e correu pela praia, com os olhos a arder de 
excitao.
- Fitz, Fitz! - gritou, agitando a mo no ar.
Fitz saltou para o cais, de mala numa mo e panam na outra. No reconheceu a jovem que corria na sua direco, chamando-o pelo nome.
- Fitz, sou eu, a Alba! - exclamou, notando a expresso desnorteada no seu rosto.
- Cortaste o cabelo! - disse ele, franzindo o sobrolho. - E tambm ests muito mais morena!
Fitz passou os olhos pelo seu vestido fino, com flores estampadas, e pelas simples alpercatas pretas que ela trazia nos ps. Tinha mudado tanto que ele comeou a 
pensar se teria sido sensato vir at ali. Mas, depois, o seu rosto sorridente estava  sua frente, com os olhos a brilhar de felicidade, e ele reconheceu a Alba 
que conhecia.
- Senti a tua falta, Fitz - disse ela, tocando-lhe no brao e fitando-o. - Senti tanto a tua falta!
Ele pousou a mala no cho e tomou-a nos braos.
- Eu tambm senti a tua falta, querida - disse, beijando-lhe a testa.
- Desculpa nunca te ter telefonado - comeou ela.
- No, eu  que devia pedir desculpa por no me ter despedido de ti. Tentei faz-lo, mas era demasiado tarde. J te tinhas ido embora. - Comeou a rir. - A tua cabra 
estpida estava a comer as plantas todas da Viv!
Ela tambm se riu e era um riso que lhe vinha da barriga, a borbulhar, como uma fonte deliciosa.
- A Viv ficou furiosa?
- S por um momento. Ela tambm sente a tua falta.
- Tenho tanta coisa para te contar!
- E eu a ti.
- Ficas em casa da minha av. H um quarto vago l em cima. Eu estou no antigo quarto da minha me - disse, dando-lhe o brao, enquanto ele voltava a pr o chapu 
na cabea e a agarrar na mala. - Vem beber qualquer coisa. vou dizer ao Toto para me substituir. Eu agora tenho um emprego. Trabalho no negcio da famlia com o 
meu tio e o meu primo. C est ele - disse, apontando orgulhosamente para a trattoria.
Encontrou uma mesa para Fitz e levou-lhe um copo de vinho e uma garrafa de gua.
- Tens de provar os pratos deliciosos de Immacolata - disse, puxando uma cadeira e sentando-se. -  claro que ela j no cozinha.  demasiado velha, mas as receitas 
so todas dela. Toma, escolhe uma.  por conta da casa - e passou-lhe a ementa.
- Escolhe aquilo que achares que eu gosto. No quero perder tempo a ler isso quando posso estar a falar contigo.
Ela inclinou-se para a frente, com o rosto moreno a irradiar alegria.
- Vieste! - disse ela suavemente.
- Estava com medo que no voltasses.
- Pensava que no ia ser capaz de te encarar.
- A mim? - perguntou ele, de sobrolho franzido. - Mas porqu?
- Percebi como tinha sido egosta.
- Oh, Alba!
- No, a srio! Tive muito tempo para pensar e aconteceu tanta coisa... Percebi que tinha sido pouco generosa.
- Eu no te devia ter deixado ir embora. A culpa foi minha.
-  muito querido da tua parte, Fitz, mas a verdade  que merecias melhor. Eu pensei sempre s em mim! Agora arrependo-me. H momentos na minha vida que eu apagaria 
alegremente, se tivesse essa oportunidade. - O Gordo veio-lhe  ideia, mas sem a habitual sensao de vertigem no estmago. - Estou contente por estares aqui.
- Eu tambm - disse ele, pegando-lhe na mo e acariciando a sua pele com o polegar. - Gosto do teu cabelo curto. Fica-te bem!
- Fica bem ao meu novo eu - disse ela, orgulhosa. - J no me queria parecer com a minha me.
- Ento, descobriste tudo o que querias saber?
- Cresci com um sonho, Fitz. No era real. Agora, conheo a verdadeira mulher. Era complicada. Na verdade, no acho que fosse uma pessoa muito bonita, Fitz. Mas 
acho que a amo mais agora, com todos os defeitos.
- Isso  bom. Contas-me tudo depois? Talvez pudssemos ir dar um passeio. A costa de Amalfi  famosa pela sua beleza.
- Incantellaria  mais bonito do que qualquer outro lugar. Eu mostro-te depois de comeres. Depois, tens de ir conhecer Immacolata, a minha av, e Cosima, a filha 
do meu primo. Acabou de fazer sete anos e  adorvel.
- Pensava que no gostavas de crianas.
- A Cosima  especial. No  como as outras crianas. Ela  do meu sangue.
- Meu Deus, pareces uma italiana a falar!
- Eu sou italiana. Sinto-me bem aqui, perteno aqui.
- Mas Alba, eu vim para te levar para casa!
Ela abanou a cabea.
- No creio que consiga faz-lo. No depois de tudo o que soube.
Ele apertou-lhe a mo.
- O que quer que tenhas de enfrentar, minha querida, no enfrentars sozinha. No voltarei a cometer o mesmo erro.
Os seus olhos, to solenes um momento antes, iluminaram-se ao ver o prato que estava a ser colocado  frente de Fitz.
- h, fritelle!
Depois do almoo, Alba levou-o pelo caminho atravs das rochas, para ver a sepultura da me, por baixo da oliveira.
- H um ms, rezmos uma missa em sua memria. Antes disso, no tinha lpide.  bonita, no ? Escolhemo-la todos juntos.
Fitz inclinou-se para a ler.
- O que  que diz?
- Valentina Fiorelli, a luz de Incantellaria, o amor da sua famlia, agora em paz com Deus.
- Porque  que no tinha uma lpide?
Alba sentou-se ao lado dele, pondo as pernas debaixo de si.
- Porque foi assassinada, Fitz, na noite antes do casamento. Ela nunca chegou a casar com o meu pai.
- Santo Deus!
- Isto daria um bom livro, por isso no contes  Viv!
- Est bem. Mas ento conta-me a mim. Desde o princpio. Como  que ela era?
Alba ficou feliz por lhe contar tudo.
Quando Alba acabara a sua histria, o Sol estava a comear a pr-se, transformando o mar em cobre derretido. O ar da noite era fresco e cheirava  ltima folhagem. 
O Outono comeava a instalar-se. Fitz emocionou-se com a vida de Valentina, mas, mais ainda, com a triste situao de Thomas Arbuckle. No admirava que ele no tivesse 
querido falar sobre ela, quanto mais partilh-la com a filha.
- Por isso, ests a ver - disse ela num tom grave. - No posso voltar.
- Porqu?
- Porque no vou conseguir encarar o meu pai e a Margo. Estou demasiado envergonhada.
- Mas que disparate! No disseste que amas ainda mais a tua me agora, porque conheces e compreendes os seus defeitos?
- Sim, mas isso  diferente.
- No, no . Eu no te amo apesar dos teus defeitos. Eu amo-te por causa deles. Eles tornam-te diferente de todas as outras pessoas, Alba. Amar no  seleccionar 
apenas as partes boas,  pegar em tudo e amar por atacado.
- Eu gosto de estar aqui porque ningum sabe como  que eu era antes. Aqui, julgam-me como me vem.
- Isso significa que o teu pai, a Margo e eu te amamos mais porque te ammos todo este tempo.
- Agora ests a ser pateta! - disse ela, com uma leve risada.
- No estou a ser pateta quando digo que quero que cases comigo.
Fitz no tinha inteno de fazer aquilo daquela maneira. Tinha pensado num cenrio romntico para o seu pedido de casamento.
- O que  que disseste? - perguntou ela, com os cantos dos lbios virados timidamente para cima.
Ele remexeu na algibeira e tirou um pedao de papel amarrotado. com mos trmulas, desembrulhou-o e revelou um solitrio com diamante. Agarrou-lhe na mo esquerda 
e enfiou-lho no terceiro dedo. Sem a soltar, olhou bem fundo nos seus olhos.
- Eu perguntei, Alba Arbuckle, se aceitas um agente literrio sem dinheiro, que pouco mais te pode oferecer do que o seu amor e um co velho e malcheiroso...
A antiga Alba ter-se-ia rido dele, ter-lhe-ia chamado absurdo, t-lo-ia feito sentir um tolo por perguntar aquilo. Ou ento podia ter aceite, apenas pelo prazer 
de usar um anel to requintado. Mas, agora, olhou o diamante que refulgia  luz.
- Pertencia  minha av - disse ele. - Eu queria que te pertencesse.
- Se me quiseres - respondeu Alba - terei muita sorte em casar com um homem to bom como tu, Fitzroy Davenport.


CAPITULO VINTE E SETE

Decidiram que iam passar algumas semanas em Incantellaria. Isso daria tempo a Alba para se despedir da famlia. Depois, regressariam a Inglaterra, a Viv, ao barco-casa, 
a Beechfield Park, ao pai e  madrasta, e a uma nova vida em comum.
- Havemos de voltar, no ? - disse ela, pensando em Cosima. - vou ter tantas saudades deles...
- Podes voltar sempre no Vero, se quiseres.
- O que vou eu dizer quela criana?
- Que no  um adeus.
- Ela j foi abandonada uma vez, pela me. Agora, sou eu que a vou deixar. No consigo suportar a ideia de a magoar.
- Querida, tu no s a me dela.
Alba abanou a cabea.
- Sou a coisa mais prxima de uma me que ela tem. Vai ser insuportvel.
Fitz beijou-a e afagou-lhe o cabelo.
- Se calhar, tambm vamos ter os nossos prprios filhos.
- No consigo imaginar. - No consigo imaginar que seja capaz de amar tanto outra criana como a Cosima, pensou ela tristemente. - Confia em mim. - Suspirou, resignada. 
-  que me afeioei tanto a ela...
- O mundo est a tornar-se mais pequeno a cada dia que passa. No  assim to longe, tu sabes disso!
Mas Alba sabia que Fitz no poderia compreender o amor que ela sentia por Cosima. Era o mais perto que alguma vez estivera de ser me. A separao ia deix-la destroada.
Alba levou Fitz a casa de Immacolata, para jantar. Para ele, era uma casa bonita, tipicamente italiana, acolhedora, vibrante, ecoando com o riso de uma grande famlia. 
Immacolata deu-lhe a bno e sorriu. Para Fitz, no havia nada de estranho no seu sorriso, pois no podia saber que, em tempos, tinha sido to raro como o arco-ris. 
Beata e Falco deram-lhe as boas-vindas num ingls macarrnico e Toto brincou com as diferenas entre o meio urbano, a que Fitz estava habituado, e a calma provinciana 
de Incantellaria. O ingls de Toto era surpreendentemente bom. Fitz gostou logo dele. Tinha um feitio condescendente, como o dele, e um humor sarcstico que ele 
compreendia. Quando Cosima entrou na sala, percebeu por que razo Alba gostava tanto dela. Correu a pr os braos  volta da cintura de Alba, com os caracis a balouar 
junto ao rosto, como saca-rolhas.
Quando se sentaram para jantar, Alba anunciou o seu noivado. Toto fez um brinde e todos ergueram os copos e admiraram o anel com entusiasmo. Contudo, sob toda aquela 
excitao, havia um acorde de apreenso, pois todos perceberam,  excepo de Cosima, que Alba os iria deixar.
Alba percebeu rapidamente a sua inquietao, mas no quis falar da sua partida em frente da criana. Observou Cosima a comer o seu prosciutto com gosto, a tagarelar 
sobre o que aprendera na escola, os jogos que jogara e a expectativa de ir outra vez s compras com Alba, agora que o tempo estava mais frio e os vestidos de Vero 
eram demasiado finos. Alba olhou para Beata e esta sorriu-lhe, com simpatia. Alba no foi capaz de comunicar aquilo que lhe ia nos pensamentos. Por um lado, a perspectiva 
de casar com Fitz deixava-a extremamente feliz; por outro, deixar Incantellaria e Cosima eclipsava a sua felicidade, como uma nuvem negra que passa diante do sol. 
Estava sentada  sombra, enquanto toda a gente  sua volta estava sentada  claridade.
Depois do jantar, Cosima foi para a cama, deixando os adultos a conversar  luz da lua, no terrao, por debaixo das parreiras.
- Ento, quando  que nos vais deixar? - perguntou Immacolata, e o seu tom era um pouco spero.
Alba compreendia a razo do seu ressentimento. Ainda agora tinham acabado de se reencontrar...
- No sei, nonna. Em breve.
- Ela vai voltar para vos visitar - disse Fitz, tentando aliviar a atmosfera.
Immacolata levantou o queixo, em ar de desafio.
- Isso foi o que o Tommy disse h vinte e seis anos, quando a levou embora, mas nunca a trouxe, nem uma nica vez!
- Mas agora sou eu que tomo as minhas decises. No vai ser fcil para mim deixar-vos a todos. S consigo faz-lo se souber que volto em breve.
Falco colocou a sua grande mo calejada sobre a mo pequena da me.
- Mezinha - disse ele, e a sua voz era uma splica. - Ela tem de seguir com a sua vida. Devamos estar gratos pela parte dessa vida que pudemos partilhar.
A velha senhora resmungou:
- E o que  que vais dizer  criana? Vai ficar com o corao despedaado.
- E eu tambm - retorquiu Alba.
- Ela vai ficar bem - disse Toto, acendendo um cigarro e atirando o fsforo para trs dele. - Tem-nos a ns todos.
- Faz parte de crescer - acrescentou Falco, muito srio. - As coisas no continuam sempre iguais, nem as pessoas.
- Eu digo-lhe amanh - disse Alba. - No  um adeus.
- Porque  que o Fitz no pode ficar connosco? - perguntou Immacolata, olhando para Fitz num desafio silencioso.
Fitz no precisava de falar italiano para compreender o que ela estava a sugerir e pareceu ficar constrangido.
- Porque o meu trabalho  em Londres.
Immacolata no gostava muito de Fitz. Faltava-lhe paixo.
- Fizeste a tua escolha - disse ela para Alba, levantando-se. - Mas no sou obrigada a gostar dela.
- Amanh, vou levar o Fitz quele velho castelo arruinado - observou Alba, desejosa de mudar de assunto.
Immacolata virou-se, lvida como um cadver.
- Ao Palazzo Montelimone? - crocitou, recostando-se na cadeira.
- No h nada para ver - protestou Falco, olhando de esguelha para a me.
A curiosidade de Alba foi atiada.
- Tenho querido l ir desde que aqui cheguei!  uma runa, no ? - disse, tentando perceber a comunicao silenciosa entre a av e o tio.
-  perigoso. As paredes esto a desmoronar. No deves l ir - insistiu Immacolata. - Leva-o antes a Npoles.
Alba cedeu. Fazia qualquer coisa para deixar a av feliz. Era o mnimo que podia fazer, tendo em considerao que se ia embora.
- Est bem. Vamos a Npoles - disse em ingls.
- Seja Npoles, ento - concordou Fitz, que no queria saber onde iam, desde que deixassem aquela casa.
Na manh seguinte, Alba pediu emprestado o pequeno Fiat de Toto e partiu em direco a Npoles. Estava desapontada. Tinha querido tanto ir explorar a runa. Perfilava-se 
tentadoramente na colina, atraindo o seu olhar h meses... No lhes devia ter dito que planeava l ir. Devia ter ido e pronto.
- Ests muito calada - disse Fitz, ao ver o seu rosto fechado, compenetrado na estrada  sua frente.
- No quero voltar a Npoles - replicou. - O que vi foi o suficiente.
- Podemos almoar num restaurante simptico e dar um passeio. No  assim to mau.
- No - disse ela, de repente, com uma expresso desanuviada. - vou voltar para trs. Aqui h coisa, tenho a certeza! Que outra razo haveria para no quererem que 
eu l fosse? Sinto que continuam a esconder alguma coisa. E seja l o que for, est ali naquele Palazzo!
Os pneus chiaram na estrada quente, quando Alba travou e inverteu a marcha, descendo novamente a costa. Estavam ambos cheios de entusiasmo e determinao, unidos 
numa misso, parceiros no crime.
Passado algum tempo, saram da estrada que serpenteava pela costa e comearam a subir a colina, em direco ao Palazzo. O caminho comeou a tornar-se mais ngreme 
e estreito. Pouco depois, havia um desvio para a direita. A floresta quase o tinha coberto de arbustos, espinhos e folhas e os ciprestes que o ladeavam faziam-lhe 
sombra, de forma que o carro avanava agora praticamente s escuras. Quando chegaram ao p dos portes de ferro pretos, altos e imponentes, apesar da tinta a saltar, 
ela viu que estavam fechados com um cadeado e que at isso estava ferrugento. Saram do carro e espreitaram atravs das grades, primeiro os jardins transformados 
em mato e, depois, a casa.
Uma parede inteira tinha desmoronado e jazia em runas. At as pedras cadas estavam a ser gradualmente engolidas pela hera e outras ervas daninhas. Era uma viso 
estimulante, que os impeliu a entrar. Se j tinham ido at ali, no era agora que iam dar meia volta. Alba olhou em redor e viu que, se no se importassem de ficar 
com uns arranhes, podiam passar encolhidos pelo matagal e trepar o muro. Fitz foi  frente, com os espinhos a rasgarem-lhe as calas de ganga. Depois, virou-se 
para ajudar Alba, cujo vestido curto e vaporoso era pouco apropriado para aquela expedio. Quando saltou para o outro lado, Alba sentiu uma onda de triunfo. Sacudiu 
o vestido e lambeu a mo onde a pele tinha sido rasgada.
- Ests bem? - perguntou ele. Ela fez que sim com a cabea.
- S estou um pouco nervosa em relao ao que iremos encontrar.
- Talvez no encontremos nada...
Ela franziu os olhos.
- Eu quero encontrar alguma coisa. No quero regressar a Inglaterra com tantas perguntas por responder.
- Muito bem, Sherlock, vamos embora!
Enquanto subiam pelo caminho de acesso  casa, ela ficou surpreendida com o frio. Era como se o Palazzo estivesse situado no topo de uma alta montanha, com o seu 
clima peculiar. Tinha sido um dia hmido e ela ficara cheia de calor ao subir a colina. Mas ali, nos jardins da casa, o vento era gelado e esfregou os braos para 
se manter quente. O sol estava alto no cu, mas, mesmo assim, a casa mantinha-se envolta em sombra; cinzenta, austera e deserta. No se sentia vida, nem mesmo nos 
jardins, onde conseguia pressentir o movimento da corriola a rastejar silenciosamente pelo terreno, como uma cobra perversa serpenteando entre a folhagem que j 
tratara de asfixiar.
Uma das torres tinha aludo, juntamente com a parede, e jazia no jardim como uma sentinela cada. Os aposentos expostos ao ar estavam cheios de folhas e a hera trepava 
pelos diferentes pisos, espalhando-se pelas paredes. Certamente, j teriam pilhado tudo o que ali houvesse de valor. Passaram por cima dos escombros para entrar 
no edifcio e olharam  sua volta, espantados. Conseguiam ver a tinta atravs das folhas e do musgo, azul-beb, como o sol ao amanhecer. As molduras onde a parede 
se juntava ao tecto eram muito trabalhadas, com os relevos lascados em vrios stios, como uma fiada de dentes velhos. Alba esfregou o p no cho para retirar as 
camadas de sujidade e ervas at descobrir o mrmore ainda intacto. Uma pesada porta de carvalho continuava ainda nos seus gonzos.
- Vamos entrar - sugeriu ela.
Fitz passou por cima dos destroos e descobriu que o manpulo girava com facilidade. Para sua alegria, entraram para o corpo principal da casa, onde a floresta ainda 
no conseguira penetrar.
Estava tudo muito escuro e sinistramente silencioso. Alba tinha medo de falar, no fosse o som despertar demnios ocultos nas sombras. Passado algum tempo, cada 
diviso era a rplica da anterior: vazia, nua e abandonada. Quando j estavam quase a voltar para trs, Fitz abriu um par de portas duplas, da altura do aposento, 
que davam para um salon onde se sentia uma atmosfera muito diferente. Onde os outros eram frios e hmidos, como um cadver, este vibrava com o calor de seres vivos. 
Era mais pequeno do que os outros, de forma quadrada, com uma lareira onde ainda se viam os restos do ltimo lume. Parecia ter sido usada recentemente. Em frente, 
havia uma grande poltrona em pele, roda pelos ratos. No havia mais nada, a no ser a sensao inequvoca de que no estavam sozinhos.
Fitz olhou  sua volta com um ar desconfiado.
- Vive aqui algum - disse ele. Alba levou o dedo aos lbios.
- Chhhh - sibilou ela. - Pode no gostar desta invaso de propriedade!
- Pensava que eles tinham dito que no vivia aqui ningum.
- Eu tambm!
Alba apurou os ouvidos para ver se ouvia algum som, mas nada; apenas o baque pesado do seu prprio corao. Foi at s portas envidraadas que davam para o jardim 
e abriu uma, que raspou o cho. Fitz seguiu-a at l fora. Via-se que tinha havido ali, em tempos, um terrao, embora a balaustrada tivesse rudo, tendo ficado apenas 
uma pequena parte de p. Alba raspou o p no cho at se ver a tijoleira pequena. Nessa altura, alguma coisa preta no meio da vegetao rasteira lhe despertou a 
ateno. Passou por cima dos destroos da balaustrada e enfiou l a mo, encontrando qualquer coisa dura e metlica.
- O que  que tens a? - sussurrou Fitz.
- Parece um telescpio - disse, limpando a maior e tentando espreitar atravs dele.
- Vs alguma coisa interessante?
- V-se tudo preto - replicou, voltando a atir-lo para a vegetao.
De repente, sentiram a presena de algum por trs deles. Viraram-se sobressaltados e deram com um dez-ris de gente a sair pelas portas envidraadas.
Foi Alba quem falou:
- Espero que no estejamos a incomodar. Viemos dar um passeio e perdemo-nos - explicou com um sorriso encantador.
Quando o homem levantou os olhos raiados de sangue para Alba, comeou a arfar como se alguma coisa lhe tivesse tirado o flego. Ficou especado, a olhar fixamente 
para ela, sem sequer pestanejar.
- Madonna] - exclamou, deixando ver um grande intervalo onde deveriam estar os dentes da frente. - Eu sabia que caminhava entre os mortos! - disse, estendendo-lhe 
a mo.
Alba apertou-lha com alguma relutncia. Era hmida e fria.
- O meu nome  Nero Bonomi. E vocs, quem so?
- Somos de Inglaterra - respondeu Alba. - O meu amigo no fala italiano.
- Mas voc, minha querida, fala como uma nativa - disse ele, em ingls. - com esse cabelo curto, parece um rapaz muito bonito. Tambm me faz lembrar algum que conheci 
h muito tempo. Na verdade, at me assustou! - exclamou, passando os dedos pelo cabelo branco. - Em tempos, fui um bonito rapaz! O que  que o Ovidio diria se me 
pudesse ver agora?
- Vive aqui? - perguntou Alba. - Nesta runa?
- J era uma runa quando o Ovidio aqui morava. Ou deverei dizer Marchese Ovidio di Montelimone? Era uma pessoa muito importante. Quando morreu, deixou-ma. No porque 
valesse a pena ficar com isto. S pelas memrias, e essas, segundo creio, no tm valor para mais ningum.
Alba reparou que a pele do seu rosto era grossa e avermelhada. Parecia queimado pelo sol, mas, quando se via mais de perto, era bvio que se andava a matar lentamente 
com a bebida. Estava rodeado por uma emanao de lcool e ela conseguia sentir-lhe o cheiro. Tambm notou que ele usava as calas de linho muito subidas na cintura, 
com o cinto bem apertado, e que eram demasiado curtas, revelando as meias brancas nos tornozelos finos. No era velho, mas tinha a fragilidade de um idoso.
- Como  que era esse Marchese? - perguntou Fitz.
Nero sentou-se na balaustrada e ps uma perna sobre a outra. No parecia importar-se pelo facto de terem invadido a propriedade e deambulado pela casa. Parecia feliz 
por ter companhia. Assentou o queixo sobre a mo, com um suspiro.
- Era um grande esteta. Adorava coisas bonitas.
- E da famlia dele? - indagou Alba, mas sabia instintivamente que a resposta seria negativa.
- No. Eu amava-o. Ele gostava de rapazes, sabe? Eu no tinha cultura, mas ele amava-me na mesma. Eu era um simples garoto de rua, em Npoles. Ele encontrou-me e 
educou-me. Mas veja s o que fiz com o meu legado! Agora, no presto para nada!
Remexeu no bolso,  procura de um cigarro.
- Se voc fosse um rapaz, ia ser fcil apaixonar-me por si - disse ele, a rir, mas Alba no achou graa.
Antes de prosseguir, premiu o isqueiro e tragou o fumo:
- com Ovidio, nada era simples. Era um homem cheio de contradies. Era rico, mas vivia numa casa que estava a apodrecer  sua volta. Adorava homens e, contudo, 
deu a maior fatia do seu corao a uma mulher. Estava doido por ela. Quase o perdi por causa dela.
Alba e Fitz entreolharam-se. Nenhum deles falou. Mas sabiam. Nero continuou:
- Era mais bonita do que vocs alguma vez podero imaginar...
- Era a minha me - disse Alba, e Nero fitou-a atravs da nuvem de fumo que se erguia em frente dos seus olhos. - A Valentina era minha me.
De repente, os ombros de Nero descaram e os seus olhos encheram-se de lgrimas. Mordeu o lbio e as mos comearam a tremer.
-  claro.  por isso que est aqui e foi por isso que me pareceu reconhec-la.
- A Valentina  que era o amor do Marchese? - perguntou Fitz.
Ele acenou afirmativamente e a sua cabea parecia demasiado grande para um corpo to macilento.
- Era uma mulher extraordinria. At eu a admirava. Era impossvel no admirar. Tinha uma aura de seduo  sua volta, uma coisa quase mgica... Eu era um mido 
da rua e, apesar disso, encontrei um adversrio  altura. Perdoe-me.
- V l - disse Fitz, tentando reconfort-lo. - O que  que h para perdoar?
Nero levantou-se.
- Deixei isto chegar a este estado. H uns anos atrs, houve um fogo numa das alas. A culpa foi minha, estava a beber com amigos... Deixei que tudo se desmoronasse 
 minha volta. J no h dinheiro e no fiz nenhuma das coisas que ele me pediu para fazer. Mas venham! H uma coisa que mantive tal qual como ele a deixou.
Seguiram-no ao longo de um caminho sinuoso, que descia a colina por debaixo dos ciprestes. No final, sobranceira ao mar, estava uma pequena casa feita em pedra. 
Ao contrrio do Palazzo, esta no fora destruda pela floresta. S alguns ramos de hera, mais intrpidos, escalavam as paredes e enrolavam-se  volta dos pilares. 
Era uma casinha perfeita, como que sada de um conto de fadas, onde podiam ter vivido duendes. A curiosidade de Fitz e Alba aumentou. Entraram atrs de Nero, espreitando 
 sua volta, espantados, pois, ao contrrio do Palazzo, este esconderijo secreto no fora perturbado; tinha parado no tempo.
S havia uma diviso. Era um quadrado harmoniosamente proporcionado, com um tecto abobadado, pintado com um fresco de um cu azul nublado, cheio de querubins nus. 
As paredes por baixo tinham o tom quente da terracota e o cho estava coberto de tapetes, gastos pelo constante pisar de ps, mas no pudos. O aposento era dominado 
por uma grande cama de dossel. As sedas que a cobriam tinham perdido a cor e eram agora de um verde-plido, mas a colcha, feita no mesmo tecido, conservava a cor 
original, mais viva. Sobre ela, via-se uma coberta em veludo ricamente bordada, esfiapada nas pontas. Havia uma chaise longue, uma cadeira estofada e uma escrivaninha 
embutida em nogueira, onde se encontrava um tinteiro de vidro e uma caneta em cima de um mata-borro, juntamente com papel e envelopes com o nome Marchese Ovidio 
di Montelimone. Reposteiros de veludo pendiam dos vares, as portadas estavam fechadas, e uma prateleira suportava o peso de filas de livros encadernados a couro.
Ao inspeccionar de mais perto, Alba viu que todos os livros eram de histria ou erticos. Passou os dedos sobre as encadernaes, limpando a poeira at se verem 
os ttulos brilhantes gravados a ouro.
- O Ovidio adorava sexo - disse Nero, deitando-se sobre a chaise longue. - Este era o seu santurio. O lugar onde vinha para fugir do Palazzo decadente e dos ecos 
do seu passado glorioso que deixara escorregar entre os dedos. - Olhou para o tecto e aspirou o cigarro, agora j to pequeno que estava em risco de queimar os dedos 
amarelados. - Ah, as horas de prazer que tive nesta pequena gruta encantadora!
Suspirou de forma teatral e o seu olhar pousou preguiosamente em Alba, que estava agora a observar os quadros. Eram todos cenas mitolgicas com rapazes nus. Todos 
tinham molduras belssimas, formando uma espcie de colagem nas paredes. Um nicho numa delas albergava uma esttua sobre um pedestal preto e dourado. Era uma rplica 
em mrmore do David de Donnatello.
- No  uma pea requintada? Parece uma pantera, no ? Era a languidez da sua pose que encantava Ovidio. Mandou-a fazer especialmente para esta gruta. Gostava de 
passar as mos por ela. Ele gostava de tocar, era um sensualista. Tal como eu disse, adorava coisas bonitas.
- Como a minha me - disse Alba, imaginando a me sentada no delicado toucador, a escovar o cabelo em frente do espelho Queen Anne. Aqui, tambm havia filas de potes 
e frascos de perfume, escovas de prata e uma caixa de p-de-arroz. Aquelas coisas tambm teriam pertencido  me?
- Como Valentina - repetiu Nero, e os seus olhos voltaram a encher-se de lgrimas.
Alba vagueou pelo aposento, passou por uma lareira em mrmore que ainda vibrava com o calor que proporcionara ao Marchese e aos seus amantes, passou por uma cmoda 
alta e vazia. Depois, deixou-se cair na cama. Sentiu-se desconfortvel. No queria olhar para Nero; o seu instinto dizia-lhe que ele estava prestes a divulgar algo 
terrvel. Virou-se e recobrou o flego. Os seus olhos descobriram por acaso um quadro de uma linda jovem deitada nua sobre a relva. Os seus seios eram jovens e cheios, 
as ancas redondas e macias, os plos pbicos um choque de negro contra a alvura das suas coxas. Alba recuou. O longo cabelo negro, os olhos risonhos e o sorriso 
misterioso eram inconfundveis. Na verdade, inscritas na parte inferior, estavam as palavras Valentina, nu reclinado, Thomas Arbuckle, 1945.
- Oh, meu Deus!
- O que foi? - perguntou Fitz, apressando-se a ir ter com ela.
-  a Valentina.
- O qu?
- O ltimo retrato que o meu pai desenhou da minha me e que procurou depois da sua morte, mas no conseguiu encontrar. Ela deu-o ao Marchese.
Agora Alba percebia por que razo o pai estava to desesperado por encontr-lo. Era o mais ntimo de todos eles. Um quadro que devia destinar-se a ser contemplado 
apenas pelos olhos de ambos. Contudo, ela tinha-o oferecido. Alba tirou-o da parede E limpou o p da moldura. Fitz sentou-se na cama, ao lado dela. Nenhum dos dois 
reparou que os ombros de Nero tinham comeado a tremer.
- Como  que ele se atreveu? - perguntou ela, furiosa. - Como  que ela se atreveu? - Recordou o rosto plido e atormentado do pai quando lhe dera o primeiro retrato 
e lamentou no o ter compreendido. - Fico com o corao destroado quando penso no meu pai,  procura disto, quando esteve aqui o tempo todo com este porco! Onde 
quer que esteja, cuspo em cima da sua sepultura!
Nero virou-se. O seu rosto era uma ferida aberta.
- Agora sabem porque  que esta casa est amaldioada; porque  que est em runas e se h-de transformar em p; porque  que Ovidio foi assassinado - disse ele, 
num uivo desesperado, como um animal com dores.
Fitz e Alba olharam-no espantados.
- O Marchese tambm foi assassinado? - perguntou Fitz.
- O meu Ovidio foi assassinado - respondeu, deixando-se cair no cho e enrolando-se numa bola.
- Porque  que ele foi assassinado? - perguntou Alba, confusa.
- Porque matou a Valentina - gemeu Nero. - Porque a matou.


CAPTULO VINTE E OITO

Fitz e Alba encontraram Lattarullo a beber limoncello na trattoria com o presidente da cmara reformado. Quando se aproximaram, o rosto de Lattarullo ficou srio, 
pois estavam ambos plidos, como se tivessem caminhado entre os mortos. O presidente da cmara deu uma desculpa para os deixar sozinhos. Ele sabia do que  que eles 
vinham falar. Era melhor que discutissem esses assuntos com o carabiniere. No fim de contas, ele tinha conhecido o pai da rapariga e tinha sido o primeiro a chegar 
 cena do crime. Ainda tinha tido esperana de que no remexessem no passado. Melhor seria t-lo deixado em paz e esquecido.
- Sentem-se! - disse Lattarullo forando um sorriso.
- Precisamos de falar - disse Alba, agarrando na mo de Fitz. Acabmos de vir do Palazzo.
Lattarullo deixou descair os ombros.
- Falaram com o Nero - disse. - Ele  um bbedo. No tem dinheiro, gastou-o todo na bebida e no jogo. Est to arruinado como a casa!
- O Marchese matou a Valentina. Porqu? - perguntou Alba, com uma voz terrvel.
O carabiniere recostou-se na cadeira e mordeu o interior da bochecha.
- Resolveram um caso que os melhores detectives no conseguiram resolver.
- Nem sequer tentaram - disse ela rudemente.
- Tinham o Lupo Bianco, o que  que lhes interessava um assunto domstico?
- Porque  que ele a matou? Ele amava-a.
- Porque no queria que o teu pai ficasse com ela.
- Tinha cimes?
- Se no podia t-la, mais ningum a teria. Ela deixou-o maluco. Era isso que a Valentina fazia: deixava os homens malucos. O Marchese j era mais maluco do que 
o resto.
- Eu sei que ela tinha um amante alemo, vi as cartas dele.
- Sim, tinha um protector alemo. Alis, tinha muitos. Deixava-os malucos a todos. Mesmo queles que no queria.
-  uma coisa to sem sentido! - exclamou Alba, suspirando pesadamente.
- E que desperdcio... - Lattarullo virou-se e pediu trs limoncellos. S mais tarde, nessa noite, quando Alba se sentou com Fitz e Falco no terrao,  que toda 
a verdade foi finalmente revelada. Immacolata e Beata tinham-se retirado para os seus quartos e Toto estava na vila com amigos. Cosima estava aconchegada na cama, 
abraando a boneca de trapos e as memrias felizes do dia. O sol poente tinha um brilho dourado num cu desmaiado e chuvoso, pintando as nuvens que l flutuavam 
de rosa, como algodo-doce. Era uma cena magnfica. Alba tinha conscincia da sua partida iminente e sentia o corao cheio de uma mgoa insuportvel.
Quando mostrou o retrato ao tio, este esfregou o queixo.
- Madonna! - exclamou, observando-o mais de perto. - Onde  que o encontraste?
- No Palazzo - replicou Alba, em jeito de desafio.
O seu rosto rude ficou solene.
- Ento sempre foste?
- J devia conhecer-me, Falco. Eu no desisto!
- O Nero mostrou-nos a gruta - disse Fitz. - Foi a que Alba descobriu o retrato.
- E a verdade - acrescentou ela. - Que foi o Marchese quem matou a minha me.
Falco encheu um copo de gua e bebeu um gole.
- Ento, o quadro esteve l este tempo todo - murmurou.
- No era dela para o oferecer - resmungou Alba. - Pertencia ao meu pai.
- Deves lev-lo para ele - disse Falco.
- No posso - suspirou ela, recordando o efeito do primeiro.
- Acho que ests errada, Alba. Acho que lhe devias dizer.
- O Falco tem razo. Acho que j est na altura de ele saber a verdade - interps Fitz sensatamente.
Alba suspirou profundamente, em sinal de resignao.
- No posso acreditar que aquele estupor matou a minha me por cimes.  um motivo to ftil!
Falco levantou o sobrolho.
- Quem  que te contou isso?
- Lattarullo - disse Alba.
O tio pensou por um momento e, depois, disse solenemente:
- Isso no  a histria toda.
Alba sentiu um baque.
- Ainda h mais?
- O Marchese matou a Valentina por tua causa.
Alba ficou chocada.
- Por minha causa?
- Ele pensava que eras filha dele.
Alba levou a mo  garganta, com dificuldade em respirar.
- E como  que sabe que no sou? Sou? - perguntou horrorizada, cheia de dvidas quanto  sua paternidade.
- A Valentina sabia. E o Marchese, l no ntimo, tambm sabia.
- Matou-a por vingana - disse Fitz, abanando a cabea. - Mas que cobarde!
- Porque a tinha perdido e porque tambm te ia perder. O Marchese no tinha herdeiro. Estava velho e triste. Tu e a Valentina eram o seu futuro, a sua vida. Sem 
vocs, no tinha nada. Ele queria roubar o futuro a Tommy, tal como Valentina estava a roubar-lhe o dele.
- O Nero disse que ele foi assassinado... - observou Alba, olhando Falco nos olhos.
Este no desviou o olhar, que tinha uma expresso to dura quanto hematite.
- Digamos apenas que aqui, no sul, as famlias tm a sua maneira de se vingarem.
- O Falco? - A sua voz era um sussurro.
- Cortei-lhe a garganta, como ele cortou a da Valentina, e fiquei a v-lo morrer, sufocando no prprio sangue - disse, e o simples acto de confessar o seu segredo 
expulsou as sombras negras dos seus olhos.
- Era uma questo de honra!
Alguns dias mais tarde, Alba deu a notcia a Cosima. Levou-a deliberadamente  vila para comprar vestidos novos na loja dos anes, esperando que a excitao de algumas 
compras compensasse a desiluso que se iria seguir. Cosima experimentou-os, rodopiou como uma bailarina, levou tempo a tomar uma deciso, como fizera da primeira 
vez que Alba a levara. Como se sentia culpada e porque queria que a criana se recordasse dela com afeio, Alba comprou-lhe os cinco, com collants e casacos de 
malha a condizer e um casaco comprido azul-beb para quando ficasse muito frio. Cosima ficou comovida, mas desta vez no chorou. Agradeceu  prima, encostando o 
seu rostinho ao de Alba para lhe dar um beijo na face. Alba teve de reprimir as lgrimas. Ainda no se tinha ido embora e, no entanto, as costuras do seu corao 
j se estavam a romper.
Levou Cosima pelo caminho por entre as rochas at ao ponto de vigia, onde a desenhara pela primeira vez. Parecia que tinha sido noutra vida. Tinha vivido tantas 
em apenas alguns meses...
- Achas que faa uma passagem de modelos esta noite?
- Sem dvida. Eles tm de ver a tua nova coleco de Outono - replicou Alba, fazendo uma voz alegre.
- Compraste-me tantos - disse Cosima, colocando enorme nfase no "tantos". - Cinco. So to bonitos! Adoro coisas bonitas!
-- Isso  porque tu tambm s bonita. E no s bonita, Cosima, s doce como o mel!
- Devamos ter preparado um piquenique. Tenho fome.
-  das compras. Deixam uma pessoa estafada. Espera s at ires a Londres e, nessa altura,  que vais ver o que  comprar. Talvez quando fores um bocadinho mais 
crescida...
Cosima anuiu, sem conseguir compreender a ideia de Londres.
- Querida, tenho uma coisa importante para te contar.
Tossiu e Cosima ergueu o seu olhar transparente, sorrindo-lhe de forma expectante.
- Vou-me embora dentro em breve! - disse, por fim, reprimindo as lgrimas, ao mesmo tempo que a voz cedia.
Cosima empalideceu.
- Embora? - repetiu.
- Sim, o Fitz pediu-me para casar com ele.
- Para onde  que vais?
- Para Inglaterra.
- No posso ir contigo?
Alba tomou-a nos braos e deu-lhe um beijo no alto da cabea.
- Receio bem que no. O que  que o teu pap faria sem ti? E a nonna? Para no falar na nonnina. Ficariam todos muito tristes sem ti.
- Mas eu tambm vou ficar triste sem ti - disse ela.
- Eu volto para te visitar.
- J no gostas de mim? - perguntou num fio de voz, e Alba ouviu de novo o som daquelas costuras a rasgarem-se, desta vez mais alto e mais perigosamente esgaadas.
- Oh, Cosima!  claro que sim. Amo-te tanto que at di. No quero deixar-te. Quero casar com Fitz e viver aqui. Mas o trabalho dele  em Londres e ele no  italiano, 
como eu. J  bastante difcil deixar a famlia, mas deixar-te vai ser o mais difcil de tudo. Mas vamos tentar ver as coisas pelo lado positivo. Eu vou-te escrever 
e telefonar e enviar-te vestidos de Londres. So muito mais bonitos do que aqueles que te comprei hoje. Muito, mas muito mais bonitos. E vou voltar para te visitar. 
Um dia, quando fores mais crescida, podes ir visitar-me.
Sentaram-se em silncio, num abrao apertado, enquanto o dia se ia escoando lentamente.
Alba ficou mais dez dias com os Fiorellis. Enquanto continuou entre eles, Cosima esqueceu-se da sua partida iminente. As crianas vivem o momento e, com Alba ali, 
o momento era de felicidade. Fez a sua passagem de modelos e os aplausos foram ainda mais fortes do que da ltima vez, mas ela no sabia que os adultos estavam a 
tentar compens-la. Alba mostrou a Fitz todos os lugares que agora lhe eram queridos: o velho ponto de vigia, o limoal e a nascente. Mostrou-lhe os seus quadros, 
todos pendurados no seu quarto e pela casa, onde Immacolata expusera os melhores retratos da bisneta. Fitz ficou impressionado. Agarrou neles, estudou-os cuidadosamente, 
elogiando-a vezes sem conta.
Immacolata amuou. Embora j no usasse as roupas do luto, usava a cara: taciturna e com o sobrolho permanentemente carregado. S quando j estavam no porto, com 
Alba prestes a partir,  que o seu semblante se alterou.
- S estou zangada porque te amo - disse ela, agarrando o rosto de Alba entre as mos e beijando-lhe a testa.
- Eu vou telefonar, escrever e venho visit-los. Prometo que volto em breve - explicou Alba com um sbito ataque de pnico.
- Eu sei que sim. Vai com Deus, minha filha, e que Ele te proteja.
Fez o sinal da cruz com energia e, depois, soltou-a. Alba abraou Beata e Toto, mas reservou o maior abrao para Falco. Ficaram agarrados um ao outro durante um 
longo momento, at se afastarem.
Cosima deixou-se arrebatar pelo forte abrao de Alba. Ambas choraram. Fitz deu a mo a Alba e ajudou-a a entrar para o barco. O pequeno grupo ficou no cais, com 
ar desolado. Foi uma despedida triste. Quando o barco se comeou a afastar do porto, Cosima levantou a mozinha e disse adeus.


CAPITULO VINTE E NOVE

A cozinheira tinha scones e compotas caseiras para o ch. Os scones eram deliciosos em qualquer altura, mas ainda mais no Inverno, quando a humidade e o frio exigiam 
ser compensados com alguma coisa quente e doce. Verity Forthright ps um na boca, que comeara a salivar muito antes de ter chegado  pequena casa da cozinheira, 
na propriedade dos Arbuckle. Os scones eram pequenos, do tamanho de uma dentada, e derretiam-se na lngua. Ela agarrou no guardanapo de linho, que fazia parte de 
um conjunto de seis que a velha senhora Arbuckle tinha dado  cozinheira num Natal, e limpou os cantos da boca.
- Edith, minha querida, de facto no h quem a iguale na cozinha. Estes scones esto to saborosos!
A cozinheira ps manteiga num, para si prpria.
- Acho que vou fazer scones para o ch de regresso a casa, da Alba - replicou ela, pensativa. -  claro. E tambm vou assar batatas para o almoo. Lembro-me de que 
o Fitzroy gostou muito das minhas batatas assadas.
Verity ficou outra vez com gua na boca.
-  tudo muito repentino, no ? - disse, franzindo os olhos e largando um grande bocado de compota em cima do segundo scone.
- A Alba nunca foi uma pessoa convencional. No  essa a sua maneira de ser. Segundo parece, disse-me a senhora Arbuckle, Fitzroy fez a viagem at Itlia para a 
pedir em casamento... - disse, sorrindo com o romantismo da situao.
- Felizmente para ele, a Alba aceitou. Caso contrrio, teria sido uma viagem desperdiada.
A cozinheira encheu as chvenas de ch para as duas.
- Ela telefonou de Itlia a dar a notcia. Eu acho que eles fazem um lindo par. Lindo! Ele  calmo e gentil e ela impetuosa e inconstante. Complementam-se um ao 
outro.
- No era isso que achava h seis meses - recordou-lhe Verity.
-  prerrogativa de uma mulher poder mudar de ideias.
- Talvez ele tenha conseguido acalm-la um pouco. Ela bem precisava! E tambm precisa de usar saias mais compridas. Ele  um homem sensato, talvez a transforme numa 
pessoa mais respeitvel. Eu sei que a senhora Arbuckle ia gostar disso.
- A senhora Arbuckle gosta das coisas como deve ser - disse a cozinheira, pousando o bule. - Ela  um bocadinho pretensiosa. No nasceu neste meio, como a velha 
senhora Arbuckle. A senhora Arbuckle casou com ele, e isso  muito diferente. Penso que essas pessoas so sempre afectadas. Ela d muita importncia  classe social 
e  educao. Felizmente, segundo me disse, Fitzroy  de uma ptima famlia de Norfolk. Ela conhece um primo dele. Para usar as palavras dela,  um homem respeitvel.
- Imagino que a senhora Arbuckle esteja contente por a Alba ir casar - disse Verity.
A cozinheira sabia que ela andava  procura de mexericos, mas estava demasiado encantada com as notcias para resistir a falar sobre isso.
- A Alba sempre foi uma grande preocupao para ela, alis, para os dois, chegando a casa como chega, albergando uma tempestade no olhar. Aquilo  da me dela. Os 
italianos so muito impetuosos. A senhora Arbuckle gosta de pessoas do seu prprio mundo e a Alba nunca se integrou muito bem.  um peso que lhe sai dos ombros! 
A Caroline  a prxima, lembre-se do que lhe digo!
Verity no estava nem um pouco interessada em Caroline. Meteu um terceiro scone na boca e, depois, desviou a conversa novamente para Alba.
- No acha que o capito vai ficar um bocadinho triste por entregar a filha? No fim de contas, a Edith disse-me muitas vezes que, de todos os filhos, a Alba era 
especial...
-  o que eu penso, mas ele nunca diria uma coisa dessas. Vejo no olhar dele, sabe? O meu Ernie sempre disse que tenho a intuio de uma bruxa. Ela tem a capacidade 
de o magoar de uma forma que mais ningum consegue. Fico destroada quando o vejo sofrer por causa da maldade dela. Ele d-lhe tudo, mas tudo! Aquela rapariga nunca 
trabalhou um dia que fosse durante toda a sua vida, graas  generosidade do capito. No entanto, aconteceu uma coisa estranha h uns tempos - disse, hesitante.
Tinha jurado a si mesma no contar a Verity, sabendo que toda a vila ficaria a saber, mesmo antes que o velho abutre tivesse tido tempo para digerir a informao. 
No entanto, o peso da informao era demasiado para o suportar sozinha. A boca de Verity parou de mastigar e ela sentou-se muito direita. A cozinheira desejou no 
ter comeado, mas acabou por pensar para consigo mesma que s ia contar a Verity as partes boas.
- Chegou uma carta da Alba - declarou.
- Uma carta?
- Dirigida ao capito. Reconheci a letra dela e o carimbo dos correios era italiano.
Verity molhou o scone no ch.
- E?
- Bem, ele foi para o escritrio l-la. Eu estava a arrumar o armrio das bebidas, por isso via a sua expresso enquanto a lia. Era longa, pginas e pginas daquela 
sua caligrafia, grande e descuidada. Consegui ver, atravs do papel, que estava muito riscada.
- Ento estava muito perto?
- Muito. O capito nem sequer reparou que eu estava ali, to absorto com o contedo da carta.
- O que  que dizia?
A cozinheira suspirou e encolheu os ombros.
- Isso no sei, mas depois de a ler ficou transformado.
Verity pareceu ficar desconcertada.
- Como? - perguntou ela.
- Bem, parecia mais novo.
- Mais novo?
- Sim, e mais feliz. Tinham desaparecido aqueles crculos escuros por baixo dos olhos. Se me perguntar, acho que havia qualquer coisa naquela carta que lhe devolveu 
a juventude.
- Sinceramente, Edith, est a exagerar!
- Asseguro-lhe que no. Foi muito estranho, como se ele se tivesse visto livre de qualquer coisa, qualquer coisa pesada e triste. Deixou-a ir embora e pronto!
- E depois?
- Deixou-se estar ali sentado, a esfregar o queixo e a olhar fixamente para o retrato do pai, que est pendurado na parede.
- Do pai?
- Sim, do velho senhor Arbuckle. No sei em que  que ele estava a pensar, mas esteve ali sentado durante muito tempo, s a pensar.
- O que  que acha que dizia a carta? - perguntou Verity, levando a chvena de ch aos lbios com um sorvo ruidoso.
- Bem, eu ouvi a senhora Arbuckle e o capito a falarem na sala algum tempo depois. Eu estava na copa, a preparar as coisas para o jantar. Quando so s os dois, 
gostam de comer ali, na mesa do refeitrio.
- Sim, sim, mas o que  que eles disseram?
- Bem, eles estavam a falar muito baixinho. Acho que sabiam que eu estava por ali porque me ouviam a mexer nas coisas, sabe?  difcil no fazer barulho com os talheres. 
Por isso, falaram com cuidado e no consegui ouvir tudo. Ouvi a frase A Alba agora sabe a verdade. Depois, ele disse com algum jbilo Ela pediu desculpa. Isso surpreendeu-me, 
porque no creio que a Alba tenha alguma vez pedido desculpa durante toda a sua vida...
Verity franziu o sobrolho.
- Pediu desculpa porqu? Qual verdade?
A cozinheira comeou a ficar com calor. J chega, disse para consigo. J disseste o suficiente  Verity. O rosto de Verity estava desconfortavelmente prximo do 
seu. No valia a pena. Ia acabar por dizer tudo.
-  tudo muito misterioso. Mas, se me perguntar, desde que a Alba foi para Itlia para encontrar a famlia da me, deve ter descoberto qualquer coisa... No sei 
o que... - Verity fitava-a agora com os olhos de uma cobra.
- Oh, Verity - disse ela, de repente. - De si, no consigo esconder... e tenho de partilhar isto com algum. Ouvi a palavra... - fez uma pausa e, depois, acrescentou 
num sussurro -... homicdio.
Quando a palavra j tinha sido absorvida e digerida, Verity arfou:
- Valha-nos Deus! No pensa que o capito tenha morto a primeira mulher, pois no?
A cozinheira torceu as mos.
- No,  claro que no! Mas o que mais poderia ser?
- Por que razo a Alba havia de pedir desculpa por isso?
- Querida Verity, a Alba estava a pedir desculpa por ter descoberto!
- Mas  claro!
- Nunca imaginei que o capito fosse capaz de matar algum - disse a cozinheira.
- No se esquea que foi no tempo da guerra... Ele andava a matar alemes a torto e a direito! E se essa Valentina era to temperamental como a Alba, no o posso 
censurar!
- Que Deus a fulmine com um raio agora mesmo! - ralhou a cozinheira.
- No antes de eu comer o ltimo scone - disse Verity, enfiando-o na boca.
A cozinheira sentiu-se aliviada por ter revelado o segredo  amiga, mas Verity no desfrutou da mesma sensao. As suas nuseas no tinham nada a ver com as revelaes 
que a cozinheira lhe fizera e tinham tudo a ver com os scones que comera. Para sua vergonha, quando regressava a casa, teve de parar o carro no final do caminho 
de acesso e vomitar nos arbustos.

Quando o txi que levava Fitz e Alba para o centro de Londres virou para Earls Court, Alba esqueceu a mgoa de ter deixado Incantellaria e remexeu-se de excitao 
no seu lugar. Era um dia claro de Outubro, o sol entrava pela janela e reflectia-se no anel de noivado, que cintilava na sua mo.
- No posso acreditar que estamos em casa - disse ela com um suspiro, vendo-o a brilhar e movendo os dedos para captar a luz. - Pensar nos meus armrios cheios de 
roupas lindas... Era capaz de morrer de felicidade.
Fitz estava preocupado com o estado do barco. Conhecendo Alba, sabia que ela no devia ter esvaziado o frigorfico antes de se ir embora e que o lugar devia cheirar 
horrivelmente mal.
- Sinto que estive fora um sculo!
- Espero que o teu barco ainda l esteja.
O txi entrou em Cheyne Walk. Alba endireitou-se e espreitou pela janela da frente.
- L est ele! - anunciou, apontando. - Diabos me levem! exclamou logo a seguir.
Fitz inclinou-se para a frente, com o corao apertado ao pensar no estado em que devia estar a casa dela. Pagou o txi e desceu o ponto, carregando as malas, atrs 
de Alba.
- Mal o reconheo! - disse ela, encantada. - At foi pintado!
- Foi a Viv! - disse ele, largando as malas. - Ela encheu o convs de plantas e flores. Tem um aspecto quase to imaculado como o dela, s que o teu  mais excntrico, 
como tu.
Alba ps a chave na fechadura e abriu a porta.
- At cheira  Viv - disse ela, com uma gargalhada, cheirando o incenso que pairava no ar. Viv tinha lavado e passado a ferro todas as roupas que encontrara penduradas 
na casa de banho e limpara tudo de cima a baixo. Alba abriu o frigorfico.
- Ela comprou leite! - gritou. - Podemos beber um ch!
Fitz trouxe as malas para dentro e, depois, subiu o corredor brilhante que levava  cozinha.
- Como  que ela entrou?
- Ela tem uma chave. Dei-lha h imenso tempo, para o caso de haver um fogo, ou qualquer coisa assim, quando eu no estivesse c.
Fitz tomou-a nos braos e beijou-a.
- Esquece o ch - disse. - Tenho uma ideia muito melhor.
Alba brindou-o com um olhar malicioso.
- Afinal, no somos assim to diferentes - riu-se ela.
Levou-o l para cima, para o quarto sob a clarabia. O quarto estava arrumado e limpo e a goteira tinha sido remendada. Em cima da cama, estava um bilhete.
Como este vai ser o vosso primeiro porto de abrigo, decidi deixar o bilhete em cima da cama. Provavelmente, no estarei c quando voltarem, uma vez que Fitzroy no 
pareceu saber quando  que regressava. S espero que tenhas feito o que devias e que tenhas aceite casar com ele. Pobre querido, tem-se consumido de desgosto! Tomei 
a liberdade de dar uma limpeza ao barco, pois estava num estado deplorvel e tinha de suportar aquela vista todas as manhs, enquanto tomava o pequeno-almoo! Para 
no falar do cheiro a excremento de esquilo... Alis, perceber a razo por que  que eles no podem fazer aquilo noutro lado  algo que me transcende! Bem-vinda 
a casa, querida, e desculpa esta raposa velha, por ser amarga e torcida. A cabra foi de morrer a rir e tambm te desculpo por isso! Volto em breve. Estou em Frana 
com o Pierre (pergunta ao Fitzroy). O amor nunca foi to bom. Muitos beijos, Viv.
Alba olhou firmemente para Fitz.
- O amor nunca foi to bom - disse, acariciando-lhe o rosto com a mo. - Consumiste-te de desgosto?
- Sim. Foi a Viv quem me persuadiu a ir atrs de ti.
- Querida Viv!
- Ela  uma boa amiga, Alba!
- E tu tambm. Obrigada, Fitz, por no me teres abandonado.
- Tu fugiste com o meu corao, eu tive de ir busc-lo.
- Agora  meu - disse ela com um sorriso. - vou ficar com ele e, desta vez, vou trat-lo com cuidado.
Ele ps os braos  volta dela e puxou-a para cima da cama. Desta vez, fazer amor com Alba foi uma coisa lenta, ntima e terna. No fim, no se sentiu vazio ou insatisfeito. 
Deu-lhe a sua alma e recebeu a dela em troca. Alba era como uma borboleta rara e linda que ele podia agarrar nas suas mos. E no fugia...
Depois de terem preguiado juntos num banho quente, Fitz deitou-se na cama enquanto Alba inspeccionava os roupeiros, decidindo o que havia de usar para ir visitar 
o pai e a madrasta. Ele notou que ela no atirava o que no queria para o cho, como antes, e que dobrava as roupas e as voltava a guardar. Alba riu-se quando deu 
com as botas de camura azuis e os collants de fantasia, as saias minsculas e os casacos de cores garridas.
- J me tinha esquecido da quantidade de tralha que tenho... - murmurou, passando os olhos pelas filas de malas e sapatos. - Meu Deus, era mesmo extravagante! E 
a Cosima a pensar que cinco vestidos eram o fim do mundo!
Respirou fundo, ao recordar a menina a dizer-lhe adeus no cais, e virou-se para Fitz:
- No sei o que hei-de vestir. Nada parece ser adequado. Eu j no quero ter ar de galdria, quero parecer uma jovem prestes a tornar-se na senhora Fitzroy Davenport. 
Estas roupas no so prprias para ela.
Fitz riu-se.
- Oh, querida, vais acabar por te habituar outra vez a elas. Entretanto, porque  que no vestes umas calas de ganga e uma camisola?
-J no quero nenhuma destas roupas! - exclamou ela, de sobrolho franzido. - Evolu!
Fitz foi por trs dela e ps os braos  volta da sua cintura.
- Ficas maravilhosa com qualquer coisa!
Alba afastou-o e comeou a procurar freneticamente nas gavetas. Por fim, exasperada, tirou umas calas de ganga desbotadas e uma camisa branca.
- Que tal isto?
- Perfeito para a futura senhora Fitzroy Davenport.
Ela sorriu e Fitz sentiu-se aliviado.
- O que  que a Margo ir pensar quando vir que o David e a Penelope Davenport no esto na nossa lista de convidados? - perguntou ele, com uma risada.
- com um bocadinho de sorte, esqueceu-se.
- Achas que lhe devo dizer a verdade?
- No  boa ideia.
- O melhor, provavelmente,  usar uma morada falsa para o convite deles.
- Isso j  melhor. Podes dizer que mandaram pedir desculpa.
Alba tentou mostrar-se alegre, mas havia qualquer coisa que a fazia sentir desconfortvel. Olhou  volta do quarto que continha tantas memrias. Memrias que agora 
pertenciam a uma vida que ela abandonara.
- Vamos - sugeriu Alba. - Podemos ir de txi at tua casa, agarras nas tuas coisas e vamos para Beechfield no teu carro. Quanto mais depressa melhor.
- No queres telefonar-lhes primeiro?
- No - respondeu Alba. - Sempre preferi o elemento surpresa. Fitz fez a mala enquanto Alba estava deitada no sof, a ler os jornais.
O Sprout ainda estava em casa da me de Fitz, no campo, certamente com uma dieta  base de fgado e de bife. A me de Fitz nunca superara o facto de os filhos terem 
deixado o ninho.
- Ele no vai querer voltar - gritou Fitz, do quarto, para Alba. - Eu no ia suportar uma coisa dessas. A vida sem Sprout ia ser deprimente.
Mas Alba no o estava a ouvir e tambm no estava a ler os jornais. Os seus pensamentos estavam com Cosima e Falco.
A viagem pelas paisagens campestres era precisamente aquilo de que Alba precisava para se animar. As folhas a cair, transformadas em ouro pelo sol outonal, aqueceram-lhe 
o corao. O vento levava-as atrs de si, por isso danavam, fazendo belas piruetas antes de pousarem no cho, to leves como flocos de neve, e houve um faiso que 
saiu das sebes, com as penas espetadas no ar. Os campos arados jaziam nus, a cu aberto, e grandes pssaros pretos debicavam o milho ali deixado pelas debulhadoras, 
na altura da colheita. O Outono era a sua estao favorita, juntamente com a Primavera, pois Alba gostava da mudana, antes do Vero perder o seu cheiro e enquanto 
o Inverno continuava adormecido. Tinha esperana de que pudessem comprar uma casinha algures no campo, viver uma vida mais calma. J no se sentia em casa no seu 
barco e Londres perdera o encanto. Olhou de esguelha para Fitz. Havia de faz-lo feliz.
Sentiu o corao dilatar quando o carro subiu o caminho de acesso. A gravilha estava juncada de folhas alaranjadas e castanhas que Peter, o jardineiro, se esforava 
por varrer para um monte, para queimar. Levou a mo ao chapu para a cumprimentar e ela disse-lhe adeus. No achava estranho voltar a casa, como tantas vezes lhe 
acontecera no passado. Sentia que pertencia ali, pois havia memrias da sua infncia em cada recanto da propriedade. Memrias esquecidas e agora recordadas.
Fitz tocou a buzina. A casa erguia-se diante deles, imperiosa e tranquila, com a curva no telhado a trair um sorriso secreto, pois h sculos que observava os altos 
e baixos que se viviam l dentro, com um divertimento contido. Quando pararam o carro, a porta abriu-se e Thomas apareceu ao cimo dos degraus. Alba ficou imediatamente 
impressionada com a mudana de atitude. Estava direito, de ombros para trs, cabea levantada, e o prazer de os ver era patente e genuno. Alba sentiu as pernas 
fraquejar. Abriu a porta e saiu do carro, toda a tremer. O pai j no estava  porta; avanava agora na sua direco com os braos estendidos. Tinham desaparecido 
as sombras que espreitavam nos seus olhos e a tenso que vibrara no ar entre eles os dois. Beijou-a afectuosamente, mas ela sentiu um n na garganta que no a deixou 
falar.
- Que magnfica surpresa! - disse ele, apertando a mo a Fitz. - Mas que ptima notcia, meu rapaz! Maravilhosa! Vamos entrar e abrir uma garrafa de champanhe.
Seguiram-no pelo trio at  sala, onde o ar estava quente e cheirava a canela. O lume estava aceso na lareira.
- Onde est a Margo? - perguntou Alba, dando pela falta dosces.
- Est l fora, no jardim. Eu vou cham-la.
Thomas saiu para o trio e a cozinheira interpelou-o, da cozinha.
-  a Alba? - perguntou, reduzindo a frase ao mnimo, no lhe fosse escapar a palavra "homicdio" por engano.
- Sim, que surpresa maravilhosa! - exclamou ele, prosseguindo o seu caminho.
- Ento tenho de me despachar e fazer uns scones - murmurou ela, sem se atrever a perturbar o jovem casal na sala.
Alba empoleirou-se no banco junto  lareira e olhou para Fitz.
- Tambm reparaste?
Ele fez que sim com a cabea.
- Ser que fez um lifting!
Alba riu-se.
- No h dvida que est com um andar mais leve. A minha carta poder ter feito assim tanta diferena?
- Tenho a certeza que sim.  bvio que a verdade acerca da tua me o tem atormentado todos estes anos. Agora, que sabes de tudo, deve sentir-se liberto.
- E est contente por eu ir casar contigo! - disse, recostando a cabea no ombro dele.
- S at perceber que eu no sou um desses Davenports distintos...
- Oh, ele est demasiado encantado para se ralar com isso!
Nesse momento, ouviram o som de pequenas patas a arranhar o cho do trio. Alba levantou a cabea do ombro de Fitz e ps-se de p. Os ces entraram a correr, seguidos 
de Margo e Thomas. Margo vestia umas calas castanhas e um casaco em tweed sobre uma camisola de caxemira bege. Tinha as faces coradas e o nariz vermelho. Quando 
viu o cabelo curto de Alba, pestanejou.
- Minha querida, que maravilhosa surpresa! Ests linda! A srio! exclamou, estudando a enteada com um espanto mal disfarado. - Ests to diferente! Fica-te bem! 
Fica mesmo bem, no fica, querido? Ests linda!
Encostou o rosto frio ao de Alba, antes de recuar precipitadamente.
- Peo desculpa! - disse, pondo as mos nas faces. - Devo estar gelada! No lhe vou dar um beijo, Fitz, porque estou muito fria. Tenho estado a fazer umas coisas 
no jardim. H tanto para fazer... Muitos parabns! Vo casar-se no Vero?
Alba e Fitz sentaram-se
- Meu Deus, olhem s para o anel.  lindo!  um anel de famlia?
- Pertencia  minha av - respondeu Fitz.
-  muito bonito, Alba, especialmente nas tuas lindas mos bronzeadas. Meu Deus, ests mesmo com bom aspecto!
Thomas olhou para a filha. Tinha notado a mudana no seu rosto, mas no percebera imediatamente porqu. Agora  que via que ela tinha cortado o cabelo. Ficava mais 
pequena sem ele, mais frgil e, seguramente, menos parecida com a me. Ele queria agradecer-lhe a carta, mas sentiu que o momento no era apropriado. Em vez disso, 
encheu-lhe um copo de champanhe. Ela levantou os olhos e fitou-o por um momento. De forma um pouco desconcertante, f-la lembrar-se de Falco e do entendimento silencioso 
que passara entre eles. Ele tambm a olhara daquela forma, como se fossem parceiros num crime, diferentes de todas as outras pessoas pela sua conspirao. Mas antes 
que ela pudesse pensar mais no assunto, ouviu-se um rumor junto  porta.
- Estou a perder alguma festa? Detesto perder uma festa.
A entrada da sala, estava Lavender, curvada e frgil, apoiada numa bengala, e os seus olhos lacrimejantes esquadrinhavam o espao,  procura do visitante.


CAPTULO TRINTA

- Ah, Alba - disse Lavender, descobrindo a neta. - Quando  que  o casamento? Adoro um bom casamento.
Foi ter com ela a coxear, apesar das tentativas de Margo para a levar para a cadeira de leitura, em pele.
Alba ficou surpreendida pelo facto de a av a ter reconhecido com o cabelo curto. Nunca a tinha reconhecido antes...
- J era tempo de termos um casamento em Beechfield!
- Obrigada, av! - disse Alba, beijando-lhe a face, onde a sua pele era macia e difana, como a pele de um cogumelo. - Estou espantada por me ter reconhecido!
Lavender ficou incomodada.
-  claro que te reconheo. Santo Deus, se no conseguisse reconhecer a minha prpria neta, era porque j estava com os ps para a cova! A propsito, gosto do teu 
cabelo. Fica-te bem!
- Obrigada.
Olhou para o pai, que encolheu os ombros, to desconcertado como ela. Margo tentou ajud-la a ir at  cadeira, mas Lavender repeliu-a, zangada.
- Bem, Alba. Vem comigo. Tenho uma coisa para ti.
Alba fez uma careta a Fitz.
- No se demorem - disse Margo, parecendo desapontada. - Temos tanta coisa para falar. Vo c ficar, no vo? vou levar o Fitz ao quarto dele.
Alba seguiu a av pelas escadas. Sabia que era melhor no a ajudar, apesar da velha senhora subir com dificuldade. Percorreram um longo corredor; o apartamento de 
Lavender ficava ao virar de uma esquina, mesmo na outra ponta. A porta era pequena, Alba teve de se dobrar, mas, uma vez l dentro, dava para uma grande sala quadrada, 
com tecto alto e janelas de guilhotina, e uma enorme lareira onde o lume ardia alegremente. A seguir, ficava a casa de banho e o quarto.
- Senta-te - disse ela. - Quando eu aqui vivia, isto era um quarto de hspedes bastante frio. Raramente o usvamos. No entanto, agora que passo a maior parte do 
tempo aqui, posso apreciar as vistas magnficas dos jardins. Gosto especialmente da geada no Inverno e do final do dia no Vero. No quereria estar noutro lugar.
Alba deixou-se cair numa poltrona, ao lado da lareira.
- Pe mais um tronco, querida. No quero que apanhes uma constipao antes do casamento.
Dito isto, desapareceu no quarto. Alba olhou  sua volta. A sala estava decorada em tons de verde-claro e amarelo. Era luminosa e cheirava a rosas. Em cima dos mveis, 
viam-se pequenos bibelots: ovos Faberg, peas Halcyon Days, pssaros de porcelana e fotografias em molduras de prata.
Lavender regressou com uma caixa vermelha. Era achatada e quadrada e o motivo dourado que a decorava estava desvanecido. Alba soube instantaneamente que continha 
uma jia.
- Usei isto no dia do meu casamento e a minha me no do dela. Quero que a uses quando casares com o Fitz. Creio que vais ach-la adequada.
- Que generoso da sua parte, av! - disse ela, muito excitada. - Tenho a certeza de que ser perfeita.
- Coisas desta qualidade nunca passam de moda, sabes? - observou Lavender.
Alba premiu o pequeno boto dourado e levantou a tampa. L dentro, estava uma gargantilha de prolas de trs voltas.
-  linda!
- E tambm  valiosa, mas o valor monetrio no  nada, comparado com o valor sentimental. O dia do meu casamento foi o mais feliz da minha vida e sei que o da minha 
me lhe trouxe grande alegria. Gosto do Fitz.  boa pessoa e isso j  muito nos dias que correm. Quando se  to velho como eu, percebe-se que a bondade  a qualidade 
mais admirvel que uma pessoa pode ter.
- Us-la-ei com orgulho, av!
- E a tua filha tambm a usar e a sua filha depois dela...  uma tradio de famlia. No  dos Arbuckle.  transmitida pela linhagem feminina, caso contrrio t-la-ia 
dado  Margo, quando se casou com o Thomas. Mas no, guardei-a para ti. s a rapariga mais velha e  tua por direito.
Alba experimentou-a, em p, frente ao espelho com moldura dourada suspenso sobre a lareira. Passou os dedos pelas prolas.
- Adoro-a - disse entusiasmada, virando-se para mostrar  av.
- As prolas so muito suaves contra a pele e acho que nos favorecem. Tu tens um pescoo alto muito bonito e isso  importante para elas ficarem bem. Deves ter herdado 
isso de mim, mas, de resto, s igualzinha  tua me. Os Arbuckles so louros.
Alba sentou-se e voltou a colocar as prolas dentro da caixa.
- O meu pai alguma vez falou consigo sobre a minha me? - perguntou.
- Foi uma situao terrvel - disse Lavender, abanando a cabea. - Admito que a minha memria de curto prazo no  boa, mas recordo, como se fosse ontem, o dia em 
que ele regressou de Itlia, trazendo aquele bebzinho nos braos.
- Cresci a pensar que ele se tinha casado com a minha me - disse Alba, perguntando-se at que ponto  que a av saberia da histria.
Mas no precisava de ter ficado preocupada, pois Lavender sabia de tudo.
- Pensei que a guerra tinha destroado o Tommy - comentou ela. Alba reparou no nome, na terna sonoridade do nome. O rosto da av suavizou-se  luz alaranjada do 
fogo e, de repente, pareceu ficar mais jovem. - Mas foi a Valentina quem o destroou. O homicdio  uma coisa terrvel e brutal para se fazer a uma mulher, mas penso 
que, mesmo que ela tivesse sobrevivido, a mulher que ele amava j tinha morrido ali, naquele carro, com os seus diamantes e peles. O choque daquilo tudo feriu-o 
l bem no fundo... Foi a mesma coisa que se ela lhe tivesse arrancado as entranhas com uma colher!
Fez uma pausa, por um momento.
- Como  que ele conheceu a Margo?
Estava a chover no dia em que o teu pai regressou. Ele tinha-nos telegrafado antes, mas  claro que no sabamos nada do que acontecera a Valentina. No estvamos 
 espera de um beb. Ele chegou aqui aos degraus da entrada, com o chapu a pingar gua, e contigo nos braos, embrulhada num cobertor extremamente inadequado. Eu 
agarrei em ti e sentmo-nos ao p do lume. Eras minscula e vulnervel. No te parecias nada com o Tommy, a no ser nos olhos. Amei-te logo, como se fosses minha. 
Falmos pela noite dentro - o teu av, o Tommy e eu. Ele contou-nos tudo. Mostrou-nos o retrato que tinha desenhado. A Valentina era uma rapariga linda, mas tinha 
um ar dissimulado naquele sorriso quase imperceptvel. O Tommy no o viu e o Hubert tambm no, mas eu vi! E por aquilo que via, no teria confiado nela, mas eu 
no estava l para o avisar. Os homens so to crdulos perante uma tal beleza! Nessa altura, resolvemos no contar a ningum que o casamento nunca chegara a acontecer, 
para teu prprio bem. H uma palavra feia para as crianas que nascem fora do casamento e no queramos que vivesses com essa vergonha. Naquele tempo, as coisas 
eram muito diferentes. O Tommy comprou o maldito barco em que cumprira o servio militar, o MTB, j no me recordo do nmero. Gastou uma pequena fortuna a convert-lo 
num barco-casa. Passava as semanas em Londres, a trabalhar, e vinha ter connosco ao fim-de-semana, para estar contigo.
O rosto de Lavender brilhou de orgulho, antes de acrescentar:
- Tinha-te s para mim e tomava conta de ti como se fosses minha!
- Ento o Valentina era o MTB dele? - perguntou Alba, espantada.
- Estava obcecado com o barco. Eu sentia que tambm o tinha perdido a ele, mas, pelo menos, tinha-te a ti - disse, virando-se agora para Alba, com os olhos marejados 
de lgrimas. - Tu eras o meu beb. Mas, depois, apareceu a Margo.
- Como  que eles se conheceram? - perguntou Alba novamente.
Lavender respirou fundo.
- O Tommy foi convidado para ir caar a Gloucestershire e ela participou na festa que deram l em casa. No creio que se tenha apaixonado. Ela era uma pessoa competente, 
divertida, realista e genuna. Ele queria casar-se, queria dar-te uma me...
O seu rosto ficou tenso.
- Tambm deu uma boa esposa. O Tommy era um caso perdido. Nem sequer sabia lavar a prpria camisa. O barco-casa era uma confuso. Fui l uma vez, mas nunca mais 
voltei. Levava uma vida decadente e tinha mais namoradas do que devia. Ele sabia que precisava de assentar. A Margo entrou de rompante na vida dele e tratou de pr 
tudo em ordem. Foi formidvel contigo, tenho de admitir. Mudaram-se para a Dower House e comearam a sua prpria famlia. A princpio, ela trazia-te todos os dias, 
para me veres. Em pequenina, quase vivias aqui, em Beechfield, e ns ramos muito, muito chegadas.
Lavender voltou a sorrir e continuou:
- Costumavas gostar de brincar  "Caa ao Dedal". Jogavas a isso durante horas e eu lia-te os livros do "Grey Rabbit", de Alison Uttley, vezes sem conta. Adoravas 
a histria da Lebre. "Uma serra para serrar coisas", lembras-te? No, no me parece que te lembres de grande coisa dessa altura. Eras to pequena... Mas gostavas 
muito de mim. Depois, apareceu a Caroline e a Miranda, a seguir o Henry e, a pouco e pouco, foste engolida pela famlia da Margo. Deixaste de ser minha!
- Mas a av nunca me reconheceu! - disse Alba.
Lavender riu-se.
-  claro que te reconheci, querida! Estava s a irritar a Margo. Nunca tive a inteno de te magoar nesse processo. S estava ressentida por ter sido posta de lado 
quando tu eras como uma filha para mim. A filha que eu nunca tive. Perdoa-me.
- No h nada para perdoar, av - disse Alba, esticando o brao para lhe tocar. - Tambm no tenho sido propriamente uma pessoa de convivncia fcil. Alm disso, 
fui muito mazinha para a Margo.
- Tambm eu - disse Lavender, embaraada. - Mas ela tem sido uma boa me para ti e foi boa para o Tommy. Agarrou nele e juntou os pedacinhos todos. Aceitou a filha 
dele e, ao mesmo tempo, tratou-lhe do corao. At aguentou aquele estpido barco de que ele recusou desfazer-se. Ela  uma mulher forte, Alba. Teve de aguentar 
muita coisa...
- E eu que fiquei a pensar porque  que aquele retrato estaria debaixo da cama... - murmurou Alba. - Agora, tudo faz sentido. No admira que a Margo nunca l me 
fosse visitar. Tem boas razes para detestar o barco.
- Bem, no vais querer viver l, agora que vais casar com o Fitz.
- Quero viver no campo.
Os olhos de Lavender iluminaram-se.
- Oh, podem ir viver para a Dower House. S est arrendada.
- Mas que grande ideia!
- Depois da morte de Hubert, fui muito feliz l.
- Gostava de passar algum tempo com o paizinho. Tambm tenho sido to mazinha para ele!
- Bem, ele passou um mau bocado. Isso, juntamente com o facto de seres to parecida com a tua me... No havia forma de lhe fugir. Depois, quando cresceste, estava 
sempre indeciso sobre se havia ou no de te contar. Foi um fardo terrvel!
- Eu escrevi-lhe uma carta de Itlia quando descobri - disse Alba, animada.
- E essa carta fez-lhe um bem enorme. Finalmente, pode pr tudo para trs das costas e tu deves fazer o mesmo. Agora, ests prestes a casar com Fitz e a comear 
uma nova famlia s tua.
- Obrigada pelo colar. Eu vou estim-lo - disse ela e levantou-se para beijar afectuosamente a av.
- s uma boa rapariga, Alba - disse Lavender, dando-lhe umas palmadinhas no brao. - Finalmente, cresceste. Tambm j no era sem tempo!
Quando Alba e Lavender regressaram  sala, Fitz estava a beber champanhe com Thomas e Margo.
- Vejam o que a Lavender me deu - disse Alba, apressando-se a ir ter com o pai e abrindo a caixa.
- Ah, o colar de prolas, que bom - observou ele. - Vais ficar uma noiva linda com ele.
-  fantstico - disse Margo, entusiasmada, junto deles. - Que generosidade a sua, Lavender!
- Tivemos uma agradvel conversa - disse Alba, sentando-se ao lado de Fitz. - Nunca tinha estado l em cima, no apartamento.
- Receio que no seja to confortvel como a Dower House - disse Margo. - Mas, pelo menos, estamos todos juntos.
- A Lavender sugeriu que ficssemos a viver em Dower House, depois de casar - avanou Alba. - O que achas, paizinho?
Thomas pareceu ficar contente.
- Acho que  uma ideia maravilhosa. Ns tambm vivemos l quando nos casmos.
- Obrigado, Thomas - disse Fitz, algo constrangido. - Vamos pensar nisso.
Alba olhou-o de cenho franzido.
- Bem, querida, lembra-te de que trabalho em Londres.
Alba sentiu um grande desnimo. Ela no queria viver em Londres.
Mais tarde, j no quarto de Fitz, voltou a puxar o assunto.
- No podes ir e vir todos os dias? - perguntou ela, deitada na cama, enquanto ele mudava de roupa para o jantar.
Fitz suspirou.
- No sei se isso  exequvel.
- Pensa s em como o Sprout ia gostar disto aqui. Todo este terreno para andar a correr por a. At lhe podamos comprar um amigo.
- Pensava que gostavas da cidade - disse Fitz, enquanto abotoava a camisa.
- Gostava, mas deixei de gostar...
- Isso  s porque estiveste a viver em Incantellaria durante cinco meses. Mas vai passar! Num piscar de olhos, vais andar outra vez a correr as lojas todas em Bond 
Street...
- Eu quero uma vida mais tranquila, agora - retorquiu Alba, recordando a trattoria com uma pontada de tristeza. - Sinto a falta disso.
- E que tal uma soluo de compromisso? - sugeriu ele. - Podamos vir para Dower House aos fins-de-semana.
- E o que  que eu fao durante a semana?
- Pintas.
- Em Londres?
- Podes transformar o quarto que tenho vago num estdio.
- Preciso do campo para me inspirar - disse ela, quase sufocando ao pensar naqueles limoais, no ponto de vigia, na vastido do mar e em Cosima, com os caracis a 
balouar junto aos ombros, a rodopiar nos seus novos vestidos.
- Querida, ainda agora acabaste de regressar. Precisas de tempo para te adaptares... - disse, beijando-a. - Eu amo-te. Quero que sejas feliz. Se queres ficar aqui, 
havemos de arranjar uma soluo.
Depois do jantar, durante o qual discutiram o casamento com todos os pormenores, Thomas pediu a Alba que fosse com ele ao escritrio.
- Quero dar-te uma coisa, filha - disse, trocando um olhar com a mulher.
- vou j l ter. S preciso de ir buscar uma coisa ao meu quarto - replicou Alba, saindo para o trio.
Thomas foi para o escritrio e tirou o retrato do pai da parede. Esticou o brao dentro do cofre e agarrou no rolo de papel, que estava l mesmo ao fundo. J no 
sentia o apelo da presena de Valentina, aquela necessidade invisvel de ser recordada. Desenrolou o retrato, para a olhar uma vez mais. Desta vez, sentiu um distanciamento; 
pela primeira vez, o seu rosto pareceu-lhe o de uma estranha. Finalmente, podia releg-la ao passado e deix-la l.
Alba entrou no escritrio e fechou a porta atrs de si. Viu o rolo de papel na mo do pai e olhou-o interrogativamente.
- Acho que deves ficar com isto - disse ele, entregando-lho. - J no o quero.
- Era linda, no era? Mas muito humana - disse ela, vendo o pai servir-se de um whisky e sentar-se na cadeira de pele gasta, onde se sentava sempre, a seguir ao 
jantar.
Ele inclinou-se e abriu a caixa humidificadora, escolheu um charuto e comeou lentamente a cort-lo.
- Ento, como  que estava Incantellaria?
- Provavelmente igual a quando l estiveste.  um daqueles lugares que nunca mudam.
- Dizias na tua carta que a Immacolata ainda tem imensa energia. Diabos me levem! Ela j era velha quando a conheci.
- Est muito pequenina e encarquilhada, como uma noz. Mas ama-me como se fosse sua filha. Quando l cheguei, nunca sorria. Depois, mais tarde, quando a convenci 
a livrar-se daqueles altares mrbidos, voltou a usar roupa de cor e a ter um sorriso lindo.
- Imagino que tivesse sido, em tempos, uma jovem muito bonita. Lembrou-se de Jack, a meter-lhe medo com Valentina, porque todas as filhas acabavam por ficar parecidas 
com as mes. Valentina no tinha vivido tempo suficiente para refutar a sua teoria.
- Eu trabalhava na trattoria com o Toto e o Falco - continuou Alba.
- Toto j  um homem, no?
- Tem uma filha chamada Cosima - disse ela e, de repente, o seu rosto ficou solene e respirou profundamente. - O que acontece, paizinho,  que agora compreendo por 
que razo me quiseste proteger do teu passado. Comportei-me horrivelmente e quero pedir desculpa.
Thomas acendeu o charuto, puxando o fumo at a extremidade ficar incandescente.
- A culpa no foi tua. Talvez te devesse ter contado mais cedo, mas nunca houve uma ocasio propcia.
- Bem, no h ocasio melhor do que esta para isto - disse ela, entregando-lhe o terceiro retrato. - O Falco disse que devia dar-to, embora eu no estivesse muito 
certa.
- Onde raio encontraste isto?
Ele no sabia se havia de ficar contente ou chocado. Tanto que ele o procurara! Tanto que o atormentara!
Alba encheu-se de coragem.
- Eu resolvi a charada toda, paizinho! Resolvi o crime!
- Continua.
- Eu e o Fitz fomos ao Palazzo Montelimone.
- Ah, foram? - disse ele, com uma expresso impenetrvel.
- O Falco e a Immacolata disseram-nos para no ir, por isso percebemos que havia l qualquer coisa que no queriam que eu descobrisse. Vive l um homem extraordinrio, 
chamado Nero. Ele disse que herdou aquela runa do amante, o Marchese. De qualquer forma, mostrou-nos a pequena casa, mais abaixo, que era o santurio do Marchese. 
Tinha mantido tudo tal qual como ele deixara. O retrato estava escondido l, junto  cama. Nero foi-se abaixo e confessou. Valentina era amante do Marchese e foi 
ele quem a matou. Eu sabia que ela no tinha sido uma espectadora inocente de um ataque da mfia. Quando soube que ela ia toda aperaltada com diamantes e peles, 
percebi que isso no fazia sentido.
Alba viu o fumo do charuto do pai formar uma nuvem  volta dele.
- O Lattarullo disse que nem mesmo os melhores detectives de Itlia tinham resolvido o homicdio. Mas no  tudo, paizinho!
- Que mais  que descobriste? - perguntou ele, e a sua voz era firme, pois j sabia do que se tratava - j s faltava aquela pea no puzle.
- O Falco admitiu ter morto o Marchese - replicou Alba, e Thomas confirmou as suas palavras com um aceno de cabea. - Disse que era uma questo de honra.
- Para mim, era mais do que honra!
Alba ficou a olhar para ele, com os olhos arregalados num misto de horror e admirao. A ltima pea do pusgle tinha mudado a figura toda. Ele surpreendeu o seu 
olhar e no desviou o dele. Havia qualquer coisa pouco familiar nos seus olhos, uma desumanidade que ela nunca vira antes.
- Estavas com ele, no estavas? - sussurrou ela. - O Falco no estava sozinho, pois no? Tu estavas com ele. Foram vocs os dois que mataram o Marchese.
Thomas respondeu-lhe calmamente.
- No fiz nada, nessa altura, que no voltasse a fazer.
Entregou o retrato a Alba, dizendo:
- Deves ficar com ele, Alba. Pertence-te a ti, por direito. Depois, levantou-se, esticou-se e atirou o charuto meio fumado para a lareira.
- Vamos voltar para o p dos outros?
Naquela noite, quando Thomas foi para a cama, sentia-se atordoado de alegria.
- Querida! Est na altura de nos livrarmos do barco - disse ele, deixando Margo sem palavras. - No me parece que o devamos vender. Acho que  melhor abrir uns rombos 
no casco e afund-lo. Mand-lo para o fundo do mar, juntamente com tudo o que representa. Est na altura de o deixar ir.
Margo virou-se e ps a cabea sobre o peito dele.
- E a Alba no se importa?
- No. Ela vai casar com o Fitz e vai viver para outro lado, seja aqui ou em Londres. O Valentina  demasiado pequeno para os dois.
- Eles no parecem chegar a acordo quanto ao local onde vo viver - disse Margo.
- Mas ho-de chegar. Tero de arranjar uma soluo de compromisso.
Ela inclinou-se e beijou-lhe a face.
- Obrigada, Tommy - disse ela.
- Olha, acabaste de me chamar Tommy! - exclamou ele, surpreendido.
- Foi? - disse ela, rindo. - No dei por isso. Tommy! At que gosto!
- Eu tambm - disse ele, puxando-a para si. - E gosto de ti, querida. Gosto mesmo muito de ti!
De manh, Thomas fez algo que j devia ter feito h anos. Entrou no escritrio e fechou a porta. Sentou-se  secretria e abriu a agenda telefnica. Correu o dedo 
at chegar  letra "H". Depois, marcou o nmero. Aps alguns toques, a voz que ele ouvira durante toda a sua juventude atendeu. Os anos desapareceram e ele voltou 
a sentir-se como um jovem oficial.
- Ol, Jack, meu velho,  o Tommy!


CAPTULO TRINTA E UM

Alba no ficou triste por ver o barco afundado. Sentia que era o que tinha de ser feito, depois de tudo o que acontecera. Rebocaram-no at meio do Canal, fizeram 
um furo no cano do gs e, depois, esperaram, enquanto o gs se acumulava no poro, antes de se incendiar dramaticamente com a luz piloto. Ela ficou com a Margo, 
o Fitz e o pai a v-lo afundar-se. Levou mais tempo do que esperava. Resistiu  fora da gravidade, durante algum tempo, e, por fim, desapareceu, deixando o mar 
to plano e calmo como antes. Imaginou-o a cair silenciosamente at ao fundo, aterrando na areia, onde os peixes haviam de entrar e sair pelas janelas e o coral 
acabaria por tomar conta do casco. O barco era o ltimo elo com Valentina. Agora, podiam todos seguir com as suas vidas para a frente. Notou que o pai tinha o brao 
 volta da cintura de Margo e que lhe acariciava suavemente a anca. Tambm notou que ela lhe chamava Tommy e que ele parecia gostar.
Mudou-se para casa de Fitz, converteu o quarto vago num estdio e desenhou retratos infindveis de Sprout. Este ficava todo contente por posar para ela e no parecia 
importar-se com a sua tagarelice, enquanto lhe falava sobre o seu casamento, que estava marcado para a Primavera. At levantava as orelhas nas alturas certas e suspirava 
com simpatia quando ela se queixava de que estava a sentir-se esmagada com aquilo tudo. Margo era incansvel. Tinha alugado uma tenda e contratado os fornecedores 
do banquete. Beechfield andava numa agitao, com as idas e vindas das pessoas que Margo contratara para tratarem dos arranjos de flores, dos carros, dos convites, 
dos jardins, das luzes e da msica. Havia tanta coisa para organizar e ela agarrou a tarefa com grande entusiasmo. Falava todos os dias com Alba, pelo telefone, 
e tinham finalmente algo em comum que gostavam de discutir entre si. Para surpresa de Alba, Margo ouvia as suas ideias e ficava feliz por p-las em prtica. Para 
surpresa de Margo, Alba parecia no se importar de receber os seus conselhos e no fez birra nem amuou uma nica vez.
- A Edith diz que a senhora Arbuckle e a Alba esto unha com carne - comentou Verity, despindo o casaco para treinar o tocar dos sinos.
- Nada como um casamento para aproximar as pessoas - replicou Hannah.
- Ou para as separar - acrescentou Verity, com um trejeito. Os casamentos so como o Natal; toda aquela gente execrvel que ns no vemos h dcadas, com boas razes 
para isso. Coisas execrveis.
- Oh, Verity! No me digas que no gostas do Natal! - observou Hannah, colocando o leno sobre o banco e ajeitando o carrapito para ver se estava tudo no lugar.
- Para que  que serve? - perguntou ela, sacudindo a amargura que sentia por j no ter famlia com quem festejar, a no ser o marido e ela achava-o mais fastidioso 
do que o seu parente mais entediante.
-  para as crianas - disse Fred, agarrando na sua corda e dando-lhe um bom puxo. -  o meu menino! - exclamou, quando o sino tocou.
- O casamento da Alba vai ser um dia maravilhoso - disse Hannah. - A senhora Arbuckle arranja sempre to bem as flores da igreja, que as flores devem ser espectaculares! 
No fim de contas,  na Primavera e ela vai ter muito por onde escolher.
- Parece que estou a ver a Alba, com flores brancas no cabelo - disse Fred, baixinho.
- Oh, Fred, seu velho romntico - troou Hannah.
Verity limitou-se a olhar de esguelha. Pararam de falar quando ouviram o som de passos nas escadas. O Reverendo Weatherbone tinha uma forma peculiar de andar e todos 
souberam que era ele, mesmo antes de ter chegado ao pequeno sto.
- bom dia - disse ele jovialmente. Tinha o cabelo todo espetado dos lados, em asas grisalhas, como um pssaro que tivesse acabado de pousar. - Espero que tenham 
pensado numa verso adequada para o casamento de Alba.
- Tomei a liberdade de compor uma - disse Fred.
- ptimo - assentiu o vigrio. Verity pareceu ficar aborrecida.
- No nos contaste que tinhas composto uma msica - disse ela.
- Contou-me a mim - mentiu Hannah e, depois, murmurou uma desculpa rpida. No fim de contas, estava na casa de Deus e na presena do vigrio. com a idade, estava 
a ficar cada vez menos tolerante em relao a Verity.
- Bem, eu depois de a ouvir, logo dou a minha opinio sobre se a devemos tocar, ou no.
- No  maravilhoso que a Alba e o Fitzroy dem o n na nossa pequena igreja?  uma grande honra para mim - disse o Reverendo Weatherbone, no se coibindo de acrescentar 
uma reflexo posterior, que j tinha ocupado a sua mente muito mais do que devia. - Pergunto-me como  que ser o vestido dela...
- Curto, imagino - disse Verity.
- Tradicional - interps Hannah. - L no fundo, a Alba  uma rapariga tradicional. Pensem nas suas origens.
- Itlia? - disse Verity, erguendo o sobrolho.
- Ela s esteve uma vez em Itlia. Dificilmente isso faz dela italiana. Ela  como uma de ns - disse Hannah, contraindo os lbios.
- Est-lhe no sangue - retorquiu Verity. - Ela no  como o resto da famlia. Os Arbuckles so louros e a Alba  morena.
- Ela  extica - disse o vigrio. - Dar uma linda noiva.
- L isso  verdade - concordou Fred, afagando a corda com ar ausente. - Imagino que a senhora Arbuckle tambm v usar alguma coisa especial.
- Mas ela no  a me da rapariga... - comentou Verity lentamente.
O Reverendo Weatherbone viu aqueles olhos de cobra a estreitarem-se de forma sinistra. Era apenas uma questo de tempo at a sua lngua bifurcada trazer c para 
fora alguma revelao terrvel feita pela Edith.
Ele suspirou e disse, tentando imprimir autoridade  sua voz, na esperana de que a discusso ficasse por ali:
- No, no  a me biolgica, mas tem sido mais do que uma me para Alba.
-  uma pena que a verdadeira me de Alba no possa assistir ao seu casamento. Tive tanto orgulho na minha filha, no dia em que se casou. Hei-de recordar-me disso 
para sempre - disse Hannah.
- Eu conheci a Alba em beb - disse Fred.
- E em adolescente, a beber uns copos no Hen's Legs - recordou-lhe Hannah, piscando-lhe o olho.
Ele sorriu-lhe maliciosamente. Aqueles tempos tinham sido bons.
- Sabem como  que a me morreu? - perguntou Verity.
O Reverendo Weatherbone apelou  sua sensatez e tentou encontrar alguma compaixo no seu ntimo; havia muito pouca para Verity.
- Morreu num acidente de carro - disse ele. - Isso j foi h muito tempo.
Quando se preparava para mudar de assunto, Verity interrompeu.
- No, no morreu de acidente.
- No sei a quem  que andou a dar ouvidos - disse o Reverendo.
- A Edith escutou uma conversa, por acaso. Foi o capito que a assassinou.
Hannah ficou boquiaberta e Fred pareceu desconcertado. O Reverendo Weatherbone pousou a sua bblia.
- Mas que grande disparate, Verity Forthright. Vocs as duas deviam ter vergonha de andar a espalhar boatos maldosos e sem fundamento. Isto aqui  a casa de Deus 
e eu sou o seu guardio. Enquanto assim for, no irei tolerar que espalhem mentiras entre a boa gente de Beechfield.
A sua voz ressoava pela nave, ecoando nas paredes, como se fosse a voz de Deus.
- Est a perceber, Verity? - perguntou ele, cravando nela os seus olhos brilhantes at ela se encolher sob o seu peso.
- Foi o que a Edith ouviu - disse ela, engolindo em seco.
- Sabe o que significa olho por olho, dente por dente?
- Claro que sei.
- Significa, Verity, que h-de colher aquilo que semear. Eu c teria muito cuidado com o que anda a semear, pois h-de colher tudo, em dcuplo. Somos senhores do 
nosso prprio destino. Se fosse a si, espalharia um pouco de bondade  sua volta, pois essa tambm vir em dcuplo. Diga l que no seria uma surpresa... Estou ansioso 
por ouvir a sua composio, Fred. Diga-me quando j tiver praticado o suficiente. Agora, toca a falar menos de assassnio e mais de casamento. A me de Alba est 
com Deus e estar presente em esprito no casamento da filha. Nem por um momento duvidem disso.
Dito isto, deu meia volta, com as vestes a esvoaar, e desapareceu.
-  o meu menino! - riu Fred, puxando novamente o sino. - V, toca pelo Reverendo!
O Natal em Beechfield Park veio e foi embora com neve e o Ano Novo comeou com um grande espectculo de fogo-de-artifcio para a vila inteira, no campo sobranceiro 
 casa. Fitz e Alba viram as luzes brilhantes explodir em chuveiros cintilantes, iluminando os seus rostos maravilhados. Fitz olhava para o novo ano com optimismo 
e alegria. Alba viu as crianas com os seus pequeninos foguetes e pensou em Cosima. Ela iria ador-los. O tempo nada fizera para diminuir o seu afecto ou para aplacar 
a sua angstia. Fitz no notava que, pouco a pouco, estava a perd-la; que, a cada dia que passava, o seu pensamento estava menos no futuro de ambos e mais no seu 
prprio passado.
Num fim-de-semana invernoso, quando a chuva fustigava as vidraas das janelas, Alba sentou-se com Margo, para escrever os convites. Margo ps um disco de Mozart 
e acendeu a lareira, enquanto Fitz jogava uma partida de squash com Henry. Miranda e Caroline, que iam ser as damas de honor, tinham ido fazer compras a Winchester. 
Margo tinha notado que Alba andava muito metida consigo, nos ltimos tempos. Tinha ficado cada vez mais calada e pensativa. Este devia ser o tempo mais feliz da 
sua vida e, contudo, no parecia feliz. Como estavam sozinhas no ambiente acolhedor da sala de visitas, decidiu sond-la com jeitinho.
- Querida, pareces um bocadinho distrada - comeou, apreensiva, tirando os culos de ler e deixando-os pendurados na corrente. No ests nervosa com o casamento, 
ou ests?
Alba no olhou para ela.
- Estou bem - redarguiu. - S que tudo isto  um bocadinho avassalador.
- Eu sei. H tanta coisa a ser organizada  tua volta... Aposto que, s vezes, te sentes perdida no meio disto tudo.
- Sim - concordou Alba, lambendo um envelope e colando-o.
- Tu e o Fitz j decidiram onde  que vo viver?
Alba suspirou.
- Ainda no. Ele tem mesmo de viver em Londres, pois no  conveniente ir e vir todos os dias. Mas eu quero estar aqui.
- Ento e os teus amigos todos? 
- Que amigos, Margo? No tenho amigos. Tive namorados, mas agora so pouco apropriados, e a Viv passa o tempo todo em Frana, com o Pierre. O Fitz  meu amigo. Eu 
quero estar onde ele estiver. S  pena que tenha de ser em Londres.
- Talvez seja por pouco tempo. Quando tiverem filhos,  possvel que seja bom para todos mudarem-se para o campo.
- Quem me dera que a Cosima pudesse ser dama de honor - disse Alba, sentindo uma onda de emoo. - Ela ia gostar tanto.
- Tens saudades deles, no ? - perguntou Margo, percebendo a raz do problema.
- Tenho saudades de todos, mas de quem sinto mais falta  da Cosima. No consigo deixar de pensar nela. Falar com ela ao telefone no  a mesma coisa. H um atraso 
na comunicao e ela fica envergonhada. Alm disso, a garganta di-me tanto com o esforo que fao para no chorar, que at tenho medo de lhe ligar - disse, engolindo 
em seco. Sinto-me desesperada. Ela precisa de mim e eu no estou l.
- Tu e o Fitz chegaram a falar na hiptese de viverem em Itlia?
Alba riu-se com o absurdo da ideia.
- Ele no era capaz de viver num stio to pacato.
De repente, o rosto da madrasta ficou mais srio e ela pousou a caneta.
- Querida, se no te sentes pronta para casar, ainda ests a tempo de cancelar.
Alba olhou-a surpreendida, como uma pessoa a afogar-se a quem de repente atiram inesperadamente uma corda salva-vidas.
- Eu e o teu pai no nos importamos. S queremos que sejas feliz.
- Mas vocs organizaram tudo. Tiveram tanto trabalho. Estamos prestes a enviar os convites. No posso desistir agora!
Margo pousou a mo no brao de Alba. Antes, era capaz de ter parecido estranho, mas agora parecia muito natural. Uma atitude maternal.
- Minha querida - disse Margo suavemente. - Prefiro cancelar o casamento do que ver-te a morar em Londres, profundamente infeliz. No vale a pena levares isso para 
a frente se te vais divorciar daqui a trs anos. Imagina se tiveres filhos, que situao mais desagradvel! Se quiseres ir embora e viver em Itlia, todos te compreenderemos 
e apoiaremos. Se o teu corao est l, minha querida, segue-o.
Alba reprimiu as lgrimas e ps-lhe os braos  volta do pescoo.
- Pensei que se ia zangar comigo.
- Oh, Alba, compreendeste-me to mal.
Afastou a enteada e levantou o medalho de ouro que trazia ao peito.
- Ests a ver isto? - perguntou.
Alba fez que sim com a cabea, enxugando o rosto com a mo.
- Uso-o sempre. Nunca o tiro, nunca! Tenho aqui as fotografias dos meus filhos, dos quatro!
Abriu-o para que Alba pudesse ver. L dentro, em pequenas molduras em ouro, viam-se as fotografias a preto-e-branco dela, Caroline, Miranda e Henry, em crianas.
- Amo-te da mesma maneira que os amo a eles. Como  que poderia no compreender?
-  melhor ir falar com o Fitz - disse Alba, finalmente, a fungar.
- Sim,  melhor - concordou Margo, e voltaram a pr dentro da caixa todos os convites que estavam por escrever.
Alba receava dar a notcia a Fitz. Depois de tudo o que ele fizera por ela, depois de todo o tempo que esperara... Parecia to injusto ir mago-lo outra vez. Mas, 
enquanto subia as escadas para o quarto dele, sentiu um frmito de excitao. Imaginou o rostinho de Cosima a brilhar de felicidade e Immacolata e Falco a rirem 
de alegria. Viu-os no cais, a dar-lhe as boas-vindas a casa. Sabia que era a atitude certa a tomar e sabia que Fitz no podia ir com ela. O que  que ele faria num 
lugar to pequeno e provinciano?
Esperou em cima da cama que ele voltasse do seu jogo de squash. A luz comeou a desaparecer e o cu cobriu-se de nuvens escuras. As rvores estavam nuas, os seus 
ramos pareciam centenas de dedos finos contra aquele fundo desolado. Por fim, ouviu vozes nas escadas, os gracejos alegres entre ele e o irmo. Sentiu-se nervosa. 
Teria sido to fcil continuar com aquilo e fingir que era feliz.
Fitz notou imediatamente a expresso solene do seu rosto.
- O que  que aconteceu? - perguntou, e o seu bom humor desfez-se como bolhas.
Alba inspirou profundamente e mergulhou de cabea.
- Quero voltar para Itlia.
- Estou a ver - disse ele. - Desde quando?
De repente, o ar ficou carregado de dor. Ele sentou-se na cama.
- Desde que voltei, acho eu.
-J falaste sobre isto com os teus pais?
- S com a Margo. Quero que venhas comigo.
Ele abanou a cabea e olhou pela janela.
- A minha vida  aqui, Alba - disse, com uma horrvel sensao de dj vu.
- Mas no podias escrever um livro? - perguntou ela, ajoelhando-se por trs dele e pondo os braos  volta dos seus ombros.
- Eu sou agente, no sou escritor.
- Nunca tentaste - disse ela, encostando a face, hmida de lgrimas,  dele.
Ele franziu o sobrolho.
- No me amas? - perguntou ele, e a voz falhou-lhe.
- Sim, amo! - exclamou Alba, desesperada por aliviar a dor que via nos seus olhos castanhos e doces. - Amo-te tanto! Fomos feitos para ficar juntos. Oh, Fitz! - 
suspirou. - O que  que vamos fazer?
Ele tomou-a nos braos e estreitou-a com fora.
- Tu no podes viver aqui e eu no posso viver l.
A borboleta estava a abrir as asas, pronta para fugir novamente. E, desta vez, ele no sabia se alguma vez a teria de volta.
- Tenho de ir, Fitz! A Cosima precisa de mim!  l que eu perteno! - disse, aninhando o rosto no seu pescoo. - No digas que no vens. No digas que acabou. Eu 
no ia suportar. Vamos esperar para ver. Se mudares de ideias, estarei  tua espera. Estarei  espera e pronta para te receber de braos abertos. O meu amor no 
vai esfriar, no em Itlia...


EPLOGO

Itlia, 1972

O corao de Alba estava cheio. A Primavera, em Incantellaria, era a Primavera mais bonita do mundo. Os passarinhos saltitavam em cima das mesas e cadeiras, na parte 
de fora da trattora, e o sol banhava o mar, por baixo dele, na luz suave e translcida da manh. Alba secou as mos no avental. Usava um simples vestido traado, 
s flores azuis, e havaianas. Tinha pintado as unhas dos ps com verniz cor-de-rosa que ela e a Cosima tinham comprado na loja dos anes. Tambm tinha pintado as 
da Cosima, que tinham levado muito mais tempo, por causa dela estar sempre a mexer os dedos e a rir. Passou a mo pela testa. Estava calor ali, na trattora, e ela 
trabalhava muito: a comprar os gneros, a pr as mesas, a servir os clientes. At tinha aprendido a cozinhar. Nunca pensara que fosse capaz de preparar refeies 
deliciosas. At Immacolata estava impressionada. Beata deu-lhe os parabns,  sua maneira calma e digna, dizendo-lhe que a cozinha lhe estava no sangue e que iria 
dar continuidade  tradio dos Fiorelli e ao seu bom nome, muito depois de todos j terem morrido.
Ps uma mo no bolso do avental e tirou para fora um leno de papel e um carto branco. Virou o carto e olhou para o nome de Gabriele gravado nele. Fitou-o por 
um momento, junto  janela, a olhar para a praia. Passado algum tempo, voltou a guard-lo. O cabelo j tinha crescido um bocadinho. Estava agora suficientemente 
comprido para o prender num curto rabo-de-cavalo. No era porque ela o quisesse deixar crescer, simplesmente no se dera ao trabalho de o cortar. Levantou as mos 
e apanhou-o atrs com uma fita. Enquanto fazia isso, ouviu o som distante de um barco a motor. Levantou os olhos para a parede, junto  porta.
Havia trs esboos em simples molduras de madeira. O primeiro era do rosto de uma mulher. Era suave, inocente, com um sorriso cheio de segredos e uma tristeza indefinvel 
no olhar. O segundo era de uma me e filho. A expresso de amor no rosto da me era pura e sem reservas, livre de todos os segredos, excepto os dos desejos de uma 
me para o seu filho. O terceiro era um nu recja v linado. Neste ltimo retrato, Valentina estava corada, sensual e libertina, personificando todos os vcios do 
prazer terreno e sempre to misteriosa quanto o mar. Contudo, j ningum reparava nos retratos, a no ser Alba. Misturavam-se com as paredes da Trattoria, como as 
cebolas e alhos pendurados, os pratos decorativos e a iconografia religiosa. Muitas vezes, j passava por eles sem os olhar de relance.
O som do barco a motor tornou-se mais forte. Rompeu o silncio da pacata enseada, perturbando o ar e fazendo os pssaros refugiarem-se no cu. Palpitava na atmosfera 
um sentimento de excitao, como um seixo que se atira a uma lagoa tranquila, propagando  sua volta pequenas ondas circulares. Ela saiu e ficou de p, debaixo do 
toldo, com um cesto de verga com mas pendurado no brao. Uma onda de expectativa comeou a expandir-se no seu corao, primeiro lentamente e, depois, cada vez 
mais depressa, at a fazer correr pela areia, impelida pela sua fora. A fita caiu-lhe do cabelo, deixando-o a esvoaar em torno do seu rosto e ombros, como fios 
de seda. Depois, ficou ali, parada, respirando pesadamente, com os seios a subir e a descer, acentuados pelo decote fundo do vestido. O seu rosto era ntido e perfeito, 
como o cu nocturno, quando se est no meio do oceano. Sorria, no com o sorriso largo e bovino das gentes da vila, que saam agora das suas casas para ver quem 
chegara, mas com um ligeiro revirar dos lbios que fazia com que os olhos se estreitassem ligeiramente. Era o sussurro de um sorriso. To subtil que tornava a sua 
beleza difcil de digerir. O barco parou e desceu um homem. Os seus olhos encontraram os olhos estranhamente claros da mulher com o cesto. Estava de p, no meio 
da multido, mas, no entanto, parecia ter um espao prprio, como se estivesse um pouco  parte. A sua beleza era tal que a sua imagem se destacava do resto. Foi 
nessa altura que ele se apaixonou. Ali, no cais da pequena vila piscatria de Incantellaria, deixou o seu corao ir, de boa vontade. Ainda no sabia, ento, que 
ele tinha ido para sempre e que nunca mais o iria recuperar.

fim
